Educação Política

mídia, economia e cultura – por Glauco Cortez

INTERNAUTA: PROFESSORA RELATA O CENÁRIO DE HORROR DA EDUCAÇÃO BRASILEIRA

Por Laura Beatriz Campos

Glauco, as escolas estaduais de Araraquara e os professores estão passando os mesmos problemas, sofrendo, sem materiais, sem condições e sem apoio órfãos e desemparados, pricipalmente o abandonmo é mais explicito na escola estadual Victor Lacorte.(…)

Os gestores caminham, com raras exceções, na contramão, confrontando a realidade e penalizando professores. A última invenção, totalmente sem sentido, é a introdução da premiação (ou certificação) para professores que possuem turmas com bom desempenho escolar. Somente quem desconhece a realidade educacional do país poderia elaborar algo tão sem sentido.

A carta da professora Áurea fala mais alto. A carta inicia com uma justificativa até certo ponto simplória: “Que me desculpem todos vocês, mas a realidade não pode ser desconsiderada!!! Não dá mais para entrar no jogo do ‘ensaio sobre a cegueira’!!!!!”. Daí, passa a relatar um cenário de horror que, infelizmente, faz coro com a realidade de tantas outras escolas brasileiras e parece reproduzir o roteiro do filme “Entre Muros da Escola”. Reproduzo algumas passagens:

“Hoje, dia 19 de março de 2009, vou mais um dia para a escola, desanimada e certa de que as aulas que preparei para os alunos do 3º ciclo, 1º turno, não serão dadas. Mas busco entusiasmo não sei onde, entro para a sala de aula (sala 10, 6ª série) e inicio repetindo o que tenho falado com os alunos desde o primeiro dia de aula: coloquem o caderno, a agenda, o lápis, caneta, borracha, régua, tesoura sobre a mesa e guardem a mochila debaixo da carteira ou dependurada no encosto da cadeira (muitos se deitam, durante a aula, na mochila para dormir ou se escondem atrás dela para dar gritos ensurdecedores sem motivo algum ou para atirar bolinhas de papel enfiadas no corpo das canetas esferográficas).”

“Essa atividade demanda mais ou menos uns 20 min, pois metade da sala não ouve, ou finge que não ouve, continua a correr pela sala, está virada para trás conversando, está subindo nas bancadas sobre as janelas e de lá pulando de cadeira em cadeira e outros tantos estão a olhar no vazio, sem nada fazer.”

“Pergunto por que estão sem a agenda e sem as folhas, várias respostas: esqueci, meu irmão rasgou, fiz bolinha de papel, fulano (referindo-se a um colega de sala, ou mesmo de outras salas que durante os intervalos invadem como loucos as salas vizinhas, batem, jogam mochilas pelas janelas, rasgam material, andam sobre as carteiras) pegou rasgou ou fez bolinha de papel, rasguei porque achei que não iria precisar. (ah, seria tão fácil se você os colocasse então em duplas para fazerem a atividade, penso eu). Ah! sim, seria e a responsabilidade e o compromisso ficariam para ser construídos não se sabe quando. “

“Agora aula na sala 09, também 6ª série. Quando chego à porta da sala tenho vontade de sumir, há pelo menos uns dez alunos de pé sobre a bancada debaixo da janela. (…) A garota – infelizmente ainda não sei todos os nomes – que se assenta na última carteira da 2ª fila, perto da janela, pula da bancada para o tampo de uma carteira e depois para o tampo da sua, desce para a cadeira, pula no
chão e corre, gritando pela sala atrás de um garoto. Passam na minha frente como se lá eu não estivesse e voltam. Paro na frente de todos e fico olhando, tenho a impressão de que estou numa rebelião. Penso: o que fazer?”

“Bolinhas de papel atiradas com o corpo das canetas, voam em todas as direções. Isso é o que mais me chama a atenção, mas garotos e garotas de pé, correndo, gritando tem aos montes.”

“Volto, não chego a parar um minuto na frente da sala e caio. Caio sem saber como nem porque. Ouço apenas um silêncio e: – a professora caiu!!!! Levanto-me de um só pulo, com algumas dores. Continuo o sermão dizendo que caí certamente porque perdi o equilíbrio em função do comportamento deles. Disse ainda que pareciam animais e que eu acreditava que estava dando aula para garotos e garotas. Enfim, babei de falar e tentei explicar o que faríamos naquela aula.”

“Enquanto aguardava que todos acabassem, foram quatro alunos à porta dizer que a coordenadora, Lorena, mandou falar para eu ir para a outra sala que o sinal já tinha batido. Eu dizia: – diga a ela que assim que os alunos acabarem eu vou. Devo ter ficado nessa sala por uns 15 ou 20 min, após o sinal, para que desse o visto em todos os cadernos.”

“Logo que iniciei as aulas perguntei à coordenadora qual era o diagnóstico desses alunos, ela me disse que não sabia e que iria procurar saber. Já são alunos da escola, pelo menos desde o ano passado, e estão na 8ª série. Sempre que lhes peço algo, a turma responde: ‘ô professora eles num faz nada não, tem problema de cabeça’.”

A professora Áurea é doutora, com trinta anos de experiência na educação básica. Foi dirigente do Sindute. Retrata o cotidiano escolar que gera a famosa Síndrome de Burnout, o esgotamento nervoso que tira de circulação tantos professores deste país. Não há paralelo com nenhuma outra profissão. Nem mesmo com o cotidiano de professores universitários, que vivem um outro mundo. Acabo de tabular dados de uma pesquisa realizada com diretores de escolas municipais da capital paulista. E a realidade da professora Áurea se repete.

Os diretores relatam a prática de cobrança cotidiana das instâncias superiores da gestão educacional paulistana, a falta de tempo para estudar, o acúmulo de tarefas, a burocracia, as demandas urgentes (muitas vezes, já respondidas por dezenas de vezes). Não por outro motivo, cada uma das treze regionais da administração paulistana contabiliza uma imensidão de casos de depressão, seguidas de doenças que envolvem voz, tendinite e lesões por esforços repetitivos.

Mesmo assim, gestores estaduais, como os de Minas Gerais, insistem em desconhecer esta situação. Do alto das salas confortáveis e refrigeradas, decidem implantar sistemas de premiação de professores por desempenho dos alunos. Como se o desempenho fosse causado por indolência do professor. Como se o dinheiro fosse o único combustível que alimenta a competência deste exército de desesperados (e preparados) docentes.

Talvez, este seja o único caminho: que os salários dos gestores da educação sejam vinculados ao desempenho dos alunos. Talvez, deixem de falar sobre o que não sabem e levem mais a sério as verdadeiras causas dos graves problemas da educação brasileira. Talvez, quando perceberem que seus salários se reduzem a cada mês, comecem a ler com mais atenção cartas como a que escreveu a professora Áurea. E entendam que o desempenho dos alunos vincula-se às condições reais de vida de sua família e comunidade. E que os professores estão além de suas condições psicológicas para superar a tensão que vivenciam cotidianamente. De uma vez por todas.

Laura

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5 Respostas para “INTERNAUTA: PROFESSORA RELATA O CENÁRIO DE HORROR DA EDUCAÇÃO BRASILEIRA

  1. Salles 19 junho, 2009 às 12:36 pm

    Caro Glauco,
    Seu post sobre as irregularidades no uso de verbas da APM foi censurado????

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  2. Celso Antunes Franco 21 junho, 2009 às 3:01 pm

    Caro Glauco, estamos esperando ansiosamente sua resposta e manifestação quanto a conseguir, abrir discussão, buscar o apoio da grande mídia para publicação de todas as irregularidades denunciadas por todos os leitores de seu Blog.

    Cordialmente;
    Celso Antunes Franco – leitor

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    • glaucocortez 22 junho, 2009 às 2:22 pm

      Prezado Celso,
      Acredito que os blogs possuem uma força diante da mídia e podem influenciá-la, mas um único blog não faz a diferença. É preciso que vocês continuem essa campanha em vários blogs da internet, de modo que ganhe força na rede.
      Abraços
      Glauco Cortez

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  3. João Silvério de Lemos 21 junho, 2009 às 7:02 pm

    Perversidade, futilidade e ameaça: Educação Pública Estadual de Araraquara – SP

    João Silvério de Lemos – Araraquara – SP

    Perversidade, futilidade e ameaça. Esses são os argumentos básicos que, de acordo com Albert O. Hirschman, os conservadores utilizam para criticar políticas que podem introduzir mudanças progressistas na ordem social. Como tais políticas perseguem, em geral, objetivos nobres, os conservadores não podem a elas se opor frontalmente. É necessário desqualificá-las. Assim, tenta-se mostrar que elas produzem efeitos inversos aos pretendidos (argumento da perversidade), ou que elas não têm resultados (argumento da futilidade), ou ainda que tais políticas põem em risco outras conquistas (argumento da ameaça).

    João Silvério de Lemos – Araraquara – SP

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