Educação Política

mídia, economia e cultura – por Glauco Cortez

A MEDICINA MÍSTICA E GENIAL DE PARACELSO

"Seus insondáveis abismos ainda representam para nós uma grande problemática", Jung

Em O espírito na arte e na ciência, o psiquiatra suíço C. G. Jung dedica os dois primeiros capítulos para falar de uma personalidade da renascença tão estranha quanto genial. Partindo de sua histíria de vida e resvalando em alguns de seus traumas e ausências da infância, Jung revela um médico que desde o início esteve entre na fronteira entre a tradição e o espírito revolucionário.

De um lado, Paracelso notabilizou-se por suas críticas à medicina acadêmica, tal como era ensinada nos limites da universidade, distante das coisas do mundo e da natureza, do céu e da terra. De outro, permanecia ligado a uma tradição religiosa que, por mais que ele seguisse o caminho da matéria, continuava a sondá-lo.

No entanto, o médico entrou para a história como aquele que denunciava um tipo de medicina bastante racional e engessada. Paracelso defendia, dentre outras coisas, que o médico para sê-lo de fato, antes de qualquer coisa, deveria também ser um alquimista, astrólogo e filósofo.

Alquimista por que o que acontecia aos metais era o mesmo que acontecia aos seres humanos. Daí observar o mundo exterior, único capaz de revelar o interior. Astrólogo pois, segundo ele, há um céu dentro de cada um de nós e o ritmo da vida acompanha e é ditado, em última instância, pelo ritmo dos astros. Filósofo para pensar o objeto na sua dimensão científica. Na época, a concepção de filosofia era diferente da concepção atual. A filosofia se colocava muito mais como um viver do que propriamente um refletir sobre.

Mesmo com toda complexidade do seu pensamento, bastante hermético e obscuro, Paracelso revoluciou a arte da medicina, envolvendo-a em um atmosfera mística, enfeitiçada que, segundo ele, seria a única forma de revelar as doenças do corpo e da alma.

“Qual é, então, a arte médica? Deveria saber o que é proveitoso e o que é prejudicial às coisas intangíveis (imperceptíveis), aos beluis marinis, aos peixes; o que é agradável e desagradável, saudável e insalubre aos animais: essas são as artes referentes às coisas naturais. O que mais? As benzeduras e sua força, por que e para que atuam assim: o que é melosina, o que é syrena, o que é permutatio, transplantation e transmutation e como podem ser plenamente compreendidos: o que está acima da natureza, o que está acima da espécie, o que está acima da vida, o que é o visível e o invisível, o que produz a doçura e a amargura, o que é o paladar, o que é a morte, o que é útil ao pescador, o que deve saber um seleiro, um curtidor, um tintureiro, um ferreiro, um carpinteiro; o que pertence à cozinha, à adega e ao jardim; o que diz respeito ao tempo; o que sabe um caçador, o que sabe um montanhista; o que convem a um itinerante, o que convém a um sedentário; o que se requer para a guerra, o que faz a paz, o que faz com que alguns sejam clérigos e outros leigos, o que produz cada profissão, o que é cada uma das profissões, o que é Deus, satanás, o que é veneno, o que é antídoto para o veneno; o que há na mulher, o que há no homem, qual a diferença entre mulheres e donzelas, entre o amarelo e o pálido, entre o branco e o preto, entre o vermelho e o magenta; em todas as coisas, porque uma cor aqui e outra acolá, por que curto, por que comprido, por que sucesso, por que fracasso: e o que significa este conhecimento em todas as coisas […] Onde não existir amor não haverá arte”.
C. G. Jung, em O espírito na arte e na ciência, citando Paracelso

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