Educação Política

mídia, economia e cultura – por Glauco Cortez

Arquivos Diários: 31 outubro, 2010

A MISSÃO DAS FOLHAS, RUY BELO

Ruy Belo

Da Agência Educação Política

Os poucos versos que seguem são do poeta português Ruy Belo e considerados por muitos críticos como a chave-interpretativa para toda sua extensa obra.

Basicamente, nesta poesia, Ruy Belo coloca em questão o par visível/invisível que pode ser estendido para uma associação homem/Deus, voz/silêncio, papel/poesia.

As folhas definem o vento, ou seja, o vento, elemento que não pode ser visto, passa a existir, é definido pela folha, esta sim elemento material, capaz de ser visto e tocado. A matéria define o espírito.

Da mesma forma, Deus é definido apenas pelo homem. De entidade invisível, ele passa a existir de forma concreta na crença humana. O silêncio, igualmente abstrato, ganha forma na voz do poeta. A poesia totalmente imaterial, metafórica e inteligível, faz-se notada, vista, ganha formas e sentidos na superfície de papel.

Os temas do visível e do invisível são recorrentes na obra poética de Ruy Belo, perpassada por um forte tom de religiosidade e por uma permanência do divino por meio da figura do espírito, do inteligível, traduzido por uma espécie de sopro.

A poesia de Ruy Belo também é a poesia da alteridade, da relação com o outro, que pode ou não ser visto. Essa relação com o outro está presente nestes versos aqui colocados na forma da relação entre a folha e o vento. Desenham-se sucessivos pares de equivalências em versos de uma beleza singular que dizem muito, quando dizem pouco!

Folhas/ a guardar o eterno / a dizer o que amas/ a traduzir o belo

 

A MISSÃO DAS FOLHAS

Naquela tarde quebrada
contra o meu ouvido atento
eu soube que a missão das folhas
é definir o vento

 

 

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Carreteis, 1959

Da Agência Educação Política

A exposição Iberê Camargo, Os Meandros da Memória, em cartaz na Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre, até o dia 3 de abril de 2011, tem algumas peculiaridades que fazem dela especial. A começar pela sensibilidade de seu curador, o filósofo, sociólogo e diretor da Associação Internacional dos Críticos de Arte, Jacques Leenhardt. Jacques decidiu fazer das lembranças de Iberê Camargo o grande fio condutor das 52 obras selecionadas para a exposição.

Na mais perfeita associação entre a obra de arte e o ser do artista, entre memória e criação, entre imaginação e realização, Iberê traduziu a sua vida, deixando cair um pouco o peso de seu passado, bem como os fantasmas de algumas lembranças, em cada uma de suas obras plásticas.

O movimento realizado pelo pintor gaúcho ao fazer da sua obra uma espécie de canal por onde escoava parte do que ia em sua própria alma, pode ser relacionado com o que diz o filósofo francês Gaston Bachelard ao relacionar alma e poesia. “O objeto poético, devidamente dinamizado por um nome cheio de ecos, será, a nosso ver, um bom condutor do psiquismo imaginante” (BACHELARD, 1990).

Gasômetro, 1942

Parafraseando Bachelard, a obra plástica, sem dúvida alguma, parece ser uma boa condutora do psiquismo imaginante de Iberê. A exposição na Fundação Iberê Camargo percebeu isso e optou mais pelos desenhos e gravuras do que pelas pinturas do artista gaúcho, justamente pelo fato de que os desenhos e gravuras parecem revelar mais o eu do artista e trazem uma visão total da obra que não se vê nas pinturas, segundo o curador Jacques.

Modelo e Manequim, 1986

Como imagens recorrentes na obra de Iberê Camargo, na exposição também pode ser notada a presença constante dos carretéis que, de claramente percebidos, passam a protagonizar uma existência mais velada que depois se converte em imagens de ciclistas e equilibristas. Sobre essa constante em sua obra que os críticos não sabem claramente de onde vem, Iberê declarou certa vez: “Sou um andante. Carrego comigo o fardo do meu passado. Minha bagagem são os meus sonhos. Como meus ciclistas, cruzo desertos e busco horizontes que recuam e se apagam nas brumas da incerteza”.

Nesta frase em que o pintor gaúcho deixar ver um pouco de si mesmo, fica claro um outro talento do artista: o de pintar belas cenas por meio do uso exato e limpo da palavra. Em vários escritos de Iberê, fica evidente todo seu talento literário que estabelece um diálogo poético com as gravuras, desenhos e telas. Quem tiver o prazer de visitar a exposição será presenteado com trechos de intensa e rara sensibilidade, como o seguinte:
“Na memória, o antigo permanece. No passar vertiginoso do tempo, o instante quer ficar. O pintor é o mágico que imobiliza o tempo”.

Sem título, 1966

Quando: até 3 de abril de 2011
Horários: terça a domingo, das 12h às 19h; quinta, das 12h às 21h
Onde: Fundação Iberê Camargo, Porto Alegre
Entrada Franca
Mais informações: http://www.iberecamargo.org.br

Vi no site da Revista Cult

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