Educação Política

mídia, economia e cultura – por Glauco Cortez

RELATO DE ESTUDANTE SOBRE A REINTEGRAÇÃO DE POSSE DA REITORIA DA USP REVELA A VIOLÊNCIA GRATUITA, O ABUSO DE PODER E A DESUMANIZAÇÃO DA PM

PSDB de São Paulo: nos tempos da ditadura

Vale a pena a leitura do texto que vem a seguir escrito por uma estudante da Universidade de São Paulo (USP), que acompanhou a reintegração de posse da reitoria na madrugada da última segunda-feira por dois motivos básicos:

Pra aproximar-se da verdade que sempre existe, mesmo sob todos os disfarçes.

Pra conhecer os métodos dessa polícia que rasga poemas, ao invés de construir e pensar em novos versos.

A ocupação da reitoria, os termos e a politização do Movimento Estudantil na Universidade de São Paulo, a postura dos estudantes, tudo isso pode até ser questionado, mas nada justifica a violência utilizada pelos policiais, tampouco a justificação dessa mesma violência que é o que o Brasil sempre fez e agora faz em inacreditáveis proporções com o apoio da mídia e dos setores mais conservadores do país que insistem em reduzir tudo a um simples cigarro de maconha ou a jovens que gostam de fazer barulho.

Um simples relato como este, que apenas se ateve aos fatos, revela que não. Que os problemas são outros e profundos!

Desabafo de quem tava lá [Reintegração de Posse]
Por Shayene Metri

Cheguei na USP às 3h da manhã, com um amigo da sala. Ia começar o nosso ‘plantão’ do Jornal do Campus. Outros dois amigos já estavam lá. A ideia era passar a madrugada lá na reitoria, ou pelas redondezas. 1) para entender melhor a ocupação, conhecer e poder escrever melhor sobre isso tudo. 2) para estarmos lá caso a PM realmente aparecesse para dar um fim à ocupação.

Entrada dos primeiros PMs na reitoria

Conversa vai, conversa vem. O tempo da madrugava passava enquanto ficávamos lá fora, na frente da reitoria, conversando com alunos da ocupação. Alguns com posicionamentos bem definidos (ou inflexíveis), outros duvidando até das próprias atitudes. A questão é: os alunos estavam lá e queriam chamar atenção para a causa (ou as causas, ou nenhuma causa)…e, por enquanto, era só. Não havia nada quebrado, depredado ou destruído dentro da tão requisitada reitoria (a única marca deles eram as pixações). A ocupação era organizada, eles estavam divididos em vários núcleos e tinham medidas pra preservar o ambiente. Aliás, nada de Molotov.

Mais conversa foi jogada fora, a fogueira que aquecia se apagou várias vezes e eu levantei a pergunta pra alguns deles: e se a PM realmente aparecesse lá logo mais? Seria um tiro no pé dela? Ela sairia como herói? Os poucos que conversavam comigo (eram uns 4, além dos amigos da minha sala) ficaram divididos. “Do jeito que a mídia está passando as coisas, eles vão sair como heróis de novo”, disse um. “Se ele vierem vai ter confronto e isso já vai ser um tiro no pé deles”, disse outra. Mas, numa coisa eles concordavam: poucos acreditavam que a PM realmente ia aparecer.

Eu achava que a PM ia aparecer e muito provavelmente isso que me fez ficar acordada lá. Não demorou muito e, pronto, muita coisa apareceu. A partir daí, meu relato pode ficar confuso, acho que ainda não vou conseguir organizar tudo que eu vi hoje, 08 de novembro.

Muitos PMs chegaram, saindo de carros, motos, ônibus, caminhões. Apareceram helicópteros e cavalaria. Nem eu e, acredito, nem a maior parte dos presentes já tinham visto tanto policial em ação. Estávamos em 5 pessoas na frente da reitoria. Dois estudantes que faziam parte da ocupação, eu e mais 2 amigos da minha sala, que também estavam lá por causa do JC. Assim que a PM chegou, tudo foi muito rápido:

os alunos da ocupação que estavam com a gente sugeriram: “Corram!”, enquanto voltavam para dentro da reitoria. Os dois amigos que estavam comigo correram para longe da Reitoria, onde a imprensa ainda estava se posicionando para o show. Eu, sabe-se lá por qual motivo, joguei a minha bolsa para um dos meninos da minha sala e voltei correndo para frente da reitoria, no meio dos policiais que avançavam para o Portão principal [e único] da ocupação.

Tentei tirar fotos e gravar vídeos de uma PM que estava sendo violenta com o nada, para nada. Os policiais quebravam as cadeiras no carrinho, faziam questão do barulho, da demonstração da força. Os crafts com avisos dos estudantes, frases e poemas eram rasgados, uma éspecie de símbolo. Enquanto tudo isso acontecia, parte da PM impedia a imprensa de chegar perto da área, impedindo que os repórteres vissem tudo isso. Voltando para confusão onde eu tinha me enfiado: os PMs arrombaram a porta principal, entraram (um grupo de mais ou menos 30, eu acho) e, logo em seguida, fecharam o portão. Trancaram-se dentro da reitoria com os alunos. Coisa boa não era.

Depois disso, o outro grupo de PMs,que impedia a mídia de se aproximar dessas cenas que eu contei , foi abrindo espaço. Quer dizer, não só abrindo espaço, mas também começando (ou fortalecendo) uma boa camaradagem para os repórteres que lá estavam atrás de cenas fortes e certezas.

“Me sigam para cá que vai acontecer um negócio bom pra filmar ali agora”, disse um dos militares para a enxurrada de “jornalistas”.

A cena era um terceiro grupo de PMs, arrombando um segunda porta da reitoria, sob a desculpa de que queria entrar. O repórter da Globo me perguntou (fui pra perto deles depois da confusão em que me meti com os policiais no início): “os PMs já entraram, não? Por que eles tão tentando por aqui também?”. Respondi: “sim, já entraram. E provavelmente estão fazendo essa cena pra vocês terem algum espetáculo pra filmar”

A palhaçada organizada pelos policiais e alimentada pelos repórteres que lá estavam continuou por algumas horas. A imprensa ia contornando a reitoria, na esperança de alguma cena forte. Enquanto isso, PM e alunos estavam juntos, dentro da Reitoria, sem ninguém de fora poder ver ou ouvir o que se passava por lá. Quem tentasse entrar ou enxergar algo que se passava lá na Reitoria, dava de cara com os escudos da tropa de choque, até o fim.

Enquanto amanhecia, universitários a favor da ocupação, ou contra a PM ou simplesmente contra toda a violência que estava escancarada iam chegando. Os alunos pediam para entrar na reitoria. Eu pedia para entrar na reitoria. Tudo que todo mundo queria era saber o que realmente estava acontecendo lá dentro. A PM não levava os estudantes da ocupação para fora e o pedido de todo mundo era “queremos algo às claras”. Por que ninguém pode entrar? Por que ninguém pode sair?

Enquanto os alunos que estavam do lado de fora clamavam para entrar, ouvi de um grupo de repórteres (entre eles, SBT): “Não vamos filmar essas baboseiras dos maconheiros não! O que eles pedem não merece aparecer”. Entre risadas, pra não perder o bom humor. Além dos repórteres que já haviam decidido o que era verdade ou não, noticiável ou não, tinham pessoas misturadas a eles, gritando contra os estudantes, xingando. Eu mesma ouvi muitas e boas como “maconheirazinha”, “raça de merda” e “marginal” .

Os estudantes que enfrentavam de verdade os policiais que faziam a ‘corrente’ em torno da Reitoria eram levados para dentro. Em questões de segundos, um estudante sumia da minha frente e era levado pra dentro do cerco. Para sabe-se lá o que.

Lá pras 7h30, depois de muito choro, puxões e algumas escudadas na cara, comecei a ver que os PMs estavam levando os estudantes da ocupação para dentro dos ônibus. Uma menina foi levada de maneira truculenta, essa foi a única coisa que meu 1,60m de altura conseguiu ver por trás de uma corrente da tropa de choque. Enquanto eu tentava entrar no cerco, para entender a história, a grande mídia já estava lá dentro. Fui conversar com um militar, explicar da JC. Ouvi em troca “ai, é um jornal da usp. De estudantes, não pode. Complica”.

Os ônibus com os alunos presos saíram da USP. Uma quantidade imensa de outros alunos gritavam com a PM. Eu e os dois amigos da minha sala (aqueles da madrugada) pegamos o carro e fomos para a DP.

Na DP, o sistema era o mesmo e meu cansaço e raiva só estavam maiores. Enjoo e dor de cabeça, era o meu corpo reagindo a tudo que eu vi pela manhã. Alunos saiam de 5 em 5 do ônibus para dentro da DP. Jornalistas amontoados. Familiares chegando. Alunos presos no ônibus, sem água, sem banheiro, sem comida, mas com calor. Pelo menos por umas 3h foi assim.

Enquanto a ficha caia e eu revisualizava todo o horror da reintegração de posse, outras pessoas da minha sala mandavam mensagens para gente, de como a grande imprensa estava cobrindo o caso. Um ato pacífico, né Globo? Não foi bem isso o que eu vi, nem o que o JC viu, nem o que centenas de estudantes presenciaram.

Enfim, sou contra a ocupação. Sempre tive várias críticas ao Movimento Estudantil desde que entrei na USP. Nunca aceitei a partidarização do ME. Me decepciono com a falta de propostas efetivas e com as discussões ultrapassadas da maioria das assembléias. Mas, nada, nada mesmo, justifica o que ocorreu hoje. Nada pode ser explicação pra violência gratuita, pro abuso do poder e, principalmente, pela desumanização da PM.

Não costumo me envolver com discussões do ME, divulgar textos ou participar ativamente de algo político do meio universitário. Mas, como poucos realmente sabem o que aconteceu hoje (e eu acredito que muita coisa vai ser distorcida a partir de agora, por todos os lados), achei que valeria a pena escrever esse texto. Taí o que eu vi.


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3 Respostas para “RELATO DE ESTUDANTE SOBRE A REINTEGRAÇÃO DE POSSE DA REITORIA DA USP REVELA A VIOLÊNCIA GRATUITA, O ABUSO DE PODER E A DESUMANIZAÇÃO DA PM

  1. Nazareno 10 novembro, 2011 às 1:00 am

    Hahaha, e os maconheiros achando que iam se impor na base da força. Só lembrando: os alunos tinham decidido DEMOCRATICAMENTE, mediante VOTO, terminar a ocupação. Um grupelho de bandidos decidiu violar essa decisão soberana e manter a ocupação, como eu disse, pra tentar se impor na base da arbitrariedade e do terrorismo, e com isso passar por cima da democracia e da vontade da maioria. Pois bem, não reclamem quando a PM trata esses vagabundos como o lixo humano que eles são.

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  2. Rodrigo 10 novembro, 2011 às 10:08 am

    Pena que a “nova velha mídia” não se deu ao trabalho de sair de seus gabinetes e bibliotecas, de parar de conjecturar, filosofar, para cobrir a reintegração de posse. Poderiam, assim, provar a fala dos invasores, mas não apenas brincar de “telefone sem fio”; todas as imagens mostram desocupação pacífica, sem qualquer agressão, o que os “alunos” pareciam querer, para depois terem a empatia, mas não a antipatia do público (o “jogo” virou…).
    No Direito há um adágio a dizer: Dormientibus non succurrit jus (o Direito não socorre os que dormem). Bem como um outro, a dizer: Allegatio et non probatio, quasi non allegatio (alegar, mas não provar, é o mesmo que calar).
    Poderiam amadurecer e parar de dar atenção a essas correntes de internet, escritas por um amigo do vizinho do primo da cunhada da freira do convento ali da rua. Outro dia recebi um, dizendo que o Pastor Ronaldo Didini (nada contra fiéis de qualquer religião, muito menos contra ateus, mas tudo contra boatos), que chutou a imagem de Nossa Senhora Aparecida, teria sofrido horrível acidente e agora seria fiel seguidor da Santa; em verdade, foi enviado à África, à época, para serem esfriados os ânimos e, hoje, retornando ao Brasil (sem acidentes), integra a Igreja Mundial do Poder de Deus (http://www.overbo.com.br/apos-10-anos-pastor-ronaldo-didini-volta-a-tv/).
    Basta, pois, a pesquisa, para caírem por terra alegações raivosas, verborrágicas e populistas, especialmente de quem viu seu “movimento” ir “por água abaixo”.
    Mas ainda dou um voto de confiança e peço imagens, ao grupo que, até então, é o único responsável pela depredação e porte de drogas (os 3 alunos), gasolina e bombas incendiárias. Apresentem imagens reais (já sei que, de câmeras de segurança, não haverá, pois eles as destruíram), exponham quem foi agredido e não apenas quem bradou que o foi, de forma vazia.
    Exames de corpo de delito, v.g.
    Aliás, os “alunos” têm boa assessoria jurídica, conforme demonstrado; obtiveram redução do valor da fiança (paga por seus financiadores…) e a subsequente liberdade. Que consultem seus Advogados, no sentido de comprovar, mas não meramente alegar, suas afirmações.
    Certo é que, caso tivessem consultado-a, desde o princípio saberiam que não é legalizado o porte e consumo de drogas. Que seriam unicamente conduzidos à Delegacia, lavrado Termo Circunstanciado e, então responderiam pelos seus atos (maduros para fazer, mas imaturos para assumir?).
    “Nova velha mídia”, vamos nos unir para que o Brasil deixe de ser o país da boataria, da baixaria e, mais, da irresponsabilidade. Sejamos a favor da informação verdadeira, mas não da manipulada e eivada de interesses político-partidários de “direita” ou de “esquerda”. Não incorram nos mesmos erros que apontam.
    Mas, desde já, elogio o fato de a “nova velha mídia” não ter atribuído aos alunos a pecha de “playboys maconheiros”, ou ainda de “filhinhos maconheiros de empresários”.

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