Educação Política

mídia, economia e cultura – por Glauco Cortez

Arquivos Mensais: outubro 2012

A ÍNDIA E O DEPUTADO: A LIBERDADE DE EXPRESSÃO NO DISCURSO EM DEFESA DOS GUARANI-KAIOWÁ E A PUBLICIDADE DO GOVERNO MASOQUISTA DO PT

Fernando Ferro: PT é masoquista

Um vídeo e um texto que se complementam.

No vídeo, o discurso de uma jovem índia em protesto dos índios em favor dos Guarani-Kaiowá, reclamando da falta de capacidade de comunicação, da falta de liberdade de expressão. Não se preocupe se não entender nada no começo do vídeo.

A indignação da jovem índia complementa o excelente texto do deputado do PT, Fernando Ferro, sobre a distribuição da verba publicitária do governo federal. O PT é masoquista.

Vi no Com Texto Livre

Fernando Ferro: Verba publicitária e sadomasoquismo

Verba publicitária e sadomasoquismo

Por Fernando Ferro, sugerido pelo leitor Cicero

Os jornalecos e almanaques reacionários de oposição, tipo Veja, vez por outra têm um de seus capangas acusando jornalistas de “chapa-branca” na tentativa de encurralar qualquer visão séria e democrática sobre o Partido dos Trabalhadores e os governos do PT. Por trás destas críticas reside um viés ideológico como porta-voz da direita no Brasil, bem como um certo mal estar pela perda da sustentação financeira com o dinheiro oficial.

A partir do governo Lula, praticou-se uma distribuição mais justa em termos regionais na descentralização dos receptores do dinheiro da publicidade oficial. Nosso governo incorporou no mailing dos meios de comunicação do Estado brasileiro desde redes regionais até o sistema de rádios comunitárias e jornais espalhados por diversas regiões do Brasil. Este gesto atraiu o descontentamento dos Civitas da vida, que querem monopolizar e concentrar os meios e suas receitas. Apesar da mudança, ainda é profundamente concentrada a distribuição das verbas oficiais de comunicação.

Observa-se que dos R$ 161 milhões repassados à emissoras de rádios, TV, jornais, revistas e sites, desde o início do governo Dilma, R$ 50 milhões foram destinados apenas para a TV Globo, quase um terço de toda a verba – ao todo, o Sistema Globo de Comunicações recebeu R$ 55 milhões. Já a “imparcial” revista Veja, por sua vez, recebeu R$ 1,3 milhão; e o os tentáculos on-line da Editora Abril também receberam mais R$ 353 mil. Enquanto isso, a revista “parcial” Carta Capital recebeu, no mesmo período, R$ 119 mil.

Em outros termos, pagamos uma mídia para nos atacar, nos destruir e se organizar em quadrilhas, como no caso recente da dobradinha Veja/Cachoeira.

Isto não é justo. Não é correto. Precisamos rever a distribuição de verbas publicitárias, que hoje se constituem num verdadeiro acinte à democracia. Não se trata apenas de regular os meios de comunicação, devemos promover uma justa redistribuição das verbas publicitárias do Governo.

Por fim, é bom que se note que aqui não foram incluídos os repasses das verbas publicitárias das empresas estatais de economia mista, como o Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, BNDES, Correios, Grupo Eletrobrás, Petrobrás, etc.

Ora, parece que tomamos gosto por rituais de sadomasoquismo midiático ou praticamos a gentileza dos submissos.

Fernando Ferro é deputado federal (PT-PE) e vice-líder da Bancada do partido na Câmara

Vi no blog do Azenha

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MARILENA CHAUÍ SENSACIONAL: DE MANHÃ TEM O SOL, DE NOITE TEM A LUA E DURANTE O DIA TEM A CLASSE MÉDIA PAULISTANA

MAPA DAS ELEIÇÕES 2012 MOSTRA O POSSÍVEL FIM DO PREDOMÍNIO PSDB-PT E UMA LIÇÃO INESQUECÍVEL PARA A GRANDE IMPRENSA

As eleições municipais deste ano trazem algumas lições para os políticos e para a grande mídia. É certo que cada cidade tem uma infinidade de fatores que alteram o resultado da eleição, mas talvez a maior lição dada pelo eleitor é a de que quem comete erros deve cair fora. Assim, muitos candidatos não se elegeram porque houve erros em administrações anteriores que apoiaram ou a elas estavam ligados.

O maior destaque dessa eleição, de uma forma geral, foi a aposta dada ao Mensalão pelo chamado PIG (Globo, Veja, Folha, Estadão e outros). Apesar de todo o esforço dado ao julgamento, inclusive com a edição pela Globo de um especial do Mensalão de 20 minutos no Jornal Nacional nas vésperas das eleições, houve uma derrota clamorosa em São Paulo. As últimas pesquisas indicando vitória de Fernando Haddad foram simplesmente ignoradas pela principal emissora de TV. E o pior, apesar de toda a cobertura, o PT cresceu em número de prefeituras e conquistou São Paulo. Isso tende a inspirar ainda mais instintos golpistas.

O maior adversário do PT se mostrou nessas eleições. Não é o PSDB, mas o conservadorismo da grande mídia e do judiciário.

Por isso, o grande derrotado dessas eleições foi o chamado PIG, que perdeu mais do que o próprio PSDB. O partido tucano perdeu em São Paulo, o quartel general do PIG, diminuiu o número de prefeituras, mas ganhou em outras importantes cidades. A cada eleição o PSDB, mesmo com o esforço inesgotável do PIG, vai encolhendo e se distanciando de ser o grande partido ideológico de oposição ao PT.

Novas forças surgiram nessa eleição, o PSD, do Gilberto Kassab, e o PSB, de Eduardo Campos. Isso também demonstra que a derrota do PSDB não foi tão grande porque se deu muito em razão do crescimento desses dois partidos. PSD e PSB receberam políticos do PSDB, que não conseguiam espaço na sigla.  Assim, a grande ameça ao PSDB surge com o partido de Eduardo Campos, visto que o PSD de Kassab tem mais pretensões fisiológicas do que ideológicas, assim como o PMDB. O PT e o PSB são partidos que tendem a crescer nas próximas eleições.

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O NINHO

A ARTE E A VIDA EM CÍRCULOS NAS ESCULTURAS DO MINEIRO GERALDO TELES DE OLIVEIRA, O GTO

GUERRA CIVIL: POLÍTICA DE SEGURANÇA DE GERALDO ALCKMIN E DO PSDB SÓ FUNCIONARIA SE FOSSE SUSPENSO O ESTADO DE DIREITO

Depois de 20 anos de PSDB, violência explode em São Paulo

Depois de quase 20 anos de governo do PSDB em São Paulo, os índices de assassinatos explodem e está declarada uma guerra urbana entra a Polícia Militar e os grupos organizados de traficantes. Os bandidos que estão matando policiais hoje em São Paulo nasceram quando o PSDB chegou ao poder no estado.

O governador Geraldo Alckmin é um exemplo irretocável da política instalada no estado pelo partido. “Vamos combater com firmeza bandidos, não vão nos intimidar, os bandidos vão para a cadeia”, costuma afirmar semanalmente o governador.

É essa, em resumo, a política de segurança do governo. Esse discurso linha dura do governador funcionaria bem se fosse possível romper o estado de direito e a Polícia Militar tivesse carta branca para matar. Essa é a única maneira capaz de o PSDB ter sucesso no combate a violência. Não é por acaso que o partido elegeu vereadores cujo lema era “bandido bom é bandido morto”.

O problema deixa o partido em uma situação difícil, visto que esse tipo de medida tem pouca chance de prosperar, salvo em um sistema realmente de volta ao terror do estado, como no período ditatorial. Está claro que o PSDB não terá sucesso no combate a violência, mesmo porque a situação só piorou durante quase 20 anos de governo, salvo se mascarar os números da violência.

A Polícia Militar do estado precisa usar menos as armas e mais a cabeça. O governo do PSDB colocou os soldados da PM em uma guerra urbana bastante perversa para a polícia. Uniformizada, ela enfrenta nas cidades criminosos não uniformizados. Tornam-se um alvo fácil.

No pano de fundo não está somente o discurso conservador direitista, incompetência e ignorância política, mas toda uma concepção medíocre e fracassada de que o combate às drogas é uma questão policial. O Brasil precisa discutir outras formas de combate às drogas. O país, por exemplo, combateu e diminuiu o índice de fumantes sem o uso da polícia.

Quantas pessoas morreram pelo uso de drogas na última década? Lembro-me da Cássia Eller, em 2001, mais ninguém. Mas quantas pessoas morreram na guerra civil das drogas esta semana? dezenas, talvez centenas. O país precisa discutir sem preconceito, sem mitos, sem tabus. Não é possível continuar essa guerra. As famílias dos policiais não merecem que eles trabalhem em uma guerra urbana.

Não passa pela cabeça desses gênios do PSDB que é preciso distribuir renda, que o dinheiro precisa chegar na periferia, que precisa sobrar dinheiro público nas escolas. A desocupação do bairro Pinheirinho é a cara da política de segurança do PSDB, desalojar a população pobre para dar o terreno a um especulador. Pobre é bandido. O mapa de votação do primeiro turno em São Paulo deixou claro que a população mais pobre já entendeu isso.

Durante esses anos todos, o partido não foi capaz de estruturar o estado para que os jovens da periferia não fossem aliciados por traficantes. Sem um grande programa educacional e de distribuição de renda, sem uma discussão desapaixonada sobre as drogas, a guerra civil vai continuar.

Este texto foi traduzido para o alemão por Peter Hilgeland (‘Zero tolerance’ auf brasilianisch)

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PROJETO DO CANDIDATO A PREFEITO DE CAMPINAS, JONAS DONIZETTE, QUE REGULARIZA TRABALHO INFANTIL A PARTIR DOS 7 ANOS GANHA REPERCUSSÃO NACIONAL

Campinas: Justiça mantém divulgação de projeto que liberava trabalho infantil

Rede Brasil Atual

Criança trabalhando ou na escola?

Candidato Jonas Donizette (PSB) apresentou proposta em 1997, como vereador, para transformar garotos de rua em ‘carregadores de sacolas, ajudante nas barracas dos feirantes e guardadores de carros’

São Paulo – A Justiça Eleitoral recusou o pedido de liminar apresentado pelo candidato do PSB à prefeitura de Campinas, Jonas Donizette, para barrar a divulgação de um projeto de lei de autoria dele que permite a prática do trabalho infantil na cidade do interior paulista. Na última terça-feira (23), Donizette apresentou o pedido afirmando que era equivocada a versão divulgada pela campanha do adversário, Márcio Pochmann (PT), de que a proposta liberava atividades trabalhistas de crianças a partir de sete anos.

Crianças trabalhando ou na escola?

Ontem, o juiz Mauro Fukumoto, da 379ª Zona Eleitoral, afirmou que “não são inverídicas as afirmações” divulgadas durante a disputa eleitoral. Apelidado de “Menores da feira”, o projeto apresentado quando Donizette era vereador tenta colocar em atividade crianças e jovens em situação de rua. O artigo 2º tem a seguinte redação: “O Programa ao ser implantado consistirá de três etapas distintas: diagnóstico, abordagem da criança e do adolescente naquele meio, e a organização dos meninos (as) maiores de 07 (sete) anos, formando grupos de: carregadores de sacolas, ajudante nas barracas dos feirantes e guardadores de carros”.

Para o magistrado, a contestação de Donizette não tem valor, uma vez que a redação “deixa clara” a intenção do projeto, que chegou a ser aprovado pela Câmara Municipal de Campinas, mas acabou sendo considerado inconstitucional. “Não há na lei qualquer estímulo à frequência à escola, ou qualquer perspectiva de retirar a criança da situação de rua”, acrescenta o juiz.

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ASSOCIAÇÃO ESPÚRIA ENTRE JORNALISMO E MERCADO DE CAPITAIS SUGA O DINHEIRO DA POPULAÇÃO E TRANSFERE PARA ACIONISTAS DA BOLSA

A suntuosidade da bolsa de valores mexicana: suga a economia da população em associação com a mídia

O mercado de capitais, principalmente a compra e venda de ações de empresas em bolsa de valores, era para ser um grande instrumento de financiamento de empresas. E realmente ainda é. Mas nas últimas décadas, a associação entre jornalismo e empresas ligadas a esse mercado têm gerado crises financeiras como as da Europa e Estados Unidos, retirando direito de populações e aumentando a desigualdade e a pobreza.

Tornou-se comum no jornalismo econômico brasileiro, seja TV, rádio ou impresso, a presença de fontes ligadas a esse mercado. Após uma decisão governamental, é comum os colunistas aparecerem para citar que “os analistas do mercado” ou “segundo analistas de mercado” etc etc etc.

Na maioria das vezes, não se sabe quem são esses analistas de mercado. Mas eles aparecem para avaliar uma medida governamental como se a medida dependesse desse aval. Se eles aprovam, o Brasil estaria no caminho certo. Quando desaprovam, o Brasil estaria no caminho errado. Interessante é que nas últimas décadas tem-se provado o contrário. Quando desaprovam, a economia vai bem, a população e o setor produtivo ganham.

E isso acontece por uma questão muito simples. Os interesses do mercado de capitais não são, na maioria das vezes, compatíveis com o interesse da população. Uma medida econômica que beneficia o mercado pode ser prejudicial à população e vice-versa.  Quando o jornalismo econômico pede aval, bença e reza o terço dos analistas econômicos, a população quase sempre sai perdendo. Os empresários perdem menos porque parte do seu investimento fica no mercado financeiro, assim, se perde de um lado, ganha de outro.

Recentemente algumas notícias deixam clara essa situação. Quando o governo Dilma Rousseff decidiu renovar as concessões das empresas do setor de energia elétrica com o objetivo de reduzir as tarifas para indústrias e residências, os “analistas do mercado” apareceram para dizer que isso é um risco, que faltará investimento etc etc. Na verdade, estavam interessados é no rendimento das ações das empresas de energia que diminuiriam o retorno do investidor. Assim, quem tem ação nessas empresas perde em rendimento e valorização. Ou seja, ele está pensando no bolso dele. E que se dane a população, empresários do setor produtivo e o Brasil. Para os “analistas de mercado”, o mais importante é a lucratividade das empresas e o aumento dos dividendos.

A mesma ladainha se escuta sobre a Petrobrás. Há uma pressão dos “analistas de mercado” para que se aumente o preço do combustível. Para eles, a empresa estaria em risco, com manutenção dos preços etc etc. No entanto, a Petrobrás tem grandes benefícios por ser estatal e deter praticamente um monopólio. Se ela sobe os preços dos combustíveis, a população, o setor produtivo e o Brasil como um todo perde. Mas os investidores de ações da empresa podem ganhar milhões com a valorização das ações. Aumenta o preço do combustível, o país paga mais caro e os “analistas de mercado” e seus clientes lucram.

Esses pequenos exemplos mostram o quão espúria é essa relação entre mercado de capitais e jornalismo econômico. Quanto mais o mercado de ações lucra, mas a população precisa ser arrochada, impedindo o desenvolvimento de diversos setores. A crise da Europa e EUA provocada pelo setor financeiro, em apostas em mercados de risco, fez com que se tirasse direitos da população para pagar esse rombo e não comprometesse os setores de finança e de capitais. Por isso tantos protestos na Europa.

Em nenhum momento a mídia brasileira é capaz de mostrar esse lado vampiro dos mercados de capitais. Pelo contrário, o jornalismo econômico se transformou em um lambe botas do mercado financeiro, respaldando políticas governamentais que prejudicam a população em benefício de investidores.

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QUEM FAZ JUSTIÇA? LULA DEMARCOU TERRA GUARANI-KAIOWÁ, MAS O SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL, DE GILMAR MENDES, DESMARCOU

Mesmo sob ameaças de pistoleiros, indígenas Guarani Kaiowá vão permanecer em seu território

Menina terena e bebê: depois de 500 anos de massacre, ainda resistem

Natasha Pitts -Jornalista da Adital 
Adital via Limpinho & Cheiroso

O conflito fundiário e judicial que envolve o território sagrado Arroio Koral parecia estar resolvido quando o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou, em dezembro de 2009, um decreto homologando a demarcação da terra. No entanto, em janeiro de 2010, o Supremo Tribunal Federal (STF), do qual está à frente o ministro Gilmar Mendes, suspendeu a eficácia do decreto presidencial em relação às fazendas Polegar, São Judas Tadeu, Porto Domingos e Potreiro-Corá.

Na última sexta-feira (10), indígenas Guarani Kaiowá do Mato Grosso do Sul (MS), Centro-Oeste brasileiro, cansados da morosidade da justiça, decidiram retomar parte do tekoha (território sagrado) Arroio Koral, localizado no município de Paranhos. Poucas horas depois, nem bem os cerca de 400 indígenas haviam montado acampamento, pistoleiros invadiram o local levando medo e terror para homens, mulheres e crianças.

A ação resultou em indígenas feridos, mas sem gravidade. Além disso, permanece desaparecido o Guarani Kaiowá João Oliveira, que não conseguiu fugir. Com a chegada da Força Nacional os pistoleiros se dispersaram e fugiram.

No momento do ataque, os/as indígenas correram e se espalharam pela mata, no entanto, passados os momentos de pânico, aos poucos os Guarani Kaiowá foram retornando para o acampamento e mesmo se sentindo inseguros e amedrontados pretendem não sair mais de lá.

O Guarani Kaiowá Dionísio Gonçalves assegura que os indígenas estão firmes na decisão de permanecer no tekoha Arroio Koral, mesmo cientes das adversidades que terão que enfrentar, já que o território sagrado reivindicado por eles fica no meio de uma fazenda.

“Nós estamos decididos a não sair mais, nós resolvemos permanecer e vamos permanecer. Podem vir com tratores, nós não vamos sair. A terra é nossa, até o Supremo Tribunal Federal já reconheceu. Se não permitirem que a gente fique é melhor mandarem caixão e cruz, pois nós vamos ficar aqui”, assegurou.

Dionísio informou que no momento as lideranças indígenas estão aguardando a chegada da Polícia Federal no acampamento para iniciar as investigações sobre o acontecido e para a realização das buscas por João Oliveira. “Eles disseram que vinham depois das 12h, estamos esperando por eles e por outros órgãos para resolver o problema”, afirmou.

Conflito fundiário

A batalha pela retomada de terras indígenas não é de hoje no Mato Grosso do Sul. Neste estado, onde se localizam os mais altos índices de assassinatos de indígenas, esta população luta há vários anos pela devolução de terras tradicionais e sagradas. Dentro deste contexto de luta já aconteceram diversos ataques como os de sexta-feira, muitos ordenados por fazendeiros insatisfeitos com a devolução das terras aos seus verdadeiros donos.

O conflito fundiário e judicial que envolve o território sagrado Arroio Koral parecia estar resolvido quando o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou, em dezembro de 2009, um decreto homologando a demarcação da terra. No entanto, em janeiro de 2010, o Supremo Tribunal Federal (STF), do qual está à frente o ministro Gilmar Mendes, suspendeu a eficácia do decreto presidencial em relação às fazendas Polegar, São Judas Tadeu, Porto Domingos e Potreiro-Corá.

O processo continua em andamento, mas tem caminhado a passos muito lentos, já que ainda não foi votado por todos os ministros. Assim, fartos da morosidade da justiça brasileira, os Guarani Kaiowá decidiram fazer a retomada da terra.

Os indígenas escreveram uma carta para os ministros do Supremo Tribunal Federal e para o Governo Federal em que reivindicam o despejo dos fazendeiros que ainda estão ocupando e destruindo territórios tradicionais já demarcados e reconhecidos pelo Estado brasileiro e pela Justiça Federal e exigem a devolução imediata de todos os antigos territórios indígenas.

“Sabemos que os pistoleiros das fazendas vão matar-nos, mas mesmo assim, a nossa manifestação pacífica começa hoje 10 de agosto de 2012. Por fim, solicitamos, com urgência, a presenças de todas as autoridades federais para registrar as nossas manifestações pacíficas, étnicas e públicas pela devolução total de nossos territórios antigos”, anuncia o último trecho da carta assinada por lideranças, rezadores, mulheres pertencentes ao Povo Kaiowá e Guarani dos acampamentos e das margens de rodovias, ameaçados pelos pistoleiros das fazendas, dos territórios reocupados e das Reservas/Aldeias Guarani e Kaiowá do Mato Grosso do Sul.

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“PEDIMOS AOS JUÍZES FEDERAIS PARA ENVIAR TRATORES PARA CAVAR UM GRANDE BURACO PARA JOGAR E ENTERRAR OS NOSSOS CORPOS”

Carta da comunidade Guarani-Kaiowá de Pyelito Kue/Mbarakay-Iguatemi-MS para o Governo e Justiça do Brasil
Nós, (50 homens, 50 mulheres e 70 crianças) comunidades Guarani-Kaiowá originárias de tekoha Pyelito kue/Mbrakay, viemos através desta carta apresentar a nossa situação histórica e decisão definitiva diante de da ordem de despacho expressado pela Justiça Federal de Navirai-MS, conforme o processo nº 0000032-87.2012.4.03.6006, do dia 29 de setembro de 2012. Recebemos a informação de que nossa comunidade logo será atacada, violentada e expulsa da margem do rio pela própria Justiça Federal, de Navirai-MS.
Assim, fica evidente para nós, que a própria ação da Justiça Federal gera e aumenta as violências contra as nossas vidas, ignorando os nossos direitos de sobreviver à margem do rio Hovy e próximo de nosso território tradicional Pyelito Kue/Mbarakay.
Entendemos claramente que esta decisão da Justiça Federal de Navirai-MS é parte da ação de genocídio e extermínio histórico ao povo indígena, nativo e autóctone do Mato Grosso do Sul, isto é, a própria ação da Justiça Federal está violentando e exterminado e as nossas vidas. Queremos deixar evidente ao Governo e Justiça Federal que por fim, já perdemos a esperança de sobreviver dignamente e sem violência em nosso território antigo, não acreditamos mais na Justiça brasileira.
A quem vamos denunciar as violências praticadas contra nossas vidas? Para qual Justiça do Brasil? Se a própria Justiça Federal está gerando e alimentando violências contra nós. Nós já avaliamos a nossa situação atual e concluímos que vamos morrer todos mesmo em pouco tempo, não temos e nem teremos perspectiva de vida digna e justa tanto aqui na margem do rio quanto longe daqui. Estamos aqui acampados a 50 metros do rio Hovy onde já ocorreram quatro mortes, sendo duas por meio de suicídio e duas em decorrência de espancamento e tortura de pistoleiros das fazendas.
Moramos na margem do rio Hovy há mais de um ano e estamos sem nenhuma assistência, isolados, cercado de pistoleiros e resistimos até hoje. Comemos comida uma vez por dia. Passamos tudo isso para recuperar o nosso território antigo Pyleito Kue/Mbarakay. De fato, sabemos muito bem que no centro desse nosso território antigo estão enterrados vários os nossos avôs, avós, bisavôs e bisavós, ali estão os cemitérios de todos nossos antepassados.
Cientes desse fato histórico, nós já vamos e queremos ser mortos e enterrados junto aos nossos antepassados aqui mesmo onde estamos hoje, por isso, pedimos ao Governo e Justiça Federal para não decretar a ordem de despejo/expulsão, mas solicitamos para decretar a nossa morte coletiva e para enterrar nós todos aqui.
Pedimos, de uma vez por todas, para decretar a nossa dizimação e extinção total, além de enviar vários tratores para cavar um grande buraco para jogar e enterrar os nossos corpos. Esse é nosso pedido aos juízes federais. Já aguardamos esta decisão da Justiça Federal. Decretem a nossa morte coletiva Guarani e Kaiowá de Pyelito Kue/Mbarakay e enterrem-nos aqui. Visto que decidimos integralmente a não sairmos daqui com vida e nem mortos.
Sabemos que não temos mais chance em sobreviver dignamente aqui em nosso território antigo, já sofremos muito e estamos todos massacrados e morrendo em ritmo acelerado. Sabemos que seremos expulsos daqui da margem do rio pela Justiça, porém não vamos sair da margem do rio. Como um povo nativo e indígena histórico, decidimos meramente em sermos mortos coletivamente aqui. Não temos outra opção esta é a nossa última decisão unânime diante do despacho da Justiça Federal de Navirai-MS.
Atenciosamente, Guarani-Kaiowá de Pyelito Kue/Mbarakay (cpt)

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CONFLITO DE GERAÇÕES: O DIÁLOGO IMPERTINENTE E REVELADOR ENTRE PAI E FILHO SOBRE POLÍTICA E MÍDIA NO BRASIL

Quais são as vozes da classe média?

Essa é uma história real e reveladora da relação entre política e mídia no Brasil. Os nomes das pessoas que viveram essa situação e também alguns detalhes serão preservados porque não faz sentido revelar e também não acrescenta nada ao contexto. O importante é a incrível situação que reflete bem o que acontece no Brasil atualmente.

Temos uma geração de jovens por volta dos 20 anos que vive na internet, mas seus pais na casa dos 40 e 50 sentem um pouco de dificuldade, principalmente aqueles cuja profissão não exigiu conhecimento razoável em informática e computação.

Esse é o caso de Roberto, que tem cerca de 50 anos, e é dono de um pequeno, mas bastante lucrativo mercado em uma cidade média do estado de São Paulo. Além desse mercado, herança dos pais, Roberto administra outros negócios da família, como imóveis e uma loja. Como único filho homem, que nunca quis estudar muito, logo acabou assumindo os negócios da família e, com a morte do pai, acabou tendo responsabilidade sobre as atividades, que não são poucas. Apesar de desistir da faculdade, Roberto nunca se negou ao trabalho, gosta de fazer. Acorda cedo e toca o mercado e outros negócios até à noite.

Roberto há muito tempo assinava a Revista Veja, mas cancelou a assinatura há cerca de três anos quando um dos filhos, Pedro, entrou na faculdade e logo nas primeiras férias em casa disse ao pai que deveria cancelar a assinatura da revista. “Essa revista é idiota, manipula a informação”, disse. Aquele período era um momento especial para a revista Veja, que estava sendo pautada pela relação com Carlinhos Cachoeira, mas ninguém ainda sabia. Roberto, que tinha orgulho do filho na faculdade, resolveu cancelar a revista. E manteve a assinatura da Folha de S.Paulo que não sofreu restrições do filho.

Isso aconteceu há dois ou três anos mais ou menos. Até hoje Roberto recebe a revista Veja em casa, desde que deixou de pagar. “Já liguei duas ou três vezes para a revista para dizer que não precisam mais mandar, mas eles continuam mandando”, disse Roberto, resignado, ao filho no último final de semana.

Isso aconteceu no meio de uma discussão política, quando Roberto decidiu perguntar ao filho em quem ele iria votar nesse segundo turno.

“Vou votar no PT, o candidato é muito melhor que o do PSDB”, disse Pedro.

“Mas como você vai votar no PT? Eu não gosto do PT. Olha a sujeirada do Mensalão, tá todo o dia no jornal, na TV”. Você vai votar no PT ainda?”

“Vou sim pai. O PSDB é muito pior”.

“Eu não vejo nada de errado com o PSDB”

“O José Serra, candidato em São Paulo, é horrível”

“Como horrível? Não existe nada contra ele”, arguiu Roberto.

“Você já ouviu falar do Mensalão tucano, da Privataria Tucana?”

“Não, o que é isso? Não vi nada nos jornais, nem na TV. Mas sei muito bem desses petistas aí que você vai votar”

“É porque todos os jornais que você lê são ruins”

“A é? E qual é bom então? Você reclama de tudo”

“A Carta Capital é uma revista séria”

“Carta o quê? O que é isso? Nunca ouvi falar dessas coisas que você está falando”

“É, mas existem pai!”

“Vocês ficam inventando coisas…”, disse Roberto e encerrou a discussão se afastando. Apesar do final de semana, ele tinha mais o que fazer do que ficar discutindo com o seu filho rebelde.

ps: parece ficção, mas aconteceu esse final de semana.

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NO PAÍS DO AGRONEGÓCIO PREDATÓRIO, 863 MINUTOS DE SILÊNCIO PARA OS ÍNDIOS QUE SE SUICIDARAM E FORAM ASSASSINADOS NAS ÚLTIMAS DÉCADAS

POPULAÇÃO DA ISLÂNDIA DECIDIU ENFRENTAR OS BANQUEIROS QUE QUEBRARAM O PAÍS E FIZERAM NOVA CONSTITUIÇÃO

O referendum islandês e os silêncios da mídia

Por Mauro Santayana / Carta Maior
Sede do Lehman Brothers nos EUA
Os cidadãos da Islândia referendaram, ontem (20/10) , com cerca de 70% dos votos, o texto básico de sua nova Constituição, redigido por 25 delegados, quase todos homens comuns, escolhidos pelo voto direto da população, incluindo a estatização de seus recursos naturais. A Islândia é um desses enigmas da História. Situada em uma área aquecida pela Corrente do Golfo, que serpenteia no Atlântico Norte, a ilha, de 103.000 qm2, só é ocupada em seu litoral. O interior, de montes elevados, com 200 vulcões em atividade, é inteiramente hostil – mas se trata de uma das mais antigas democracias do mundo, com seu parlamento (Althingi) funcionando há mais de mil anos. Mesmo sob a soberania da Noruega e da Dinamarca, até o fim do século 19, os islandeses sempre mantiveram confortável autonomia em seus assuntos internos.
Em 2003, sob a pressão neoliberal, a Islândia privatizou o seu sistema bancário, até então estatal. Como lhes conviesse, os grandes bancos norte-americanos e ingleses, que já operavam no mercado derivativo, na espiral das subprimes, transformaram Reykjavik em um grande centro financeiro internacional e uma das maiores vítimas do neoliberalismo. Com apenas 320.000 habitantes, a ilha se tornou um cômodo paraíso fiscal para os grandes bancos.
Instituições como o Lehman Brothers usavam o crédito internacional do país a fim de atrair investimentos europeus, sobretudo britânicos. Esse dinheiro era aplicado na ciranda financeira, comandada pelos bancos norte-americanos. A quebra do Lehman Brothers expôs a Islândia que assumiu, assim, dívida superior a dez vezes o seu produto interno bruto. O governo foi obrigado a reestatizar os seus três bancos, cujos executivos foram processados e alguns condenados à prisão.
A fim de fazer frente ao imenso débito, o governo decidiu que cada um dos islandeses – de todas as idades – pagaria 130 euros mensais durante 15 anos. O povo exigiu um referendum e, com 93% dos votos, decidiu não pagar dívida que era responsabilidade do sistema financeiro internacional, a partir de Wall Street e da City de Londres.
A dívida externa do país, construída pela irresponsabilidade dos bancos associados às maiores instituições financeiras mundiais, levou a nação à insolvência e os islandeses ao desespero. A crise se tornou política, com a decisão de seu povo de mudar tudo. Uma assembléia popular, reunida espontaneamente, decidiu eleger corpo constituinte de 25 cidadãos, que não tivessem qualquer atividade partidária, a fim de redigir a Carta Constitucional do país. Para candidatar-se ao corpo legislativo bastava a indicação de 30 pessoas. Houve 500 candidatos. Os escolhidos ouviram a população adulta, que se manifestou via internet, com sugestões para o texto. O governo encampou a iniciativa e oficializou a comissão, ao submeter o documento ao referendum realizado ontem.
Ao ser aprovado ontem, por mais de dois terços da população, o texto constitucional deverá ser ratificado pelo Parlamento.
Embora a Islândia seja uma nação pequena, distante da Europa e da América, e com a economia dependente dos mercados externos (exporta peixes, principalmente o bacalhau), seu exemplo pode servir aos outros povos, sufocados pela irracionalidade da ditadura financeira.
Durante estes poucos anos, nos quais os islandeses resistiram contra o acosso dos grandes bancos internacionais, os meios de comunicação internacional fizeram conveniente silêncio sobre o que vem ocorrendo em Reykjavik. É eloqüente sinal de que os islandeses podem estar abrindo caminho a uma pacífica revolução mundial dos povos.

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“FAÇA AMOR, NÃO FAÇA SERRA”: UM PROTESTO CULTURAL CONTRA A ORDEM EXCLUDENTE DE SÃO PAULO

Por Altamiro Borges
“Faça amor, não faça Serra”
Existe amor em SP?
Fazia tempo que eu não presenciava na capital paulista uma manifestação tão generosa, criativa e carregada de energia. Um ato com tantas tribos, expressão maior da unidade na diversidade. Um protesto com tantos jovens, o que relativiza o dogma sobre o ceticismo político da juventude. A manifestação “Existe Amor em São Paulo”, que lotou a Praça Roosevelt, no centro da cidade, merece ser valorizada e estudada. Segundo os seus organizadores, ela reuniu cerca de 30 mil pessoas durante toda a tarde deste domingo (21).
Ela foi convocada nas redes sociais por vários movimentos culturais e libertários, como a galera do coletivo Fora do Eixo. Não foi um ato partidário de apoio à candidatura de Fernando Haddad para a prefeitura paulistana. Mas foi um ato eminentemente político, de repúdio à gestão elitista e excludente do prefeito Gilberto Kassab e também de rechaço ao tucano José Serra, que se aliou aos setores mais reacionários da sociedade e tornou-se o porta-voz de suas bandeiras fascistóides, como o estímulo ao ódio homofóbico.
No meio da multidão, uma enorme bandeira com a foto do revolucionário Che Guevara. Muitos jovens estamparam no peito o adesivo da campanha de Fernando Haddad. Cartazes protestaram contra as abusivas “proibições” impostas pelo prefeito conservador. Nos vários palanques montados na praça recém-inaugurada, variedades de apresentações musicais e alguns discursos exigindo uma cidade mais humana e solidária, livre de preconceitos e intolerância, com mais integração cultural e social entre os seus habitantes.
Um dos textos difundidos pelas redes sociais evidenciou o caráter político da manifestação. “Há anos SP vem se tornando mais agressiva, repressiva, individualista, proibida, militarizada. Enquanto as favelas pegam fogo e a polícia ganha status de milícia, o poder político tenta acabar com o público em prol do privado. Acabar com a festa em prol do silêncio. Acabar com o pobre em prol do rico. Acabar com a justiça em prol da ordem”. Contra toda essa regressão, milhares de jovens lotaram a Praça Roosevelt.
A mídia hegemônica não entendeu – ou fingiu não entender – o caráter político do ato contra as forças de direita de São Paulo. O portal G1, das Organizações Globo, registrou a presença de mais de 8 mil pessoas num evento cuja “intenção é mostrar para Fernando Haddad e José Serra que a capital paulista precisa de mais atenção para a cultura”. É como se o ato fosse neutro, sem qualquer opção política dos participantes. Na mesma linha, o sítio UOL, do Grupo Folha, tentou descaracterizar as razões do protesto.
Uma das mensagens usadas para convocar todas aquelas tribos foi explícita: “Faça amor, não faça Serra”. A mídia demotucana fingiu desconhecer este slogan tão criativo e irreverente.

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A REVOLUÇÃO NA ISLÂNDIA NÃO FOI E NEM SERÁ TELEVISIONADA, NEM PUBLICADA, NEM ‘RADIOFONIZADA’

CELSO BODSTEIN DIZ QUE CINEMA É A FORMA DE SINTETIZAR REFLEXÕES DE ORDEM FILOSÓFICA, SOCIOLÓGICA E ESTÉTICA

Nesta segunda parte da entrevista à TV Educação Política, o professor Celso Bodstein fala sobre a importância da sua formação cultural cinematográfica.

Para ele, essa formação não se dá no campo da diversão, mas quando o cinema é capaz de abordar as questões filosóficas, antropológicas, sociológicas e estéticas.

Alem disso, Bodstein fala, em um segundo momento da entrevista, sobre o cinema que fala do próprio cinema. Acompanhe:

Veja também a primeira parte da entrevista sobre o cinema brasileiro atual e o documentário.

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APESAR DA RETOMADA, A CINEMATOGRAFIA BRASILEIRA SE DESFAZ QUANDO A GLOBO JOGA NA TELA GRANDE A ESTÉTICA DA TV, DIZ BODSTEIN

O professor Celso Bodstein, da PUC-Campinas e da Unicamp, em entrevista à TV Educação Política, afirma que o cinema feito a partir da estética televisiva tem pouco a acrescentar ao cinema brasileiro. Para ele, esse tipo de produção costuma dar grande bilheteria, mas faz as pessoas se envolverem com a sétima arte apenas no campo da diversão.

O professor também fala do renascimento do documentário, que vive um momento diferente da ficção, com uma produção mais livre e esteticamente mais forte. Veja abaixo:

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INCÊNDIOS SELETIVOS: FAVELAS EM ÁREAS VALORIZADAS PEGAM MAIS FOGO DO QUE FAVELAS EM REGIÕES DESVALORIZADAS

Fatalidade ou Crime?

Da Carta Capital
Crianças expulsas por incêndio na favela Moinho
“João Finazzi, pesquisador do Programa de Educação Tutorial do curso de Relações Internacionais da PUC-SP, recentemente publicou um artigo que comprova o que boa parte dos urbanistas denuncia há tempos. Primeiro, ele verificou a distribuição das mais de 1,5 mil favelas existentes no território paulistano. Depois, mapeou as ocorrências de incêndio mais recentes (São Miguel, Alba, Buraco Quente, Piolho, Paraisópolis, Vila Prudente, Humaitá, Areão e Presidente Wilson). O episódio na favela do Moinho só ficou de fora porque o artigo foi escrito antes da tragédia. Conclusão: as chamas atingiram regiões que concentram apenas 7,28% das favelas da cidade. Em outras áreas, que concentram mais de 21% dos assentamentos irregulares da capital, como Capão Redondo, Jardim Ângela, Campo Limpo e Grajaú, nenhum incêndio foi registrado.
O estudo, coordenado pelo professor Paulo Pereira, identificou ainda que as áreas atingidas pelos incêndios sofreram grande valorização imobiliária entre 2009 e novembro de 2011, segundo a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe). “Todas as nove favelas citadas estão em regiões de valorização imobiliária: Piolho (Campo Belo, 113%), Vila Prudente (ao lado do Sacomã, 149%) e Presidente Wilson (a única favela do Cambuci, 117%). Sem contar com Humaitá e Areião, situadas na valorizada Marginal Pinheiros, e a já conhecida Paraisópolis, vizinha incômoda do rico bairro do Morumbi”, afirma Finazzi. “Onde não houve incêndio, a valorização imobiliária foi bem menor nos últimos anos, em alguns casos até decrescente, como Grajaú (-25,7%) e Cidade Dutra (-9%)”. (Veja Texto integral na Carta Capital)
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INACREDITÁVEL: MINISTRO DA SUPREMA CORTE, RESPONSÁVEL POR GARANTIR O ESTADO DE DIREITO, JUSTIFICA DITADURA E GOLPISTAS

JOSÉ SERRA FICA IRRITADO COM PERGUNTA DE KENNEDY ALENCAR NA CBN E NÃO RESPONDE SE É AGORA UM POLÍTICO DE EXTREMA-DIREITA

Veja a atitude de José Serra, candidato a prefeito de São Paulo, após pergunta de Kennedy Alencar, logo no início da entrevista, a partir do terceiro minuto.

Ele não responde porque é uma pergunta bastante incômoda. Kennedy Alencar irrita José Serra porque diz, de forma polida e elegante, que Serra faz uma campanha suja e de extrema-direita.

Serra tem se irritado constantemente com jornalistas porque há décadas faz uma campanha associada com alguns veículos de informação, principalmente Veja, Globo e Folha. Isso o deixou blindado em várias campanhas, mas sua descida ao submundo da política soou um alerta para alguns jornalistas. Eles estão acordando do caminho obscuro e perigoso trilhado por José Serra nas últimas campanhas.

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MÍDIA ABRE ESPAÇO NOBRE PARA QUEM ATENTA CONTRA OS JUROS BAIXOS QUE BENEFICIAM A POPULAÇÃO E O SETOR PRODUTIVO

Veja só: os postes estão mesmo mijando nos cachorros
Ex-assessor de George Soros, o mega especulador planetário, ex-presidente do Banco Central, ao tempo do presidente Cardoso, atual especulador credenciado com um banco de investimento, Arminio Fraga dá entrevista hoje ao jornal Folha de S. Paulo, onde exige explicações do Bacen sobre a queda gradual das taxas de juros no Brasil.
A bronca do especulador é uma garantia de que a política monetária do governo Dilma está no caminho certo. O jus esperneandido banqueiro mostra duas coisas:1) os banqueiros já não estão mais no poder, pelo menos no Brasil;2) depois de trinta anos de política monetária com permanente desestímulo às atividades produtivas, temos uma política econômica orientada desde o Palácio do Planalto, e não desde a Febraban e os centros financeiros do mundo, como Londres e Nova York.
Nós podemos discordar pontualmente de aspectos e sobretudo dos ritmos da política econômica dilmista, mas a direção e o sentido, bem como o comando hegemônico, estão em processo de correção permanente, haja vista a chiadeira do especulador símbolo dos quatrocentos mil brasileiros que viveram à tripa forra nas três últimas décadas graças à política de financeiração da vida e dos indivíduos.
Enquanto os banqueiros chiam, o Brasil, aos poucos, recupera a sua soberania. Falta muito para andar, mas estamos no caminho certo.
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A DIFÍCIL BATALHA DE MARCIO POCHMANN E A MEMÓRIA DE ANTÔNIO DA COSTA SANTOS, O TONINHO DO PT

Toninho, ao lado de Lula, são emblemáticos do movimento PT

Ele é professor universitário, pertence aos quadros do PT, nunca exerceu cargo legislativo, já exerceu cargo no executivo e quer ser prefeito de Campinas (SP). Poderíamos estar falando de Márcio Pochmann, que disputa o segundo turno das eleições para prefeito de Campinas, mas poderíamos estar falando também de Antonio da Costa Santos, o Toninho do PT, na disputa eleitoral de 2000, há 12 anos. Perfis semelhantes, mas em épocas diferentes.

Apesar de toda a crítica contra o PT naquela virada do milênio, nada se compara ao posicionamento da mídia após vitória de Lula para a presidência da República em 2002. Hoje busca-se criar o ódio de um movimento social que resolveu enfrentar, via política, as mazelas do país.  Márcio Pochmann tem uma batalha tão difícil quanto a de Toninho, mas poderá ter mais força se resgatar essa memória do partido que buscava a igualdade social e a justiça. Toninho é um símbolo para o PT e para a população de Campinas. Ele representou o projeto utópico e necessário que o Partido dos Trabalhadores trouxe para a sociedade brasileira.

Neste ano,  diante do grande número de abstenção e voto nulo na eleição, é comum escutar pelas ruas de Campinas que os políticos não prestam, que bom mesmo era o Toninho do PT.  E dizem: “Toninho sim queria fazer alguma coisa pela cidade e por isso o mataram”. Provavelmente essas mesmas pessoas diriam, se Toninho estivesse vivo, que ele também era um político como os outros. No entanto, após sua morte, ele surge como o sonho que não se realizou porque o sonho nunca acontece para quem não acredita na vida.

Toninho sofreu bastante na mão da imprensa, era criticado dia sim, dia sim. Não a crítica pertinente, mas a crítica partidarizada que todos conheceram nesses anos do governo Lula. Toninho era demonizado como tentam demonizar Lula.  E provavelmente Toninho não seria a unanimidade que se tornou após sua morte se hoje estivesse na política da cidade.

E se tornou uma figura emblemática porque carregava em si o sonho de muita gente, campineira ou não, que acreditou que através da política é possível transformar a sociedade. Toninho foi um obstinado utópico, um tipo de homem que poucos têm a coragem de ser. Muitos preferem a indiferença, ser deslumbrado e não se importar com ninguém. Certamente é mais fácil e assim se pode acreditar em Toninho somente após sua morte. Quem votou em Toninho acreditou na vida, acreditou no político Toninho.

Marcio Pochmann, de perfil semelhante, tem o desafio de resgatar e se inspirar na memória de Toninho, de buscar a política de Toninho e relembrar que o Partido dos Trabalhadores, ainda que tenha seus problemas, teve homens como Toninho. O ex-prefeito de Campinas morreu por um sonho, mas o sonho não morreu. Uma sociedade melhor, mais igualitária e mais justa continua viva junto com a memória de Toninho.

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AS CORES E TONS DAS BAIANAS E DO ARRAIÁ DE ERMELINDA DE ALMEIDA, CEARENSE RADICADA NO RIO DE JANEIRO

BERTOLD BRECHT EM SANTA JOANA DOS MATADOUROS: O INJUSTO ANDA CALMAMENTE NA RUA, O JUSTO SE ESCONDE

Cena da peça encenada em São Paulo

NOS MATADOUROS. OS DEPÓSITOS DAS INDÚSTRIAS GRAHAM

Os pátios já estão quase vazios. De raro em raro passam grupos de trabalhadores.

JOANA chega e pergunta:
Alguém aqui viu três homens à procura de uma carta?
Gritaria ao fundo, que vem avançando. Entram cinco homens cercados de tropa: os dois trabalhadores do comando da greve e os três da central elétrica. Um dos homens do comando pára e começa a falar aos soldados.

O DIRIGENTE
Vocês nos levam para a cadeia, mas fiquem sabendo que foi para ajudar gente igual a vocês que fizemos o que fizemos.

UM SOLDADO
Então continua andando, que você ajuda a gente mais ainda.

O DIRIGENTE
Esperem uni pouco!

UM SOLDADO
Está com medo?

O DIRIGENTE
Pode ser, mas não é por isso que estou falando. Eu quero que vocês entendam por que nos prenderam. Ouçam, porque vocês não sabem.

OS SOLDADOS RINDO
Está bem, diga por que nós te prendemos.

O DIRIGENTE
Vocês não têm propriedade, mas ajudam os que têm. Por quê? Porque ainda não enxergaram a maneira de ajudar os expropriados como vocês mesmos.

O SOLDADO
Muito bem, e agora vamos continuar.

O DIRIGENTE
Esperem! Eu não terminei a frase: mas nesta cidade os trabalhadores que têm emprego já começaram a ajudar os trabalhadores desempregados. Portanto a maneira de ajudar os expropriados está ficando clara. Pensem nisso.

O SOLDADO
Você está querendo que a gente te solte?

O DIRIGENTE
Você não me entendeu? Entenda que a vez de vocês também está chegando.

O SOLDADO
Vamos continuar?

O DIRIGENTE
Vamos, vamos continuar.

Eles continuam. Joana para e acompanha os presos com os olhos. Ela ouve a conversa de duas pessoas a seu lado

UM
Que gente é essa?

O OUTRO
Nenhum desses
Cuidou só de si
Passaram tormentos
Para dar pão a desconhecidos.

O PRIMEIRO
Por que tormentos?

O OUTRO
O injusto anda calmamente na rua mas
O justo se esconde.

(Trecho da peça Santa Joana dos Matadouros, de Bertold Brecht)

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PASTOR MALAFAIA E A ‘DIFERENÇA BOÇAL’ ENTRE UM RELIGIOSO E UM CIDADÃO QUE EMITE OPINIÃO POLÍTICA

O Pastor Silas Malafaia diz em vídeo no qual fez para atacar o candidato do PT à Prefeitura de São Paulo, Fernando Haddad, que há uma “diferença boçal” (SIC!!!) entre quem emite opinião política e tem convicção de fé. Mas a diferença boçal não é a liberdade de um religioso expressar sua opinião. Essa talvez seja uma diferença abissal.

A diferença boçal está na forma e nos interesses que se escondem por trás dos religiosos que emitem suas opiniões.

Malafaia emite opinião, e tem todo o direito, mas o faz no formato de sermão. A virada para câmeras diferentes, a aproximação do vídeo, a verborragia raiosa para convencer o incauto espectador. Marshall McLuhan já há muito tempo alertava que o meio é a mensagem. A forma que Malafaia usa para discutir política é boçal porque não se diferencia da forma com que faz proselitismo religioso.

Malafaia entra na briga política não por uma preocupação com a cidade de São Paulo. Não está preocupado com o assassinato de homossexuais, de jovens da periferia, do conflito entre policiais e traficantes, não está preocupado com a educação e saúde dos paulistanos.

Malafaia é claro em seu discurso. Ele entra na política para combater o que ele chamou de “kit gay”. Então, Malafaia não entra na política como um cidadão, mas como um religioso. Mesmo que ele negue, o seu discurso não mente. E essa é a grande diferença boçal de Malafaia.

O candidato José Serra, do PSDB, continua a promover a baixaria.

Veja abaixo o trecho da diferença boçal.

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A PRINCESA TRISTE E O PRÍNCIPE PALHAÇO

Ficção – Este deveria ser um conto de fadas, como outro qualquer. A princesa e o príncipe e um mundo encantado. E realmente parece ter sido isso mesmo o que se vai narrar aqui.

Numa pequena cidade, dava para ver nascer esta história em cada letra, sílaba, palavra ou frase que ia surgindo na folha de papel em branco. Numa pequena casa vivia a princesa, mas lá não estavam o Rei nem a Rainha. Ela vivia sozinha. Também não havia um batalhão de súditos aos seus pés, preparando as roupas, os jantares, os banhos e outras atividades cotidianas. A princesa nunca teve essas mordomias, ainda que sua família tivesse uma boa condição financeira e, pode-se dizer, passou a infância em um verdadeiro palácio, com escadas, quartos grandes, corredores e um quintal enorme cheio de frutas para brincar e se deliciar a tarde toda.

E é ali, naquela alegria da infância que nossa princesa conhece um pouco de sua melancolia. O ouvinte vai perguntar, mas como ficar triste diante de uma vida tão normal e feliz? Mas essas são as coisas da vida. O Rei, que sempre se achou mesmo um Rei, mesmo antes de se tornar Rei, não era lá tão amável quanto se podia pensar, mas também não era de todo ruim. Tinha lá seu jeito de decidir as coisas e viver em seu mundo imaginário do reino do poder. Quase não via nossa princesa diante de tantos afazeres para deixar o palácio a cada dia mais bonito, não faltar comida, tecnologia, educação e algumas marcas famosas, que custam caro justamente porque são marcas famosas. A Rainha, como todos sabem era uma mãe dedicada, mas as rainhas têm sempre aquelas ideias fixas na cabeça e, quando entra, demora muito para sair. Só mesmo com um belo tombo para tirar da cabeça daquela Rainha que aquele palácio não era tão feliz assim. Mas essas coisas são coisas de Rainha. Quem vai dizer não às rainhas sem ficar triste e também entristecê-la? Poucos se atrevem, a não ser os invejosos que enxergam brilho e felicidade em tudo que é alheio. E a Rainha não parava no lugar, nem em casa, também devido aos afazeres da vida.

E assim cresceu nossa princesa. Entre o palácio e o quintal. Entre as músicas daquele período, os programas de televisão, sim, porque naquele reino já havia muita tecnologia. Todos gostavam, a cada nova tecnologia que surgia, lá estava o Rei para reverenciar e, como consequência, os súditos todos desejavam. Mas algo marcava mais, os perfumes das plantas do quintal, o jardim e a cozinha das avós, tanto a mãe do Rei quanto a mãe da Rainha. Tudo estava ali, em seu bucólico universo de cores e sentidos. Mas tudo passa e a princesa cresce, mas ao crescer, um pouco de tudo se perde: as cores, os gostos, as músicas, as tardes, os sons, os espaços. Há uma perda a cada dia, a cada semana. As pessoas que chegam e vão embora, os domingos à tarde que atormentam, as segundas-feiras que tem aquela alegria de trabalho infinito e cansado.

A Rainha muitas vezes não estava e o Rei nunca estava. Então, o colo da vó a acalentou durante a tenra infância, mas depois tudo tornou-se só um sonho mal colocado. A vida e tantas coisas tristes que nos acontece, as pessoas que nos invejam, as pessoas que não nos amam, os que nos são indiferentes, os que nos odeiam porque, não sei por que… Mas tudo isso fazia da nossa princesa, já moça, bela com seus cabelos de princesa, seus olhos e cílios de arquitetura irreparavelmente gótica, sua boca um pouco com a beleza da boca das antigas escravas do reino, o corpo com as curvas mais cobiçadas por tantos príncipes e tolos cavalheiros.

E lá estava ela, naquela tarde de calor entediante e sonolento. Ela passava o tempo em seus livros, fugindo daquele reino de fantasia que era a sua realidade. Nos livros, ela encontrava a realidade que a fazia entender o seu conto de fadas. Sim, ela nunca duvidou das fadas que a acompanhavam em tudo, mas ela queria a realidade comum a todas as pessoas, aos viventes desse mundo, que estão do outro lado da porta, na casa vizinha, na outra cidade, dentro daqueles livros reais. Seus olhos, com aquele anoitecer gótico, escorriam lágrimas secas, que ninguém poderia enxergar, estavam lá irritadiços. A boca como um arco virado para baixo, sem que ninguém percebesse porque havia um esforço tremendo para deixar a linha reta, sem graça. Mas sua beleza impedia, era bela e triste aquela boca de lábios fortes, que não se colocavam de forma feliz, ainda que estivesse sorrindo.

A felicidade era para os bobos alegres. No fundo da alma daquela princesa havia uma dor muito grande, que nem o narrador desta história penetrou. Também não conhecemos todos os dias daquela menina, daquela infância. Era uma época que parecia feliz, mas pode ter acontecido algo que não percebemos. Não somos deuses, apenas contadores de história. Não dá para saber de tudo, ser onipresente. Havia um mistério que não poderíamos descrever porque realmente a princesa nunca falava, apenas fechava o livro e jogava seus olhos sobre o que estivesse a sua frente, a janela, a cortina, as nuvens, um sapato no chão, um farelo de comida no fundo do prato e tudo se perdia em uma densa neblina, fazendo-a voltar para a fantasia da sua vida.

Mas certa noite ela fechou o livro e viu uma pequena letra entre as páginas, de alguém muito diferente e que ela pouco conhecia. Não pergunte como apareceram aquelas letras ali, logo no início do livro, com um garrancho meio feio, de algum cavalheiro pouco afeito aos detalhes da caligrafia. Muito diferente de nossa princesa, que fez balé, piano, jazz, pintura e caprichava na letrinha redonda e pontuada. Essas letras aparecem, assim como aparecem nestas páginas, como num conto de fada. E assim, o autor das letras apareceu como um príncipe em sua vida. Coisas do destino ou dos contos de fada. E ela teve a certeza, essa certeza de Rainha, que quando coloca uma coisa na cabeça, não tira mais, a não ser que leve um tombo. E naquele príncipe ela viu também no fundo dos olhos, uma outra tristeza, muito próxima da sua, uma tristeza que não se apresentava assim de dia, nas falas cotidianas, nos afazeres do trabalho, mas lá no fundo, sem que quase ninguém a visse, só mesmo uma princesa para perceber tamanha delicadeza.

E aí, vocês já sabem como são os contos de fada, eles se apaixonaram. Mas com o tempo ela foi percebendo que aquele conto de fada da sua vida tinha se transformado em uma realidade. O príncipe que era príncipe, não porque era bonito e dava um beijo para acordá-la de um sono profundo, de um envenenamento ou outra tragédia comum na realidade dos contos de fada. O príncipe começou a decepcioná-la porque aquela tristeza, que parecia igual a sua, não era tão igual a sua. A tristeza do príncipe virava uma certa euforia de vida, era muito conto de fada para a sua fantasia de realidade. E lá estava ele, o príncipe, fazendo piadas e palhaçadas o tempo todo com ela e com suas coisas, histórias, modos e gestos. Tudo para o príncipe era motivo de ironia e piada, nada assim tão amargo ou que a magoava profundamente, mas aquela alegria que ele não controlava, aquelas tiradas, sacadas, e outras adas que, com o tempo, pareciam perturbar aquela arquitetura de tristeza que por tanto tempo a princesa construiu para suportar a sua própria existência de princesa.

E ela descobriu aos poucos que o príncipe não era um príncipe, como são os príncipes, aqueles príncipes bonitos e que a beijariam, a acordariam e não falariam mais nada. Simplesmente porque viveriam felizes para sempre e, se são felizes para sempre, não há muito o que falar e a história termina. Fim. Ele parecia um príncipe que levava esse ‘felizes para sempre’ ao pé da letra e para tudo havia uma graça, uma cor, um sabor, um humor, apesar dos olhos tristes que ela conheceu e descobriu logo de início. Ela não sabia de que conto de fadas ele teria aparecido, mas uma certeza ela tinha: tratava-se de um príncipe-palhaço. E ela teve aquela sensação, sabe…, de que o príncipe virou sapo.

Ora ora, nunca se ouviu falar de nenhuma história real ou imaginária em que habitavam príncipes-palhaços. Ela teria caído no falso conto de realidade. Somente no circo, mas o circo também sempre foi muito triste, como aquela dificuldade de artistas mambembes, circulando sem se fixar, sem morar perto dos parentes, rodando pelo mundo, passando o chapéu, vertendo um humor triste e trágico. Mas o que fazer…. E assim viveu a princesa, triste para sempre, mas de uma alegria estonteante, quando ali chegava o príncipe-palhaço, que como um mambembe ora aparecia, ora desaparecia do palco dos olhos da princesa. E assim se fez sentido aquelas duas máscaras na capa do livro do conto de fada: uma triste, outra sorrindo. Era apenas um conto de fadas de príncipes e princesas.

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NA CURVA DA ESTRADA CONHECIDA E ESTRANHA

HÁ SEMPRE UM BOÇAL NA SUA COLA

SOU CAPITALISTA, MAS NÃO SOU IDIOTA

HOMENS E MULHERES ME DISPUTAM E ISSO ME IRRITA

LÁGRIMAS NO CANTEIRO

JOAQUIM BARBOSA E O SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL PODERIAM CONDENAR O PROCURADOR-GERAL DA REPÚBLICA ROBERTO GURGEL

Gurgel deve se preocupar com o Joaquim?

Há sérias acusações contra o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, que indicam que ele beneficiou a quadrilha de Carlinhos Cachoeira, mas não há provas concretas, mesmo porque não foi feita nenhuma investigação. Mas há fatos muito sérios que podem levar a uma interpretação de que ele integraria a quadrilha.

Veja que ao receber a primeira investigação contra a quadrilha de Carlinhos Cachoeira, na operação Vegas da Polícia Federal, Roberto Gurgel e a subprocuradora, por sinal, sua esposa, Cláudia Sampaio, nada fizeram. Isso foi motivo de um questionamento do senador Fernando Collor.

Agora, durante o processo do mensalão, Roberto Gurgel recomendou ao Supremo Tribunal Federal (STF) que arquive o inquérito aberto contra o deputado Stepan Nercessian (PPS-RJ), suspeito de envolvimento com o contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira. O site do próprio partido do deputado informa que “O parlamentar foi investigado em razão das ligações com Cachoeira, de quem recebeu R$ 175 mil”.

Segundo Stepan, R$ 160 mil referiam-se a um empréstimo, saldado em três dias, para a compra de um apartamento. O restante foi usado na compra de ingressos para o desfile de escolas de samba do Rio de Janeiro. Goiano, Stepan é amigo de infância do contraventor e alegou desconhecer a extensão de suas atividades ilícitas”(!?). Ou seja, apesar de confessar que houve o empréstimo e que tem uma ligação estreita com Carlinhos Cachoeira, desde a infância, o procurador recomendou o arquivamento. Para Gurgel, o grande ator da Globo e do Brasil interpreta uma ficção ao lado de Carlinhos Cachoeira.

Mas o Supremo poderia ter uma interpretação diferente. “Não é plausível, diante desses fatos e do que se viu e se descobriu sobre a quadrilha de Carlinhos Cachoeira”, diria o ministro Joaquim Barbosa em um hipotético julgamento de Roberto Gurgel, que o procurador não tenha beneficiado a quadrilha intencionalmente. Assim como contra José Dirceu, não há nenhuma ligação, gravação, documento, que o incrimine; não há qualquer prova concreta contra o procurador, mas será que Joaquim Barbosa e os outros ministros do Supremo não poderiam condenar Roberto Gurgel?

Veja links com essas informações: Indícios de prevaricação de Roberto Gurgel e site do PPS  e até na Veja.

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OS HISTORIADORES DO BRASIL CONHECEM A REVISTA VEJA: “EMPOBRECIDA, MEDÍOCRE, PEQUENA E MAL INTENCIONADA”

Nota da Associação dos dos Historiadores do Brasil sobre notícia da morte de Eric Hobsbawm

Resposta à revista VEJA

Eric Hobsbawn

Eric Hobsbawm: um dos maiores intelectuais do século XX
Na última segunda-feira, dia 1 de outubro, faleceu o historiador inglês Eric Hobsbawm. Intelectual marxista, foi responsável por vasta obra a respeito da formação do capitalismo, do nascimento da classe operária, das culturas do mundo contemporâneo, bem como das perspectivas para o pensamento de esquerda no século XXI. Hobsbawm, com uma obra dotada de rigor, criatividade e profundo conhecimento empírico dos temas que tratava, formou gerações de intelectuais. Ao lado de E. P. Thompson e Christopher Hill liderou a geração de historiadores marxistas ingleses que superaram o doutrinarismo e a ortodoxia dominantes quando do apogeu do stalinismo. Deu voz aos homens e mulheres que sequer sabiam escrever. Que sequer imaginavam que, em suas greves, motins ou mesmo festas que organizavam, estavam a fazer História. Entendeu assim, o cotidiano e as estratégias de vida daqueles milhares que viveram as agruras do desenvolvimento capitalista. Mas Hobsbawm não foi apenas um “acadêmico”, no sentido de reduzir sua ação aos limites da sala de aula ou da pesquisa documental. Fiel à tradição do “intelectual” como divulgador de opiniões, desde Émile Zola, Hobsbawm defendeu teses, assinou manifestos e escolheu um lado. Empenhou-se desta forma por um mundo que considerava mais justo, mais democrático e mais humano. Claro está que, autor de obra tão diversa, nem sempre se concordará com suas afirmações, suas teses ou perspectivas de futuro. Esse é o desiderato de todo homem formulador de ideias. Como disse Hegel, a importância de um homem deve ser medida pela importância por ele adquirida no tempo em que viveu. E não há duvidas que, eivado de contradições, Hobsbawm é um dos homens mais importantes do século XX.

Eis que, no entanto, a Revista Veja reduz o historiador à condição de “idiota moral” (cf. o texto “A imperdoável cegueira ideológica da Hobsbawm”, publicado em www.veja.abril.com.br). Trata-se de um julgamento barato e despropositado a respeito de um dos maiores intelectuais do século XX. Veja desconsidera a contradição que é inerente aos homens. E se esquece do compromisso de Hobsbawm com a democracia, inclusive quando da queda dos regimes soviéticos, de sua preocupação com a paz e com o pluralismo. A Associação Nacional de História (ANPUH-Brasil) repudia veementemente o tratamento desrespeitoso, irresponsável e, sim, ideológico, deste cada vez mais desacreditado veículo de informação. O tratamento desrespeitoso é dado logo no início do texto “historiador esquerdista”, dito de forma pejorativa e completamente destituído de conteúdo. E é assim em toda a “análise” acerca do falecido historiador. Nós, historiadores, sabemos que os homens são lembrados com suas contradições, seus erros e seus acertos. Seguramente Hobsbawm será, inclusive, criticado por muitos de nós. E defendido por outros tantos. E ainda existirão aqueles que o verão como exemplo de um tempo dotado de ambiguidades, de certezas e dúvidas que se entrelaçam. Como historiador e como cidadão do mundo. Talvez Veja, tão empobrecida em sua análise, imagine o mundo separado em coerências absolutas: o bem e o mal. E se assim for, poderá ser ela, Veja, lembrada como de fato é: medíocre, pequena e mal intencionada.

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JULGAMENTO DO MENSALÃO NÃO MUDA NADA: MINISTROS DEFENSORES DA PRESUNÇÃO DE INOCÊNCIA CONDENAM POR PRESUNÇÃO DE CULPA

Stepan Nercessian livrado pelo procurador Gurgel durante o mensalão

Não se iluda, o julgamento da Ação Penal 470, chamado Mensalão, não muda absolutamente nada na impunidade de políticos no Brasil. Isso porque a justiça é feita na maioria das vezes pela jurisprudência (o que pensam os juízes) e não sobre a legislação.

Veja a coerência do procurador-geral da República, Roberto Gurgel, que durante o Mensalão recomendou ao Supremo Tribunal Federal (STF) que arquive o inquérito aberto contra o deputado Stepan Nercessian (PPS-RJ), suspeito de envolvimento com o contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira. O parlamentar foi investigado em razão das ligações com Cachoeira, de quem recebeu R$ 175 mil. Nesse caso, havia uma prova concreta, o empréstimo. E Roberto Gurgel recomenda nem levá-lo a julgamento.

Assim, no caso do Mensalão, ministros defensores da presunção de inocência, especialmente Gilmar Mendes e Marco Aurélio Mello, votaram agora pela presunção de culpa. Como bem lembrou o ministro Ricardo Lewandowski, não houve provas contra alguns dos acusados, mas a suposição pelos cargos que ocupavam e por reuniões que tiveram. Antes do Mensalão, todos os políticos sem provas concretas foram absolvidos, mas desta vez foram julgados culpados. Ministros que agora condenam já concederam liberdade (por exemplo, com habeas corpus) a indivíduos carregados de provas concretas e evidentes. Inclusive, após o habeas corpus, esses acusados fugiram do Brasil.

A injustiça provocada pelo Supremo nessa ação não está no fato de julgar e condenar, mas no fato de mudar a interpretação especialmente para punir, muito pela pressão de meios de comunicação e porque os acusados são integrantes do PT.

É uma mudança estapafúrdia. Em alguns casos de julgamento de políticos e empresários, por exemplo, havia a prova concreta de corrupção, mas juízes julgaram que as provas não valiam. Incrível. Provas concretas não valem e suposição sem provas é suficiente para condenar. Que horror!

Assim, é interessante que o ministro Joaquim Barbosa tenha caído como uma luva para a direita mais conservadora do Brasil, representada por alguns veículos de comunicação. Barbosa, o primeiro negro que chegou ao Supremo graças ao PT, foi o algoz julgador. É possível que Joaquim Barbosa tentará manter sua coerência nos próximos processos, mas será voto vencido. E, dessa forma, terá sido útil aos partidos e empresários que nunca o levariam ao Supremo. É uma ironia da história.

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QUE HORROR! AMEAÇA DE MORTE DE CANDIDATO DO PSDB FAZ JORNALISTA DA FOLHA DE S.PAULO DEIXAR O PAÍS

Essa história me fez lembrar a história de Vladimir Herzog durante a ditadura. Depois de sua morte, a imprensa de São Paulo enxergou o monstro que tinha ajudado a criar.

Até quando a grande mídia vai apoiar um partido político que mantém uma polícia nos moldes da ditadura e que mata mais do que toda a polícia dos EUA? Quais os limites dos interesses econômico da imprensa em detrimento da sociedade?

Um repórter ameaçado de morte

Por Eliane Brum – Revista Época

Eliane Brum: o que significa isso?

André Caramante, um dos mais respeitados jornalistas brasileiros na área da segurança pública, foi obrigado a mudar de país e esconder-se. Em entrevista, ele conta o que a situação de exceção vivida por ele e por sua família revela sobre a intrincada relação entre poder e violência

Em 14 de julho, André Caramante, repórter da Folha de S.Paulo, assinou uma matéria com o seguinte título: “Ex-chefe da Rota vira político e prega a violência no Facebook”. No texto, de apenas quatro parágrafos, o jornalista denunciava que o coronel reformado da Polícia Militar Paulo Adriano Lopes Lucinda Telhada, candidato a vereador em São Paulo pelo PSDB nas eleições do último domingo, usava sua página no Facebook para “veicular relatos de supostos confrontos com civis”, sempre chamando-os de “vagabundos”. Em reação à matéria, Telhada conclamou seus seguidores no Facebook a enviar mensagens ao jornal contra o repórter, a quem se referia como “notório defensor de bandidos”. A partir daquele momento, redes sociais, blogs e o site da Folha foram infestados por comentários contra Caramante, desde chamá-lo de “péssimo repórter” até defender a sua execução, com frases como “bala nele”. Caramante seguiu trabalhando. No início de setembro, o tom subiu: as ameaças de morte ultrapassaram o território da internet e foram estendidas também à sua família.

O que aconteceu com o repórter e com o coronel é revelador – e nos obriga a refletir. Hoje, um dos mais respeitados jornalistas do país na área de segurança pública, funcionário de um dos maiores e mais influentes jornais do Brasil, no estado mais rico da nação, está escondido em outro país com sua família desde 12 de setembro para não morrer. Hoje, Coronel Telhada, que comandou a Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar) até novembro de 2011, comemora a sua vitória nas eleições, ao tornar-se o quinto vereador mais votado, com 89.053 votos e o slogan “Uma nova Rota na política de São Paulo (texto completo)

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