Educação Política

mídia, economia e cultura – por Glauco Cortez

Arquivos Diários: 26 fevereiro, 2012

MEIA-NOITE EM PARIS PODE NÃO SER O FAVORITO AO OSCAR, MAS SEM DÚVIDA É UM DOS FILMES QUE MAIS GEROU POLÊMICA EM 2011

Meia-Noite em Paris é mais um dos filmes de Woody Allen que deu o que falar. Para alguns, a fórmula revisitada da Cinderela foi simplista demais e mostrou um Woody Allen acomodado que, sem dúvida, poderia fazer e já fez melhor. Para outros, a proposta do filme ao realizar uma espécie de digressão rumo ao passado trazendo novamente à tona a atmosfera da Paris dos anos 20, foi como um suspiro de alívio em meio ao mundo burguês, muitas vezes sufocante, em que vivemos e, se não gerou essa consciência, proporcionou, no mínimo, uma boa dose de diversão.

Entre as críticas positivas e negativas, alguns méritos do filme não podem deixar de ser lembrados, assim como alguns detalhes que se ausentes poderiam fazer o filme melhor.

O cenário construído pelo diretor é o de um jovem escritor – Gil (Owen Wilson) – cercado por futilidades que vão desde a esposa (que ele não consegue descrever de outro modo a não ser como “gostosa”) até o marido de uma amiga que se diz “especialista” em todos os assuntos relativos a Paris. Além destes, há o sogro e a sogra que a todo momento lhe dirigem olhadelas cortantes como a repetir freneticamente “incapaz” e que, inclusive, mandam-no vigiar para ver o que o genro tanto faz nas noites em que fica andando pelas ruas de Paris.

É justamente andando pelas ruas de Paris que Gil é surpreendido, à meia-noite, por um Ford T que o leva em uma viagem à Paris dos anos 20, onde ele encontra alguns de seus ídolos da época como Dalí, Picasso, Buñuel, Scott e Zelda Fitzgerald e o escritor Ernest Hemingway. A nostalgia em relação a uma época que já passou e que não volta mais invade o personagem e é reforçada pelo ambiente cheio de futilidade e afetação com o qual ele convive durante o dia à espera de que o carro novamente volte a buscá-lo à meia-noite em ponto.

Se na Cinderela, portanto, a magia terminava à meia-noite, aqui ela começa. O filme assim vai se consturando de forma divertida, encadeando surpresas, mas, muitas vezes, é superficial e didático demais, acomodando-se em fórmulas já existentes e que poderiam ter “se deixado ousar um pouco mais”. São detalhes que fazem com que Meia-Noite em Paris não esteja entre os grandes filmes de Woody Allen, mas também são detalhes que fazem dele um momento cinematográfico extremamente agradável.

Fora o prazer e a supresa em ver surgir e em reconhecer diante da tela as personalidades artísticas com que muitos de nós convivemos em nosso dia-a-dia por meio dos seus quadros, filmes, livros e demais heranças artísticas, o filme nos lembra que as realidades mais fantásticas podem se realizar por meio da arte e que esta pode tanto nos levar ao passado, quanto nos trazer de volta ao futuro, fazendo-nos perceber em toda sua extensão e valor o tempo presente.

Tempo presente que às vezes se contamina pelo vazio, pela superficialidade, pela falta de espírito, pelos rituais burgueses de autoaclamação, pelos indivíduos insuportáveis que são sempre campeões em tudo, como já dizia Fernando Pessoa, que estão por aí cheios de certezas.

Tempo presente que às vezes pode ser dissolvido pela página de um livro – como fazia Machado de Assis com suas costumeiras digressões nas quais ele não perdoava qualquer fatia da sociedade carioca de sua época –  ou por um carro que nos faça voltar no tempo, e reside aí, em traduzir esse potencial da arte – não talvez da forma mais ousada, intensa e criativa possível – o grande mérito deste Meia Noite em Paris.

Veja trecho de uma crônica sobre o assunto, de Matheus Pichonelli, publicada na Carta Capital:

Azarão’ do Oscar é um tapa na afetação
Por Matheus Pichonelli

Imagine a cena. Toda vez que seu tio fala do quanto gastou com a reforma da casa, o cunhado volta a defender a pena de morte, a cunhada dá detalhes sobre seu mestrado em poodles anêmicos da Austrália, a irmã cita as virtudes financeiras e a viagem MA-RA-Vi-LHO-SA com o novo namorado ou a prima desembesta a narrar a próxima cirurgia plástica, um sujeito de óculos, magrelo, aparece desembestado olhando para a câmera com o polegar para trás dizendo: “deprimente, não?”.

Não sei se vocês perceberam, mas a humanidade dá cada vez mais sinais de cansaço e preguiça. Não bastassem as tragédias que temos de engolir todos os dias sobre acidentes evitáveis, guerras desnecessárias, bombardeios intencionais e cinismos publicados em Diários Oficiais, ainda temos de conviver, a poucos metros, com as ninharias mais fúteis que o ser humano pode produzir.

Nos últimos tempos, temos visto e ouvido de tudo em rodas de conversas que reúnem dois ou mais bípedes numa mesma mesa. Todos os campeões em tudo desfilam a olhos vistos como no Poema em Linha Reta do Fernando Pessoa (“Nunca conheci quem tivesse levado porrada”).

O fato é que entendo cada vez mais os adolescentes que abandonam conversas de adultos e mergulham em fones de ouvido para fugir de conversas sobre temas lamentáveis. “Rapaz, o fulano tá lavando a égua com aquela firma, viu?”; “Comprei o meu em Nova York por muito menos”; “Tá tão difícil arrumar empregada hoje em dia”; “Meu currículo fala por si só”; “Meu cartão de crédito não tem limites”; “O lugar anda muito mal frequentado”… (Texto completo)

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