A FOTOGRAFIA QUE REFAZ O REAL

16 Agosto, 2008

A exposição Ver de Perto (mas também pode ser Verde Perto), de Neander Heringer, é belíssima por construir sentido em uma fotografia que extrapola o real. O fotógrafo nos faz enxergar o que não se pode ver no cotidiano; trabalha para que a câmera seja capaz de nos fazer ver além das nossas limitações visuais. A lente do fotógrafo às vezes nos coloca do tamanho de uma formiga ou cria uma capacidade de cores impensável em outros tempos não tecnológicos.

Para ver as fotografias na internet ou informações sobre exposição, clique no site  Verdeperto.net


EU QUERO VER A RAINHA É BELEZA, INTELIGÊNCIA E SENSIBILIDADE SOCIAL NUM ÚNICO ATO

12 Agosto, 2008

A peça Eu Quero Ver a Rainha, de Fabiana Fonseca, é algo que vira do avesso o universo feminino. A atriz, que idealizou o projeto, conseguiu unir pesquisa e dramaturgia de uma forma intensa. Poderia ser um espetáculo para mulheres, mas fala também diretamente aos homens.
Ao ver a peça, gerada em uma sociedade tão determinada pelo vazio da produtividade e do lucro que se constrói sobre o universo feminino, vive-se um extasiamento. E nos faz pensar como foi possível chegar a tal resultado e a imaginar questões para além do campo teatral.
Fabiana Fonseca é uma mulher absolutamente linda, com seu belo corpo e delicado rosto, mas se constrói na peça como uma mulher competente e sensível às questões sociais e ao mundo desigual em que vivemos. Fabiana foge do esterótipo da beleza burra e contrói uma beleza sensível e competente. Fabiana é a Rainha, ou melhor, Totalmente Demais (Ouça).

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MIMO: UM CABEÇÃO COM GRAÇA E SENSIBILIDADE

26 Julho, 2008

A peça Mimo, do grupo holandês Muganga, é poesia singela e bela. O espetáculo, que tem no palco apenas Carlos Lagoeiro, um brasileiro que fundou o grupo há 21 anos na Holanda, é uma mistura de tecnologia e criatividade em proveito da arte.

Mas o grupo não precisou de muita tecnologia: um dos momentos mais belos da peça, uma dança amorosa que povoa o cabeção do Mimo, é feito apenas com um retroprojetor. É um momento sublime. O grupo teve várias apresentações no Brasil.

Como diz o próprio site do grupo, o espetáculo é um casamento entre o teatro e as artes plásticas:“Mimo é um espetáculo solo de Carlos Lagoeiro, diretor artístico/ator do Teatro Munganga e Marion Hoekveld, artista plástica. Trata-se de um encontro entre o teatro e as artes visuais em um espetáculo sem texto”


ASAS, DA CIA DOS PÉS, É TEATRO LIVRE E POÉTICO

17 Julho, 2008

Lindo, lindo, lindo. Essa é a sensação que se tem ao ver o espetáculo Asas, da Cia. dos Pés de São José do Rio Preto. O grupo, que montou um espetáculo com rapel e escalada, faz de Asas uma poesia no espaço, um espaço sem gravidade e em cores leves, com movimentos suaves, mas com a densidade própria do teatro. O espetáculo foi apresentado durante o Festival Internacional de Teatro de Rio Preto e segue para festival na Espanha. Para quem gosta de um teatro plástico, Asas é um sonho poético. Veja o site do Festival de Rio Preto e veja mais fotos.


NA NATUREZA SELVAGEM VALORIZA RAZÃO INSTRUMENTAL

5 Julho, 2008

O filme Na Natureza Selvagem (into the wild), dirigido por Sean Penn e baseado em uma história real, é arrebatador, mesmo sendo trabalhado em um ritmo lento para os padrões norte-americanos. O filme nos dá uma noção clara da necessidade de se utilizar a razão instrumental e de sua real função para nossa sobrevivência.

A razão instrumental serve basicamente para a solução das coisas práticas da vida, sem uma reflexão mais ampla e complexa das conseqüências. É certo que nossa sociedade como um todo se utiliza exclusivamente desse recurso no padrão comportamental atual. Daí os efeitos colaterais nos problemas sociais e ambientais que vivemos.

Essa razão imperava na família de Alex Supertramp, o personagem criado por Christopher McCandless, jovem que após terminar a faculdade decide viver no meio da natureza, isolado. Em oposição à sua criação, Supertramp negligencia a literatura instrumental e se guia pelos universo poético da literatura ficcional, do qual constrói o seu caminho. Suprertramp nos mostra que a razão instrumental não deve ser menosprezada.

Sean Penn consegue belas imagens e intensos diálogos que terminam, na hora da despedida, quase sempre sem o necessário abraço entre as pessoas.

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Doces poderes: a consciência dos jornalistas



VIVO, OBRA-PRIMA DE LENINE E RENNÓ

28 Junho, 2008

Vivo é uma música para se ouvir sem estar atormentado, sem estar desmantelado. Uma música que traz a angústia e a poesia em um só movimento. É a poesia cotidiana que alimenta um Brasil imperfeito, um corpo pedido no espaço.  É lenta, mas intensa.

Essa é a primeira da série obra-prima da canção popular.

Vivo

Composição: Lenine/Carlos Rennó

Precário, provisório, perecível;
Falível, transitório, transitivo;
Efêmero, fugaz e passageiro
Eis aqui um vivo, eis aqui um vivo!

Impuro, imperfeito, impermanente;
Incerto, incompleto, inconstante;
Instável, variável, defectivo
Eis aqui um vivo, eis aqui…

E apesar…
Do tráfico, do tráfego equívoco;
Do tóxico, do trânsito nocivo;
Da droga, do indigesto digestivo;
Do câncer vil, do servo e do servil;
Da mente o mal doente coletivo;
Do sangue o mal do soro positivo;
E apesar dessas e outras…
O vivo afirma firme afirmativo
O que mais vale a pena é estar vivo!

É estar vivo
Vivo
É estar vivo

Não feito, não perfeito, não completo;
Não satisfeito nunca, não contente;
Não acabado, não definitivo
Eis aqui um vivo, eis-me aqui.

(ouça)


ATENDA O CELULAR DURANTE A PEÇA DE TEATRO

9 Junho, 2008

O espetáculo Fuga!, do Núcleo Fuga do Lume Teatro, busca unir dança e teatro, mas une também artes plásticas e mídia. Os atores-dançarinos não estão no palco, mas em uma grande embalagem de produto eletrônico; estão dentro da embalagem, dentro do produto. O cenário plástico e “metálico” faz deles seres virtuais. Estão ali como nós, o público. E é por meio de bits que o público pode se relacionar com eles. O celular, o microfone, a câmera fotográfica, tudo pode. Atenda o celular sem medo durante a peça. O que não podia, agora pode. O que atrapalhava, virou cena. Será que não estamos nós também no meio desta grande caixa metálica que se transformou o nosso projeto de vida? O corpo e a estética da alma estão nas falas e nos gestos que traçam infinitas leituras. Leituras-clips de um mundo que não se fala, mas se comunica o tempo todo.


UMA PEÇA PARA ESIO

26 Maio, 2008

A peça Encruzilhados entre a barbárie e o sonho  é um espetáculo que mostra todo o talento de Esio Magalhães, do Barracão Teatro. Um texto feito sob medida para que ele interprete em mínimos detalhes vários personagens. Divertida ao mesmo tempo em que trabalha os dramas humanos, Encruzilhados brinca com o público e, em passagens rápidas, cria climas tensos e de suspense. Andrea Macena, a atriz que contracena com Esio, tem uma presença de palco intensa com a personagem “Professora da Luz”, que é ao mesmo tempo inigmática, engraçada e opressora. A direção é de Tche Vianna e a parte técnica (iluminação e som) fica com o ator Eduardo Brasil, que o faz de dentro do palco. Para quem está em Campinas e região, é possível assistir no próximo final de semana.

Encruzilhados entre a barbárie e o sonho - Dias 30 e 31 de maio e 01 de junho - Sextas e sábados às 21:00 horas e nos domingos às 20:00 horas.  Rua Eduardo Modesto, 128 – Vila Santa Isabel. Reserva: 19-3289 4275. Ingressos R$ 12,00 (Inteira).

 


DOCES PODERES: A CONSCIÊNCIA DOS JORNALISTAS

11 Maio, 2008

O filme Doces Poderes (1996) é um bom filme para jornalistas politicamente conscientes. Isso porque o filme, estrelado por Marisa Orth, Antônio Fagundes, Ségio Augusto, Tuca Andrada, Sérgio Mamberti e outros realmente não está fechado em busca de concepções ou orientações ideológicas. O filme parece, apesar de ser uma narrativa ficcional, uma bela reportagem sobre a consciência do jornalista de televisão que embarca em campanhas publicitárias. Uma bela reportagem porque parece querer apresentar uma versão fiel de uma realidade que não se pode ver na mídia.

É um bom filme para jornalistas politicamente conscientes justamente por sua liberdade narrativa e cinematógráfica. A melancolia dos perdedores do filme é algo que pode se tornar um apelo à falta de ética na profissão. No entanto, a diretora Lucia Murat parece buscar a profundidade e não o discurso ou a resignação. A melancolia dos perdedores é um alívio para a alma, um recomeçar.


O ACOLHEDOR LUGAR DO RISO

11 Maio, 2008

O Não Lugar de Ágada Tchainik, peça com Naomi Silman e dirigido por Sue Morrison, é o lugar do riso e de uma certa auto-ajuda para quem precisar. O público não é somente provocado e arrastado para a participação. Ele é provocado no riso e no aconchego das nossas pequenas neuroses cotidianas. “Estamos bem”, aquela palhaça nos garante. Estamos bem. Na verdade, ficamos bem; ficamos bem ao rir e aprecisar o rigoroso trabalho teatral da atriz, com a bagagem do Lume. Para mim, foi uma iniciação ao clown.

O trabalho escrito por Naomi e pela diretora canadense Sue Morrison, reflete a proposta exposta pela diretora: “Necessitamos construir um palhaço que fale aos nossos dias de hoje, não só uma coleção de gags, mas um arquétipo que revela a essência do performer/ator. Este é um clown que nos dá uma sensação maior do divino em cada um de nós. Que celebra nossa humanidade, nossa animalidade e os momentos em que podemos tocar um ao outro através do riso”.

Novas apresentações, após temporada em Israel. Acompanhe pelo site do grupo Lume.