Educação Política

mídia, economia e cultura – por Glauco Cortez

O BRASIL NEGRO DA TORTURA SEGUE SENDO REVELADO POR RELATOS DE AMOR E REVOLUÇÃO, COMO OS CONTIDOS NA CADERNETA DE NORBERTO

Pelo direito à memória

“O curso do amor verdadeiro nunca é suave”. É essa frase contida em Sonho de Uma Noite de Verão, peça de Shakespeare e também citada por Karl Marx, em O Capital que servia como uma espécie de código para o casal Norberto Nehring – então economista com 29 anos e professor da USP nos anos de 1970, além de militante da Aliança Libertadora Nacional (ALN), e sua esposa, Maria Lygia Quartim de Moraes, atualmente professora titular de sociologia da Unicamp – se comunicar e ter a garantia de que realmente falavam entre si nos negros anos da Ditadura Militar no Brasil.

É também essa frase que serve como fio narrativo de uma história de amor entre uma família e amor pelos ideias de revolução no sentido mais original que essa palavra possa ter, ou seja, o de mudança, sonho, utopia. História recuperada depois de 42 anos a partir de uma caderneta de anotações de Norberto e, particularmente, de uma carta de despedida escrita por ele em meados de abril de 1970, que foi lida em julgamento na Justiça Federal de São Paulo, na tarde de 1º de março de 2012, para decidir a validade de um recurso da União, condenada em primeira instância a pagar indenização por danos morais e materiais à mulher e à filha de Norberto.

A caderneta serve hoje como testemunho da história e das circunstâncias durante muito tempo sombrias da morte de Norberto em pleno regime militar, além de evocar toda carga de memória, afetividade e perda que estão envolvidas nos episódios ligados à repressão e perseguição pela polícia da ditadura. É como se o passado se tornasse de repente mais vivo do que nunca, como se os anos não tivessem passado e as marcas duras da tortura persistissem ainda hoje.

Durante muito tempo, a morte de Norberto em condições bastante suspeitas foi declarada oficialmente como sendo resultado de suicídio por enforcamento. No entanto, fez parte da luta de seus familiares e amigos mais próximos provar o contrário, que ele teria sido assassinado pela própria polícia da repressão e, a partir daí, lutar pela responsabilização do estado por sua morte e, acima de tudo, pela reabilitação da verdade.

Verdade que a família decidiu buscar não só em nome da memória individual de Norberto, mas em nome de toda uma memória histórica e coletiva que, todos os dias, é esquecida quando a nação se nega a olhar para o próprio passado e arrancar também ela do fundo da gaveta as suas cadernetas vermelhas, amareladas pelo tempo, empoeiradas pela já quase anestesiada memória.

Segue abaixo trecho do artigo de Flavio Lobo, publicado no caderno Aliás, do jornal O Estado de S.Paulo com trechos dos escritos de Norberto e mais detalhes da história:

A caderneta de Norberto
Guardada há 42 anos, a carta de um jovem professor da USP morto pela repressão ecoa nos tribunais e desnuda o Brasil da tortura
Por Flavio Lobo

Ela é pequena, leve e tem capa de plástico vermelho. No canto inferior direito da capa, a palavra “NOTE” ainda é fácil de reconhecer, apesar de a impressão ter esmaecido e de seu provável dourado original estar agora mais para o cobre. Na parte de dentro, 42 folhas de papel quadriculado, do tipo usado em cadernos de desenho, estão coladas numa folha de papelão não muito grosso, presa à capa. As duas primeiras páginas e as 70 últimas estão em branco (amarelado). Nas restantes, há mais de quatro décadas lê-se uma carta de despedida.

Em algum lugar na cidade de São Paulo, em meados de abril de 1970, o economista Norberto Nehring, de 29 anos, abriu a caderneta, virou a primeira página e começou a escrever para a mulher e a filha:

Ia e Marta,

Minhas adoradas

Cheguei num sábado aqui na terra e, tristeza, já estou frito. Frito!

Norberto voltara ao Brasil havia poucos dias. Desembarcara no Aeroporto do Galeão, no Rio, com documentos falsos. O nome que constava nos papéis de identidade combinava com seus olhos claros e a ascendência germânica. Já a nacionalidade argentina poderia levantar suspeitas. Mas não foi a esse ponto fraco que Norberto atribuiu sua triste situação, pelo que relataria a seguir:

Logo de cara dei com um conhecido da Pfizer, que arregalou os olhos. Isto deixou-me nervoso e também, por um anterior excesso de confiança, terminei por errar meu nome na portaria do hotel… Que besteira! Custou-me a vida.

Militante da Aliança Libertadora Nacional, a ALN, grupo guerrilheiro que lutava para derrubar a ditadura militar e fazer a revolução socialista no País, Norberto sabia dos riscos que estava correndo. Vários de seus companheiros tinham sido mortos, entre eles o fundador e primeiro comandante da organização, Carlos Marighella. Outros estavam presos ou desaparecidos. Nos cárceres, as torturas eram brutais e sistemáticas.

Norberto já tinha sido preso. Numa manhã de janeiro de 1969, policiais do Departamento de Ordem Política Social (Dops) cercaram a casa onde vivia com a mulher e o levaram. Nos dez dias que passou na carceragem, foi interrogado, sofreu ameaças, testemunhou torturas. Como seu grau de envolvimento com a guerrilha ainda não era de conhecimento do Dops, foi liberado para comparecer ao aniversário de 5 anos da filha. Só passou pela festa e fugiu. Logo foi para Cuba, onde iniciou treinamento militar com intenção de voltar ao combate no Brasil.

Maria Lygia, a “Ia” da carta de despedida, foi com a filha Marta para Cuba, encontrar Norberto. Técnico em química e graduado em economia pela USP, ele até foi convidado a permanecer na ilha trabalhando com petróleo. Mesmo ciente de que o precário treinamento militar que recebia por lá não seria muito útil no Brasil, ainda assim manteve a decisão de retornar ao País. Norberto, que antes de ser preso dava aulas na USP, acreditava que poderia semear a revolução fazendo trabalho de base, conscientizando trabalhadores e estudantes, articulando a luta política. Ao chegar, viu que seus planos dificilmente vingariam. (Texto completo)

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