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BARTLEBY, UM ESCRITURÁRIO QUE PREFERE NÃO FAZER, EM UM BELO TEXTO DO ESCRITOR NORTE-AMERICANO HERMAN MELVILLE

Ilustração do escriturário Barbleby, que preferia não fazer

“Então, numa manhã de domingo calhei de ir à igreja da
Trindade para ouvir um célebre pregador. Como cheguei
muito cedo ao local, pensei em ir até o meu escritório. Por
sorte, tinha a chave comigo; mas, ao colocála na fechadura,
notei que do outro lado algo impedia sua entrada. Bastante
surpreso, chamei em voz alta; foi quando, para minha con-
sternação, uma chave virou lá dentro; e, avançando seu
rosto magro em minha direção e segurando a porta entrea-
berta, surgiu a imagem de Bartleby, em mangas de camisa e
estranhamente desanimado, dizendo em voz baixa que sen-
tia muito, mas que estava profundamente ocupado naquele
momento e que preferia não permitir a minha entrada. Em
mais uma ou duas palavras, ele ainda acrescentou que talvez
fosse melhor que eu desse duas ou três voltas no quarteirão,
depois do que ele provavelmente teria concluído o que es-
tava fazendo.
Agora, a aparência totalmente inesperada de Bartleby,
assombrando meu escritório numa manhã de domingo com
seu cortês desleixo cadavérico, ainda que firme e calmo, teve
um efeito tão estranho sobre mim, que eu imediatamente
afastei-me de minha própria porta e fiz como ele desejava.
Mas não sem uma forte revolta impotente contra a educada
arrogância desse escriturário incompreensível. Na verdade,
foi principalmente sua incrível delicadeza que não apenas
me desarmou como, aparentemente, castrou-me. Porque eu
considero castrado um homem que permite tranqüilamente
que seu funcionário lhe dê ordens e diga-lhe para retirar-
se de seu próprio imóvel. Além do mais, fui invadido por
um enorme desconforto ao pensar no que Bartleby poderia
estar fazendo em meu escritório em mangas de camisa e
também em total desalinho numa manhã de domingo.”

(Trecho do conto Bartleby, de Herman Melville)

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Por glaucocortez

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