Educação Política

mídia, economia e cultura – por Glauco Cortez

Arquivos Diários: 4 dezembro, 2011

EM MEIO AOS APELOS DE “FELICIDADE E PERFEIÇÃO”, A BUSCA POR ALGUÉM QUE SE FAÇA “GENTE NO MUNDO” NUNCA FOI TÃO NECESSÁRIA

Tão atual...

A partir dos versos do Poema em Linha Reta, de Álvaro de Campos, um dos heterônimos de Fernando Pessoa – “Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo” – Cynara Menezes escreve um ótimo texto na Carta Capital em que faz uma espécie de elogio e resgate da figura do “loser”, situando-o dentro dos limites do mundo contemporâneo.

Ao considerar os diferentes significados que o termo foi ganhando ao longo do tempo, desde o inicial que significava perdedor, até uma noção um tanto insuficiente que dizia ser loser um infeliz digno de pena, sem sorte, sem valor, a autora lembra que “loser não é apenas o cara que não ganha, e sim o que não se importa em ganhar. Ao contrário do que muitos pensam, o loser pode chegar lá – mas o que o moveu não foi chegar”.

O fato é que os “loser” ocupariam, segundo Cynara, um lugar privilegiado no imaginário americano, onde o termo surgiu propriamente, inspirando inclusive alguns emblemáticos personagens de Woddy Allen, dos irmãos Coen, dentre outros. Isso porque existiria um certo charme em ser loser, ou simplesmente encarar a vida de outra forma, olhá-la sob um ângulo diferente.

Parar enquanto todos correm, fazer-se complexo em meio às dúvidas e incertezas e não superficial e seguro de absolutamente tudo que faz ou vai fazer. Admitir-se triste às vezes. Dar-se ao luxo de observar o tempo passar, olhando o horizonte, deixando-se viver mais. Em tempos onde a exibição da felicidade se dá de forma absurda pelas redes sociais, financiada pela propaganda e pelos apelos multiplicados por aí,  os versos de Álvaro de Campos nunca foram tão atuais.

Porque o loser na verdade é o que há de gente no mundo, ele sabe que não há possibilidade em ter certeza de tudo, sendo que sequer sabemos porque estamos aqui ou para onde vamos. E percebe que há muito mais vida em ser humano em linha reta, em admitir fraquezas, dúvidas e porque não misérias, do que em iludir-se em uma verticalidade que é pura vaidade vazia, chafurdando-se em um pedantismo rasteiro.

Aos “losers” que ainda restam em um mundo de pressa, competição e exigência de felicidade e certeza, nada como o desabafo do poeta português:

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