Educação Política

mídia, economia e cultura – por Glauco Cortez

Arquivos Diários: 23 setembro, 2011

SENSACIONAL: DEPUTADO PEDE QUE STJ SE EXPLIQUE NA CÂMARA E PODE DAR INÍCIO À CPI DA IMPUNIDADE NO JUDICIÁRIO

Justiça, a Cínica – chegou a hora da CPI

Câmara deve criar CPI da impunidade

A oposição ao governo pode estar sem rumo, mas o deputado do PSDB do Paraná, Fernando Francischini, acertou o alvo. A corrupção não é um problema do legislativo ou do executivo somente. É da sociedade como um todo e, principalmente, do poder judiciário, que anula provas de corrupção.

Segundo matéria do Estadão, o deputado pede explicação sobre a anulação de provas contra os ricos, no caso os ricos da operação Boi Barrica, que investigou o clã Sarney que controla o Maranhão há décadas. De acordo com a matéria, os ministros da 6ª Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) serão convidados (deveriam ser convocados) a debater no Congresso a decisão, tomada na semana passada, de anular provas da Operação Boi Barrica, que investiga o empresário Fernando Sarney, acusado de tráfico de influência, lavagem de dinheiro e sonegação de impostos.

O deputado pediu somente informação sobre os Sarney por uma questão política, já que o PMDB de José Sarney faz parte do governo. É hora dos deputados governistas contra-atacarem e pedirem explicações sobre outras operações da PF que foram anuladas.

É preciso de uma CPI da anulação de provas.

Os ministros do STJ precisam ser convocados a explicar não só as decisões a favor do clã maranhense, mas principalmente as operações Satigraha, Castelo de Areia e Diamante. O problema é que esses temas só viram notícia quando é contra o governo. Se um deputado pede CPI da anulação de provas da Satiagraha, não vira nem nota de rodapé na imprensa.

A Justiça Brasileira faz o que quer e toma a decisão que quer porque não tem que dar satisfação a ninguém e tem a conivência da grande mídia. Tem um ministro da mais alta corte que deu dois habeas corpus em menos de 48 horas a um banqueiro posteriormente condenado a 10 anos de prisão e ninguém ficou indignado. (Veja texto do Estadão)

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CAIXA DECIDE TIRAR DO AR PROPAGANDA NA QUAL MACHADO DE ASSIS APARECE COMO UM HOMEM “BRANCO”

O "outro" bruxo do Cosme Velho

A Caixa Econômica Federal decidiu, na sua última peça publicitária, voltar no tempo e mostrar que, entre os correntistas do banco, estava o escritor Machado de Assis, imortal da Academia Brasileira de Letras. Machado de fato tinha conta na Caixa Econômica e, olhando bem, pode-se inclusive encontrar breves e sutis registros do banco na sua obra literária.

Por exemplo, no romance Esaú e Jacó, Machado escreve referindo-se aos planos dos pais para os filhos gêmeos que estavam por nascer, “Também lhe ensinava a enriquecer depressa; e ajudá-lo-ia começando por uma caderneta na Caixa Econômica, desde o dia em que nascesse até os vinte e um anos” (p.68). O registro do banco como se percebe é breve e está ligado à narrativa, compondo apenas uma referência de espaço, lugar, no contexto da história.

Não há menção ideológica ao banco, a obra não permite depreender qualquer elogio à Caixa e, se for levada em consideração a crítica que Machado tece do início ao fim desse romance ao modelo da tradicional família patriarcal brasileira, com suas contas em bancos e planos de segurança para o futuro, pode-se chegar até a uma interpretação de que Machado nem era muito a favor de bancos (não deles em si mas do que representam), embora aí já se trate de especulação em torno de sua obra, o que não é aconselhável fazer posto que qualquer especulação ideológica em torno de uma obra literária faz com que se perca o texto em tudo aquilo que ele tem de realmente relevante e que está no próprio texto, não fora dele.

Em outros termos, Machado é um escritor completo, como poucos, como já diria Antonio Candido, e dispensa especulações. Sua obra é rica o bastante e se faz nas suas próprias invenções, dispensa as alheias. O comercial da Caixa, no entanto, pecou justamente por especular demais. Especulou em torno da figura de Machado ao retratá-lo como um branco, enquanto, na verdade, o escritor era mulato. Com isso, deu vazão a toda uma cultura de preconceito que sempre existiu e existe no Brasil até hoje, impulsinonando o velho ideal que atravessou o império, a república, e banhou o modernismo literário brasileiro, o de embranquecimento da nação em prol da construção de uma raça pura, pretensamente superior e “brasileira”.

Nada mais distante dos brasileiros. Se a Caixa quer ser o banco de todos os brasileiros, jamais poderia excluir parte de nossa constituição histórica e social, maquiando a realidade pensando que, talvez, muitos nem lembrariam que um dos maiores escritores brasileiros era sim mulato e tratava das questões raciais com a mesma sutileza de sempre.

A última especulação da Caixa foi, enfim, transformar algo que era um simples lugar, referência de espaço e época na obra machadiana, em uma espécie de discurso, bandeira. Pode ser que Machado adorasse a Caixa Econômica, pode também não ser, mas o mais provável é que ele nem pensasse nisso. Tinha uma conta e caderneta de poupança como qualquer outro cidadão de sua época com uma boa condição de vida, e fez menção ao banco no seu testamento e em alguns momentos de sua obra como qualquer escritor poderia fazer. “Vou à Caixa” equivale quase como um “vou à padaria”.

Mas não especulemos demais. A publicidade faz o seu papel (exagerando às vezes, o que faz com que algumas peças como essa sejam retiradas do ar), mas os textos informativos ou literários não devem fazê-lo.

Veja texto sobre o assunto publicado pelo Última Instância em que a Caixa se retrata em relação ao comercial. Abaixo segue também a publicidade.

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