Educação Política

mídia, economia e cultura – por Glauco Cortez

A PRINCESA TRISTE E O PRÍNCIPE PALHAÇO

Ficção – Este deveria ser um conto de fadas, como outro qualquer. A princesa e o príncipe e um mundo encantado. E realmente parece ter sido isso mesmo o que se vai narrar aqui.

Numa pequena cidade, dava para ver nascer esta história em cada letra, sílaba, palavra ou frase que ia surgindo na folha de papel em branco. Numa pequena casa vivia a princesa, mas lá não estavam o Rei nem a Rainha. Ela vivia sozinha. Também não havia um batalhão de súditos aos seus pés, preparando as roupas, os jantares, os banhos e outras atividades cotidianas. A princesa nunca teve essas mordomias, ainda que sua família tivesse uma boa condição financeira e, pode-se dizer, passou a infância em um verdadeiro palácio, com escadas, quartos grandes, corredores e um quintal enorme cheio de frutas para brincar e se deliciar a tarde toda.

E é ali, naquela alegria da infância que nossa princesa conhece um pouco de sua melancolia. O ouvinte vai perguntar, mas como ficar triste diante de uma vida tão normal e feliz? Mas essas são as coisas da vida. O Rei, que sempre se achou mesmo um Rei, mesmo antes de se tornar Rei, não era lá tão amável quanto se podia pensar, mas também não era de todo ruim. Tinha lá seu jeito de decidir as coisas e viver em seu mundo imaginário do reino do poder. Quase não via nossa princesa diante de tantos afazeres para deixar o palácio a cada dia mais bonito, não faltar comida, tecnologia, educação e algumas marcas famosas, que custam caro justamente porque são marcas famosas. A Rainha, como todos sabem era uma mãe dedicada, mas as rainhas têm sempre aquelas ideias fixas na cabeça e, quando entra, demora muito para sair. Só mesmo com um belo tombo para tirar da cabeça daquela Rainha que aquele palácio não era tão feliz assim. Mas essas coisas são coisas de Rainha. Quem vai dizer não às rainhas sem ficar triste e também entristecê-la? Poucos se atrevem, a não ser os invejosos que enxergam brilho e felicidade em tudo que é alheio. E a Rainha não parava no lugar, nem em casa, também devido aos afazeres da vida.

E assim cresceu nossa princesa. Entre o palácio e o quintal. Entre as músicas daquele período, os programas de televisão, sim, porque naquele reino já havia muita tecnologia. Todos gostavam, a cada nova tecnologia que surgia, lá estava o Rei para reverenciar e, como consequência, os súditos todos desejavam. Mas algo marcava mais, os perfumes das plantas do quintal, o jardim e a cozinha das avós, tanto a mãe do Rei quanto a mãe da Rainha. Tudo estava ali, em seu bucólico universo de cores e sentidos. Mas tudo passa e a princesa cresce, mas ao crescer, um pouco de tudo se perde: as cores, os gostos, as músicas, as tardes, os sons, os espaços. Há uma perda a cada dia, a cada semana. As pessoas que chegam e vão embora, os domingos à tarde que atormentam, as segundas-feiras que tem aquela alegria de trabalho infinito e cansado.

A Rainha muitas vezes não estava e o Rei nunca estava. Então, o colo da vó a acalentou durante a tenra infância, mas depois tudo tornou-se só um sonho mal colocado. A vida e tantas coisas tristes que nos acontece, as pessoas que nos invejam, as pessoas que não nos amam, os que nos são indiferentes, os que nos odeiam porque, não sei por que… Mas tudo isso fazia da nossa princesa, já moça, bela com seus cabelos de princesa, seus olhos e cílios de arquitetura irreparavelmente gótica, sua boca um pouco com a beleza da boca das antigas escravas do reino, o corpo com as curvas mais cobiçadas por tantos príncipes e tolos cavalheiros.

E lá estava ela, naquela tarde de calor entediante e sonolento. Ela passava o tempo em seus livros, fugindo daquele reino de fantasia que era a sua realidade. Nos livros, ela encontrava a realidade que a fazia entender o seu conto de fadas. Sim, ela nunca duvidou das fadas que a acompanhavam em tudo, mas ela queria a realidade comum a todas as pessoas, aos viventes desse mundo, que estão do outro lado da porta, na casa vizinha, na outra cidade, dentro daqueles livros reais. Seus olhos, com aquele anoitecer gótico, escorriam lágrimas secas, que ninguém poderia enxergar, estavam lá irritadiços. A boca como um arco virado para baixo, sem que ninguém percebesse porque havia um esforço tremendo para deixar a linha reta, sem graça. Mas sua beleza impedia, era bela e triste aquela boca de lábios fortes, que não se colocavam de forma feliz, ainda que estivesse sorrindo.

A felicidade era para os bobos alegres. No fundo da alma daquela princesa havia uma dor muito grande, que nem o narrador desta história penetrou. Também não conhecemos todos os dias daquela menina, daquela infância. Era uma época que parecia feliz, mas pode ter acontecido algo que não percebemos. Não somos deuses, apenas contadores de história. Não dá para saber de tudo, ser onipresente. Havia um mistério que não poderíamos descrever porque realmente a princesa nunca falava, apenas fechava o livro e jogava seus olhos sobre o que estivesse a sua frente, a janela, a cortina, as nuvens, um sapato no chão, um farelo de comida no fundo do prato e tudo se perdia em uma densa neblina, fazendo-a voltar para a fantasia da sua vida.

Mas certa noite ela fechou o livro e viu uma pequena letra entre as páginas, de alguém muito diferente e que ela pouco conhecia. Não pergunte como apareceram aquelas letras ali, logo no início do livro, com um garrancho meio feio, de algum cavalheiro pouco afeito aos detalhes da caligrafia. Muito diferente de nossa princesa, que fez balé, piano, jazz, pintura e caprichava na letrinha redonda e pontuada. Essas letras aparecem, assim como aparecem nestas páginas, como num conto de fada. E assim, o autor das letras apareceu como um príncipe em sua vida. Coisas do destino ou dos contos de fada. E ela teve a certeza, essa certeza de Rainha, que quando coloca uma coisa na cabeça, não tira mais, a não ser que leve um tombo. E naquele príncipe ela viu também no fundo dos olhos, uma outra tristeza, muito próxima da sua, uma tristeza que não se apresentava assim de dia, nas falas cotidianas, nos afazeres do trabalho, mas lá no fundo, sem que quase ninguém a visse, só mesmo uma princesa para perceber tamanha delicadeza.

E aí, vocês já sabem como são os contos de fada, eles se apaixonaram. Mas com o tempo ela foi percebendo que aquele conto de fada da sua vida tinha se transformado em uma realidade. O príncipe que era príncipe, não porque era bonito e dava um beijo para acordá-la de um sono profundo, de um envenenamento ou outra tragédia comum na realidade dos contos de fada. O príncipe começou a decepcioná-la porque aquela tristeza, que parecia igual a sua, não era tão igual a sua. A tristeza do príncipe virava uma certa euforia de vida, era muito conto de fada para a sua fantasia de realidade. E lá estava ele, o príncipe, fazendo piadas e palhaçadas o tempo todo com ela e com suas coisas, histórias, modos e gestos. Tudo para o príncipe era motivo de ironia e piada, nada assim tão amargo ou que a magoava profundamente, mas aquela alegria que ele não controlava, aquelas tiradas, sacadas, e outras adas que, com o tempo, pareciam perturbar aquela arquitetura de tristeza que por tanto tempo a princesa construiu para suportar a sua própria existência de princesa.

E ela descobriu aos poucos que o príncipe não era um príncipe, como são os príncipes, aqueles príncipes bonitos e que a beijariam, a acordariam e não falariam mais nada. Simplesmente porque viveriam felizes para sempre e, se são felizes para sempre, não há muito o que falar e a história termina. Fim. Ele parecia um príncipe que levava esse ‘felizes para sempre’ ao pé da letra e para tudo havia uma graça, uma cor, um sabor, um humor, apesar dos olhos tristes que ela conheceu e descobriu logo de início. Ela não sabia de que conto de fadas ele teria aparecido, mas uma certeza ela tinha: tratava-se de um príncipe-palhaço. E ela teve aquela sensação, sabe…, de que o príncipe virou sapo.

Ora ora, nunca se ouviu falar de nenhuma história real ou imaginária em que habitavam príncipes-palhaços. Ela teria caído no falso conto de realidade. Somente no circo, mas o circo também sempre foi muito triste, como aquela dificuldade de artistas mambembes, circulando sem se fixar, sem morar perto dos parentes, rodando pelo mundo, passando o chapéu, vertendo um humor triste e trágico. Mas o que fazer…. E assim viveu a princesa, triste para sempre, mas de uma alegria estonteante, quando ali chegava o príncipe-palhaço, que como um mambembe ora aparecia, ora desaparecia do palco dos olhos da princesa. E assim se fez sentido aquelas duas máscaras na capa do livro do conto de fada: uma triste, outra sorrindo. Era apenas um conto de fadas de príncipes e princesas.

Leia mais em Educação Política:

NA CURVA DA ESTRADA CONHECIDA E ESTRANHA

HÁ SEMPRE UM BOÇAL NA SUA COLA

SOU CAPITALISTA, MAS NÃO SOU IDIOTA

HOMENS E MULHERES ME DISPUTAM E ISSO ME IRRITA

LÁGRIMAS NO CANTEIRO

Anúncios

5 Respostas para “A PRINCESA TRISTE E O PRÍNCIPE PALHAÇO

  1. Pingback: PASTOR MALAFAIA E A ‘DIFERENÇA BOÇAL’ ENTRE UM RELIGIOSO E UM CIDADÃO QUE EMITE OPINIÃO POLÍTICA « Educação Política

  2. Pingback: INACREDITÁVEL: MINISTRO DA SUPREMA CORTE, RESPONSÁVEL POR GARANTIR O ESTADO DE DIREITO, JUSTIFICA DITADURA E GOLPISTAS « Educação Política

  3. Pingback: CELSO BODSTEIN DIZ QUE CINEMA É A FORMA DE SINTETIZAR REFLEXÕES DE ORDEM FILOSÓFICA, SOCIOLÓGICA E ESTÉTICA « Educação Política

  4. Pingback: A FORMIGA E A CIGARRA, NA TAVERNA DO SR. CUPIM « Educação Política

  5. Pingback: EXPERIÊNCIA ESTÉTICA É O QUE SINTETIZA A NOVA VERSÃO PARA O CINEMA DO CLÁSSICO DE TOLSTÓI “ANNA KARENINA” | Educação Política

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

%d blogueiros gostam disto: