Educação Política

mídia, economia e cultura – por Glauco Cortez

SCIENCEBLOGS: PORTAL DE BLOGS DE CIÊNCIA É CRIADO NO BRASIL E REÚNE CIENTISTAS BLOGUEIROS

Condomínio de 24 blogs de ciência vira braço nacional do portal americano ScienceBlogs

Em agosto do ano passado, dois jovens biólogos formados pelo Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP), Carlos Hotta e Atila Iamarino, resolveram montar um pequeno portal reunindo blogs sobre ciência. Nascia o Lablogatórios, que rapidamente chegou à marca de 24 blogs abrigados debaixo de seu guarda-chuva. No último dia 17,  o condomínio de blogs, para usar um termo apreciado pela dupla, mudou de nome e ganhou um empurrão internacional em sua recente trajetória: virou o braço brasileiro do ScienceBlogs, uma rede com mais de 60 blogs de ciência em inglês criada nos Estados Unidos em 2006 que faz parte do Seed Media Group, também dono da revista Seed, de divulgação científica. “Passamos a ser uma franquia deles”, diz Hotta, 29 anos, que estuda a biologia da cana-de-açúcar em seu pós-doutorado na USP e escreve no blog Brontossauros em meu Jardim. “Ninguém vive dos blogs, mas queremos ser mais profissionais”, afirma Iamarino, que faz doutorado na USP sobre a genética evolutiva do vírus da Aids e mantém o blog Rainha Vermelha.

Banner do Scienceblogs Brasil

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A dupla diz que os blogueiros do portal trocam muita informação e que um ajuda o outro a dirimir dúvidas sobre temas espinhosos da ciência. Eles acreditam que esse intercâmbio de ideias diminui a possibilidade de haver erros grosseiros em textos publicados pelos blogs, embora frisem que não há censura a ninguém. O objetivo do ScienceBlogs Brasil é difundir a ciência no país. Não é preciso ser pesquisador para montar um site pessoal e pleitear seu ingresso por portal, mas boa parte dos donos de blogs é formada por jovens cientistas ou pessoas que têm ao menos uma boa formação na área em que escrevem. O blog Geófagos, por exemplo, é tocado pelo engenheiro agrônomo Ítalo Moraes Rocha Guedes, pesquisador da Embrapa Hortaliças, do Distrito Federal, e abordas temas da área de ciências agrárias. O RNAm é escrito por Rafael Soares, biólogo formado pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) que faz doutorado em biotecnologia na USP.  O Ciência à Bessa – Pensamentos científicos e clichês pessoais é uma criação do zoólogo Eduardo Bessa, professor da Universidade do Estado de Mato Grosso e especialista em comportamento animal.”Tentamos selecionar blogs de qualidade, com um alto apuro científico e que publiquem textos ao menos uma vez por semana”, diz Hotta. “De uns 60 blogs de ciência que encontramos na internet, selecionamos cerca de 20 que eram mais confiáveis”, explica Iamarino.

Há também blogs mantidos por entusiastas das ciências que não podem ser rotulados de pesquisadores. O blog 42 é mantido por Igor Santos, um engenheiro que trabalha num cartório e mantém um blog “para compartilhar o amor pela ciência”.  O blog Universo Físico tem como autor o  físico de formação e jornalista de profissão Igor Zolnerkevic, que trabalha na Assessoria de Comunicação e Imprensa da Unesp. Paula Signorini, uma biológa que trabalha como editora e divulgadora de ciências, escreve sobre práticas sustentáveis no Rastro de Carbono – Por um futuro verde. Como se vê, há uma certa diversidade de tipos e temas por trás dos blogs. Mas as ciências humanas ainda não estão nem de leve cobertas pelo ScienceBlogs Brasil. “Precisamos ter blogs dessa área”, afirma Hotta.

A ascensão dos blogs – A audiência de todos os blogs do ScienceBlogs Brasil ainda é modesta, mas crescente, segundo seus administradores.  Está na casa dos 150 mil visitantes por mês, que navegam por cerca de 250 mil páginas. Frequentemente apontado como o blog feito por um cientista com maior influência no planeta, o Pharyngula – criado pelo biólogo Paul Myers, da Universidade de Minnesota,  que fala sobre evolução e desenvolvimento – exibe números colossais para a realidade brasileira.  Semanalmente, suas páginas são vistas meio milhão de vezes por milhares de internautas.

Para quem acha que manter um site pessoal sobre ciência, que mescla opinião e informação, é apenas um passatempo sem muita importância, é recomendável ler uma reportagemconteúdo restrito a assinantes) publicada na edição de 19/03 da revista científica Nature, uma das mais prestigiadas do mundo. O texto defende a ideia de que o jornalismo científico está em declínio, sobretudo depois da eclosão da crise econômica em setembro do ano passado, e que estão em ascensão os blogs de ciência e as ações de divulgação científica mantidas por universidades, institutos de pesquisa e agência de fomento a pesquisa. Uma  questão central abordada na reportagem é se os tais blogs de ciência, sejam eles mantidos por jornalistas, cientistas ou amantes da pesquisa, serão capazes de tomar o lugar do jornalismo científico produzido pelos meios de comunicação mais tradicionais.  A reportagem não esgota o assunto, tampouco dá uma reposta definitiva sobre a questão.

Seja qual for o desfecho desse embate, a Nature, em editorial (conteúdo restrito a assinantes) publicado na mesma edição, recomenda aos cientistas um olhar mais contemporâneo sobre o tradicional jornalismo científico e também sobre os novíssimos blogs de ciência. Depois de lembrar que a face gráfica da internet, o popular www, foi inventada por cientistas num dos templos da pesquisa mundial, o Centro Europeu de Pesquisas Nucleares (Cern), nos arredores de Genebra; depois de falar da crise mundial que se abate sobre a imprensa internacional e diminui os postos de trabalho nas editorias de ciência, deixando talvez um vazio no setor; depois de mencionar a pouca atenção (desprezo em alguns casos) que muitos pesquisadores mais velhos ainda dão à divulgação de seus trabalhos pela imprensa ou pelos blogs, preferindo apenas comunicar seus estudos em revistas científicas com peer-review (revisão por pares), a Nature conclui assim seu editorial: “Ainda que se mostrem relutantes eles mesmos em falar com a imprensa, (os cientistas) deveriam encorajar colegas que fazem isso de forma responsável. Os cientistas estão totalmente aptos a atingir mais pessoas do que nunca, mas apenas se eles abraçarem a mesma tecnologia que eles desenvolveram”.

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