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MORO NA FILOSOFIA

EXPERIÊNCIA PESSOAL DO TEÓRICO STUART HALL MOSTRA COMO A CULTURA NOS AFETA DE MANEIRA TRAUMÁTICA

“Quando eu fiz dezessete anos, minha irmã teve um colapso nervoso. Ela começou um relacionamento com um estudante de medicina que veio de Barbados para a Jamaica. Ele era de classe média, mas era negro e meus pais não permitiam o namoro. Houve uma tremenda briga em família e ela, na verdade, recuou da situação e entrou em crise. De repente me conscientizei da contradição da cultura colonial, de como a gente sobrevive à experiência da dependência colonial, da classe e cor e de como isso pode destruir você, subjetivamente.

Estou contando esse fato porque ele foi muito importante para o meu desenvolvimento pessoal. Isso acabou para sempre com a distinção entre o ser público e o ser privado, para mim. Aprendi, em primeiro lugar, que a cultura era algo profundamente subjetivo e pessoal, e ao mesmo tempo uma estrutura em que a gente vive. Pude ver que todas essas estranhas aspirações e identificações que meus pais haviam projetado sobre nós, seus filhos, destruíram minha irmã. Ela foi a vítima, portadora das ambições contraditórias de meus pais naquela situação colonial. Desde então, nunca mais pude entender porque as pessoas achavam que essas questões estruturais não estavam ligadas ao psíquico – com emoções, identificações e sentimentos, pois para mim, essas estruturas são coisas que a gente vive. Não quero dizer apenas que elas são pessoais; elas são, mas são também institucionais e têm propriedades estruturais reais, elas te derrubam, te destroem.

Foi uma experiência muito traumática porque havia pouca ou quase nenhuma assistência psiquiátrica na Jamaica naquela época. Minha irmã passou por uma série de tratamentos com eletrochoque, feitos por um clínico geral, dos quais ela nunca se recuperou. Nunca mais saiu de casa. Ela cuidou de meu pai até ele morrer. Depois, cuidou de minha mãe até morrer. E cuidou do meu irmão, que ficou cego, até a morte dele. Foi uma verdadeira tragédia que vivi junto com ela e decidi que não podia aguentar; não conseguiria ajudá-la, embora eu soubesse o que estava errado. Eu tinha dezessete ou dezoito anos.”

(Trecho da entrevista de Stuart Hall, publicada no livro Da Diáspora, identidades e mediações culturais (Editora da UFMG), organizado por Liv Sovik)

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