Educação Política

mídia, economia e cultura – por Glauco Cortez

Arquivos Diários: 10 março, 2012

A TOCA DE KAFKA INVADE O TEATRO COM A ADAPTAÇÃO DE A CONSTRUÇÃO PARA OS PALCOS

Os grandes escritores têm o talento, se é que podemos chamar assim, de se fazerem eternos e atemporais. Suas questões sempre nos interrogam, afetam e mudam nossa compreensão de nós mesmos, bem como da vida e do tempo que nos é dado viver. Tratando-se de Franz Kafka não poderia ser diferente. Quem nunca pensou ao acordar que talvez pudesse estar transformado em uma barata ou ter adquirido todas as formas de sua repugnância? Quem nunca se viu nos corredores asfixiantes de O Processo quando tem que resolver algumas dessas nossas questões da burocracia sem fim e inimaginável, que nem os fios do cabelo de Ariadne nos ajudariam a transpor?

Por fim, quem nunca levantou muros, construiu cercas e fechou portas e janelas tentando se proteger do mundo ou de si mesmo? São essas construções humanas que o escritor checo toma como metáfora em sua obra A Construção que agora chega aos palcos do teatro em um monólogo estrelado pelo ator Caco Ciocler e com adaptação de Roberto Alvim.

O texto de Kafka narra a vida de uma criatura que vive debaixo da terra cavando uma construção para se proteger do mundo. Metáfora que carrega uma densidade particular e que ecoa de forma expressiva no mundo contemporâneo das cercas elétricas, da solidão, do individualismo, da intolerância, em que nunca Sartre foi tão atual ao dizer que “o inferno são os outros”.

A adaptação de A Construção buscou preservar o impulso natural que marca a escrita kafkiana. Kafka sempre se deixou conduzir pela própria obra, muito mais do que conduzi-la, e essa experimentação constante em busca de outras habitações e outras vidas que simplesmente acontecem faz parte da proposta da peça.

A presença do sujeito vestido de sobretudo e chapéu que na obra de Kafka pode ser visto como “o outro”, esse estranho familiar, como diria Freud, que nos habita e ao mesmo tempo é habitado por nós, também aparece na peça e, assim como no texto literário, representa essa constante ameaça ao mundo que cavamos debaixo da terra, a persistente luz a perscrutar nossa toca ( o mundo imaginário criado pelo escritor)  pelas mais invisíveis fendas.

Veja mais em Educação Política:

TEATRO, MÚSICA E DANÇA JUNTOS EM ESPETÁCULO QUE CONTA A HISTÓRIA DA PSIQUIATRA NISE DA SILVEIRA
PRIMUS, PEÇA DA BOA COMPANHIA, IMPRESSIONA PELA QUALIDADE TÉCNICA E ESTÉTICA, MAS AO FINAL FICA UMA QUESTÃO…
NO MONÓLOGO A CASA AMARELA, GERO CAMILO DESENHA UM RETRATO POÉTICO E EXISTENCIAL DE VAN GOGH
CHEIRO DE CÉU, UMA COMÉDIA COM TRAMA E TEXTO PARA AGRADAR QUEM DIZ QUE NÃO GOSTA DE TEATRO
%d blogueiros gostam disto: