Educação Política

mídia, economia e cultura – por Glauco Cortez

A ESBÓRNIA DAS PAPILAS GUSTATIVAS: SOCIEDADE VIVE EM EXCESSO DE SABOR E EM EXCESSO DE PESO

A malhação das papilas gustativas

A sociedade contemporânea vive em contradições próprias da sua liberdade e dos excessos propiciados pelo capitalismo. Na indústria alimentícia, para alcançar o máximo de lucro, persegue-se o máximo de prazer.

Nas empresas que comercializam alimentos, de vendedores de pamonha a grandes laticínios, o desenvolvimento de pesquisa busca atingir o máximo de sabor, o máximo de utilização de todos os receptores sensitivos. Aliada à publicidade, a alimentação no mundo se transformou em um deleite do paladar, em uma esbórnia das papilas gustativas.

Os alimentos em geral são saborosíssimos: o iogurte é delicioso, o presunto é incomparável, a pizza é inigualável, o biscoito é uma loucura, o chocolate é um vício, o sorvete, o arroz, o feijão e até a batata….. Tudo é irresistível à racionalidade. A toda hora as pessoas são requisitadas a não pensar, mas a desfrutar das delícias insuperáveis da indústria de alimentos. As pamonhas são deliciosas, as de Piracicaba. Nada escapa ao insuperável sabor.

Atualmente, o mundo dos alimentos é uma indústria que não para de crescer e se transformar. Há uma febre de programas de culinária na televisão, os chefes fazem faculdade, universidades, pós-graduação. As receitas são de dar água na boca, todas, sem exceção. Há competições para saber quem faz o prato mais saboroso, mais delicioso, mais inigualável.

Os restaurantes trabalham com os melhores ingredientes e melhores receitas para que o cliente possa se deliciar a cada garfada, colherada, pratada. É possível comer de tudo e de todos os cantos do mundo: comida italiana, australiana, japonesa, chinesa, tailandesa, chilena, mexicana. Todas com temperos e aromas exclusivos, segredos guardados, etc etc.

Mas não é só para os endinheirados. O sabor pode estar também na sua casa, com um caldo especial, um pozinho amoroso, um aroma exótico. É só colocar e fazer sucesso com o namorado, com a namorada, com os amigos, o marido, a esposa. O excesso de sabor foi democratizado.

Nunca na história da humanidade o paladar esteve em tamanho deleite, saboreando uma infinidade de experiências de tempos remotos, de lugares distantes. E é esse sabor e todas essas delícias que nos ajudam a construir uma sociedade de obesos, gordos e acima do peso.
Na sociedade da esbórnia das papilas gustativas, não se fartar dos sabores é ser xiita, radical, chato, obsessivo. As dietas alimentares se transformaram nas condutas mais difíceis de se seguir, são um peso, um fardo, uma penitência. É impossível não se deixar levar por tentações do prazer das receitas.

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5 Respostas para “A ESBÓRNIA DAS PAPILAS GUSTATIVAS: SOCIEDADE VIVE EM EXCESSO DE SABOR E EM EXCESSO DE PESO

  1. Carol Bertho 9 maio, 2011 às 7:21 am

    Glauco, terei que discordar um pouco de você neste post. Como filha de padeiro e confeiteira e namorada de um chef de cozinha pós-graduado na área acho que a boa alimentação e o prazer em comer não estão ligados à obesidade. Talvez eu seja a prova viva disso: 28 anos de “esbórnia das papilar gustativas”, 28 anos de corpo magro e saudável. E não é genética privilegiada: aprender a comer de tudo também é aprender a comer um pouco de tudo. Se os obesos soubessem aproveitar o prazer da comida em sua totalidade talvez fossem magros. É o contrário do que você diz: a boa cozinha preconiza o uso dos ingredientes frescos, o equilíbrio nas refeições, a negação do que vem industrializado e pronto, o aproveitamento máximo do sabor natural. Nenhum bom chef que se preze se satisfaz em simplesmente encher a barriga de seus clientes e amigos. Eles querem promover delírios gastronômicos – não raro em porções ínfimas, que revelam ainda mais o seu talento. Preparar um bom prato requer tempo, paciência, estudo. Acho que sua crítica está diretamente ligada à indústria alimentícia, que nem sempre se preocupa com a saúde do consumidor. Mas preciso ser justa: para mim, a culinária é uma forma de arte. O chef/artista escolhe as notas de sua composição, as cores de suas tintas, o material de sua arte (os ingredientes) e através da sua tela, do seu palco, da sua composição (o prato) expressa suas emoções, sua poesia, conta histórias e busca, da melhor maneira possível, atingir as emoções do seu público, almejando sempre a fruição máxima.

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    • glaucocortez 9 maio, 2011 às 1:10 pm

      Sem dúvida Carol,
      A questão é macro: indústria alimentícia e publicidade.
      Obrigado pelo belo e preciso comentário.
      Mas, vale lembrar, os primeiros 28 anos são sempre mais fáceis.
      Glauco

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