Educação Política

mídia, economia e cultura – por Glauco Cortez

MILÍCIA E DIREITOS HUMANOS SÃO ALGUNS DOS INGREDIENTES DE UM TROPA DE ELITE QUE INTERROGA: QUEM SUSTENTA O SISTEMA?

Explosivo! Não há outra palavra que defina melhor Tropa de Elite 2. O filme é uma combinação de fatores que levam ao sucesso. Não há como não sair da sala de cinema sem dizer algo do tipo “faz tempo que não vejo um filme tão bom assim”! Tropa de Elite 2 não é apenas bom, é um retrato urgente, bem feito e essencial da realidade social do nosso país.

Estrelado por Wagner Moura, que vive uma de suas melhores atuações, e muito bem dirigido por José Padilha, o filme estremece logo nas primeiras batidas da música tema deste sucesso de público e bilheteria que, felizmente, não fica só no sucesso comercial. De vez em quando, aparece na indústria cinematográfica esse tipo peculiar de filme que lota salas de cinema com todos os tipos de pessoas, de todas as classes sociais, de todos as ideologias e idades e que bate recordes de arrecadação sem precisar sacrificar o conteúdo, a relevância social da obra.

O filme é, de fato, social e humano do início ao fim sem cair em um discurso politicamente correto. As cenas rápidas e bem enquadradas, a narração em off bastante próxima e precisa do Coronel Nascimento, a trilha sonora que pulsa e desperta, os tiros que explodem no fundo da tela de cinema e de repente caem mudos na alma de quem os observa, a combinação de fatos sociais e políticos externos à narrativa dos dramas pessoais do personagem principal unidos pelo mesmo elo da violência, tudo isso faz desta sequência nada menos do que imperdível.

Tropa de Elite 2 é ainda melhor que o primeiro. Neste, ainda havia a novidade, a exposição crua da violência nas favelas, no coração dos morros, na corrupção dos homens. Agora, passada a primeira impressão, a sensação é que os temas sociais puderam ser ainda mais aprofundados e o filme ganhou em relevância política e social sem ter que apelar para cenas e falas julgadas demasiado autoritárias na primeira edição. Parece que agora há mais história pra contar.

Não deixe de ver!

Prova disso está no fato de que Tropa de Elite 2 disseca de forma muito mais sutil e inteligente do que o primeiro tudo aquilo que escorre pelas vielas podres do poder público brasileiro, ou seja, o filme não expõe apenas a polícia carioca, seus vícios, sua corrupção, e sim todo um sistema de poder e interesses que sai das delegacias nas favelas e vai até os gabinetes do poder no Estado e em Brasília. Daí a abrangência da temática, o sucesso do enredo.

São vários os temas deste Tropa de Elite 2. Logo nas cenas iniciais, o filme mostra a realidade de um presídio de segurança máxima no Brasil, a tensão dos interesses, a iminência da morte, o desrespeito à vida humana. Surge uma camiseta com escritos em defesa aos direitos humanos manchada de sangue e a partir daí o filme parece mostrar por trás de cada ato de corrupção praticado pela polícia e pelo poder público como quem sempre paga a conta são os inocentes ou, simplesmente, o homem!

Depois, o enredo vai se desenrolando de forma muito natural e bem construída até chegar na formação das milícias nas favelas cariocas. O espectador acompanha tudo, desde a formação dessas verdadeiras máfias que, como bem diz Fraga, o intelectual de esquerda do filme, assim chamado pelo Capitão Nascimento, servem apenas para defender os moradores delas mesmas! É impressionante ver como o bem aparente apenas é o melhor caminho para fazer o mal ou esconder a sujeira debaixo do tapete.

O filme acerta ao dissecar a milícia e sua forma de organização, pois, se pensarmos bem, grande parte do poder público brasileiro segue a mesma lógica de funcionamento destas organizações. Liberta enquanto na verdade sufoca, protege enquanto na verdade condena, faz festa enquanto na verdade faz cofre! Além disso, ao falar das milícias, o filme ironiza quase tudo que vai pela sociedade e faz parte dos jogos de poder.

Os políticos são expostos em todo o ridículo de sua cara de pau e falsidade. A mídia aparece como a única coisa que o poder respeita e, ao mesmo tempo como um vil e desumano instrumento desse mesmo poder. Dispensa comentários a cena em que um editor, depois de ter uma jornalista assassinada pelos policiais que comandavam uma milícia, simplesmente se nega a noticiar o fato e dá como justificativa estar a jornalista apenas cumprindo o seu trabalho e ser o jornal dependente do governo. Uma cena rápida que resume a situação da velha mídia brasileira. Partidária e covarde.

E as críticas à mídia não param por aí. Elas se estendem a um apresentador de um típico programa sensacionalista que de tão ridículo e exagerado contribui para dar o tom humorístico do filme. O apresentador faz rir enquanto se pensa nos modelos que formam a população brasileira por meio da televisão. Modelos prontos, sem nenhum conteúdo, que gritam por justiça enquanto andam em cima de corpos queimados.

No tempo em que  os dramas de desenrolam, as armas disparam e as mortes se sucedem, somos apresentados a um Capitão Nascimento que expulso do Bope passa a integrar o serviço de inteligência do sistema de segurança do Rio de Janeiro, convive com a separação da mulher, os conflitos com o filho, a morte de um amigo, as inquietações que rondam a sua profissão, a dificuldade em se manter inteiro e honesto em meio aos escombros que restaram da polícia e da política do Rio de Janeiro e a vontade de enteder e vencer o dito “sistema”.

O filme tem vários momentos fortes, mas, sem dúvida alguma, um dos mais emocionantes é o depoimento de Nascimento na CPI aberta por Fraga, que torna-se deputado, para investigar a corrupção nas milícias cariocas. O depoimento, que acontece ao mesmo tempo em que seu filho encontra-se no hospital vítima de uma bala de pistola, como ele mesmo diz, é o momento em que ele se interroga diante da pergunta do filho “pai, por que você mata as pessoas”? e também se interroga, interrogando a todos nós, “quem sustenta todo o sistema”?

Para a primeira pergunta ele diz não ter resposta. O que fala é apenas o silêncio mudo de alguém que sofre e sonha. Para a segunda, ao certo existe uma resposta, embora essa existência não seja sinal de que a resposta realmente fale e transponha o silêncio que a mascara enquando a mudança demora.

Mudos ou explodidos, é urgente assistir a este belo e forte filme. Fazendo juz ao nome deste espaço de comunicação, ele não deixa de ser uma Educação Política em todos os níveis e sentidos!

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