Educação Política

mídia, economia e cultura – por Glauco Cortez

GENERALIZAÇÕES EM ARTIGO DE MONA ELTAHAWY REFORÇAM ESTEREÓTIPOS DO OCIDENTE EM RELAÇÃO À MULHER ÁRABE

Os direitos das mulheres estão ligados ao avanço no processo de democratização no Oriente Médio

Um dos conceitos mais elementares difundidos pela antropologia é o de que não devemos olhar a cultura de uma outra sociedade a partir da nossa cultura. Devemos nos despir de nossos valores para enxergar o outro nos seus próprios valores. No entanto, tal atitude é difícil de ser cumprida e o hábito de enxergar o outro a partir de nossa própria visão de mundo é mais comum do que se imagina.

É o que acontece por exemplo quando se trata das mulheres árabes. Não há dúvida que o preconceito e o conservadorismo cercam muitos aspectos da vida das mulheres orientais, e que seus direitos são bastante inferiores aos dos homens, no entanto, não se deve tomá-las como as mulheres mais infelizes do mundo, vítimas de homens machistas e opressores.

Muito do que as mulheres ocidentais veem como algo negativo para as orientais, como o uso de véu, por exemplo, para as mulheres árabes não é nem um pouco estranho ou negativo. A dependência em relação ao marido também não é vista pelas orientais como algo menos vantajoso do que a ilusão de independência que a ocidental acredita ter.

Tal discussão é aqui feita por ocasião de um artigo da jornalista egípcia-americana Mona Eltahawy publicado na edição de maio/junho da revista Foreign Policy e que causou alvoroço e críticas entre as mulheres árabes. A jornalista considerou que a situação da mulher no Oriente Médio é fruto de uma “guerra” dos homens contra as mulheres, motivada pelo “ódio” e por uma “tóxica mistura entre religião e cultura”.

A partir daí ela “denuncia” as diversas “opressões” pelas quais passariam as mulheres árabes que, segundo ela, deveriam aproveitar o momento político da primavera árabe para fazer também a sua revolução. Este talvez seja o ponto mais interessante do artigo polêmico de Mona. Mas, poderíamos acrescentar que não só as mulheres árabes deveriam aproveitar o momento para fazer a sua revolução, como também as mulheres ocidentais, pois se estas últimas podem dirigir livremente, convivem, por sua vez, com muitas outras repressões disfarçadas no tecido democrático, mas nem por isso menos violentas.

A luta das mulheres nunca é fácil, ela é acompanhada de avanços e retrocessos, sempre haverá quem defenda o atraso e, muitas vezes, essas vozes do conservadorismo vêm das próprias mulheres.

Veja trecho de notícia sobre o assunto publicada pela Carta Capital:

A Primavera Árabe vai promover os direitos das mulheres?
Por José Antonio Lima

Um artigo publicado pela jornalista egípcia-americana Mona Eltahawy na edição de maio/junho da revista Foreign Policy deixou em polvorosa mulheres no Oriente Médio e também em países ocidentais nesta semana. No texto, intitulado “Por que eles nos odeiam?”, Mona atribui a situação da mulher no Oriente Médio a uma “guerra” dos homens contra as mulheres, motivada pelo “ódio” e por uma “tóxica mistura entre religião e cultura”. Segundo ela, as mulheres precisam realizar sua revolução particular em meio à Primavera Árabe e este processo só estará completo quando os ditadores nas “mentes e nos quartos” da mulher árabe forem também derrubados. Entre ofensas pessoais virulentas à autora e respostas ponderadas, o artigo levantou uma questão importante: o embrião de democracia produzido pela Primavera Árabe fará florescer no Oriente Médio os direitos das mulheres?

Em seu artigo, Mona tenta comprovar a misoginia no mundo árabe com uma série de exemplos de violações cometidas contra as mulheres. Ela cita, por exemplo, a proibição de as mulheres dirigirem na Arábia Saudita. Debate leis de países coniventes com violência doméstica contra as mulheres em “casos especiais”, e lembra que o assédio sexual é uma prática endêmica na região. Mona cita outras violações ainda mais atrozes, como a mutilação genital, proibida, mas ainda muito comum no Egito; os “testes de virgindade”, também realizados no Egito; as permissões de casamentos entre homens adultos e meninas de 10 ou 11 anos no Iêmen e na Arábia Saudita; ou de casamentos entre vítimas de estupros e seus algozes. Todos esses fatos, sem dúvida terríveis, servem para provar como é lastimável a situação de muitas mulheres no Oriente Médio, mas eles não conseguem sustentar os outros argumentos de Mona.

Os erros da autora são as generalizações. A primeira delas é considerar a existência de uma entidade monolítica chamada “mulher árabe”. Os países da região possuem suas próprias peculiaridades e, com as populações, não é diferente. Nos países do Golfo Pérsico há muitas mulheres altamente educadas e com vidas dignas, enquanto milhões de outras em países mais pobres vivem na miséria. Ambas sofrem discriminações, mas de formas e intensidades bem diferentes. Não necessariamente a milionária saudita proibida de dirigir em Riad se preocupa com a egípcia mendigando nas ruas do Cairo. Seus dramas são diferentes. A mutilação genital, por exemplo, é mais frequente no Egito pois é uma prática altamente difundida na África. No Golfo Pérsico, os números desta prática, talvez a mais extrema forma de discriminação de gênero, são muito menores. (Texto completo)

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