Educação Política

mídia, economia e cultura – por Glauco Cortez

Arquivos Diários: 28 novembro, 2010

AÇÃO DA POLÍCIA NOS MORROS CARIOCAS PODE RESULTAR EM CHACINA E NÃO RESOLVE PROBLEMA DA SEGURANÇA NO ESTADO

Forças de segurança após ocupação no Complexo do Alemão, e agora policial?

O carioca Paulo Lins, autor do livro Cidade de Deus, em matéria publicada no site da Rede Brasil Atual, demonstrou preocupação com a ação da polícia nos morros do Rio de Janeiro. Enquanto o que se vê na maioria dos meios de comunicação e noticiários é um aplauso unânime à ação da polícia e das forças armadas por ocasião da ocupação do Complexo do Alemão, o escritor, deixando ver toda sua sensibilidade e preocupação social, pensa no que virá depois da ocupação e o que ele imagina não é nada digno de comemoração.

Como já noticiado em post recente aqui no Educação Política, o problema da segurança no Rio de Janeiro não se resume a tanques da marinha, a operações bem sucedidas, a disparos e apreensões de armas, a prisões ou à morte de traficantes. Esse tipo de ação deve sim existir, mas não se pode esquecer de que ela é meramente repressiva e usa da mesma violência que fez parte da vida de muitos jovens que hoje são chefes do tráfico, roubam, matam e vivem como se a vida se resumisse a isso: matar ou morrer.

De fato, a preocupação de Lins faz todo sentido. Após a ‘comemorada’ ocupação do Complexo de Alemão, há que se pensar na forma como esta se deu. O importante é não fazer valer a segurança às custas de um verdadeiro massacre que apenas derrama sangue e serve para alimentar a raiva e o medo nas gerações seguintes. Como lembra Lins, prender é importante, mas a polícia deve se concentrar apenas em fazê-lo, tirando os traficantes de circulação.

E por falar em gerações seguintes, elas certamente virão. Esta pode ser enterrada, diluída, despedaçada, aprisionada, mas enquanto o morro estiver tão longe das oportunidades, ele permanecerá bastante próximo do crime e da violência, o que fará das próximas gerações um retrato não muito diferente da atual.

Pode parecer um discurso idealista e romântico, há os que simplesmente comemoram a morte, a ação da polícia, mas há algo além disso. Por mais que todos queiram paz, é preciso entender que a verdadeira paz não é vermelha feito sangue e sim branca feito giz ou uma simples folha de papel.

Veja trecho do texto publicado no site da Rede Brasil Atual:

São Paulo – “A polícia ocupou as favelas, monitorou a transferência dos criminosos para o Complexo do Alemão, e agora vão matar todo mundo”, prevê o escritor carioca Paulo Lins, autor de Cidade de Deus. Para ele, os movimentos da polícia conduzem a situação para uma “grande chacina”. Para Lins, os 96 incêndios em veículos e arrastões desde domingo (21) no Rio de Janeiro, atribuídos ao crime organizado, “deram o motivo” para o que ele chama de massacre. O maior problema é que isso pode não resolver o problema da segurança no Rio.

“No governo de Sérgio Cabral, desde o início, mata-se muita gente. E no Brasil não tem pena de morte, essa é a minha ressalva”, afirma. “Não acho que vão pegar esses criminosos, prender, apresentar a sociedade, levar para presídio e recuperar esses homens; eles vão matar”, prevê em entrevista à Rede Brasil Atual. O escritor revela ter ouvido relatos de moradores da comunidade de Cidade de Deus, na zona oeste da cidade, onde Lins cresceu, de execuções sumárias pela polícia de pessoas já rendidas. “Eu já vi isso a minha vida toda. Vai acontecer uma ‘bela chacina’ e gerar mais ódio”, lamenta.

O escritor se diz favorável à ocupação das comunidades e à política de instalação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), mas condena a forma como foram implantadas. “A ocupação em si é louvável, tem de ocupar, prender os bandidos, tirá-los de circulação, até porque eles aliciam outros jovens, servem de exemplo. Tirá-los de circulação é boa ideia, mas tem que prender, não matar”, diz. (Texto Completo)

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A MEDICINA MÍSTICA E GENIAL DE PARACELSO

"Seus insondáveis abismos ainda representam para nós uma grande problemática", Jung

Em O espírito na arte e na ciência, o psiquiatra suíço C. G. Jung dedica os dois primeiros capítulos para falar de uma personalidade da renascença tão estranha quanto genial. Partindo de sua histíria de vida e resvalando em alguns de seus traumas e ausências da infância, Jung revela um médico que desde o início esteve entre na fronteira entre a tradição e o espírito revolucionário.

De um lado, Paracelso notabilizou-se por suas críticas à medicina acadêmica, tal como era ensinada nos limites da universidade, distante das coisas do mundo e da natureza, do céu e da terra. De outro, permanecia ligado a uma tradição religiosa que, por mais que ele seguisse o caminho da matéria, continuava a sondá-lo.

No entanto, o médico entrou para a história como aquele que denunciava um tipo de medicina bastante racional e engessada. Paracelso defendia, dentre outras coisas, que o médico para sê-lo de fato, antes de qualquer coisa, deveria também ser um alquimista, astrólogo e filósofo.

Alquimista por que o que acontecia aos metais era o mesmo que acontecia aos seres humanos. Daí observar o mundo exterior, único capaz de revelar o interior. Astrólogo pois, segundo ele, há um céu dentro de cada um de nós e o ritmo da vida acompanha e é ditado, em última instância, pelo ritmo dos astros. Filósofo para pensar o objeto na sua dimensão científica. Na época, a concepção de filosofia era diferente da concepção atual. A filosofia se colocava muito mais como um viver do que propriamente um refletir sobre.

Mesmo com toda complexidade do seu pensamento, bastante hermético e obscuro, Paracelso revoluciou a arte da medicina, envolvendo-a em um atmosfera mística, enfeitiçada que, segundo ele, seria a única forma de revelar as doenças do corpo e da alma.

“Qual é, então, a arte médica? Deveria saber o que é proveitoso e o que é prejudicial às coisas intangíveis (imperceptíveis), aos beluis marinis, aos peixes; o que é agradável e desagradável, saudável e insalubre aos animais: essas são as artes referentes às coisas naturais. O que mais? As benzeduras e sua força, por que e para que atuam assim: o que é melosina, o que é syrena, o que é permutatio, transplantation e transmutation e como podem ser plenamente compreendidos: o que está acima da natureza, o que está acima da espécie, o que está acima da vida, o que é o visível e o invisível, o que produz a doçura e a amargura, o que é o paladar, o que é a morte, o que é útil ao pescador, o que deve saber um seleiro, um curtidor, um tintureiro, um ferreiro, um carpinteiro; o que pertence à cozinha, à adega e ao jardim; o que diz respeito ao tempo; o que sabe um caçador, o que sabe um montanhista; o que convem a um itinerante, o que convém a um sedentário; o que se requer para a guerra, o que faz a paz, o que faz com que alguns sejam clérigos e outros leigos, o que produz cada profissão, o que é cada uma das profissões, o que é Deus, satanás, o que é veneno, o que é antídoto para o veneno; o que há na mulher, o que há no homem, qual a diferença entre mulheres e donzelas, entre o amarelo e o pálido, entre o branco e o preto, entre o vermelho e o magenta; em todas as coisas, porque uma cor aqui e outra acolá, por que curto, por que comprido, por que sucesso, por que fracasso: e o que significa este conhecimento em todas as coisas […] Onde não existir amor não haverá arte”.
C. G. Jung, em O espírito na arte e na ciência, citando Paracelso

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