Educação Política

mídia, economia e cultura – por Glauco Cortez

EPISÓDIO DO BBB REÚNE DUAS DAS GRANDES TRAGÉDIAS BRASILEIRAS: RACISMO E MACHISMO, MAS O SHOW TEM QUE CONTINUAR

Entre as névoas da televisão nacional, o BBB (Big Brother Brasil), com certeza, é uma delas. Não cabe aqui discutir a utilidade do programa, o quanto ele representa uma decadência no nível da programação televisiva atual ou não, o fato é que se trata de uma realidade e muito dinheiro é gasto para manter no ar um programa onde as pessoas estão em exibição máxima – e isso inclui todos os níveis de comportamento – a milhões de brasileiros.

Sempre se discutiu a autenticidade ou não do programa. Se os dramas se desenrolavam ali naturalmente ou se o que se dava era simplesmente uma grande arena de interpretação, onde moçinhos e vilões já estavam previamente selecionados. Mas a televisão é acima de tudo um mundo de mistérios, nunca se saberá ao certo o que se passa por trás das câmaras, ela só mostra o que lhe convém, cria e recria a realidade, o que lhe confere, em parte, o grande poder e fascínio exercido junto a grande parte da população.

Interpretação barata ou simples jogada do destino, o recente acontecimento envolvendo um participante chamado Daniel, único negro da atual edição do programa, reuniu condições no mínimo instigantes que traduziram em um só drama aspectos do tecido social brasileiro e do que vai pelo fundo espetacular e vertiginoso da televisão nacional.

Daniel sendo negro e, portanto, preenchendo muito bem a cota racial do BBB, já que é importante ter um participante negro para que o programa não seja acusado de racista, foi logo no primeira entrevista sendo questionado pelo apresentador Pedro Bial sobre a política de cotas para negros nas universidades.

Como já era de se esperar, o participante manifestou-se contrário às cotas e foi aplaudido pelos demais companheiros. Digo “já era de se esperar” porque os participantes selecionados para o BBB são, geralmente, de classe média ou média alta e, em sua maioria, compartilham dos mesmos interesses da emissora para a qual estão, de certa forma, “trabalhando”.

Dificilmente, um indivíduo socialmente consciente, que questionaria a própria natureza de um reality show, seria escolhido por uma emissora liberal burguesa que não gosta de questionar realmente as coisas, muito menos a si própria.

Sendo assim, Daniel respondeu ao que lhe foi perguntado da forma como era esperado que ele respondesse. O que talvez a emissora não esperasse, ou esperasse (nunca se sabe) era que o próprio Daniel, depois de se mostrar contrário à reparação histórico-social representada pelas cotas, teria uma postura também totalmente contrária aos direitos e liberdades da mulher ao, supostamente, ter abusado sexualmente de uma das participantes, aproveitando-se de seu estado de embriaguez.

O importante não é nem confirmar se o fato aconteceu ou não e sim perceber o que há por trás das reações que o sucederam. Os comentários postados em redes sociais associaram, como não poderia deixar de ser, o ato supostamente cometido à cor da sua pele, ou, em outras palavras, o fato de ele ser negro foi prontamente associado ao ato de violência.

É a mesma história impregnada na cultura brasileira de que a cor negra está associada à criminalidade e ao que há de ruim e à margem, como se um componente genético na cor negra tivesse influência no comportamento moral do indivíduo. Nada mais estúpido.

Neste sentido, o episódio trouxe consigo duas facetas da sociedade brasileira: o racismo – ao associar qualquer tipo de crime à cor negra – e o machismo – contido na própria atitude de Daniel diante da participante do programa e na própria opinião pública ao acreditar que a mulher anestesiada pela bebida praticamente “pede para ser estuprada”, como também foi dito.

Daniel agora vai servir como bode expiatório para as culpas da Rede Globo e para todos os preconceitos nacionais. Obviamente, ele não está isento de culpa, mas está longe de ser o único responsável, sem contar que faz o tipo “esperto” e “classe média” ideal para servir aos interesses da emissora. Afinal, ele não estaria lá se uma grande empresa de comunicação produtora de espetáculos e recriadora de realidades não estivesse lhe proporcionando espaço.

Mas está aí um dos pontos positivos e interessantes dos reality shows e, talvez, isso seja o que há de mais interessante nesse tipo de programa: ver como questões enraizadas na realidade brasileira, o machismo e racismo, por exemplo, ganham proporções bem maiores do que têm normalmente, já que no cotidiano manifestações de racismo e machismo acontecem a todo momento, e essa proporção faz com que os temas sejam discutidos, eles enfim deixam de ficar um pouco invisíveis, mesmo quando há a tentativa, e sempre há, de apagar os rastros do acontecimento sem deixar vestígios.

As cotas, por exemplo, a que o Daniel, aí sim negro, se mostrou contrário, estão aí para mostrar que não é possível apagar anos de escravidão e desigualdade em relação aos seus antepassados. A conta é alta e vai continuar sendo paga, só temos que ver como. Às vezes, à custa de um preconceito justificando outro…

A Rede Globo como sempre, e como bem lembrou Bessinha, está nem aí…vai continuar rodando seu show!

Veja trecho final de texto sobre o assunto republicado pelo Conversa Afiada:

BBB: e a Constituição ?
Nada ?

A Constituição é letra morta?
Por Fernando Brito

A Globo sentiu que está numa “fria” e vai fazer o que puder para reduzir o caso a um problema individual do rapaz e da moça envolvidos. Nem toca no assunto.

Tudo o que ela montou, induziu, provocou para lucrar não tem nada a ver com o episódio. Não é a custa de carícias íntimas, exposição física, exploração da sensualidade e favorecimento ao sexo público que ela ganha montanhas de dinheiro.

Como diz o “ministro” Pedro Bial ao emitir a “sentença” global ( veja o vídeo) : o espetáculo tem que continuar. E é o que acontecerá se nossas instituições se acovardarem diante das responsabilidades de quem promove o espetáculo.

Atirar só Daniel aos leões será o máximo da covardia para a inteligência e a justiça nestes país.. (Texto completo)

Leia mais em Educação Política:

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6 Respostas para “EPISÓDIO DO BBB REÚNE DUAS DAS GRANDES TRAGÉDIAS BRASILEIRAS: RACISMO E MACHISMO, MAS O SHOW TEM QUE CONTINUAR

  1. Rodrigo 18 janeiro, 2012 às 12:34 pm

    E se fosse o contrário? Um branco, dos olhos azuis, que supostamente tivesse estuprado uma mulher negra? Então, se realmente houvesse a conduta, a acusação também poderia ser tachada de racista?
    E, caso realmente tenha havido estupro, prevalecerá a questão racial sobre o direito da mulher? Tal é o nível ao qual poderemos chegar, com tantas distorções.
    Espero que o atual “politicamente correto” não nos leve a isso.
    A Rede Record, que de um lado se opõe à Globo, não se podendo ainda olvidar seu alinhamento com o atual governo, já vem mostrando o áudio em que a participante afirma não se lembrar do que passou e que, se realmente o participante fez algo com ela, não teria caráter por ela estar inconsciente.
    Aonde está o racismo?
    Eu, um “mix” de índios, brancos e negros, mais pro torradinho que pro pardo, além de nordestino, da linda Bahia, não vejo qualquer vantagem em sempre acusar os demais de racismo, em caso de repreensão por eventual erro. Tenho, sim, de ser consciente de minhas responsabilidades, de meus deveres, mas não apenas de meus direitos.
    Fico a pensar como se dará a investigação criminal e julgamentos, se tal entendimento prevalecer. Será que terá primeiro de ser investigado se o indivíduo é branco, negro, índio, oriental, árabe, latino, nordestino, nortista, pobre, homossexual, para somente então poder ser investigado se realmente cometeu a conduta? Se for gente branca dos olhos azuis, aí “tá lascado”.
    E nas escolas, se um estudante for incoveniente, também tal se dará, para somente então concluir-se se será ou não repreendido? E quando tiver desempenho insuficiente, não poderá ter nota baixa?
    Antes de ficarmos criando factóides, temos, sim, de saber se realmente houve a conduta ou não. Saber se realmente foi praticada conduta delituosa ou não.
    No caso, as investigações ainda estão no começo e aguardemos a apuração.

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    • gerson 18 janeiro, 2012 às 3:01 pm

      Investigação? Uma “branquela” tri-bebada arrependida se faz de inconsciente e ferra com o negão, infelizmente o Daniel vai ter que fazer um acordinho para aliviar a incompetência da Globo para gerenciar o evento. Hoje a branquela já demonstra o seu arrependimento depois que o Brasil inteiro condenou o negão. Sei lá… é tanta sujeira que não sei nem como me posicionar…

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  3. Henrique 19 janeiro, 2012 às 7:37 pm

    E a PRIVATARIA TUCANA!
    Já caiu no esquecimento?
    O plim plim conseguiu o que queria?
    Já deram o golpe contra a PRIVATARIA TUCANA?
    Sim, porque a Constituição a globo desrespeitou!
    E aí!? O Brasil “sifu”!
    E os políticos ÉTICOS(??)
    Plim plim – e o golpe está indo de vento em pôpa.
    E eu sou mais um OTÁRIO que acredita na CARTA MAGNA e em nossos políticos!
    Plim Plim!

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  4. Rodrigo 20 janeiro, 2012 às 9:18 am

    Ponto interessante é abordado pelo Professor de Direito Penal, André Queiroz, Advogado fluminense.
    Caso tenha havido crime, qual parcela de responsabilidade poderia ser atribuída à direção do programa? Seria ela a figura típica do agente garantidor?

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