14 Junho, 2008


José sai de manhã, uma bela manhã de outono. O sol brilha entre nuvens esparsas; o capim está verde pela chuva da noite anterior. Um olhar impreciso pelos sonhos e planos que habitam sua alma.
No meio do caminho três crianças tentam encher o pneu de uma bicicleta. Fazem esforços: uma segura o pneu, outra o guidão e a terceira luta contra a bomba manual. Em vão…
“Estão conseguindo?”, pergunta.
“Não”, em coro.
“Deixa eu tentar. Mas esse bico está torto! Vamos ver…Está enchendo?”
“Está! Mais um pouco.”
“Veja se já dá para andar?”
“Acho que já”
“Então é só pedalar”
José se levanta e continua sua caminhada. Uma sensação percorre seu corpo, como se tivesse ganhado o dia. A beleza de três crianças em dificuldade para brincar lhe jogou para a infância como um jato. O tempo estava ali, distante. Ele que passou a caminhada entre planos e projetos adultos, agora estava diante de um brincar espontâneo. Um problema de criança: encher o pneu de uma bicicleta numa bela manhã. Encher para poder brincar. “Nossa vida deveria se resumir a planos, simples planos para brincar. E depois, brincar,” diz à consciência.
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Escrito por glaucocortez
20 Maio, 2008
O almofadinha está sentado em um sofá de uma oficina mecânica. Lê uma revista de veículos importados, grandes carrões, belas mulheres. Parece ser amigo do dono da oficina. Tem uma camisa social sob a calça e cinto com fivela brilhando; o calor daquela tarde o impede de estar de terno; esse talvez seja um dos motivos para não gostar do Brasil. “Esse calor…”, costuma repetir.
Um novo cliente chega e inicia uma conversa com o dono da oficina. A conversa segue o o cliente encosta seu corpo no automóvel que está dentro da loja. Imediatamente almofadinha se levanta e aperta o controle remoto, como se fosse abrir o carro. O cliente se desencosta e continua a conversa com o dono, mas percebe que o almofadinha fez apenas um dos seus mais belos prazeres da vida, proteger seu carro, não deixar que ninguém sequer encoste. O almofadinha é a síntese da construção social da publicidade do automóvel; a utopia da indústria automobilistica para a construção da mente.
O cliente, que mal havia notado o carro, olha para o veículo do almofadinha tentando encontrar uma Ferrari, mas tem uma grande surpresa:e é apenas um corsinha classic. Sim, um corsinha classic!!!
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Escrito por glaucocortez
11 Maio, 2008
Ele dirige a toda velocidade com sua picape; dá farol alto. Tem em sua tez a melancolia da arrogância. Na sua infelicidade, o poder das ruas, o poder sem limites do seu farol. O provocador de acidentes, o desestabilizador do trânsito. Corre, corre, corre, não por amor a velocidade, mas por arrogância à sua miséria. A miséria de não saber que não é nada. Ele grita, em sua assustadora insignificância moral:
“Abrem as ruas, sou em quem está pasando. Saiam! Saiam! Eu sou esse ilustre insatisfeito. Preciso me sentir melhor, maior, completo. Saiam, deixe-me ser importante por alguns segundos”
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Escrito por glaucocortez