Educação Política

mídia, economia e cultura – por Glauco Cortez

CASO USP E RECENTE PRISÃO DE TRAFICANTES NA ROCINHA REVELAM O QUANTO A LÓGICA DO ESPETÁCULO CONTINUA VALENDO PARA ALGUNS, NÃO PARA TODOS

Interessante texto de Sergio Lirio, publicado na Carta Capital, revela que no Brasil a lei que vale é mesmo a do dois pesos, duas medidas. Ainda sob as repercussões do caso USP, o texto revela como a justiça neste país é tão adaptável às diferentes pessoas e circunstâncias quanto uma massa de modelar.

Muito se disse, se ouviu e se escreveu sobre o caso USP.

A “patética ocupação da reitoria, aliada à desproporcional reação da polícia”, como colocou outro texto de Matheus Pichonelli, publicado pela mesma revista disse: “a ocupação da reitoria da maior universidade do País deu munição para que boa parte da opinião pública (inclusive estudantes) testemunhasse, graças à transmissão ao vivo das emissoras, a legitimação de seus desprezos contra estudantes que, diferentemente deles, ainda ousam apontar o dedo para o alto e dizer que alguma coisa está errada”.

E ainda: “critique-se o quanto quiser a partidarização de parte do movimento, mas são os estudantes os agentes de uma história que ainda somam coragem e disposição para se organizar e promover discussões e manifestações que, via de regra, apontam caminhos não observáveis por quem, a olhos nus, está atolado nas funções diárias da divisão social do trabalho. O empregado tem medo da greve e de perder o emprego; o patrão tem medo de perder o lucro; o governador, o medo de perder poder. Mas os estudantes estão, em tese, livres das amarras que os impediriam de simplesmente optar por outros caminhos. Isso não deveria ser vergonhoso, nem apontado como privilégio”.

No tumulto das opiniões, o fato acontecido foi visto sob diversos ângulos e pontos de vista. Mas uma coisa parece sobressair-se: o espetáculo promovido pela mídia e, principalmente, pelos policiais. Esse não pode ser classificado com outro adjetivo a não ser “deplorável”.

O interessante é constatar que sob a égide desse mesmo espetáculo, o texto de Sergio Lirio lembra que quando Daniel Dantas apareceu algemado em horário nobre, por pouco não houve uma inssurreição popular pedindo que o cidadão e as liberdades individuais fossem respeitadas. Colunistas, ministros, advogados, todos conclamaram os direitos individuais contra os abusos do autoritarismo. O barulho resultou em uma súmula vinculante do Supremo Tribunal Federal que limitou o uso de algema e a exposição de presos em operações “espetaculosas” da polícia. Ela valeria para todos, era a promessa.

No entanto, a “lei das algemas” parece valer mesmo apenas para os donos do Brasil, afinal, o que se viu no recente caso na USP e na prisão do traficante Nem, na Rocinha, foi a encenação do espetáculo, atendendo “aos sentimentos mais obscuros da ala conservadora da sociedade. Em troca de apoio e publicidade”, como diz o texto.

Em defesa dos estudantes ninguém, da mídia ou das altas cortes de justiça, se manifestou.

Veja trecho dos dois textos mencionados, publicados pela Carta Capital:

Lei das algemas? Só para influentes
Por Sergio Lirio

Quando Daniel Dantas apareceu algemado em horário nobre, por pouco uma nova marcha pela liberdade não tomou as ruas do País. Os “democratas” diziam que o Brasil vivia sob um Estado policial. Ministros de tribunais superiores, advogados milionários, colunistas de política e economia e juristas (que vivem de juros) de todo calibre conclamaram os direitos individuais contra os abusos do autoritarismos. A estridência resultou em uma súmula vinculante do Supremo Tribunal Federal que limitou o uso de algema e a exposição de presos em operações “espetaculosas” da polícia. Ela valeria para todos, era a promessa.

Como sempre, certos direitos são reservados a uma minoria de privilegiados. Aos influentes, aos donos do Brasil. Tanto no caso da remoção dos estudantes da USP quanto na operação na Rocinha que prendeu o traficante Nem, as regras foram jogadas às favas. Alunos e traficantes foram forçados por policiais a exibir o rosto a cinegrafistas e fotógrafos. Nos dois casos, optou-se por atender aos sentimentos mais obscuros da ala conservadora da sociedade. Em troca de apoio e publicidade. (Texto completo)

Ocupação patética, reação tenebrosa
Por Matheus Pichonelli

Ao que tudo indica, a ocupação da reitoria da USP foi de fato patrocinada por um grupo de aloprados, que atropelou o rito das assembleias realizadas até então e, num ato de desespero (calculado?), fez rolar morro abaixo uma pedra que, aos trancos, deveria ser endereçada para pontos mais altos da discussão.

Uma vez que essa pedra rolou, como se viu, tudo desandou. Absolutamente tudo, o que se nota pela declaração do ministro-candidato-a-prefeito (algo como: bater em viciado pode, em estudante, não) e do governador (vamos dar aula de democracia para esses safadinhos), passando pela atitude da própria polícia (tão aplaudida como o caveirão do Bope que arrebenta favelas), de cinegrafistas (ávidos por flagrar os “marginais” de camiseta GAP) e de muitos, mas muitos mesmo, cidadãos que só esperavam o ataque aéreo dos japoneses em Pearl Harbor para, em nome da legalidade, arremessar suas bombas atômicas sobre Hiroshima.

O episódio, em si isolado, é sintomático em vários aspectos. Primeiro porque mostra que, como outros temas-tabus (questão agrária, aborto…), a discussão sobre a rebeldia estudantil é hoje um convite para o enterro do bom senso. O episódio foi, em todos os seus atos, uma demonstração do que o filósofo e professor da USP Vladimir Safatle chama de pensamento binário do debate nacional – segundo o qual a mente humana, como computadores pré-programados, só suporta a composição “zero” ou “um”. Ou seja: estamos condicionados a um debate que só serve para dividir os argumentos em “a favor” ou “contra”, “aliado” ou “inimigo”. (Texto completo)

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8 Respostas para “CASO USP E RECENTE PRISÃO DE TRAFICANTES NA ROCINHA REVELAM O QUANTO A LÓGICA DO ESPETÁCULO CONTINUA VALENDO PARA ALGUNS, NÃO PARA TODOS

  1. Thalita Gallucci Sotero 14 novembro, 2011 às 1:11 pm

    realmente o texto do matheus é esclarecedor…nos fornece uma visão clara e real de toda essa história!! tenho acompanhado minhas redes socias (facebook e twiter) e lamento e fico muito triste em relação a opiniao da grande maioria..inclusive gente da minha idade, e que até estudou comigo na faculdade, que por lógica não podeira se deixar levar pelo espetaculo armado pela imprensa…os discursos distorcidos correram por toda a semana, é muito triste mesmo, e o Matheus relata exatamente essa questão da nossa geração, que é destacada no texto deste blog, otimo texto!! deveria ser reproduzido milhares de vezes…

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  2. Rodrigo 14 novembro, 2011 às 6:49 pm

    Glauco, em tempos de “bata o quanto pode na polícia”, faça um post sobre o Policial Militar carioca, que recusou suborno milionário de um traficante (tanto dinheiro, por haver tantos consumidores…), cumprindo, assim, o próprio dever.
    Exemplo para os integrantes de qualquer profissão!
    Ainda não vi nada sobre o assunto, na “nova velha mídia”.

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    • glaucocortez 14 novembro, 2011 às 7:18 pm

      Acho que era esse o dever dele…
      No caso da USP, a culpa não é da PM, mas do governador do PSDB, Geraldo Alkmin, que colocou 400 policiais fortemente armados, apoio de Helicóptero contra 70 jovens desarmados. é questão de prioridade.
      Enquanto isso, em São Paulo, a bandidagem tá feliz. Salve o Rio de Janeiro.

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      • Rodrigo 15 novembro, 2011 às 12:42 am

        Não falo de generalizações.
        Já explicitei, conforme a “diretíssima”, no post, que tal É o dever dele, mas, em época de “não sabia de nada”, tal torna-se louvável. Lula, mesmo, nada mais fez além de seu dever – para quem acha que ele foi diferente e que muito fez – ou não (válido o “dois pesos e duas medidas”? Estrelinha vermelha vale mais que tucaninho e arvorezinha?)?
        Apenas estranhei a “nova velha mídia” (não uma indireta para você, mas, sim, para todos), calar-se a respeito de tanto. Tanto “batem” e acusam as autoridades legitimamente constituídas, nunca as elogiando, quando merecem.
        “Nova velha mídia”, se quiser ser uma “nova mídia”, não repita os erros e vícios que tanto aponta. Não se julgue víúva e órfã da Ditadura, com salvo-conduto para o que quiser; a omissão, a falta de crédito, no caso em tela, revela desídia, senão arrogância ou tentativa de acobertamento do havido.
        Quanto à USP, quantos foram agredidos? Realmente, a inexistência de violência, uma pena para os financiadores (que pagaram a fiança) e para os admiradores dos baderneiros. Tanto desejavam mártires, mas tais não houveram; a Polícia “pôs sal no doce”, planejando com inteligência e evitando a violência… Vazias acusações, tratam sobre o quê? Suposições?
        Qual a supostas ilegalidades da Polícia, na USP, poderiam elas serem descritas, ou certa é a aplicação do brocardo latino “ALEGATIO ET NON PROBATIO QUASI NON ALEGATIO”?
        “Nova velha mídia”, saia de seus gabinetes e bibliotecas e vá a campo! Passe frio, corra, sinta a “adrenalina” do momento e colha provas daquilo que reverbera.
        Uma foto, apenas, não é pedir demais! A Veja tem fotos (moletons GAP e Ray Bans) e vocês não tem foto alguma? Não têm imagem alguma a provar que não foram os baderneiros (ínfima e não democrática parcela dos alunos da USP – desrespeitaram votação dos alunos, não?), mas, sim, a Polícia, conforme acusação infundada, a responsável pela depredação do patrimônio público, porte de drogas, coquetéis molotov, morteiros e gasolina?
        A desculpa não colou e restou a imagem de “maconheiros, financiadores do tráfico, riquinhos (você tanto execra quem alcança o lucro…) e mimadinhos”. Saudade da inteligência de quem protestou, racionalmente, contra a ditadura…
        E, uma vez mais, caso queiram legitimar seu protesto, contra eventuais medidas ilegais: Ação Popular e Ação Civil Pública (OAB, MPs e Defensorias Estadual e Federal). A menos que se julguem, os baderneiros, acima da lei, ou, de alguma forma, pensem que suas alegações não têm amparo legal.
        Diferenciem-se, dissociem-se dos vícios que apontam, para que não percam a credibilidade.
        Sem hipocrisia, ainda acredito em vocês e espero que possam, sem paixões e vícios, “virar o jogo” e nos levar a um Brasil de todos, mas não de tolos, fundado no trabalho, mas não na preguiça e ilegalidade.

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  3. oculto 15 novembro, 2011 às 6:29 pm

    Enquanto adolescentes e adultos quase se matam por uma faculdade. Esses playboysinhos mancham e muito a imagem de uma faculdade. Enquanto isso uma pobre pessoas poderia estar no lugar dela sendo estudando que é o que se faz numa faculdade e nao fumar maconha!!!”deplorável”

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  4. Thalita Gallucci Sotero 16 novembro, 2011 às 9:31 am

    honestamente, citar a Veja para mim é ridiculo, quem tem um minimo de noção sobre o que é jornalismo e ética, sabe muito bem do que estou falando…estou rindo, para não chorar!!

    E digo com propriedade, pois estudei e sei discernir bem o que é reportagem e o que é show, espetaculo e manipulação, e criar opinoes de senso comum…

    E quanto a policia no Brasil…ela serve uma elite burra, hipócrita e preconceituosa, de um governo corrupto,e pior uma sociedade que não tem a mínima noção do que é movimento social, senso crítico para saber o quanto é manipulada, e repete fervorosamente um discurso que só aumenta a desigualdade,a concentração de renda e traz à tona os piores problemas, violencia, impunidade, morte, fome, injustiça…mas não é culpa dessa gente mais uma vez repito…eu lamento, fico muit triste mesmo!!


    engraçado né, alguns videos não servem de fonte para a Veja, porque será não?

    PS: o jornalismo DEVE ouvir todas as fontes, e por IGUAL de todos os lados de uma história,e transcreve-lo para que os seus leitores possam ter o DIREITO de analisar e criar a SUA PROPRIA ANÀLISE, E nao concordar apenas com o que foi veiculado, será que fui clara??

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    • Rodrigo 16 novembro, 2011 às 1:58 pm

      Na polícia, assim como em qualquer outra classe profissional, há bons e maus profissionais, ao que generalização demonstra a um pré-julgamento, um pré-conceito, desprezando a figura de policiais como o por mim citado.
      Na polícia, há trabalhadores tão mal remunerados e abandonados à própria sorte, quanto na classe discente. Mas é mais fácil adotar um discurso radical, desprezando profissionais que arriscam sua vida, que possuem famílias que, todos os dias, rezam para que o pai, o marido, o filho, o irmão, chegue são e salvo, em casa.
      Os Titãs, dentre muitas de suas músicas, em uma delas dizem: “polícia para quem precisa de polícia”. Trecho este cantado pelos policiais que investigaram e terminaram com o sequestro da esposa de um deles; muita ironia: eles precisaram da polícia.
      E, quando falo da Veja, Thalita, estou, sim, levando à reflexão quem diz querer criar uma nova mídia. Eu a quero, mas não apenas uma nova roupagem, com um bottom de outro grupo político. Por enquanto, engatinham e incorrem nos mesmos erros que denunciam, cometendo a injustiça por mim apontada: se um “esquedista” supostamente cumpre seu dever e é eternamente louvado, mas um policial é desprezado; dois pesos, duas medidas.
      Deveriam ter ido à USP e cobrir o que denunciam agora. Fotografar, filmar, mas não repassar e-mails, ou ainda um vídeo editado, em que são inseridos sons de tiros e gatilhos.
      Exponham a estudante supostamente agredida por 30 min. Ela existe?
      Quanto à ação da polícia, os estudantes podem se organizar, valendo-se de técnicas particulares de ocupação, com palavras de ordem (que tipo de absurdo gramático e intelectual é “a PM é nosso inimigo”?) portando material inflamável e explosivo, depredando patrimônio público (tal não aparenta, também, operação de guerra ou guerrilha, ou só a PM pode ser julgada com palavras tendenciosas?). Mas a polícia não pode planejar uma ação em que não houve feridos – sem tiros, sem bombas, sem lesões; quando há agressão, reclamam, o que fazem também quando não há.
      Aliás, quando da prisão e em cumprimento da lei, todos foram submetidos a exame de corpo de delito, em que nada constou.
      Deveriam, também, denunciar a atitude não democrática, de quem permaneceu invadindo, mesmo perdendo votação. De quem desrespeitou ordem judicial de desocupação.
      Por fim, pergunto diretamente: você tem algo contra a Defensoria Pública, o Ministério Público ou a OAB? São, tais instituições, também “inimigOs” dos alunos? Há algum problema em se valerem dos meios legais, contra o que consideram ilegal?
      Exponham os erros de todos os lados, não apenas o de um, cortando na carne, pela raiz, dando um exemplo, não se igualando ao que dizem execrar; não falo de atirar a primeira pedra, quem nunca pecou, mas de não esconder o rabo e apontar o do outro.
      Assim, compartilho de sua tristeza, vendo tanto potencial desperdiçado, desviado. Tantos com potencial, para uma revolução inteligente, ainda repetindo erros, o que espero logo cessar.

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