Educação Política

mídia, economia e cultura – por Glauco Cortez

O MAL-ESTAR DA GRANDE MÍDIA

Site mostra quem são os donos da mídia no Brasil

Há um certo mal-estar na grande mídia brasileira. Há descuidos ideológicos, politicagem sem um mínimo bom senso, campanha política de baixo nível, uma insatisfação, uma certa ira, um leve desencantamento, uma agressividade ansiosa.

A grande mídia parece uma fera, que sabe de seu poder, mas se sente um pouco acuada.

Esse mal-estar não afeta somente o jornalismo, mas também a tolerância e a liberdade de imprensa. A mídia começa a usar e abusar do Poder Judiciário contra pessoas que noticiam ou emitem opiniões  com críticas a ela. Freud talvez diria que é um mal-estar provocado pelo nascimento de um irmão mais novo. Talvez.

Na realidade, há possivelmente inúmeras razões para a situação em que se encontra a grande mídia, mas longe da psicanálise, algumas considerações  podem ser feitas.

A primeira é o próprio desenvolvimento democrático do Brasil. Há no país, apesar de ter apenas 20 anos de democracia, o retorno de uma pressão muito grande por demandas sociais, que estão sendo parcialmente atendidas pelo governo. Isso deveria ser orgulho para a grande mídia, que sempre criticou e mostrou as mazelas do país. No entanto, há um sabor amargo e um certo rancor,  visto que essas demandas sociais e democráticas acabam tangenciando os latifúndios cartoriais da mídia. Há, portanto, uma mal-estar pelos avanços democráticos e sociais.

Há também um mal-estar provocado pelo desenvolvimento tecnológico, pela internet e outras mídias, pelo barateamento da produção gráfica e audiovisual. Há muita gente com capacidade técnica e tecnológica para produzir conteúdo, há muita gente com possibilidade de publicação e distribuição de conteúdo por meio de novas tecnologias. Isso afeta diretamente a grande mídia porque as pessoas começam a comparar, analisar e questionar a qualidade e as omissões. Começa a haver certa concorrência de conteúdo, que não é exatamente uma concorrência econômica.

Há menos de uma década, a Folha de S.Paulo noticiou que um jovem músico entrou em um estúdio de rádio e, com um revólver em punho, exigiu que o locutor tocasse as músicas de sua banda. Esse era o único meio de dar visibilidade ao seu trabalho artístico. Hoje há novas possibilidades tecnológicas de distribuição, principalmente a internet, que transforma tal fato em algo pré-histórico. Esse poder centralizador da distribuição cultural está ruindo e isso provoca inevitavelmente um mal-estar .

O surgimento da ferramenta de publicação dos blogs é outra potencialização do mal-estar. Há uma grande quantidade de blogs bem estruturados em processos e conhecimentos de comunicação e jornalismo, além de inúmeros outros com a qualidade simples, mas primordial de um bom texto, uma boa análise ou inesperada criatividade. Exemplos não faltam: Paulo Henrique Amorim, Luiz Carlos Azenha, Altamiro Borges, Rodrigo Vianna, Blog do Mello, Luís Nassif, Na Maria News, Eduardo Guimarães, Rovai,  portal Vermelho, Carta Maior, FNDC e tantos outros que nem dá para inumerar, mas que dissecam  a relação entre a mídia e o poder. Há uma mal-estar pela sensação de não só pautar, mas também ser a pauta.

Há um mal-estar político e com o governo Lula. É um governo que não prejudicou e nem enfrentou a mídia durante os dois mandatos, mas também não é facilmente domesticado, enquadrado. Há um certo mal-estar porque parece que a mídia culpa o governo por não a socorrer no momento em que o mar parece agitado. Mas há também um mal-estar por apostar em um projeto político da oposição (PSDB/DEM) que está completamente vazio de utopia, é um projeto de manutenção das desigualdades sociais travestido de sonhos gerado pelo marketing político.  É um projeto que não pode pegar a bandeira da igualdade, da justiça e nem da fraternidade, moralidade, ética ou mesmo da gestão pública. É um projeto que, no fundo, visa manter o status quo. E isso é desagradável.

Há um mal-estar também na mídia porque parece que parte do povo, essa entidade, desprendeu-se do seu cabresto. Há uma certa insatisfação e angústia com a impotência das ações da própria mídia no que diz respeito à sua capacidade de convencimento, de direcionamento.  É um mal-estar que beira a insanidade e gera frases como “o povo está contra a opinião pública”.

Há um mal-estar por ter de dialogar e de se confrontar de igual para igual com blogs, sites e empresas sem grande capital financeiro.  É algo como: “quem é esse Zé mané que está me criticando sem o meu filtro, sem minha permissão?” ou  “quem é esse povinho que agora diz quem eu sou e como deve ser o jornalismo?” É aquele mal-estar de ter de falar de igual para igual com quem sempre lhe foi subalterno.

Por fim, há um profundo mal-estar porque estamos em um processo de reorganização das formas produtivas de comunicação. É possível que o capitalismo continue o mesmo na fábrica de sabonete, na usina de aço ou na indústria têxtil, mas há uma profunda mudança econômica e produtiva em andamento na indústria da cultura e isso inevitavelmente provoca uma incerteza, uma angústia, um certo medo.

A má notícia para a grande mídia é que isso parece ser só o começo. Quando organizações sociais, sindicatos e grupos utópicos de diversos setores da sociedade entenderem a comunicação não é simplesmente um front de guerra, mas um espaço de mediação cultural que se porta como uma instância de superação da consciência de classes, de superação da consciência de grupo, aí as transformações serão muito mais aceleradas, muito mais intensas.

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21 Respostas para “O MAL-ESTAR DA GRANDE MÍDIA

  1. Guilherme Scalzilli 11 dezembro, 2009 às 3:07 pm

    César Benjamin é apenas um sintoma

    Participei do repúdio à “Ditabranda”, mas não fui ao protesto contra o artigo de César Benjamin. Acho que a celeuma lhe conferiu visibilidade desnecessária e alimentou uma ilusória vocação “polemista” da Folha.
    É incrível que o jornal tenha descido a esse nível de vulgaridade. Há alguns anos, seria inimaginável que qualquer veículo publicasse um texto acusando o presidente da República de querer sodomizar alguém na cadeia (tecnicamente, “atentado violento ao pudor”), apenas porque um colunista obscuro decidiu combater a popularidade do mandatário.
    Parece fácil, para Antonio Cicero e outros, defender essa liberdade opinativa de mão única. Mas ninguém consegue explicar por que nenhum governo jamais foi atacado de maneira tão grosseira, descarada e inescrupulosa. De erro em erro, a cada suposto “deslize” porcamente corrigido, constrói-se a metodologia difamatória que está reduzindo o jornalismo brasileiro ao achaque ideológico.
    A truanice de Benjamin é exemplo menor, infantil até, de uma tendência que teve episódios muito mais graves e conseqüentes. Mas ela serve como anúncio do que nos aguarda nas batalhas eleitorais vindouras.

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  2. Vitória B Cipriani 12 dezembro, 2009 às 8:11 am

    Os Diretores da rede de ensino estadual , na região de Araraquara (interior paulista), entregaram vários documentos a semana passada pessoalmente em São Paulo ao Coordenador da CEI – Coordenadoria do Ensino do Interior Da SEE-SP – Rubéns Mandetta, entre eles um requerimento exigindo o afastamento por processo administrativo disciplinar e a exoneração do cargo de dirigente de ensino da Supervisora Maria Santana Gagliazzi, ao concluírem que as divergências são incontornáveis a manifestação de diretores e supervisores contra a dirigente “Santana”, começaram há 15 dias em reunião de diretores de escola e supervisores de ensino.
    A exigência deverá ser atendida partir do início do próximo ano letivo.
    Você concorda com essa medida?

    Os Diretores da rede de ensino estadual , na região de Araraquara (interior paulista), entregaram vários documentos a semana passada pessoalmente em São Paulo ao Coordenador da CEI – Coordenadoria do Ensino do Interior Da SEE-SP – Rubéns Mandetta, entre eles um requerimento exigindo o afastamento por processo administrativo disciplinar e a exoneração do cargo de dirigente de ensino da Supervisora Maria Santana Gagliazzi, ao concluírem que as divergências são incontornáveis a manifestação de diretores e supervisores contra a dirigente “Santana”, começaram há 15 dias em reunião de diretores de escola e supervisores de ensino.
    A exigência deverá ser atendida partir do início do próximo ano letivo.
    Você concorda com essa medida?

    Vitória Borovac Cipriani

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  6. Maria Aparecida de Assunção 1 janeiro, 2010 às 1:26 am

    O feitiço virar contra o feiticeiro… A criatura virar-se contra seu criador… Interessantes coincidências históricas acontecem. Os governos, a partir do regime militar, cuidaram muito bem para que a educação piorasse a cada dia, a cada mês, a cada ano, formando progressivamente mais analfabetos funcionais. Os mais recentes governos paulistas foram de uma eficiência ímpar na tarefa de enterrar a escola pública.
    Nos últimos vinte anos o povo foi perdendo a capacidade de ler e interpretar o que (raramente) lê, e seu vocabulário foi reduzido drasticamente. Neste ano de 2010, em que o povo elegerá um novo presidente da república, surge um paradoxo: não há quem consiga entender (nem ouvir por mais de um minuto) o discurso elaborado (e mentiroso) de políticos, justamente daqueles que mais colaboraram para a derrocada cultural.
    E o povo acabou por eleger um presidente cujo discurso é considerado pobre. Mas, contrariando o fato de que a restrição vocabular implica prejuízo da inteligência, esse presidente tem um conteúdo político e social fantástico.
    E conduziu o país à melhor situação de sua história.
    Lula fala com o povo da maneira que o povo entende. Há uma sintonia incrível. E se a embalagem de suas ideias não é “chic”, as ideias são de uma qualidade inexcedível…
    E a oposição se desespera, suas mentiras contidas em palavras “em desuso” não tem eco nas cabeças desse povo maravilhoso…
    É… Plantaram e agora colhem (graças a Deus!!!).
    Nunca antes neste país houve tamanha justiça cega, surda e muda!

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