Educação Política

mídia, economia e cultura – por Glauco Cortez

ENTRE A INTUIÇÃO IMEDIATA E A PACIENTE PESQUISA CULTURAL E HISTÓRICA: OS DILEMAS DE UM DOS PRINCIPAIS DESCOBRIDORES DAS RAÍZES DO BRASIL

Raízes ainda fincadas...

O peso das heranças rurais, a impossibilidade de constituição de um autêntico capitalismo e de uma burguesia modernizadora que pudesse desamarrar os laços aristocráticos. A escravidão, a falta de uma real consciência de classe, a formação do “homem cordial” destinado a manter as relações familiares e patriarcais que vai escoando na quase completa comunhão entre o público e o privado. Um país de figurantes, sem possibilidade de organização social.

Estas estão entre as primeiras descobertas do Brasil feitas por um dos principais historiadores que se debruçaram em busca da compreensão histórica de nossa terras colonizadas tropicais: Sérgio Buarque de Hollanda. Elas estão, em sua maioria, reunidas no livro Raízes do Brasil, de tom mais intuitivo e ensaístico que, ao lado de Casa-Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, e Formação do Brasil Contemporâneo, de Caio Prado Jr., integra o trio clássico de interpretações que respondem ao anseio de explicar rapidamente o Brasil pela sua história.

Apenas depois, o historiador mergulha de forma densa na pesquisa histórica paciente e meticulosa. O trabalho de escavação e “desocultação” continuava girando em torno dos temas já anunciados e ia penetrando mais fundo, sempre acreditando que as partes fariam chegar ao todo. Por isso, os detalhes que costuram os largos panos da história brasileira estão em toda obra de SBH e, por supreendentes e incrivelmente próximos, dão a ela mais um recurso de sedução e sonoridade.

Texto de Elias Thomé Saliba, publicado pela revista Carta Capital, revela alguns dos pensamentos principais e passa sutilmente pelos diferentes momentos da trajetória de SBH, reafirmando a importância de conhecê-los ambos, como forma de conhecer o Brasil de ontem e o de hoje por trás das coroas de Portugal, por trás dos vestidos das senhoras, por trás das correntes da escravidão.

Neste sentido, escreve Thomé Saliba, “seus livros continuam sendo “clássicos”, pois, afinal, são aqueles que – como na definição de Italo Calvino – “nunca terminaram de dizer o que tinham para dizer”.

No passado, a fonte para o presente
Elias Thomé Saliba

Em bem-humorada crônica de 1929, Mário de Andrade nos conta a respeito do formidável bote de um jacaré comendo um pato, numa lagoa em Belém do Pará. O ligeiro nhoque do animal era comparado àquele conhecimento rápido e imediato do mundo: “Ver pato, saber pato, desejar pato, abocanhar pato, foi tudo uma coisa só”, exclamava o escritor, maravilhado com o poder da verdadeira intuição. No final da crônica, ele lamenta, por contraste, nossa incapacidade de juntar sensação, abstração, vontade e ação, conformando-se com a lentidão do conhecimento humano. Pitoresca, a crônica resumia o dilema da geração de intelectuais e artistas modernistas: repensar o Brasil em todas as suas peculiaridades, definindo-lhe um lugar cultural no contexto dos países civilizados. Mas o caminho para compreender o País seria pela intuição imediata (tão verdadeira quanto o nhoque do jacaré) ou pesquisando pacientemente as fontes de sua cultura e história?

Esse dilema também marcou a primeira fase da trajetória intelectual do historiador Sérgio Buarque de Hollanda, cujo início se atrelou à pesquisa histórica. Até os 25 anos, atuando como jornalista, ele -voltou-se, -sobretudo, para a crítica literária. Engajado no movimento modernista, o jovem Sérgio Buarque partilhou da mesma inquietação daquela geração de intelectuais, ansiosos por compreender o Brasil. Isto implicava, de qualquer forma, um mergulho na história brasileira, para explicar rapidamente o que era o Brasil e a brasilidade. Publicado em 1936, Raízes do Brasil, o primeiro livro de SBH, integra (ao lado de Casa-Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, e Formação do Brasil Contemporâneo, de Caio Prado Jr.) o trio clássico de interpretações que, por meio do ensaio sintético, respondem ao anseio de explicar rapidamente o Brasil pela sua história.

As “raízes” do título tiveram na época dois significados. O primeiro era uma referência às estruturas mentais mais profundas que forjaram a história brasileira. O segundo, uma indicação mais sutil, ao fato de que qualquer raiz é feita para ser arrancada. Num estilo eminentemente narrativo que sempre o caracterizou, SBH reconstitui, neste livro, o peso das heranças rurais, nos aspectos sociopolíticos e culturais. As raízes brasileiras germinam no solo profundo da decadência do império português no século XVI, no qual surgem sociedades de economia frágil e capitalismo incipiente, incapazes de gerar uma burguesia modernizadora, apta a impor sua dominação sobre a aristocracia. (Texto completo)

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7 Respostas para “ENTRE A INTUIÇÃO IMEDIATA E A PACIENTE PESQUISA CULTURAL E HISTÓRICA: OS DILEMAS DE UM DOS PRINCIPAIS DESCOBRIDORES DAS RAÍZES DO BRASIL

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  3. mahjong tiles 10 outubro, 2011 às 1:21 am

    All ‘round incredibly written blog

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  7. Business Directory 21 novembro, 2011 às 6:14 pm

    Thats some illustrative read!!!

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