Educação Política

mídia, economia e cultura – por Glauco Cortez

Arquivos Diários: 6 junho, 2010

OUTRAS MIL FORMAS DE MORTE ESTÃO OCULTAS NESTA VIDA, DIZ DUQUE EM MEDIDA POR MEDIDA DE WILLIAN SHAKESPEARE

“Preparai-vos resignadamente para a morte; a morte e a vida serão mais doces para vós.  Raciocinai assim com a vida: se te perco, perco uma coisa que somente os loucos querem conservar. Não passas de um sopro, exposto a todas as influências do ar que, hora após hora, deterioram esta habitação em que moras. És meramente o joguete da morte, pois procuras sempre evitá-la pela fuga e, apesar disto, corres sempre diante dela. Não és nobre, porque todas as voluptuosidades, que são teu patrimônio, são acalentadas pelas baixezas. Estás longe de ser valente, pois teme o aguilhão terno e brando de um pobre verme. O que tens de melhor em ti é o sono e que tantas vezes provocas; entretanto, temes grosseiramente a morte que não passa de um sono.

Tu não és tu mesma, pois tua existência é o resultado de milhares de grãos que saem do pó. Não és feliz, porque o que não tens, tu te esforças para adquirir e o que possuis, tu esqueces. Não és constante, pois tua natureza, segundo as fases da lua, sofre estranhas alterações. Se és rica, és pobre; pois, semelhante a um asno cujo ombro está vergado ao peso de lingotes, só carrega suas pesadas riquezas um único dia e a morte te livras dela.

Não tens amigos, pois o fruto de tuas próprias entranhas que te chama de “pai”, o mais puro de teu sangue, saído de teus próprios rins, maldiz a gota, a lepra e o catarro, que não te acabam bem depressa.  Não tens juventude nem velhice, e, por assim dizer, não passas de uma sesta depois do jantar que sonha um pouco com as duas idades;  pois toda a tua feliz juventude é passada fazendo-se velha e solicitando esmolas da paralítica velhice.

Quando, no fim, fores velha e rica, já não terás calor, sentimento, força, nem beleza, para tornares agradáveis tuas riquezas. Que te sobra ainda nisto que traz o nome de vida? Outras mil formas de mortes ainda estão ocultas nesta vida e, contudo, tememos a morte que nivela todas estas misérias.”

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