Educação Política

mídia, economia e cultura – por Glauco Cortez

Arquivos Diários: 7 setembro, 2011

NAS DEMOCRACIAS CONTEMPORÂNEAS, CONSCIÊNCIA DE RENDA SE TORNA MUITO MAIS IMPORTANTE DO QUE A CONSCIÊNCIA DE CLASSE

A consciência de renda e a geografia urbana

Vivemos um momento histórico e sem precedentes. Grandes países do mundo todo, de todos os continentes, estão com democracias consolidadas e em processo de consolidação. Europa, América do Norte, Oceania, América Latina, África e Ásia.

Mas essas democracias sofrem de um grande problema: a consolidação de uma “classe de poder” com o poder e os recursos econômicos da sociedade. Nessa nova classe rica há de tudo: capitalistas (da indústria, das finanças e do comércio, que são seus grandes financiadores), mas também há sindicalistas, políticos,  jornalistas,  trabalhadores, desembargadores, comunistas, socialistas etc. É a opulência da modernidade que substitui a consciência de classe, como definido pela sociologia.

A evidência dessa consolidação de uma classe rica das democracias (uma classe de poder) que traz em si essa diversidade que dificulta profundamente os caminhos utópicos em busca das transformações sociais, da diminuição da desigualdade, da consolidação de sociedades estáveis e de bem estar social para toda a população.

Apesar da boa condição econômica da Europa e dos Estados Unidos, são exatamente nesses países que se verifica pouca ou nenhuma mudança com a alternância de poder dentro das democracias. A política do direitista se difere pouco da política do esquerdista. Os comunistas ficaram ricos, os socialistas estão endinheirados, os sindicalistas estão abonados.

Há uma certa acomodação generalizada que solidifica uma dificuldade muito maior para se compreender a sociedade do que o conceito do trabalho e classes sociais. Uma cena sintomática da nova realidade foi ver  o deputado comunista Aldo Rebelo em visita ao aniversário de 80 anos de Paulo Maluf. Esse é o novo símbolo da democracia contemporânea, a civilidade das ideologias. O trabalho se torna cada vez mais inconsistente para os marxistas.

Qual a diferença estrutural entre os socialistas e os liberais da Europa? O que diferencia Obama e de Bush? Qual a diferença entre o partido trabalhista inglês e o conservador? Praticamente são as mesmas políticas. Durante as eleições de Lula se ensaiou uma discussão entre ricos e pobres. Apesar das diferenças entre os  governos de FHC e Lula não serem muito radicais, um país como o Brasil – com tamanha desigualdade – permitiu uma mudança de foco no governo Lula que deu dinamismo à sociedade. Isso fez com que durante as eleições houvesse intensa discussão sobre o pobre o o rico, que se arrefeceu após a eleição.

Essa é na verdade a consciência mais revolucionária que pode existir nas democracias representativas contemporâneas. Veja, nem aqui e nem em lugar nenhum do mundo o rico paga imposto e, se paga, paga a mesma proporção que o cidadão de classe média e pobre. Há uma interdependência mais radical e proeminente entre o grupo rico (do poder) e os pobres (sociedade)  atualmente do que a interdependência entre capital e trabalho. Faz-se necessário à sociologia o desenvolvimento de teoria marxista da renda fundada em conceitos extraídos das relaçõs sociais presentes nas democracias representativas contemporâneas. A consciência de renda parece trazer à tona as estruturas escondidas na legalidade dessas democracias.

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A SABEDORIA DE DARCUS HOWE E OS CONFLITOS EM LONDRES

A fala emocionada e forte de um imigrante londrino à respeito dos recentes conflitos na Inglaterra é capaz de produzir, em pouco tempo, inúmeros efeitos de sentido. Com uma inteligência precisa e clara percepção social, produto de sua história e experiências como imigrante, Darcus Howe mostra o outro lado dos conflitos em Londres, justamente aquele que a mídia escolheu esconder.

Enquanto a última se preocupou em mostrar o “vandalismo” que tomou conta da capital inglesa, os rebeldes que atearam fogo nas casas e a total “desordem” em que sucumbiu a cidade, Darcus fala em uma “insurreição popular” que faz parte de um específico momento histórico e acontece também em outras partes do mundo.

Quando a jornalista o acusa de ter parte nos distúrbios ou tumultos, ele responde dizendo que nunca se envolveu em desordens e sim em situações que acabam por criar certos conflitos e pede o respeito que muitos imigrantes ainda esperam de boa parte dos europeus.

Darcus promove assim um deslocamento pela palavra, o sentido do discurso da mídia desliza, uma nova versão é construída e se está diante de outras possibilidades de significação histórica, social e humana.

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