Educação Política

mídia, economia e cultura – por Glauco Cortez

LIMITE, DE MÁRIO PEIXOTO, PODE SER VISTO COMO UMA GRANDE METÁFORA DO BRASIL

À deriva, cena de Limite

O cinema mudo brasileiro atinge sua expressão máxima quando, em 1931, Mario Peixoto (então um jovem com pouco mais que vinte anos) lança sua obra-prima, o longa-metragem Limite, que acabaria sendo seu único filme concluído. Sob todos os pontos que se olhe, Limite é uma obra de vanguarda, que traz à tona uma estética completamente diferenciada seja no ritmo, na fotografia ou na montagem.

O próprio nome do filme e todo o conteúdo que nele se desenrola parece dialogar com um regime das formas que operam no limite e que estão em obras capitais do cinema, das artes pláticas e da literatura nacional. Poderíamos pensar em limite como “o momento infinistesimal e inapreensível onde o mesmo passa no outro e o ser passa no não ser”. Seria o limite o instante mortal, o inefável por excelência posto que não pode ser exprimido, a evanescência infinita, o momento onde tudo se volatiza e converge para o nada, onde impera o regime do transe, do adormecimento, onde oscila-se eternamente entre o eu e o outro.

No filme de Mário tudo parece habitar esse instante mortal. A desolação das personagens impossibilitadas de possuir e encontrar a si mesmas, sempre projetadas no outro, nos seus desejos ou na própria água sobre a qual navegam. A canoa, a nau (dos loucos), o barco aparentemente sem destino, faz-nos lembrar de outras canoas como a do velho do conto A terceira margem do rio, de Guimarães Rosa, o habitante do limite por execelência, o que se muda para uma terceira margem inexistente e ali fica sem nunca aportar.

A estética do filme se constitui por reflexos, por duplos, o que mais uma vez nos remete a esse universo do limite onde se está sempre entre uma coisa e outra, a habitar o limiar, a fronteira. Da mesma forma, a atmosfera parece quase como uma névoa, que permite a distinção, mas não permite ao mesmo tempo. Tudo oscila perpetuamente em delirante transe, em fugaz adormecimento.

Poeta Paulo em Terra em Transe

Falando em transe, não há como não lembrar do clássico Terra em Transe, de Glauber Rocha. Apesar de Glauber ter dito, em 1963, que Peixoto estava “longe da realidade e da história” e que seu filme (sem tê-lo visto) era “incapaz de compreender as contradições da sociedade burguesa”, a estética de Terra em Transe ao expor as especificidades e ambivalências de um país frustrado nas suas tentativas de mudança e revolução. Um país eternamente a oscilar entre a violência e a ternura, sem nunca alcançar a síntese de sua própria história, em um perpétuo estado de transe, aproxima-se das formas fluídas e hipnóticas de Limite.

Além disso, a morte, figura central em Terra em Transe, parece rondar os personagens deste Limite, de Peixoto, que dão sempre a impressão de precipitar-se para ela, assim como o herói trágico por influência da desmedida (Hybris) precipita-se na perdição, experenciando o limite e rompendo a fronteira entre cultura e natureza em busca de estados outros.

E pode-se ir ainda mais longe pensando que os desejos e as impossibilidades das personagens são as impossibilidades da própria história nacional, cuja ambivalência específica só pode ser traduzida sob as formas que operam no limite. Se qualquer obra de arte, seja ela um filme, um livro ou um quadro quiser de fato dizer algo sobre o Brasil, ela não o fará a partir de uma base sólida, exprimível, pois assim ela perderá totalmente a eterna precipitação nacional, daí talvez os motivos para a ironia de Machado, para a metafísica de Guimarães, para os ectoplasmas de Clarice, para a loucura de Glauber, para a ousadia de Peixoto.

Abaixo, cenas iniciais do filme:

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