ALMOFADINHA DO AUTOMÓVEL

20 Maio, 2008

O almofadinha está sentado em um sofá de uma oficina mecânica. Lê uma revista de veículos importados, grandes carrões, belas mulheres. Parece ser amigo do dono da oficina. Tem uma camisa social sob a calça e cinto com fivela brilhando; o calor daquela tarde o impede de estar de terno; esse talvez seja um dos motivos para não gostar do Brasil. “Esse calor…”, costuma repetir.

Um novo cliente chega e inicia uma conversa com o dono da oficina. A conversa segue o o cliente encosta seu corpo no automóvel que está dentro da loja. Imediatamente almofadinha se levanta e aperta o controle remoto, como se fosse abrir o carro. O cliente se desencosta e continua a conversa com o dono, mas percebe que o almofadinha fez apenas um dos seus mais belos prazeres da vida, proteger seu carro, não deixar que ninguém sequer encoste. O almofadinha é a síntese da construção social da publicidade do automóvel; a utopia da indústria automobilistica para a construção da mente.

O cliente, que mal havia notado o carro, olha para o veículo do almofadinha tentando encontrar uma Ferrari, mas tem uma grande surpresa:e é apenas um corsinha classic. Sim, um corsinha classic!!!


O ASNO MOTORISTA 1

11 Maio, 2008

Asno por gloria MundiEle dirige a toda velocidade com sua picape; dá farol alto. Tem em sua tez a melancolia da arrogância. Na sua infelicidade, o poder das ruas, o poder sem limites do seu farol. O provocador de acidentes, o desestabilizador do trânsito. Corre, corre, corre, não por amor a velocidade, mas por arrogância à sua miséria. A miséria de não saber que não é nada. Ele grita, em sua assustadora insignificância moral:

“Abrem as ruas, sou em quem está pasando. Saiam! Saiam! Eu sou esse ilustre insatisfeito. Preciso me sentir melhor, maior, completo. Saiam, deixe-me ser importante por alguns segundos”