Educação Política

mídia, economia e cultura – por Glauco Cortez

Arquivos Diários: 12 dezembro, 2011

REVISTA CIENTÍFICA DA USP (UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO) COBRA R$ 1.500,00 PARA PUBLICAR ARTIGO CIENTÍFICO APROVADO

Revista “Pública” de Saúde Pública cobrará R$ 1.500,00 para publicar artigo

Por Felipe Cavalcanti, médico sanitarista e doutorando em Saúde Coletiva

A tendência de elitização no campo acadêmico brasileiro e, em particular, na Saúde Coletiva se
confirma: a Revista de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (RSP/USP) passará a cobrar R$
1.500,00 por artigo publicado (clique aqui e veja o comunicado da revista).

Não foi por acaso que justamente esta revista decidiu introduzir essa cobrança entre os periódicos
brasileiros do campo da Saúde Coletiva. Na avaliação da Capes (Coordenação de Aprimoramento
de Pessoal de Nível Superior) (que gera um ranking de “qualidade”), apenas dois periódicos
brasileiros situam-se no estrato mais alto (avaliados como A1 e A2) e a Revista de Saúde Pública é
um deles. Fosse um periódico B2, certamente não se arriscaria a fazer essa cobrança, sob o risco de
sumir do mapa.

Veja o comunicado aos autores:

A partir de Janeiro de 2012, a RSP instituirá uma taxa por artigo publicado. Esta taxa será paga por todos os autores que tiverem seus manuscritos aprovados para publicação, excetuadas situações excepcionais devidamente justificadas. Manuscritos submetidos antes de Janeiro de 2012 estarão isentos do pagamento da taxa. A taxa de publicação será utilizada para complementar os recursos públicos que a Revista obtém

capinha.gif

da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo e de órgãos de apoio à pesquisa do Estado de São Paulo e do Brasil. Esta complementação é essencial para assegurar a qualidade, impacto e agilidade do periódico, em particular para manter várias melhorias introduzidas na RSP nos últimos anos.Tais melhorias incluem  sistema eletrônico de submissão e avaliação de manuscritos,  revisão da redação científica por especialistas com pós-graduação em Saúde Pública e  tradução para o Inglês de todos os manuscritos não submetidos originalmente naquele idioma. Este último procedimento passou a permitir a leitura no idioma Inglês de todos os artigos publicados pela RSP sem prejuízo da opção pela leitura em Português dos artigos originalmente submetidos neste idioma. A taxa será de R$ 1.500,00 (US$ 850.00) para artigos Originais, Comentários e Revisões e de R$ 1.000,00 (US$ 570.00) para Comunicações Breves. Assim que o manuscrito for aprovado, o autor receberá instruções de como proceder para o pagamento da taxa, bem como para, quando couber, solicitar isenção da cobrança. A RSP fornecerá aos autores os documentos necessários para comprovar o pagamento da taxa perante instituições empregadoras, programas de pós-graduação ou órgãos de fomento à pesquisa.

Nada contra os editores que tomaram esta decisão, eles devem ter vários motivos bastante
supostamente razoáveis para explicá-la. Apesar disso, a Revista de Saúde Pública está sediada em
uma instituição pública com acesso a recursos públicos e etc. e não deveria, na minha humilde
opinião, tomar este caminho aparentemente mais fácil para resolver eventuais problemas financeiros
que ameacem sua sustentabilidade. Pelo contrário, deveria, isso sim, juntar-se às outras revistas do
campo – bem avaliadas ou não pelos critérios atuais – e fazer algum movimento no sentido de
garantir a sustentabilidade dos periódicos que fazem circular o conhecimento produzido no campo.
Nu e cru, essa cobrança significa simplesmente que os mortais pesquisadores, além de se
submeterem à via crúcis que é publicar um artigo nas renomadas e imortais revistas qualificadas
pelo Qualis da Capes como “padrão-ouro”, agora terão, como cereja do bolo, que pagar 1.500,00
reais. Isto, é claro, se o artigo for aprovado (provavelmente após cerca de 2 anos de idas e vindas).
Cada um de nós implicados com o direito à saúde, a Abrasco (Associação Brasileira de Pósgraduação em Saúde Coletiva) e os programas de pós-graduação (em especial o Fórum de
Programas de Pós) precisam se posicionar urgentemente em torno disso. Se a moda pega, a Saúde
Coletiva dará mais um passo na passagem de um campo militante, engajado na luta pelo direito à
saúde, para um grupo de elite da ciência.
Para os pesquisadores participantes de programas com conceito 6 e 7 da Capes, provavelmente esse
será um problema menos importante, pois esses programas recebem mais recursos da Capes, tem
mais acesso a editais de pesquisa, etc. Assim, além de dispor de mais recursos, esses programas
acabam por ter maior maleabilidade no uso dos mesmos, e provavelmente bancarão o valor cobrado
pelas revistas (os programas 6 tem recursos específico para custear publicação de seus
participantes). Como para um programa de pós-graduação ter conceito alto na Capes é necessário
que alunos e professores do programa tenham pontuação alta no que diz respeito à produtividade,
esta é uma ótima maneira de manter as coisas como estão: quem tem conceito 6 junto à
Capes continuará com 6 (ou eventualmente 7), quem tem 7 continuará 7 e os outros mortais
programas de pós nunca conseguirão ascender ao “panteão dos deuses”. Salvo, é claro, por esforço
sobre-humano dos seus profissionais e alto investimento da instituição que sedia o programa,
dependendo fortemente de recursos próprios, sem contar com um apoio mais sustentado da Capes
(como os que recebem os programas 6 e 7).
A idéia é “quase” a mesma da equidade inscrita na constituição e que funda o Sistema Único de
Saúde: fortalecer ainda mais quem já é forte. Ou seja, é o avesso do avesso. Mas “tudo bem”,
voltaremos a isso daqui a pouco.Como funciona o sistema de avaliação da Capes?
Pra quem não conhece, o sistema funciona mais ou menos assim: a Capes faz um ranking dos
periódicos científicos nacionais e internacionais. Segundo os representantes do sistema da
avaliação, este ranking serve apenas para avaliar os programas de pós-graduação a partir das
publicações realizadas por seus professores e alunos, ou seja, sua produção e a qualidade dela. O
programa que tiver maior pontuação terá maior Conceito junto à Capes e, portanto, receberá mais
recursos (mais bolsas, acesso a mais editais de pesquisa, etc.).
O ranking da Qualis gera pontuações diferentes de acordo com o períodico onde o artigo é
publicado. Assim, se os professores de uma pós-graduação publicarem num periódico considerado
A1 (para a área específica do programa, ex.: Saúde Coletiva), o programa “ganha” 120 pontos. Se
publicar num A2, 100 pontos. No B1, 80; no B2, 50 pontos. Já nos B3, B4 e B5 meros 5 pontos
(Não sei se os valores estão corretos, se alguém souber ao certo me corrija, mas a lógica é por aí).
Desse modo, quanto mais os alunos e professores de um programa tiverem artigos publicados em
periódicos tidos pela Capes como de “alta qualidade”, mais o programa será bem avaliado (há
outros critérios, mas este é um dos mais importantes).
Acontece que nenhum programa quer ser mal avaliado, certo? Isso procede na maioria dos casos, e
aí vão se reproduzindo os absurdos nas formas mais utilitaristas possíveis: alguns programas de
pós-graduação passam a fazer uma espécie de seleção daqueles que podem compor o corpo docente
permanente do programa. E o critério utilizado não é se o professor orienta bem, se ensina bem,
nada disso. O principal critério é se as publicações por ele realizadas atingem uma quantidade
mínima de pontos para não “prejudicar o conceito do programa”. Se não atingir, ou ele vira
“professor colaborador” ou é excluído da pós-graduação (a mesma lógica serve para saber se um
professor entra ou não na pós-graduação).
Desse modo, o sistema de ranking acaba servindo para muito mais do que avaliar os programas, ao
contrário do que querem fazer crer a Capes e os que falam por ela. Este sistema de avaliação finda
sendo também adotado por algumas universidades na avaliação das publicações em concursos e,
sobretudo, estabelecem uma grande hierarquia nas publicações. Assim, alguns poucos periódicos
são fortalecidos e, como quase todo pesquisador quer publicar em periódicos que lhe permitam
posteriormente ter boa pontuação em concursos, assim como tem interesse em integrar programas
de pós-graduação, etc. etc., todos passam a querer publicar naqueles periódicos com maior
pontuação junto à Capes. Acaba-se então por criar um grande gargalo nas publicações,
pouquíssimos periódicos recebem a maior parte dos artigos do campo, o processo de publicação
demora muitíssimo e a publicização e circulação do conhecimento produzido (que deveria ser o
mais importante) acabam sendo prejudicadas. De quebra, o sistema cria uma dinâmica circular, em
que o periódico é mais bem avaliado porque tem mais publicações (sendo mais citado) e tem mais
publicações porque é bem avaliado. Nessa entropia aí, dificilmente um periódico consegue ascender
no sistema de classificação, inclusive porque para compor as bases de dados (ser indexado) existem
uma série de exigências que um periódico sem apoio da Capes (por não ser bem avaliado)
dificilmente consegue cumprir. Isso só reforça a dinâmica circular e a iniquidade.
Como os periódicos são classificados?
Entre os periódicos qualificados como A1 na Saúde Coletiva, não há um só periódico brasileiro.
Dentre os A2, temos apenas 2: Cadernos de Saúde Pública e Revista de Saúde Pública. Será que os
artigos publicados em português, nas revistas brasileiras são piores do que os outros? São ruins? Se
não, por que devem “valer” menos? Pra tentar compreender um pouco isso, vale a pena entender a
mecânica do sistema classificatório dos periódicos (Blog SaudecomDilma).

Leia mais em Educação Política:

MODELO BUROCRÁTICO DA ACADEMIA BRASILEIRA, VALORIZAÇÃO DA QUANTIDADE E NÃO DA QUALIDADE ESTÃO ENTRE OS ENTRAVES PARA O DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO NO BRASIL, DIZ NICOLELIS
BRASIL AVANÇA 21 POSIÇÕES NO RANKING DE INOVAÇÃO MUNDIAL, MAS AINDA ESTÁ ATRÁS DE PAÍSES COMO MALÁSIA, CHILE E COSTA RICA
LÖWY: INTERESSE, CAPACIDADE E CONSCIÊNCIA REVOLUCIONÁRIA DEVEM GUIAR O PESQUISADOR NA SUA BUSCA PELA VERDADE
MALEITA MOBILIZA CIENTISTAS NA AMAZÔNIA EM BUSCA DE RESPOSTAS PARA O ENIGMA DO MOSQUITO TRANSMISSOR

QUE ABUSO! QUANDO SERÁ QUE O BRASIL VAI PERDER O COMPLEXO DE VIRA-LATAS EM RELAÇÃO ÀS TELES?

Português: Paulo Bernardo, ministro do Planeja...

Bernardo: quando vamos perder o complexo de vira-lata na telefonia?

O Brasil precisa perder o complexo de vira-latas que mantém com as empresas de telefonia. É inacreditável a guerra judicial que essas empresas estão travando contra o governo e povo brasileiro.  Ministro Paulo Bernardo, veja a postura abusiva das empresas com dois pesos e duas medidas. Querem que a Telebrás revele seus contratos (contratos de empresa particular), mas não querem que a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) revele ao povo brasileiro as metas que as empresas não estão cumprindo (contratos de interesse público).

É possível mudar essa realidade. A passagem do ministro Celso Amorim pelo Itamaraty nos oito anos do governo Lula transformou as relações internacionais do Brasil. Demos um salto e deixamos de lado um pouco aquele complexo de vira-ladas. O complexo de vira-latas é a política internacional do PSDB na época de Fernando Henrique Cardoso e  defendida pelos principais empresas de mídia do Brasil, ou seja, é a política que Chico Buarque resumiu bem: ” fala grosso com a Bolívia e Paraguai e afina diante da Europa e Estados Unidos”.

As teles não acreditam nesse governo. Veja abaixo matéria sobre o assunto, com a boa sacada do repórter no início do texto.

 Teles também recorrem contra transparência da Anatel

:: Luiz Queiroz e Luís Osvaldo Grossmann
:: Convergência Digital

No caminho inverso à ação judicial que moveu contra a Telebras, para que a estatal forneça as informações referentes aos contratos de cessão fibras ópticas assinados com a Petrobras e Eletrobras, o SindiTelebrasil também decidiu recorrer contra o processo de transparência adotado pela Anatel, após decisão proferida pelo judiciário do Rio Grande do Sul.

A Anatel foi obrigada, em setembro, a revelar ao público as informações sobre PADOS – Procedimentos Administrativos por Descumprimento de Obrigações – movidos contra as empresas. Acatou decisão do juiz Francisco Donizete Gomes, da Justiça Federal do Rio Grande do Sul, em pedido formulado pela Associação Nacional de Defesa e Informação do Consumidor – Andicom.

“O Regimento Interno da Anatel padece de ilegalidade, pois extrapolou sua função de norma regulamentadora, ao ir além do que prevê a lei regulamentada. Enquanto a lei prevê o sigilo somente para a apuração, o regimento estende o sigilo também para o procedimento administrativo”, alegou o juiz na sentença.

O SindiTelebrasil contesta essa tese e ingressou no último dia 24 de novembro com uma Ação Civil Pública, na 2ª Vara Civel Federal de Porto Alegre, para impedir que a agência reguladora continue cumprindo o que determinou o juiz daquela Comarca. (Texto integral)

Leia mais em Educação Política:

O CASAMENTO REAL DE WILLIAM E KATE MIDDLETON MOSTRA QUE A MÍDIA E O BRASIL NÃO PERDERAM O COMPLEXO DE VIRA-LATA
CELSO AMORIM TIROU O BRASIL DA VASSALAGEM NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
EMPRESAS DE TELEFONIA NÃO QUEREM PAGAR TRIBUTO E BOICOTAM A TEVÊ BRASIL
O NATAL CHEGOU: BNDES SUSTENTA O OLIGOPÓLIO DAS TELES, CONCENTRA RENDA E JOGA O BRASIL NO CAMINHO DA CRISE EUROPEIA
O HAITI É AQUI: BANDA LARGA NO BRASIL É PIOR DO QUE NO HAITI, ETIÓPIA E IGUAL À DO IRAQUE, PAÍS DESTRUÍDO PELA GUERRA

COM OBRA RELANÇADA RECENTEMENTE, O AUTOR DE “FORMAÇÃO DA LITERATURA BRASILEIRA” É CONSIDERADO BRASILEIRO DO ANO NA CULTURA

Antonio Candido e a mulher Gilda, com quem fundou a revista "Clima"

O prêmio de Brasileiro do Ano na área de Cultura foi concedido ao ex-professor e crítico literário Antonio Candido pela revista Istoé. O intelectual que revolucionou o ensino de literatura no Brasil quebrou os hábitos geralmente mais reclusos e distantes dos holofotes para ser homenageado por sua considerável obra, indispensável para os estudantes de letras e para quem mais estiver interessado na arte de “contar histórias”.

Acompanhado na juventude pelas letras do escritor francês Marcel Proust (de quem tem um acervo invejado até pelos grandes colecionadores nacionais), Antonio Candido confessa que atualmente dedica mais atenção a escritores como Eça de Queiroz e Graciliano Ramos, sempre tendo como pano de fundo um escritor que orientou grande parte de suas obras acadêmicas e que para ele é dono de uma obra que não tem fim: Machado de Assis.

Nomes e títulos variam, mas Candido continua fazendo o que mais gosta de fazer: ler e, na maioria das vezes, reler. Conhecido pela sua herança socialista, o crítico construiu uma obra em que a literatura nunca se afastou das questões sociais do Brasil. Em seu livro mais famoso, “Formação da Literatura Brasileira”, Machado de Assis é origem e inspiração para contar a história das letras nacionais, que de início, durante o arcadismo e o romantismo, foi herdeira das letras ibéricas, até desembocar nesse momento de total autonomia nacional revelado justamente pela escrita de Machado de Assis.

Além de tudo, a obra dialoga com “Casa-Grande & Senzala”, de Gilberto Freyre, “Raízes do Brasil”, de Sérgio Buarque de Holanda, e “Formação do Brasil Contemporâneo”, de Caio Prado Júnior, todos debruçados sobre o desafio de compreender o Brasil por meio de sua evolução histórica e social. Candido considera essa evolução e situa-se no mesmo patamar dessas obras para, em seguida, ver a história brasileira pelo espelho das letras nacionais.

E foi sempre de forma ousada, buscando e tendo coragem de demostrar o novo, mas nunca deixando de se ater ao movimento que integra o novo à tradição, que o crítico construiu uma obra de “combate a todas as formas de pensamento reacionário”, como era o mote de seu grupo na revista “Clima”, criada em 1941 por ele e por Paulo Emílio Salles Gomes, Lourival Gomes Machado, Décio de Almeida Prado, Ruy Coelho e sua futura mulher Gilda de Moraes Rocha.

Seu posicionamento como intelectual e sua obra revelam que a crítica é indispensável e essencial para que a obra de arte repercuta e não ecoe silenciosa sobre si mesma, desde que seja feita de forma responsável, fazendo jus apenas à obra, sem esquecer de limpar a poeira que eventualmente nela é deixada pelas ideologias de ocasião.

Segue trecho da reportagem publicada pela revista Istoé e republicada pelo Blog do Nassif:

Antonio Candido – Brasileiro do Ano na Cultura
Um dos maiores intelectuais do país, o crítico Antonio Candido revolucionou o ensino e o estudo da literatura brasileira com uma obra atualíssima que acaba de ser relançada
Por Ivan Claudio

A primeira coisa que chama atenção ao entrar no apartamento do ex-professor e crítico literário Antonio Candido de Mello e Souza, 93 anos, situado na região dos Jardins, em São Paulo, são as estantes de livros. Elas dominam a parede da sala, pontuadas por telas e desenhos de Tomie Ohtake, Lothar Charoux e Fayga Ostrower, podem ser vistas através da porta aberta de um quarto e se estendem pelos outros aposentos do espaçoso imóvel. Antonio Candido não sabe calcular quantos volumes acumulou em tantos anos de estudo e produção acadêmica que fizeram dele um dos maiores intelectuais vivos da cultura brasileira. Sabe apenas que tem se desfeito de muitos livros. Para a Universidade de Campinas (Unicamp), da qual coordenou o Instituto de Estudos de Linguagem, destinaram-se mais de dez mil obras. Agora uma nova leva deve ir para a Universidade de São Paulo (USP), com a qual tem ligações históricas: foi onde se formou em ciências sociais e destacou-se por mais de três décadas no curso de teoria literária como mestre e orientador de uma grande geração de escritores e ensaístas. Na sala do apartamento ficam, segundo seu comentário irônico, os livros para impressionar visitas, encadernados em capadura e fios dourados. Antonio Candido aponta as primeiras edições – completas – de Oswald de Andrade e Mário de Andrade, com quem conviveu, e revela a “proustiana” que tanta inveja dava ao amigo e bibliófilo José Mindlin, para quem o crítico tinha a maior coleção de obras do (e sobre) escritor francês Marcel Proust. Ele não indica, contudo, a sua própria e caudalosa bibliografia, composta de 18 livros, relançada recentemente.

Antonio Candido, que nasceu no Rio de Janeiro, mas se considera mineiro, é assim: não aprecia as homenagens, costuma fugir de premiações e gosta de se manter longe dos holofotes. Atualmente não concede mais entrevistas, pois considera encerrada a sua atividade intelectual. Oficialmente sim. Durante esses últimos anos, no entanto, ele acompanhou a reedição de sua obra e, no ano que vem, deve preparar uma antologia de textos do crítico Álvaro Lins e fará a introdução. Com o mesmo gesto de generosidade que posterga decisões passadas, ele quebra a reclusão serena em que vive e recebe de ISTOÉ o prêmio de Brasileiro do Ano na área de Cultura. Membro fundador do Partido dos Trabalhadores e socialista desde a juventude, quando se opôs à ditadura do Estado Novo, o homem público atuante também na política se isolou dos assuntos e debates culturais. O pensador, contudo, faz o que mais gosta: ler. Ou melhor, reler. Proust, que descobriu na juventude, quando ainda morava em Poços de Caldas, em Minas Gerais, e foi companhia da vida inteira, não é mais sua prioridade. Hoje, Antonio Candido prefere dedicar seu tempo a Eça de Queiroz e Graciliano Ramos, todos eles alvo de seus estudos no passado, e a escritores menos conhecidos, dos quais aprecia um romance ou outro, caso do francês Julien Gracq e do italiano Dino Buzzati. À frente de todos, porém, figura Machado de Assis, cuja obra, para ele, é inesgotável, não tem fim. (Texto completo)

Leia mais em Educação Política:

EM MEIO AOS APELOS DE “FELICIDADE E PERFEIÇÃO”, A BUSCA POR ALGUÉM QUE SE FAÇA “GENTE NO MUNDO” NUNCA FOI TÃO NECESSÁRIA
MUITO MAIS DO QUE A GRANDE FAMÍLIA: VIANINHA CONSTRUIU UMA DRAMATURGIA QUE INVESTIGOU AS ASPIRAÇÕES E OS DILEMAS DA CONDIÇÃO HUMANA
CAIXA DECIDE TIRAR DO AR PROPAGANDA NA QUAL MACHADO DE ASSIS APARECE COMO UM HOMEM “BRANCO”
POVO NA BIBLIOTECA: BIBLIOTECA NACIONAL DO RIO DE JANEIRO, A MAIOR DA AMÉRICA LATINA, BATE RECORDE DE PÚBLICO EM 2011
%d blogueiros gostam disto: