9 Julho, 2009
O caminhoneiro filósofo

A estrada também nada sabe (foto: Andre Kenji/cc)
Estava em uma estrada longa e sonolenta, quando avistou aquela frase a despertar a razão. A rodovia se estendia em uma reta e se podia mirar ao longe o sobe e desce da pista ou o tempo sendo consumido pela distância.
Parece que não havia fim e já não se podia, pelo retrovisor, enxergar o início.
Na verdade, sempre se começa pelo meio, como a nossa vida. Entramos, percorremos um trajeto, e depois abandonamos.
Naquela estrada, uma das poucas distrações eram as frases de caminhão, hoje já raras e sem graça.
Mas uma frase espantou-me porque me colocou diante de um caminhoneiro filósofo. No meio do sol forte do meio dia, o caminhão lentamente seguia e dizia: “tudo o que sei é que nada sei”.
O caminhoneiro seguia assim como a estrada, que também nada sabe, e precisa de placa para se encontrar.
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Escrito por glaucocortez
15 Fevereiro, 2009

foto: A Revolução não será televisionada, de Giordana Pacini
Uma garotinha de apenas cinco anos assiste seu desenho sozinha na sala. Ela gosta muito de desenhos do Pica-Pau, mas assiste à Madeline, Sagwa e outros da Futura.
Naquela tarde, ela apenas vê trechos de programas e comerciais em vários canais. A mãe chega na sala e senta ao seu lado, dá uma abraço e fica quieta já que os olhos da menina não piscam diante da tela.
A garota vê uma peça publicitária que, para variar, mostra belas imagens, pessoas lindas e diz um monte de coisas que, se forem conquistadas ou adquiridas, vão lhe dar uma vida melhor. “Faça isso, faça aquilo, tenha isso e aquilo e viva uma vida melhor. Isso vai melhorar a sua vida”, revela uma voz em off.
A garotinha que estava ali com os sentimentos abertos e sinceros não titubeia em dialogar e responder à televisão:
“Mas eu não quero uma vida melhor. Eu gosto da minha vida”.
A mãe se calou mais ainda e se encheu de orgulho, percebeu que a garotinha, vinda ao mundo há apenas cinco anos, vive feliz. A menina quase todos os dias chora, faz birra e reclama. Mas naquele momento a mãe percebeu que dava uma boa educação e que sua filha se sentia segura e completa. Não precisava de mais nada. Até de uma vida melhor.
A garotinha parece ter descoberto apenas pelos seus próprios pensamentos e sentimentos que a publicidade, muitas vezes, tenta nos criar desejos e necessidades que na verdade não precisamos. Isso os adultos sabem, mas vivem esquecendo.
Mas ela também deixou claro que a publicidade não nos faz só lembrar de um produto ou serviço; ela nos faz esquecer. Esquecer o que realmente somos, queremos ou precisamos.
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Escrito por glaucocortez
14 Junho, 2008


José sai de manhã, uma bela manhã de outono. O sol brilha entre nuvens esparsas; o capim está verde pela chuva da noite anterior. Um olhar impreciso pelos sonhos e planos que habitam sua alma.
No meio do caminho três crianças tentam encher o pneu de uma bicicleta. Fazem esforços: uma segura o pneu, outra o guidão e a terceira luta contra a bomba manual. Em vão…
“Estão conseguindo?”, pergunta.
“Não”, em coro.
“Deixa eu tentar. Mas esse bico está torto! Vamos ver…Está enchendo?”
“Está! Mais um pouco.”
“Veja se já dá para andar?”
“Acho que já”
“Então é só pedalar”
José se levanta e continua sua caminhada. Uma sensação percorre seu corpo, como se tivesse ganhado o dia. A beleza de três crianças em dificuldade para brincar lhe jogou para a infância como um jato. O tempo estava ali, distante. Ele que passou a caminhada entre planos e projetos adultos, agora estava diante de um brincar espontâneo. Um problema de criança: encher o pneu de uma bicicleta numa bela manhã. Encher para poder brincar. “Nossa vida deveria se resumir a planos, simples planos para brincar. E depois, brincar,” diz à consciência.
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Escrito por glaucocortez
20 Maio, 2008
O almofadinha está sentado em um sofá de uma oficina mecânica. Lê uma revista de veículos importados, grandes carrões, belas mulheres. Parece ser amigo do dono da oficina. Tem uma camisa social sob a calça e cinto com fivela brilhando; o calor daquela tarde o impede de estar de terno; esse talvez seja um dos motivos para não gostar do Brasil. “Esse calor…”, costuma repetir.
Um novo cliente chega e inicia uma conversa com o dono da oficina. A conversa segue o o cliente encosta seu corpo no automóvel que está dentro da loja. Imediatamente almofadinha se levanta e aperta o controle remoto, como se fosse abrir o carro. O cliente se desencosta e continua a conversa com o dono, mas percebe que o almofadinha fez apenas um dos seus mais belos prazeres da vida, proteger seu carro, não deixar que ninguém sequer encoste. O almofadinha é a síntese da construção social da publicidade do automóvel; a utopia da indústria automobilistica para a construção da mente.
O cliente, que mal havia notado o carro, olha para o veículo do almofadinha tentando encontrar uma Ferrari, mas tem uma grande surpresa:e é apenas um corsinha classic. Sim, um corsinha classic!!!
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Escrito por glaucocortez
11 Maio, 2008
Ele dirige a toda velocidade com sua picape; dá farol alto. Tem em sua tez a melancolia da arrogância. Na sua infelicidade, o poder das ruas, o poder sem limites do seu farol. O provocador de acidentes, o desestabilizador do trânsito. Corre, corre, corre, não por amor a velocidade, mas por arrogância à sua miséria. A miséria de não saber que não é nada. Ele grita, em sua assustadora insignificância moral:
“Abrem as ruas, sou em quem está pasando. Saiam! Saiam! Eu sou esse ilustre insatisfeito. Preciso me sentir melhor, maior, completo. Saiam, deixe-me ser importante por alguns segundos”
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Escrito por glaucocortez