Educação Política

mídia, economia e cultura – por Glauco Cortez

Arquivos Diários: 17 julho, 2011

ANTONIO CANDIDO: O SOCIALISMO É UMA DOUTRINA TRIUNFANTE E A LITERATURA, UM DIREITO DE TODO E QUALQUER CIDADÃO

"A verdadeira miragem não é a do lucro infinito, é do bem-estar infinito".

De temperamento conservador, atitudes liberais e ideias socialistas. Assim, o crítico literário Antonio Candido fala sobre si mesmo. Apaixonado pela literatura e pela sociedade, o professor aposentado da Universidade de São Paulo (USP), sempre quis entender como os elementos da realidade social podem se transformar em estrutura estética, considerando, acima de tudo, a autonomia da própria obra, mas não esquecendo que esta, muitas vezes, responde ao seu tempo e à subjetividade de quem lhe deu forma.

Um intelectual que diz não ter muito apreço pelas obras novas, assim como também não tem muito apreço por coisas novas como email e computador. Para ele, telefone e máquina de escrever já estão de bom tamanho. Acima de tudo, um intelectual erudito, mas que se faz conhecer e seduz pelos textos escritos em linguagem simples, acessível a todos. Uma forma do seu pensamento não se restringir a este nicho ou outro, e sim, de fazer-se um bem comum.

Bem comum também deveria ser a literatura na sua concepção. E não é difícil que as pessoas entendam a”grande literatura” e a compartilhem em seu cotidiano. O povo tem direito à literatura e entende a literatura, ele diz, basta saber explicar, fazer chegar e utilizar uma linguagem comum.

Socialista convicto, Antonio Candido vê o socialismo como doutrina triunfante no sentido de que a sua busca pela igualdade é uma das principais bandeiras de luta em pleno séc XXI e, muito do que os trabalhadores conseguiram até hoje, está nas mensagens mais genuínas da ideologia pensada por Marx. Definitivamente, ele não vê nada de bom na exploração e no lucro sem medida do sistema capitalista descartável e criador de necessidades cumulativas e irreversíveis; e diz que se o dever da sua geração era político, o da sociedade atual é ter saudade!

Veja trecho de entrevista concedida por Antonio Candido ao Brasil de Fato:

“O socialismo é uma doutrina triunfante”
Aos 93 anos, Antonio Candido explica a sua concepção de socialismo, fala sobre literatura e revela não se interessar por novas obras
Por Joana Tavares

Crítico literário, professor, sociólogo, militante. Um adjetivo sozinho não consegue definir a importância de Antonio Candido para o Brasil. Considerado um dos principais intelectuais do país, ele mantém a postura socialista, a cordialidade, a elegância, o senso de humor, o otimismo. Antes de começar nossa entrevista, ele diz que viveu praticamente todo o conturbado século 20. E participou ativamente dele, escrevendo, debatendo, indo a manifestações, ajudando a dar lucidez, clareza e humanidade a toda uma geração de alunos, militantes sociais, leitores e escritores.

Tão bom de prosa como de escrita, ele fala sobre seu método de análise literária, dos livros de que gosta, da sua infância, do começo da sua militância, da televisão, do MST, da sua crença profunda no socialismo como uma doutrina triunfante. “O que se pensa que é a face humana do capitalismo é o que o socialismo arrancou dele”, afirma.

Brasil de Fato – Nos seus textos é perceptível a intenção de ser entendido. Apesar de muito erudito, sua escrita é simples. Por que esse esforço de ser sempre claro?

Antonio Candido – Acho que a clareza é um respeito pelo próximo, um respeito pelo leitor. Sempre achei, eu e alguns colegas, que, quando se trata de ciências humanas, apesar de serem chamadas de ciências, são ligadas à nossa humanidade, de maneira que não deve haver jargão científico. Posso dizer o que tenho para dizer nas humanidades com a linguagem comum. Já no estudo das ciências humanas eu preconizava isso. Qualquer atividade que não seja estritamente técnica, acho que a clareza é necessária inclusive para pode divulgar a mensagem, a mensagem deixar de ser um privilégio e se tornar um bem comum.

O seu método de análise da literatura parte da cultura para a realidade social e volta para a cultura e para o texto. Como o senhor explicaria esse método?

Uma coisa que sempre me preocupou muito é que os teóricos da literatura dizem: é preciso fazer isso, mas não fazem. Tenho muita influência marxista – não me considero marxista – mas tenho muita influência marxista na minha formação e também muita influência da chamada escola sociológica francesa, que geralmente era formada por socialistas. Parti do seguinte princípio: quero aproveitar meu conhecimento sociológico para ver como isso poderia contribuir para conhecer o íntimo de uma obra literária. No começo eu era um pouco sectário, politizava um pouco demais minha atividade. Depois entrei em contato com um movimento literário norte-americano, a nova crítica, conhecido como new criticism. E aí foi um ovo de colombo: a obra de arte pode depender do que for, da personalidade do autor, da classe social dele, da situação econômica, do momento histórico, mas quando ela é realizada, ela é ela. Ela tem sua própria individualidade. Então a primeira coisa que é preciso fazer é estudar a própria obra. Isso ficou na minha cabeça. Mas eu também não queria abrir mão, dada a minha formação, do social. Importante então é o seguinte: reconhecer que a obra é autônoma, mas que foi formada por coisas que vieram de fora dela, por influências da sociedade, da ideologia do tempo, do autor. Não é dizer: a sociedade é assim, portanto a obra é assim. O importante é: quais são os elementos da realidade social que se transformaram em estrutura estética. Me dediquei muito a isso, tenho um livro chamado “Literatura e sociedade” que analisa isso. Fiz um esforço grande para respeitar a realidade estética da obra e sua ligação com a realidade. Há certas obras em que não faz sentido pesquisar o vínculo social porque ela é pura estrutura verbal. Há outras em que o social é tão presente – como “O cortiço” [de Aluísio Azevedo] – que é impossível analisar a obra sem a carga social. Depois de mais maduro minha conclusão foi muito óbvia: o crítico tem que proceder conforme a natureza de cada obra que ele analisa. Há obras que pedem um método psicológico, eu uso; outras pedem estudo do vocabulário, a classe social do autor; uso. Talvez eu seja aquilo que os marxistas xingam muito que é ser eclético. Talvez eu seja um pouco eclético, confesso. Isso me permite tratar de um número muito variado de obras. (Texto completo)

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