Educação Política

mídia, economia e cultura – por Glauco Cortez

Arquivos Diários: 7 março, 2012

ENQUANTO OFICIAIS DA RESERVA SE DÃO AO LUXO DE NEGAR O PASSADO E OS 21 ANOS DE DITADURA MILITAR, CINEASTAS LANÇAM MANIFESTO EM APOIO À COMISSÃO DA VERDADE

Refazendo a história: para Rocha Paiva, o estado militar ditatorial não teria relação com a morte de Herzog

No verdadeiro jogo político que vai se desenhando em torno da aprovação definitiva da Comissão da Verdade que, obviamente, não é do interesse de certos grupos da mídia e tampouco de certas categorias profissionais, duas recentes atitudes, bastante opostas, merecem destaque.

A primeira delas foi protagonizada por um oficial da reserva chamado Luiz Eduardo Rocha Paiva que decidiu vir à tona para reafirmar a posição que parte das forças armadas nacionais sempre desempenhou na nossa história: a de disseminadoras da repressão e da violência.

Quem pratica a violência de forma injustificada já é covarde por si só, não conseguindo olhar a realidade social e intervir nela sem a ajuda de uma arma que intimide ou de uma atitude que subjugue e anule o outro. Negar o passado e, o que é ainda pior, negar a verdade histórica e a verdade dos seus próprios atos é ainda mais covarde, beirando o cinismo e uma certa “loucura prepotente”.

É exatamente isso que parte dos militares da reserva que claramente vivem uma período de insubordinação, dando-se o direito de repreender rudemente “a comandante suprema das Forças Armadas, prerrogativa Constitucional de Dilma Rousseff, ou negar autoridade ao ministro da Defesa, Celso Amorim, como bem lembrou notícia publicada pela Carta Maior.

Mas voltando ao oficial Paiva, este, depois de ostentar muitas condecorações e fazer carreira dentro do Exército, agora faz declarações absurdas que negam o passado e a verdade, dizendo que Vladimir Herzog não teria sido trucidado na tortura e que tampouco a presidente Dilma Rousseff teria sido torturada. Nega ainda que este país viveu debaixo de uma ditadura ao longo de longos 21 anos, além de outros disparates em relação às ações de resistência armada à ditadura. Aliás, a comissão da verdade é justamente para isso, acabar com as versões e descobrir a verdade.

O mais grave, no entanto, não é exatamente as declarações do oficial Paiva, e sim a inércia dos comandantes da ativa diante desse evidente ato de indisciplina.  Tal situação demonstra que, mais do que nunca, é hora do estado brasileiro e das principais organizações da sociedade civil tomarem uma atitude diante do desrespeito que se comete todos os dias impunemente à própria história nacional. E foi isso que fez um grupo de cineastas ao lançar um manifesto em apoio à Comissão da Verdade, repudiando “os ataques desses setores minoritários das Forças Armadas brasileiras, que de forma alguma irão obstruir as investigações que devem ser iniciadas o quanto antes”, afirma o manifesto que também alerta para o fato de as frequentes manifestações de militares atentarem contra as instituições democráticas e o próprio estado de direito.

É sabido que o Brasil é o único país da América do Sul que ainda não investigou e puniu os crimes cometidos durante a ditadura militar. É também sabido que a Comissão da Verdade está emperrada por aqui porque os poderosos de hoje, incluindo grupos de mídia, só o são porque tomaram impulso justamente na mola propulsora da repressão e da violência amplamente praticada nos 21 anos de governo militar.

Mas sem dúvida é mais interessante aos oficiais brasileiros negar o passado e preservar junto à grande maioria da opinião pública a imagem de “crescimento econômico e ordem” que serviu para mascarar toda a desordem cometida e que ainda é a grande lembrança que muitos têm dessa época. Por que não ficar com essa “doce” lembrança? Uma Comissão da Verdade? Pra que verdade? Eles, os militares, já fizeram a deles, basta agora o estado brasileiro e a sociedade organizada decidir qual será a sua.

Veja trecho da notícia da Carta Maior sobre a postura dos oficiais e em seguida o manifesto dos cineastas apoiando a Comissão:

Os covardes e seu medo do passado e da verdade
Por Eric Nepomuceno

Em dezembro, o Uruguai, em respeito a acordos internacionais assinados pelo país reconhecendo que crimes de lesa-humanidade cometidos por agentes do Estado são imprescritíveis, abriu brechas em sua esdrúxula lei de anistia para investigar seqüestros, assassinatos e torturas cometidos durante a última ditadura militar e punir os responsáveis. Na ocasião, o general Pedro Aguerre, comandante do Exército uruguaio, disparou uma frase contundente: “Quem nega o passado comete um ato de covardia”.

Lembrei da frase ao ver a formidável demonstração de covardia que está embutida na insolência do manifesto assinado por oficiais da reserva e, muito especialmente, pela impertinente mostra de cinismo oferecida por um general também da reserva, chamado Luiz Eduardo Rocha Paiva.

Antes de abandonar a caserna, esse cidadão passou 38 de seus 62 anos de vida como oficial da ativa. Espetou no peito as condecorações de praxe, ocupou postos de destaque (entre janeiro e julho de 2007, por exemplo, na segunda presidência de Lula da Silva, foi secretário-geral do Exército), fez um sem-fim de cursos altamente especializados. Ou seja: tem trajetória e transcendência dentro do Exército.

Luiz Eduardo Rocha Paiva é um dos que negam o passado. E, não satisfeito, vai além: trata de negar a verdade, que não costuma merecer o respeito dos covardes. Nega que Vladimir Herzog tenha sido trucidado na tortura. Diz duvidar que a presidente Dilma Rousseff tenha sido torturada. Nega que este país viveu debaixo de uma ditadura ao longo de longos 21 anos. E diz tamanhos disparates ao mencionar ações da resistência armada à ditadura que fica difícil concluir se mente de verdade ou apenas está enganado, por falta de conhecimento.

Não acontece por acaso essa insubordinação de militares da reserva (um dos arautos do movimento se vangloria de ter contado 77 oficiais generais entre os que assinaram a nota criticando duramente a presidente e desautorizando o ministro da Defesa, embaixador Celso Amorim). Além dos generais e brigadeiros (nenhum almirante), o manifesto reúne um significativo número de assinaturas de oficiais superiores (338 até a segunda-feira 5 de março) e outras muitas dezenas de subalternos. Pelo andar da carruagem, mais assinaturas se somarão. Com isso, torna-se cada vez mais difícil, em termos práticos, aplicar a correspondente punição, como pretende a presidente Dilma Rousseff. Mas há aspectos que chamam a atenção. (Texto completo)

Cineastas lançam manifesto em apoio à Comissão da Verdade
Diante das manifestações de alguns setores militares “confrontando as instituições democráticas e o próprio estado de direito”, um grupo de mais de cem cineastas brasileiros divulgou um manifesto em defesa da Comissão da Verdade. “Repudiamos os ataques desses setores minoritários das Forças Armadas brasileiras, que de forma alguma irão obstruir as investigações que devem ser iniciadas o quanto antes”, afirma o manifesto.
Por Redação da Carta Maior

MANIFESTO DOS CINEASTAS BRASILEIROS EM APOIO À COMISSÃO DA VERDADE

Nós, cineastas brasileiros, expressamos a nossa preocupação com as frequentes manifestações de militares confrontando as instituições democráticas e o próprio estado de direito. Todos os cidadãos brasileiros têm o direito de conhecer o que foram os 21 anos de ditadura militar instaurada com o golpe de 1964. É preciso que a Comissão da Verdade, instituída para esclarecer fatos obscuros daquele período, em que foram cometidas graves violências institucionais, perseguições, torturas e assassinatos, tenha plenas condições e apoio da sociedade brasileira para realizar essa tarefa histórica.

Repudiamos os ataques desses setores minoritários das Forças Armadas brasileiras, que de forma alguma irão obstruir as investigações que devem ser iniciadas o quanto antes. Estaremos atentos para que tal comissão seja composta por pessoas comprometidas com a democracia e com a verdade.

1. João Batista de Andrade
2. Roberto Gervitz
3. Lucia Murat
4. Manfredo Caldas
5. Luiz Carlos Lacerda
6. Jaime Lerner
7. Hermano Penna
8. Helena Solberg
9. David Meyer
10. Luiz Alberto Cassol
11. Renato Tapajós
12. Geraldo Moraes
13. Laís Bodansky
14. Luiz Bolognesi
15. Silvio Da Rin
16. Rosenberg Cariri
17. Toni Venturi
18. Joel Zito Araujo
19. André Kotzel
20. Paulo Morelli
21. Carlos Alberto Riccelli
22. Ana Maria Magalhães
23. Henri Gervaiseau
24. Zita Carvalhosa
25. Ícaro Martins
26. Rubens Rewald
27. Ruy Guerra
28. Daniela Capelato
29. Wolney Oliveira
30. Guilherme de Almeida Prado
31. Jorge Alfredo
32. Roberto Berliner
33. André Ristum
34. Carlos Gerbase
35. Omar Fernandes Aly
36. Renato Barbieri
37. Jeferson De
38. Alain Fresnot
39. Murilo Salles
40. Sergio Roizenblit
41. Gilson Vargas
42. Marcio Curi
43. Newton Canito
44. Isa Albuquerque
45. Rose La Creta
46. Rodolfo Nanni
47. Monique Gardenberg
48. José Joffily
49. Chico Guariba
50. Luiz Dantas
51. Tetê Moraes
52. Eliane Caffé
53. Walter Carvalho
54. Augusto Sevá
55. Eliana Fonseca
56. Daniel Santiago
57. Paulo Halm
58. Mariza Leão
59. Sergio Rezende
60. Jorge Durán
61. Miguel Faria
62. Jom Tob Azulay
63. Flavio Frederico
64. Tatiana Lohmann
65. Mauro Baptista Vedia
66. Claudio Kahns
67. Lauro Escorel
68. José Araripe Jr
69. Galuber Paiva Filho
70. Ricardo Pinto e Silva
71. Sergio Bloch
72. Ariane Porto
73. Cesar Charlone
74. Roberto Farias
75. Roberto Santos Filho
76. Oswaldo Caldeira
77. Ricardo Elias
78. Christian Saghaard
79. Pola Ribeiro
80. Tuna Espinheira
81. Lázaro Faria
82. Marina Person
83. David Kullock
84. Mara Mourão
85. Silvio Tendler
86. Sergio Machado
87. Cecília Amado
88. Edgard Navarro
89. Henrique Dantas
90. Cesar Cavalcanti
91. Dodô Brandão
92. Carolina Paiva
93. Guto Pasko
94. Carlos Dowling
95. Duarte Dias
96. Kleyton Amorim Marinho
97. Renato Ciasca
98. Rubens Xavier
99. Antonio Olavo
100. Luiz Carlos Barreto
101. Lucy Barreto
102. Paula Barreto
103. Bruno Barreto
104. Phillipe Barcinski
105. Cristina Leal
106. Tata Amaral
107. Eduardo Escorel
108. Alfredo Barros
109. Helena Ignez
110. Sergio San

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