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LÁGRIMAS NO CANTEIRO

À espera da noite, a janela do carro foi invadida, em todo o seu quadro, pelo choro incontrolável de Luíza. De repente, como se fosse o vento, o choro adentra e toma conta do meu rosto, do meu corpo.

Viro-me de repente para ver de onde vem aquele vento triste, aquele som interno, bruto.

A vi agachada no meio do canteiro da avenida, um canteiro estreito de grama, um metro talvez. Entre suas lágrimas abundantes a regar aquela terra infértil, os carros apressados, dos dois lados, num vai e vem incessante. A cidade e suas máquinas alucinadas no fim do trabalho, com pressa, como uma ordem, como uma regra, como um castigo.

O rosto de Luíza sobre o ombro de sua mãe, que também agachada e encolhida no meio do canteiro da avenida, observava os carros com um olhar de quem se pergunta perplexa por que nada mais para, nada mais é sagrado, nada mais é lento. Carros e ônibus as faziam sumir do campo de visão de qualquer lado. Vum, vupt, vum, vupt.

A um metro de distância, o pai de Luíza estava em pé no canteiro a aguardar o momento em que o choro acalmasse. Ali, atônito e ansioso, acreditava que em algum momento ela pararia de soluçar e soltar aqueles grunhidos de dor interna e inadiável.

E tudo isso não demorou mais do que um segundo. Ao voltar a cabeça para o para-brisa, aponta aquela mancha de sangue na pista, bem em frente às lágrimas, como se fosse uma estrela de sangue, vermelha, com respingos por todos os lados. Passei por cima e já não vi mais nada. Apenas no retrovisor Luíza sumia rapidamente e seu choro silenciava pela distância.

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