Educação Política

mídia, economia e cultura – por Glauco Cortez

Arquivos Diários: 15 maio, 2012

TEM UMA MOSCA NA SOPA DO JORNALISMO: CQC IRRITA POLÍTICOS E JORNALISTAS PORQUE FAZ O QUE O JORNALISMO DEVERIA FAZER

Tem uma mosca na sopa do jornalismo

Virou moda criticar o CQC (Custe o Que Custar), programa de humor e jornalismo da rede Bandeirantes, mas é preciso refletir um pouco. A principal crítica, a crítica inicial, vem de políticos acostumados com um jornalismo domesticado e subserviente. O CQC, por exemplo, está há um ano proibido de entrar no Senado Federal. São inconvenientes!

O CQC, na verdade, tem irritado jornalistas e políticos porque está fazendo o que o jornalismo deveria fazer e não faz. A grande mídia adormeceu a criticidade da profissão, sua indignação, seu humor e sua utopia. O CQC só entrou em cena porque o jornalismo está em sono profundo.

Ciro Mardondes Filho, no livro A Saga dos Cães Perdidos, explora essa desorientação e amansamento do jornalismo. Para o autor, o jornalista perdeu o faro, a intrepidez. O jornalismo não tem mais aspereza, rugosidade, está tão liso quanto a mão de um político corrupto. Parece que o CQC percebeu isso e está até aumentando a cobertura política. O CQC ainda não foi desancado pela grande mídia porque está inserido nela, já que é um programa da rede Bandeirantes.  Os produtores estão sabendo usar essa licença corporativa.

Quadros como o Proteste Já, Brasil Profundo e a cobertura de política do programa perturbam porque estão demonstrando justamente que o jornalismo há muito tempo perdeu sua essência farejadora e crítica. Os políticos se irritam porque estão acostumados à servilidade do jornalismo; quando estão de frente com o CQC, depois de muito tempo, sentem-se surpreendidos. O jornalismo tradicional ficou previsível demais.

Até o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal pediu recentemente que o governo restringisse o trabalho do programa CQC alegando que eles “prejudicam o trabalho da imprensa em Brasília”. (Veja link )  Isso porque o programa quis entregar uma máscara à secretária de Estado dos Estados Unidos, Hillary Clinton.

Pode-se concordar ou discordar, gostar ou não do CQC, pode não ser isso o melhor do jornalismo crítico, mas é preciso reconhecer que o CQC acabou resgatando, sob as vestes do humor,  algo essencial à profissão, a indignação. Indignai-vos!, diria Stéphane Hessel.

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CQC 2 – Proteste Já

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23 ANOS DEPOIS QUE A REVISTA VEJA ZOMBOU DE CAZUZA, É ELA QUEM PARECE AGONIZAR EM PRAÇA PÚBLICA

Em um texto tão expressivo quanto poético, Luiz Cesar, do blog Brasil que Vai!, lembra a edição da revista Veja que foi às bancas há 23 anos com a foto de uma vítima da Aids que, nos termos da revista, “agonizava em praça pública”: Cazuza.

A reportagem sobre Cazuza e os atuais escândalos envolvendo a revista Veja mostram que 23 anos não bastaram para transformar o perfil da revista, que continua tão oportunista como na ocasião da reportagem. No entanto, os 23 anos e a permanência da arte de Cazuza, viva e transformada, ainda nos dias atuais, mostra que Veja estava errada.

Como diz Luiz Cesar, na ocasião a revista “zombou da doença de Cazuza e abreviou sua morte”. Agiu apenas em nome de seus interesses comerciais e viu na figura de um ídolo da época uma ótima oportunidade para denunciar os excessos de uma “juventude transviada que não hesitava em atentar contra a moral e os bons costumes”.

A aparência, “as declarações já fragilizadas pela demência cerebral que acomete os infetados pela AIDS nos estágios mais avançados da doença”, tudo foi usado pela revista para construir uma imagem “agonizante”, “decadente” de Cazuza, de modo a dizer aos leitores, principalmente jovens, eis a triste consequência da liberdade.

Defender a moral e os bons costumes de personagens como Cazuza  foi a missão a que Veja se impôs naquela reporcagem. Nada mais natural. Quem defende a moral e os bons costumes geralmente representa o que há de mais conservador na sociedade e, se há uma moral realmente válida, aqueles que muito insistem nela escondem as piores imoralidades.

Também é próprio dos pequenos, pintar os realmente grandes de forma pequena e frágil. A crítica, a lucidez, a potência da juventude nunca interessaram a revistas como a Veja. Pra resumir, Cazuza era o que Veja já não era, por isso era preciso talvez destruí-lo também pelo fato de ele tão claramente dizer em suas músicas aquilo que regava, e ainda rega, boa parte da consciência conservadora e autoritária nacional: uma piscina cheia de ratos, ideias que não correspondem aos fatos…

Mas o tempo não para e esse mesmo tempo eternizou as músicas de um ídolo que se consagrou em praça pública e continua a inspirar uma juventude igualmente transgressora que hoje resiste e luta, à sua maneira, com inteligência, contra aqueles que querem uma nação sem povo. Tempo que também fez cair as máscaras de uma revista que precisa abreviar mortes, atropelar sentimentos, inventar fatos e acobertar crimes para suprir a sua falta de ideologia.

Veja trecho do texto de Luiz Cesar:

Quando Veja matou Cazuza diante da própria mãe
Por Luiz Cesar

Completaram-se 23 anos desde que Veja zombou de Cazuza e abreviou sua morte. Mal disfarçando o intento comercial por trás do anúncio antecipado da morte de um ídolo popular, a revista foi além e o expôs como um boneco de pano pronto a ser estraçalhado em expiação às transgressões que a juventude ousa com frequência lançar contra os guardiões da ordem e da boa moral.

Entre a reportagem denegritória e a morte passou-se pouco mais de um ano. Tomaram os desabafos de um homem fragilizado pela demência cerebral que acomete os infetados pela AIDS nos estágios mais avançados da doença como confissões pecaminosas de quem haveria de confrontar-se em fim com os próprios erros.

Ao invés de oferecer ao cantor o espelho que refletisse a ordem doente de que Veja era parte com seu apoio a Collor – como depois reclamara em canção outra vítima da AIDS, Renato Russo – estamparam o retrato do castigo, para que por meio da culpa outros não ousassem apontar as piscinas cheias de ratos dos que lucram com o desespero humano.

O ídolo de uma geração que festejava com rock o fim de um tempo de opressão foi apresentado aos fãs como um ser autodestrutivo, viciado desde criança, promíscuo e de talento duvidoso. Um insano que na hora da morte impunha sua esfinge esquálida aos funcionários da gravadora, cantando noite e dia suas últimas canções a eles que temiam sua morte nas dependências do estúdio.

Na vida privada Cazuza foi apresentado por Veja como um corpo que resistia a morrer, carregado que era de um lado para o outro no colo de um empregado abnegado, a um só tempo guarda-costas e enfermeiro, pelo que insinuava uma agonia em completo abandono.

Tampouco da mãe do enfermo Veja teve comiseração. E mostrou-a como uma mulher consumida pelo pesar de sentir-se responsável pela sorte do próprio filho, a quem não soube dar os ensinamentos de que uma criança precisaria ainda antes da adolescência. (Texto completo)

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