Educação Política

mídia, economia e cultura – por Glauco Cortez

PROJETO QUE PROÍBE LIVROS QUE CONTRARIEM A NORMA CULTA DO PORTUGUÊS NAS REDES DE ENSINO PÚBLICA E PRIVADA ESTÁ EM DISCUSSÃO EM MINAS GERAIS

Na terra da norma culta, qual é o lugar de Guimarães Rosa?

Regras existem para serem conhecidas. Mas regras não existem sozinhas, tampouco são absolutas. No português, como em boa parte das línguas, há uma forma correta de escrever organizada por regras que devem ser respeitadas, é a norma culta. Ninguém discute que a norma culta da língua não seja importante e que não se deve ensiná-la aos estudantes nas escolas e até universidades. Também não se discute o quanto é importante saber escrever corretamente.

No entanto, a língua não é apenas norma culta e não se conhede de fato uma moeda sem olhar seus dois lados. Do movimento da linguagem nasce tanto a norma culta, como as outras formas orais, populares e artísticas. Não se domina a língua conhecendo-a pela metade, e não se saberá a norma culta, se a oral também não tiver, ao menos, sido apresentada.

Nunca se escreve bem pela metade e escrever bem, conhecer o português, passa pelo espírito da totalidade sem exclusão ou ierarquização. Por isso, talvez seja mesmo “bobice”, como diz Fernando Filgueiras em texto publicado pela Carta Capital, o projeto de lei 1983/2011 que está sendo discutido pela Assembleia Legislativa do Estado de Minas Gerais, de autoria do deputado Bruno Siqueira, que proíbe a distribuição, na rede de ensino pública e privada do Estado de Minas Gerais, de qualquer livro que contrarie a norma culta da língua portuguesa.

Isso porque se está na terra de Guimarães Rosa!

Veja trecho do texto:

A bobice paira entre nóis!
Por Fernando Filgueiras

Bobice é uma palavra bastante mineira. Designa as tolices que só os mineiros são capazes de identificar. Aliás, coisa que mineiro mais faz é declarar a bobice alheia. Seja de paulistas, cariocas, pernambucanos, gaúchos, ou qualquer outro cidadão que não seja do mundo. Alías, pó pô pó no coador, pois a acusação da bobice alheia é o esporte preferido dos mineiros.

“Mas onde é bobice a qualquer resposta, é aí que a pergunta se pergunta.” A mãe de Riobaldo, em Grande Sertões Veredas, sabia das coisas. Guimarães Rosa, sempre ele, está certo nessa pequena questão filosófica da bobice. A bobice não está nas perguntas, mas nas respostas fáceis. Especialmente quando se trata de instituições que têm o papel de dar respostas à sociedade. O problema é que ultimamente a bobice tem imperado em Minas Gerais.

Autocríticas à parte, a Assembleia Legislativa do Estado de Minas Gerais está discutindo o projeto de lei 1983/2011, de autoria do deputado Bruno Siqueira. O projeto de lei “proíbe a distribuição, na rede de ensino pública e privada do Estado de Minas Gerais, de qualquer livro que contrarie a norma culta da língua portuguesa”. Eita! Não é que a bobice chegou?

Num país com déficit de leitura como o Brasil, projeto como esse deixaria corado Guy Montag, de Fahrenheit 451. Queimemos os livros de Guimarães Rosa! Afinal, precisamos estabelecer enquadramentos, nas quais opiniões próprias devem ser proibidas e todos devem seguir o caminho da norma culta, porque sem ela não há cultura. Me dá um cigarro. Diria o bom negro e o bom branco de Oswald de Andrade. Mas é culto o indivíduo que diz: “Dê-me um cigarro”. Sou fumante. E só quem é fumante sabe a solidariedade que existe quando o seu maço acaba e você encontra outro fumante. Mas se alguém me disser isso eu nego. Pois não há bobice e frescura maiores do que alguém dizer “dê-me um cigarro”. (Texto completo)

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