Há tempos, Jô Soares leva ao programa Rogério Skylab. É algo surpreendente para quem o assiste pela primeira vez. Vale a pena ver Matador de Passarinho.
Skylab é inclassificável na poesia e na músicalidade.
O filme Queime depois de ler, dos irmãos Joel e Ethan Coen, traz numa única fita uma seleção de consagrados atores como Brad Pitt, George Clooney e John Malkovich. Isso só contribui para um filme em que o engraçado está no abismo presente nos diálogos entre os personagens corporalmente caricatos e personagens excessivamente naturalistas.
Esse hiato entre dois tipos de interpretação carrega o que há de mais hilariante no filme.
A trama é desencadeada pela mente estúpida da personagem Linda (Frances McDormand) que carrega para a realidade a fantasia de sua necessidade de cirurgias plástica para ficar mais atraente aos homens.
Em vários momentos do filme, o diálogo entre personagens caricatos e personagens naturalistas está perturbando o espectador. Isso acontece, por exemplo, logo no início quando a personagem Linda faz a consulta médica para a cirurgia. A personagem de Linda está alucinada e o médico responde como se estivesse num documentário. Esse estranhamento é levado por todo filme até o momento em que se tem o absurdo diálogo final entre os agendes da CIA.
Che também é pop: arte pop de Andy Warhol, de 1962
O filme Che de Steven Soderbergh tenta ser realista e narrar uma espécie de passo a passo da guerrilha liderada por Ernesto Che Guevara que derrubou o ditador Fulgencio Batista em 1959.
Mas a obra de Soderbergh tem uma ênfase diferente. Apesar de dar um narrativa tradicional, isto é, um cinema com muito tiro e combate, o diretor trabalha os detalhes subjacentes à guerrilha.
Soderbergh, na ótica de Che Guevara, mostra que a liberdade de um país só se consegue com justiça e educação. Che acredita que saber ler e escrever é o primeiro caminho para a liberdade, para a justiça.
Esse é um ensinamento de Che na guerrilha, que foi herdado por Cuba ao erradicar o analfabetismo. Em dois anos, de 1959 (derrubada de Batista) a 1961, Cuba erradicou o analfabetismo.
Esse é o sentido pouco compreendido do amor ou da ternura nas frases de Che, quando afirma que todo revolucionário é na verdade um apaixonado, luta por amor. Amor à humanidade.
O Brasil ainda não erradicou o analfabetismo e nem diminui a injustiça social. Em 2011 Cuba fará 50 anos sem analfabetos.
O filme Jean Charles tinha tudo para ser exclusivamente comercial se não tivesse caído em boas mãos. O filme se propôs a contar a história do emigrante brasileiro que em 2005 foi morto pela polícia britânica, uma história abusivamente explorada pela grande mídia.
Há no filme as atuações monstruosas de Selton Mello e Luís Miranda. Selton Mello carrega o filme, por ser o protagonista, mas também pelo retorno nos excessos dramáticos de Miranda.
Mas o segredo do filme, que não deixa de ser uma história para ter grande público, é a direção. Henrique Goldman parece estabelecer uma alternância de modulação nas interpretações.
A narrativa que muitas vezes parece filme caseiro, com interpretações quase que naturais, como se fosse um documentário, cresce de repente em uma sequência de dramaticidade. O melhor é que pega o público de surpresa, mesmo se tratando de uma história tantas vezes já contata pelo jornalismo.
Na série obra-prima do blog Educação Política, Zeca Baleiro pode ter várias músicas, mas Boi de Haxixe é uma das melhores. No entanto, o que tornou essa música uma beleza indescritível foi o arranjo e a voz na gravação de Ceumar. Não achei um link de fácil acesso com a Ceumar. Então escutem na versão do próprio autor.
Flores de todas as cores Vermelho-sangue Verde-oliva Azul-colonial (celestial) Me dá vontade de voar sobre o planeta Sem ter medo da careta na cara do temporal
Desembainho a minha espada cintilante Cravejada de brilhantes Peixe espada, vou pro mar O amor me veste com o terno da beleza E o salun da natureza Abre as portas preu dançar
Diz o que tu quer que eu dou Se tu quer que eu vá, eu vou
Meu bem, meu bem-me-quer Te dou meu pé, meu não Um céu cheio de estrelas Feitas com caneta bic num papel de pão
Anjos do Sol, filme de 2006 de Rudi Lagemann, nos abarca com uma tristeza profunda. Uma tristeza da alma, de um passado, de um futuro, de um presente vazio. Uma tristeza de um povo, não de um indivíduo ou de uma mulher. Uma tristeza que talvez não esteja tão presente na narrativa, mas além da narrativa, no ambiente que nos cerca, na política, na economia, na cultura brasileira.
O filme é tenso e angustiante, como deve ser um bom filme, mas é também um momento especial do ator Antônio Calloni, que parece incorporar o personagem em sua consciência predatória e coronelista. A liberdade é não ter escolha, não ter vida, a liberdade é o objeto.
Árido Movie, filme de 2005 de Lírio Ferreira, possui cenas que mostram o Nordeste com uma beleza hollywoodiana. A fotografia do filme recria um sertão que quase nunca se vê no cinema: a vegetação, a paisagem e o horizonte entre cores, pedras e montanhas.
O roteiro também segue uma linha hollywodiana, o que garante tensão e diversão, mas que ao mesmo tempo trata de questões bem brasileiras, como o coronelismo. A trilha sonora e o bom elenco completam esse belo filme, tenso e com momentos de profundo lirismo.
Ceumar é mais uma da série obra-prima da música brasileira. O Brasil pulsa com a sua arte que muitos não podem ver, não podem sentir. Mas basta procurar…como derreter neve, explodir nave.
Para os que fazem do cotidiano uma eterna paixão.
Boca da Noite
Composição: Ceumar / Chico César / Tata Fernande
Da boca da noite ao pingo do meio-dia
Passei horas procurando a tua boca
E ela não respondia
Por amor ou euforia
Tudo de novo eu faria
Por amor ou euforia
Eu faria tudo de novo
Derreteria a neve
Explodiria a nave
Derreteria a neve
Explodiria a nave
Cantaria Wave
Por amor ou euforia
Tudo de novo eu faria
Por amor ou euforia
Eu faria tudo de novo
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Aprender política é um trabalho consistente e cotidiano
Todos os dias, todas as horas
Não se faz com a consciência obstinada, mas sim ativa
É como construir um castelo de areia, que sempre precisa de retoques
Às vezes vem uma onda ou uma ditadura e destrói tudo
Às vezes chegam os autoritários e tentam chutá-lo
O mesmo fazem os fascistas, os nazistas, os stalinistas
Mas também quase sempre são impedidos
Quem aprende política sabe dar os braços e agüentar o tranco
Quem aprende política sabe formar uma roda e girar com força
Mas se alguém fica distraído, abobalhado ou anestesiado frente a uma TV
As águas dos apolíticos começam a minar toda construção
Eles chegam com suas quinquilharias de consumo e produção de lixo
Eles pisam no castelo e dizem que foi sem querer, sempre sem querer
O apolítico não tem culpa de nada; é uma consciência vazia
Mas o seu grande estrago é não diferenciar as ondas políticas
Pode ser a chuva, pode ser o som, pode ser o vento.
Estão todos aí, como uma natureza indomável, prontos para derrubar o castelo
Mas não há desânimo, não há resignação, não há desamparo
Construir um castelo democrático é o desejo de quem quer aprender política
É uma necessidade para quem sonha e vive a liberdade
É uma honra para quem se orgulha das lutas passadas, dos homens e mulheres que conquistaram o que temos hoje
Aprender política não se faz só com acertos; muitas vezes se erra
Mas se isso ocorre, é só recomeçar e trilhar novos caminhos
Aprender é a nossa educação política