Educação Política

mídia, economia e cultura – por Glauco Cortez

Arquivos Diários: 9 agosto, 2012

DISSERTAÇÃO DE MESTRADO, DEFENDIDA NA UNICAMP, MOSTRA UMA VENEZUELA COM IMPRENSA LIVRE E SEM OS OLHOS DE SANGUE DA MÍDIA BRASILEIRA

Livro esquadrinha processo que levou Hugo Chávez ao poder

Do jornal da Unicamp

Quando cursava ciências sociais na USP, Flávio da Silva Mendes surpreendia-se com o antagonismo dos discursos sobre o governo de Hugo Chávez, da Venezuela, que permeavam os meios acadêmicos e aqueles veiculados na grande imprensa. Intrigado e motivado pelo interesse que sempre manifestara pela política na América Latina, ele se propôs a estudar o que determinava essa dicotomia. A oportunidade surgiu ao receber uma bolsa de mestrado no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp.  Mendes admite que muitas dúvidas o perseguiam ao elaborar o projeto, em parte dirimidas ao longo dos três meses em que esteve em Caracas, no início de 2009.

Lembra que ao chegar recebeu um choque e somente com as pesquisas e os contatos começou a entender o que realmente estava acontecendo no país. Foi quando se deu conta de que, tanto os discursos mais politizados, que ocorrem nos meios acadêmicos do Brasil, quanto os vinculados na imprensa, são distorcidos por várias razões e não refletem a realidade. É o que procura mostrar em sua dissertação de mestrado, orientada pelo professor Marcelo Ridenti, do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp, financiada pelo CNPq, que deu origem ao livro Hugo Chávez em seu Labirinto: o Movimento Bolivariano e a política na Venezuela, recém-lançado pela editora Alameda e publicado com o apoio da Fapesp.

O titulo faz clara referência ao livro O general em seu Labirinto, de Gabriel Garcia Márquez (1989), que trata dos últimos dias da vida de Simón Bolívar [1783-1830], de cujos ideais estão supostamente impregnados a cultura da Venezuela e o discurso de Hugo Chávez. Para o autor, o país tem também o seu “general” e o seu “labirinto”, mas como no romance de Garcia Márquez, o personagem principal não conhece seu final nem tem poderes ilimitados, como parece, para conduzir o seu enredo. No estudo, ele considera fundamental entender a ascensão de Chávez como produto histórico. “Não é ele que produz o processo; é o processo que leva a ele”, diz convicto.  Por isso, se propôs a entender a origem do Movimento Bolivariano, que aglutinou o nacionalismo militar e a esquerda.
Em decorrência do estudo, ele constata que, apesar das muitas tentativas e projetos do governo Chávez, as mudanças econômicas pretendidas tiveram pequeno avanço. Os resultados mais interessantes envolvem a política social, de que resultou a melhoria da condição de vida da população mais pobre. Apesar das especulações sobre a saúde de Chávez, ele acredita que apenas uma ocorrência muito grave ou uma tragédia o levaria à derrota nas eleições de 8 de outubro próximo.  Para ele, “o processo da revolução bolivariana tende a continuar, embora tenha atingido certa estabilidade depois de vários anos de confronto mais acirrado com as oposições. A mobilidade desse processo vai depender do crescimento do grau de consciência da população, que constitui a própria base do governo”.

Entre algumas das principais impressões decorrentes de sua estada na Venezuela, Mendes menciona a polarização das opiniões em relação ao governo: não há matizes, ou se é chavista ou antichavista.  Constatou nas ruas que qualquer tentativa de relativizar a opinião resulta inútil e determina a classificação de contra ou a favor. Na Universidade Central da Venezuela, os professores se revelam opositores em sua maioria. A classe média e os intelectuais participam das marchas organizadas pela oposição, ao contrário dos pobres, revelando uma divisão social de classes.

Para o autor do livro, a adesão dos mais pobres decorre da melhoria de suas condições materiais, redução do custo de vida, ampliação da rede de proteção social, e de uma economia que gera mais renda. A população sente-se representada pelo governo, identificação que ocorre até em relação às feições de Chávez, semelhantes aos povos do sul do país, diferentes dos políticos anteriores cujos traços remetem à “elite”. No apoio a Chávez está subjacente a visão de que a Venezuela depende dele e de seu projeto de governo, que os partidos aliados e o exército não conseguem implementar. Com efeito, a coalizão de grupos muito diferentes que apoia o governo acirra as disputas internas e leva à troca constante de ministros na tentativa de atender às bases de apoio.

Na opinião de Mendes, a classe média não conseguiu retomar o poder de consumo que detinha anteriormente.  Chávez não se mostra sensível a tais descontentamentos e às reivindicações desses segmentos que pleiteiam melhoria nos transportes, aumento da segurança e eficiência na coleta de lixo, problemas sensíveis particularmente nas cidades maiores. Essas críticas repercutem nos jornais e na televisão, nos quais o governo é mostrado sem capacidade administrativa, corrupto e autoritário. O autor diz que essas críticas ocorrem até na base do governo.

De um professor favorável a Chávez, ele ouviu que “o governo está muito preocupado em fazer a revolução, mas se esquece de tirar o lixo”. Ressalva, entretanto, que Chávez não é o responsável por esses e outros problemas históricos, mas que efetivamente ele encontra muita dificuldade em revertê-los. (…)

Entretanto, o pesquisador identifica avanços políticos na Venezuela.  Lembra que, no final dos anos 80 e início dos anos 90, uma boa parte da população não sentia a possibilidade de mudanças sociais e não acreditava na política como via de transformação.  Considerava-se no fundo do poço e sem saída. “Entendo que, a partir dos anos 90, o surgimento de uma nova via conduziu a uma politização muito grande. Considero esse fato muito importante tanto para a base de apoio de Chávez como para a oposição. Saiu-se daquela democracia pactuada, incontestada, para um cenário com várias possibilidades para a sociedade. A população ganhou consciência de que tem direitos, que deve defendê-los, independentemente de qual seja o governo no poder. Depois de uma análise histórica do que ocorreu ao longo das últimas décadas no país, não se pode acreditar que Chávez tenha sido eleito em1998  manipulando as massas. Não se pode ignorar todas as crises anteriores  e o acúmulo de necessidades de mudanças esperadas pela população”, conclui ele. (texto completo)

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