Educação Política

mídia, economia e cultura – por Glauco Cortez

OPINIÃO DOS JORNALISTAS ESTÁ SENDO INTERDITADA E SUA FUNÇÃO SOCIAL ANULADA EM GRANDE PARTE DAS REDAÇÕES BRASILEIRAS

Tempos modernos: na linha de produção da imprensa jornalista não pensa, faz

O jornalista moderno viveria um paradoxo segundo texto do jornalista Leandro Fortes cujo trecho segue abaixo. Enquanto as redações de jornais, revistas ou telejornais buscam se adaptar às novas tecnologias para não perder o bonde da velocidade e da liberdade de expressão da internet, os jornalistas são submetidos a um rígido controle de suas práticas, principalmente nas redes sociais, onde eles são proibidos de manifestar a sua opinião, isso quando o jornal não os proíbe de ter esse tipo de perfil na rede.

A crença de que o jornalista deve ser isento está assim sendo claramente distorcida e levada às últimas consequências anulando o papel político e social da profissão e convertendo os jornalistas em simples repassadores de notícia e tarefeiros de redação. O fenômeno que se desenha atualmente é tal que um bom jornalista, que acredita na sua profissão e procura fazê-la da melhor forma possível, vê-se de repente sem espaço e lugar na cada vez mais dominante lógica de mercado do jornalismo atual e sem voz para se expressar no seu cotidiano pessoal.

O curioso é ver uma imprensa que usa como pretexto a isenção do jornalista (algo a priori impossível) para sustentar a sua própria falta de isenção ou, para usar uma palavra mais adequada, a sua falta de comprometimento com a diversidade de versões e opiniões.

Veja texto de Leandro Fortes sobre o assunto publicado originalmente no blog Vi o Mundo e republicado pelo Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação:

#jornalistas interditados
Por Leandro Fortes

As relações arcaicas que ainda prevalecem nas redações brasileiras, sobretudo naquelas ancoradas nos oligopólios familiares de mídia, revelam um terrível processo de adaptação às novas tecnologias no qual, embora as empresas usufruam largamente de suas interfaces comerciais, estabeleceu-se um padrão de interdição ideológica dos jornalistas. Isso significa que a adequação de rotinas e produtos da mídia ao que há de mais moderno e inovador no mercado de informática tem, simplesmente, servido para coibir e neutralizar a natureza política da atividade jornalística no Brasil.

Baseados na falsa noção de que o jornalista deve ser isento, as grandes empresas de comunicação criaram normas internas cada vez mais rígidas para impedir a livre manifestação dos jornalistas nas redes sociais e, assim, evitar o vazamento do clima sufocante e autoritário que por muitas vezes permeia o universo trabalhista da mídia. Em suma, a opinião dos jornalistas e, por analogia, sua função crítica social, está sendo interditada.

Recentemente, a ombudsman da Folha de S.Paulo, Suzana Singer, opinou que jornalista não deveria ter Twitter pessoal. Usou como argumento o fato de que, ao tuitar algo “ofensivo”, o jornalista corre o risco de, mais para frente, ter que entrevistar o ofendido. A preocupação da ombudsman tem certa legitimidade funcional, mas é um desses absurdos sobre os quais me sinto obrigado a, de vez em quando, me debruçar, nem que seja para garantir o mínimo de dissociação entre a profissão, que tem caráter universal, e os guetos corporativos onde, desde os anos 1980, um sem número de manuais de redação passaram a ditar todo tipo de norma, inclusive comportamental, sobretudo para os repórteres.

Suzana Singer deu um exemplo prosaico, desses com enorme potencial para servir de case em cursinhos de formação de monstrinhos corporativos que pululam nas redações:

“Hoje o jornalista pode estar em um churrasco, com os amigos, e ser ofensivo com os palmeirenses porque eles ganharam o jogo de domingo. E na semana seguinte ele tem que ir entrevistar o presidente do Palmeiras. Ou seja, é uma situação muito desagradável, que poderia ter sido evitada se o repórter tivesse a postura adequada de não misturar as coisas. Não tem como ter dupla personalidade, separar a sua vida pessoal da profissional, assim como não dá para ter duas contas no twitter”.

Bom, primeiro é preciso esclarecer duas coisas, principalmente para os leitores desse blog que não são jornalistas: é possível, sim, separar a vida pessoal da profissional; e, claro, dá para ter duas contas no twitter. Essa história de que jornalista tem que ser jornalista 24 horas é a base do sistema de exploração trabalhista que obriga repórteres, em todo o Brasil, a trabalhar sem hora extra, ser incomodado nas férias e interrompido nos fins de semana, como se fossem cirurgiões de guerra. Também é responsável, na outra ponta, por estimular jornalistas que se tornam escravos de si mesmo, ao ponto de, mesmo em festas de crianças e batizados de bonecas, passarem todo tempo molestando alguma fonte infeliz que calhou de frequentar o mesmo espaço.(Texto completo)

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