Educação Política

mídia, economia e cultura – por Glauco Cortez

Arquivos Diários: 9 abril, 2012

MINO CARTA: “ELES QUEREM QUE NADA MUDE, SE POSSÍVEL QUE REGRIDA”

Sequestrada no último domingo, 1º de abril, por sinal, dia da mentira

O escândalo envolvendo o senador (já ex) Demóstenes Torres é representativo de toda crise moral por que passa a sociedade brasileira à medida em que arrasta consigo nomes e instituições importantes que desempenham, ou pelo menos deveriam desempenhar, papéis importantes na cena democrática nacional.

Tal crise moral, que passa pela postura totalmente omissa da mídia e reflete os crônicos problemas nacionais, entre eles a corrupção, desigualdade e impunidade, é assunto de um editorial de Mino Carta publicado pela Carta Capital. Depois do sequestro sofrido pela última edição da revista que simplesmente foi retirada das bancas em Goiânia, Mino lembra a tentativa da mídia em fazer com que o escândalo fique restrito à figura do senador que, inclusive, já se apressou em desligar-se do DEM (o partido dos democratas, veja só).

Além disso, as relações entre o bicheiro Carlinhos Cachoeira e o chefe da sucursal da revista Veja em Brasília, Policarpo Júnior, são quase que invisíveis para boa parte da imprensa que cultua o hábito de acreditar que aquilo que ela não noticia, nunca existiu de fato. O essencial é perceber que os pontos mais delicados do relatório da Polícia Federal que se refere ao escândalo de Demóstenes são simplesmente ignorados.

E o que aparece, aparece com atraso, e da forma enviesada como já se conhece, afinal, quanto mais a teia intricada de relações entre o bicheiro Cachoeira e o governo tucano de Goiás vai se desenrolando, mais pessoas vão sendo pegas por ela. A imprensa, no entanto, não deveria silenciar em relação aos detalhes da operação, tampouco ao sequestro de uma revista de importante circulação nacional, afinal, a imprensa está aí para dizer, noticiar os fatos.

Quando ela silencia, não só deixa de ser imprensa por não mais dizer, como também porque o seu silêncio ou atraso, acaba revelando que as suas relações com a sociedade não são mais de olhar para essa mesma sociedade e refleti-la jornalisticamente, e sim a de misturar-se com os próprios fatos sociais, o que automaticamente impede um relato sobre estes. Assim, a mídia termina por não noticiar, termina por não ser mais imprensa e prefere defender-se acusando aqueles que ainda fazem jornalismo de serem “ideológicos”.

Se for ideologia se ater aos fatos, fiscalizar o poder, contribuir para construir uma democracia e pensar mudanças para o país, dizemos ser esta uma ótima ideologia que todos os veículos deveriam seguir. Antes ter ideias, do que não tê-las, antes encarar as reais limitações do país bem como as heranças de nossa ditadura mais do que real, do que ficar inventando problemas e mascarando as reais contradições nacionais, como a desigualdade que impede a liberdade, como o conservadorismo e preconceito que impedem as reais mudanças e que, como bem diz Mino Carta, servem aos interesses daqueles que “querem que nada mude, se possível que regrida”.

Veja trecho do texto:

Demóstenes, Marconi e Policarpo
Por Mino Carta

O caso do senador Demóstenes Torres é representativo de uma crise moral que, a bem da sacrossanta verdade, transcende a política, envolve tendências, hábitos, tradições até, da sociedade nativa. No quadro, cabe à mídia um papel de extrema relevância. Qual é no momento seu transparente objetivo? Fazer com que o escândalo goiano fique circunscrito à figura do senador, o qual, aliás, prestimoso se imola ao se despedir do DEM. DEM, é de pasmar, de democratas.

Ora, ora. Por que a mídia silencia a respeito de um ponto importante das passagens conhecidas do relatório da Polícia Federal? Aludo ao relacionamento entre o bicheiro Cachoeira e o chefe da sucursal da revista Veja em Brasília, Policarpo Júnior. E por que com tanto atraso se refere ao envolvimento do governador Marconi Perillo? E por que se fecha em copas diante do sequestro sofrido por CartaCapital em Goiânia no dia da chegada às bancas da sua última edição? Lembrei-me dos tempos da ditadura em que a Veja dirigida por mim era apreendida pela PM.

A omissão da mídia nativa é um clássico, precipitado pela peculiar convicção de que fato não noticiado simplesmente não se deu. Não há somente algo de podre nas redações, mas também de tresloucado. Este aspecto patológico da atuação do jornalismo pátrio acentua-se na perspectiva de novas e candentes revelações contidas no relatório da PF. Para nos esclarecer, mais e mais, a respeito da influência de Cachoeira junto ao governo tucano de Goiás e da parceria entre o bicheiro e o jornalista Policarpo. E em geral a dilatar o alcance da investigação policial.

Quanto à jornalística, vale uma súbita, desagradável suspeita. Como se deu que os trechos do documento relativos às conversas entre Cachoeira e Policarpo tenham chegado à redação de Veja? Sim, a revista os publica, quem sabe apenas em parte, para demonstrar que o chefe da sucursal cumpria dignamente sua tarefa profissional. Ou seria missão? No entanto, à luz de um princípio ético elementar, o crédito conferido pelo jornalista às informações do criminoso configura, por si, a traição aos valores da profissão. Quanto à suspeita formulada no início deste parágrafo, ela se justifica plenamente: é simples supor vazamento originado nos próprios gabinetes da PF. E vamos assim de traição em traição. (Texto completo)

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