Educação Política

mídia, economia e cultura – por Glauco Cortez

Arquivos Diários: 15 março, 2009

TRECHOS DA ENTREVISTA HISTÓRICA DE PATCH ADAMS NO RODA VIVA DA TV CULTURA

O que esperar de uma sociedade que ensina que dinheiro e poder é tudo na vida?

O que esperar de uma sociedade que ensina que dinheiro e poder é tudo na vida?

O médico Pacht Adams deu uma entrevista histórica para o Roda Viva da TV Cultura em 2007. Veja alguns trechos:

Dinheiro
Se não mudarmos de uma sociedade que venera dinheiro e poder para uma que venere compaixão e generosidade, não haverá esperança para a sobrevivência do ser humano neste século. Precisamos deter um sistema que, pela TV, estimula a concentração do dinheiro na mão de poucos.

Amizade
Não concordo com “rir é o melhor remédio”. Eu nunca disse isso. A amizade claramente é o melhor remédio. É a coisa mais importante na vida. São nossas relações com aqueles que amamos.

Hollywood
Tudo no filme foi atenuado. Muita gente pensa, porque Hollywood é uma exageração. Na verdade, é uma atenuação. Fico muito triste porque o meu nome está em filme em que não há paz e justiça.

São Paulo
Hoje, vi a Wall Street de São Paulo. Igual a todas as ruas ricas de todas as cidades do mundo. Nada é brasileiro naquela rua. Aqueles arranha-céus de sempre com salas de executivos – tenho certeza -, secretárias bajuladoras. Vocês estão me entendendo, não é? Como foi isso? Como fomos enganados a acreditar que queremos um prédio enorme para morar? Um carro elegante para dirigir? Muito dinheiro no banco? Férias elegantes? E há pessoas com fome!

Desejo
Precisamos de comida e de amigos. Tendo isso, está tudo resolvido. Depois, você pensa: como posso ajudar a minha gente? Como posso salvar o ambiente natural mais interessante do mundo em vez de derrubá lo para plantar soja? E, claro, se temos dinheiro sobrando não compramos uma porra de relógio… [com uma expressão irônica se repreende] Xi, pega mal neste programa? Bobo! Um relógio bobo [risos]! Compramos um relógio bobo por três mil dólares e ficamos maravilhosos. Sem nem pensar, a gente nem pensa [elevando o tom da voz] em mandar qualquer coisa de que não precisamos para a nossa família, para nós, em uma linda casa humilde; para um hospital, para que ele seja um hospital maravilhoso; para termos suficientes faculdades de medicina e horários complementares de atendimento… Esse é o nosso sonho! Não uma boa carteira de ações. E a idéia de dar a atores medíocres de programas medíocres milhões de dólares, para querermos ser como eles e os nossos filhos também.

Médicos
quando vi médicos grosseiros em visitas… faziam círculos com pacientes e a maioria deles, a maioria dos professores na faculdade procurava menosprezar os alunos, diminuí-los, para se sentirem importantes. Humilhavam os alunos em público, na frente de todo mundo. Todos deviam ficar exclamando: “Ai meu Deus, ai meu Deus, ai meu Deus!” [encolhendo os ombros e olhado para cima, tremendo, em sinal de medo e desespero]. Eu dizia: “Que bela grosseria, doutor! Conseguiu acabar mesmo com esse aluno! Quero ser grande e forte como o senhor quando eu crescer” [risos]. O que nos faz calar? Você vê o chefe dar um beliscão na secretária e disfarça. Você morre naquela hora. No instante em que cala por medo de perder o cargo, você morre. Uma parte de você, uma parte de ser humano morre.

Mídia
Cinco empresas detêm 70% dos meios de comunicação do mundo. São máquinas de propaganda, não existe jornalismo ali. Acha que alguém deixaria Patch Adams dizer na TV dos Estados Unidos que Bush é nazista? Nunca! O filme Patch Adams com Robin Williams… “O riso é o melhor remédio. Compre Coca-Cola!”.

Quem ganha?
Deixe-me concluir esta pergunta. Não entendo porque, quando você vê uma coisa errada: a violência aqui, nas suas cidades; mulher mal tratada; homem bêbado que surra a mulher; criança na rua vendendo droga, cheirando cola ou seja o que for que faz; gente dando tiro em criança na rua, por prazer, que acontece aqui no Brasil… Então, o que é? Qual é o truque? Essa é a pergunta que você deve fazer a si mesmo? O status quo interessa a quem? Quem se beneficia? Um jornalista pode descobrir. Eu sei quem se beneficia com tudo isso. São bons negócios.

População
menos de 10% da nossa população pensa. Nunca pensa. Nunca! Trezentos e sessenta e cinco dias por ano, acho que 90% da população dos Estados Unidos nunca faz o que se chama de “pensar”. Em inglês, é preciso dizer “pensamento crítico”, porque nos distanciamos tanto do pensar que precisamos dar-lhe o apoio do pensamento crítico [risos]. Quando o pensamento não é crítico? Isso foi bem descrito pelo escritor tcheco Capek, Kafka< É o que temos: robôs a serviço da saúde. Estou aqui para incentivar as pessoas a ser a revolução na vida. Uma revolução é ser cordial. Uma subseção a ser cordial é ser cordial com uma criança enferma hospitalizada. Existem dez milhões de subseções a ser cordial.

Televisão
magine como será a vida, após uns cinco anos? Se eu tivesse um canal de TV, 24 horas no ar poderia haver algo constante, maravilhoso e não essa coisa tediosa e idiota! E a cada cinco, três minutos, um intervalo comercial para outra porcaria.  Então, por que vim fazer este programa? Por que estou aqui? Por que gasto o meu tempo com a TV? Recusei os grandes programas de TV brasileiros. Não me importa aparecer na TV. Quero que, quem ouvir, ouça coisas que nunca ouviu na TV vindo de alguém que talvez respeite. Por isso vim para este programa. Porque o único momento na TV de que gostei, em 25 anos de TV, foi de um canal chileno chamado “A celebração da inteligência”. Foi o único programa de TV inteligente. Depois do filme, fui para um programa de TV… sabe?: “Bom-Dia, América!” [deixando o tronco ereto, como a reproduzir ironicamente a postura de um apresentador sério de televisão]. Lixo! A minha cueca é mais limpa [risos].

Hospitais
Imagine se os hospitais tivessem na parede uma fotografia grande do médico escolhido como o pior da semana? Ninguém ia querer ser escolhido. Começariam, pensem… Imaginem quantas sugestões posso inventar em um dia. Todos podemos trabalhar para isso e quantas sugestões haveria em uma semana? O que decidirmos, há dez mil coisas.

Sociedade
todas as mensagens disponíveis para as crianças, na TV… dizem: “você quer dinheiro e poder.” É a primeira mensagem e todas as crianças do mundo recebem. Se forem pobres, roubam, vendem o corpo ou vendem os filhos. Se forem ricas, ficam mais ricas. As três pessoas mais ricas têm tanto dinheiro quanto as 48 nações mais pobres. A TV ensina que essas pessoas devem ser admiradas: Paris Hilton, Donald Trump… Devem conhecer esses nomes. Não são interessantes nem para o vizinho deles e alguém no Brasil. Você conhece esses nomes? Lixo! Paris Hilton tem 800 milhões de dólares e tem um livro que faz: “Olhe para mim. Olhe para mim” [colocando a mão na testa].

Beleza
A minha mãe dizia: “Bonito é o que faz bonito”. Se isso é beleza, se você for gentil, isso é beleza. Se pensa que beleza é ter 20 anos com formas específicas, então, a empresa farmacêutica e a empresa de cosméticos vão ganhar milhões de bilhões de dólares com o seu não pensar no que a beleza é. Então, ninguém na minha idade é bonito. Temos rugas, sei lá. Injeções de botox…

Brasil
Grande refeição familiar, muita gente para o jantar, você é a última a comer. Por que isso não é uma verdade para o Brasil? Ninguém come até todos terem comida. Isso é qualidade de vida. Nem recebemos educação. A maioria dos homens nem pensa. Vai jantar, vai direto ao prato. Não esperam: “Quero ver todos servidos antes de me servir”

Farmacêuticas
As companhias farmacêuticas são as empresas mais nojentas, fétidas e horrendas do planeta. Estão comprando a Amazônia. Sabem disso? As transnacionais estão comprando a Amazônia. E todos estão de acordo, pois a pesquisa sai do dinheiro da companhia farmacêutica. E médico gosta de pesquisa. Ouvi estudantes de medicina aqui falarem sempre que os professores pareciam mais interessados em pesquisa do que em assistência médica. Contaminou tudo. E se o capitalismo não fosse a pior coisa do mundo? A pior coisa na história: capitalismo. Vai extinguir a nossa raça, não há dúvidas. Outro modo… Dizem nos Estados Unidos: “Temos os remédios.” Certo, mas por que escolhemos receber de gente mentirosa preocupada com os lucros, horrorosa e indecente? Nos Estados Unidos, poderíamos abrir dez centros… dinheiro dos contribuintes. Dez centros, com os maiores cérebros em bioquímica, fisiologia, botânica, cujo trabalho é fazer ótimos remédios para as pessoas pelo custo mais baixo possível, sem lucro. Os remédios não custariam nada. Nunca nos dariam remédios enganosos. Mas ninguém pensa nisso. Por causa do capitalismo deixamos que eles façam o que quiserem conosco. Odeio o capitalismo. É a pior coisa que existe.

A vida
o meu pai morreu na guerra, quando eu tinha 16 anos. Tive de pensar na guerra, não como uma coisa abstrata que se vê em um filme de guerra, mas porque perdi o meu pai na guerra. Então, voltamos para os Estados Unidos, onde eu não havia morado, para o sul, em 1961. Os negros não tinham o direito de usar o banheiro de um branco! Na terra do homem livre! Democracia! Estátua da Liberdade! Bobagem! Os negros, 20% da população, não podiam comer em restaurante, nem ir para hotel de branco. Não podiam se sentar na frente do ônibus público. Eram cidadãos. Isso doeu mais do que a morte do meu pai na guerra. Primeiro, eu quis morrer. Se viram o filme Patch Adams, é verdade. Fui três vezes para um sanatório, em um ano, com 18 anos. Mesmo sendo um garoto feliz, eu não queria viver em um mundo de violência e injustiça. Parecia que as pessoas não se importavam. Eu não conseguia acreditar que alguém pudesse viver em um país da chamada democracia livre e não permitir aos negros serem gente. Eu estava horrorizado. Racistas, é claro que existem. Talvez existam para sempre. Como aqueles que se dizem não racistas deixam isso acontecer? Eu não conseguia acreditar. Fiquei desiludido. Tentei suicídio, eu não queria viver. Então, pensei… Sabem, “pensar”. É sempre o pensar. Tudo o que fizer de bom para a vida é pensar. Pensei, você não vai se suicidar, vai fazer revolução. A minha biblioteca tem 18 mil livros. Eu soube. Tenho uma biblioteca enorme. Fui estudar a história das revoluções. Estudei gente que faz projetos e vi que são só pessoas. Ninguém era especial. Gandhi! Era só um homem! Era advogado na África do Sul, as coisas não iam bem, a justiça não funcionava direito e ele foi trabalhar pela justiça, por uma lei diferente. Então vi que a minha meta era trabalhar pela paz, pela justiça e pelo atendimento médico.

Entrevista completa no site do RodaViva/Fapesp. No You Tube está a entrevista completa dividida em vários trechos.

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