Educação Política

mídia, economia e cultura – por Glauco Cortez

QUESTIONADOR, IRREVERENTE, IRÔNICO, UM POUCO DA ARTE MULTIMÍDIA DE PAULO BRUSCKY


As obras do artista pernambucano Paulo Bruscky são uma fascinante viagem em todos os sentidos. Seja pela forma, pela criatividade, originalidade, pelo tom explosivo, barulhento e, ao mesmo tempo, reflexivo, seja pelo caráter social e pela facilidade com que elas transitam pelas mais diferentes mídias e plataformas. Seus trabalhos proporcionam uma experiência digna das obras de arte. Experiência que se dá pela surpresa, pelo choque ou pelo incrível movimento de uma arte que diz muito em pouco e também sabe dizer muito em muito, sempre inspirada em um transbordamento de mídias, palavra de ordem quando se fala em Bruscky.

É com elementos presentes no nosso cotidiano, em um jogo de palavras, sentido e percepção que o artista cria suas obras de arte. Ele não hesita em plantar no meio do festival de letrinhas que compõem os tradicionais classificados de todos os dias, algumas palavras que fogem do esperado para classificados. Palavras que não ofertam emprego, mas distribuem alma, reflexão, tempo…

Da mesma forma, ele desafia os eletroencefalogramas, subverte a lógica dessas incríveis fotografias do que vai pelo interior de nossa mente e traz imagens coloridas, livres, movimentadas pelo contínuo e vertiginoso fluxo das obras de arte e de seus criadores. Faz da palavra poesia algo próximo de azia, uma poazia, e ainda usa a imagem de um Eno para aliviar a má digestão da palavra mal formalmente construída. Ao mesmo tempo, a construção pode dar a entender uma espécie de reclamação diante da azia, algo do tipo (pô azia!).


E as imagens do cotidiano vão ainda mais longe. Bruscky propõe averiguar se o conteúdo de uma amostra de certo produto químico é de fato arte. Afinal, não seria a química uma forma de arte? Com elementos muito bem interligados em uma cadeia de inspiração e fugacidade? E quanto à validade da arte? Onde está sua firma reconhecida em cartório com aqueles milhares de carimbos, etiquetas, assinaturas, rúbricas feitas a esmo para dar a impressão de letra documentada, das vestes robustas da burocracia infernal. Pois eis que nosso artista fez ter a arte também sua firma reconhecida, com muitos carimbos para não restar dúvida. É o tom irônico, irreverente e questionador de seu trabalho.

As criações continuam. Lembra de quando você estava esperando pelo metrô, cercado por todas aquelas pessoas que se espremem despesperadas? E, de repente, os olhos pousaram em um desses milhares de avisos impressos no chão: “faça isso, não faça aquilo, tome cuidado com isso, preste atenção naquilo”. Pois é, no metrô geralmente o que se lê é “tome cuidado com o vão entre o trem e a plataforma”. Nada mais sugestino para um artista como Paulo vir e dizer: “Tome cuidado com o vão entre o trem e a palavra”

Por essas e por outras, Paulo Bruscky é um artista incrível, dos modernos, com tendência pop, ele é um dos que conseguem de forma mais natural e bem sucedida chamar a atenção pela ousadia e pela infinita criativdade. A modernidade, com toda sua rapidez, seu frenesi, seus dramas e suas vontades, encontra as melhores respostas para seus mais profundos questionamentos em atitudes artísticas como a de Bruscky. É preciso fazer barulho, é preciso fazer silêncio dentro do barulho!

Para quem curtiu o trabalho do artista pernambucano, uma mostra com 15 obras suas entre desenhos, gravuras e instalações, está em cartaz na Escola de Artes Visuais do Parque Lage no Rio de Janeiro até 20 de fevereiro de 2011. E para os que acharem longe, o Educação Política deixa aqui um pouco do trabalho desse talentoso artista.

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3 Respostas para “QUESTIONADOR, IRREVERENTE, IRÔNICO, UM POUCO DA ARTE MULTIMÍDIA DE PAULO BRUSCKY

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