Educação Política

mídia, economia e cultura – por Glauco Cortez

QUANDO SENTIDOS E DESEJOS VIRAM MERCADORIA: 1,99 UM SUPERMERCADO QUE VENDE PALAVRAS

As tradicionais lojas de 1,99 vendem inúmeros produtos, nem sempre por 1,99, mas por valores relativamente mais baixos do que encontramos em supermercados ou lojas tradicionais. Em uma loja de 1,99 há um pouco de tudo. Geralmente, a porta de entrada é pequena, estreita, mas, à medida que os passos avançam, os corredores se multiplicam, as entradas formam-se umas à partir das outras, desenha-se um labirinto de consumo, variedade, onde cabe um pouco de tudo e onde se tem a ilusão de ali encontrar tudo.

A descrição de uma loja de 1,99 talvez se pareça muito com o retrato do mundo contemporâneo. Um lugar que, à primeira vista, parece simples, dominável, mas que depois vai se multiplicando, abrindo muitos caminhos e formando um labirinto lotado de opções, abarrotado de coisas, vozes, pessoas, apelos, marcas e, de repente, vazio, sem nada.

O que falta nesse mundo? Talvez sentido? O que acreditamos ser capaz de nos dar todas as respostas e todos os sentidos? As palavras? Então, porque não um desses 1,99, cheios e misteriosos, mas, dessa vez, de palavras. Um lugar onde elas esperam nas prateleiras por mãos ávidas em tomar posse daquele sentido representado por elas, daquele desejo que elas prometem realizar, daquela memória que elas prometem clarear.

Isso mesmo um mundo claro, iluminado, branco. A mesma luz do renascimento, do iluminismo, da idade do saber, da razão e do conhecimento (obtidos por meio da palavra), em oposição a um mundo escuro, onde reinam as trevas da ignorância, a vertigem do caos. Cores formando significados, o mundo da palavra incorporando as suas múltiplas significações textuais, o homem consumindo o último reduto de sua suposta identidade.

A palavra tornando-se, de fato, um produto! Vale a pena ver os dois trechos iniciais do filme de Marcelo Masagão que, assim como grande parte de suas produções, mantém a linha de ácida crítica à sociedade atual, seus valores e opções comportamentais, sempre com um requinte estético e artístico que começa no musical e evolui para a exploração semiótica do mundo.

Em 1,99 Um supermercado que vende palavras, contrapõem-se o mundo das luzes e o mundo das palavras ao mundo da escuridão e do caos. Cabe a quem reparar, refletir se talvez não fosse o inverso, afinal, haveria claridade de saber em um mundo onde as palavras e os desejos são vendáveis? Ou, na verdade, a claridade que ele coloca seria de entorpecimento, cegueira e ilusão?

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