Educação Política

mídia, economia e cultura – por Glauco Cortez

Arquivos Diários: 3 fevereiro, 2013

A FORMIGA E A CIGARRA, NA TABERNA DO SR. CUPIM

foto: mauriciomercandante flickr creative commons

É certo que você já deve ter lido ou ouvido falar, talvez na sua infância, da tal fábula sobre A cigarra e a formiga, atribuída a Esopo e narrada por Jean de La Fontaine. Na fábula, a cigarra passou o verão a cantar e, no inverno, sem ter o que comer, bateu na porta da formiga, que sem piedade lhe bateu a porta na cara.

Mas a relação da formiga com a cigarra não terminou com aquela maldita frase dita pela formiga antes de bater a porta: “você cantou, agora dance”, e que se traduziu na gíria da sociedade contemporânea: “você dançou”.

Recentemente, pesquisadores da Universidade de Cicadidae descobriram fragmentos nas escavações de um enorme território na região da Eusocialidade. Os fragmentos descobertos sugerem uma sequência inesperada de acontecimentos. Veja só:

Quando a senhora formiga bateu a porta de sua casa, o mundo desabou para aquela pobre cantora de voz tão afinada e potente, mas que pouco lhe valia para o sustento e a provisão de dias ruins. A força daquela porta, o barulho e a recusa não mais se repetiria na vida daquela talentosa cigarra, exceto no dia em que conheceu as borboletas do Direito Autoral, mas essa é uma outra história a ser desvendada, afinal chega de tristeza e lamento. Dona Cigarra não gostava de fados, pouco astuta, apenas se virou e observou todo o bosque coberto de neve. Aquilo lhe soou como um fim, ajustou sua casaca velha e poída e enfrentou o frio ainda com a insolência de assobiar Meu mundo caiu, famosa canção na voz de Maísa, brazilian singer.

Do lado de dentro da casa da Formiga, aquela batida de porta também não foi de total satisfação, mesmo porque sempre que se é egoísta e má, um fel amargo escorre pela garganta e ativa o cérebro a trabalhar intensamente para justificar tais atitudes e foi o que aconteceu. Dona formiga pegou a vassoura, logo atrás da porta, e pôs-se a varrer e a  encontrar razões. “Ela merecia. Precisa aprender, é vagabunda. Não gosta de trabalhar”. Varreu, varreu, limpou, limpou e tudo parecia brilhar na sua magnífica casa, repleta de alimentos. Vale dizer que, mas isso dona formiga procurava esquecer, grande parte dos alimentos daquela repleta dispensa fora furtado. Sim, fora furtado de árvores impossibilitadas de se defender de suas garras e também de humanos negligentes que deixam potes e pacotes de produtos mal fechados. Por qualquer fresta mínima, lá a dona formiga se infiltrava na calada da noite para abastecer sua dispensa.

Por dias e dias dona formiga comia e dormia ao lado de seus proventos enquanto dona Cigarra perambulava em busca de alimentos debaixo daquele inverno gelado. Aquilo realmente era de entediar qualquer um e dona formiga passou a pensar uma loucura: “talvez a vida da Cigarra, pedindo comida pelo bosque, seja mais feliz que a minha que nada tenho a fazer aqui trancada”. Aliás, todas as outras formigas estavam trancadas em suas casas repletas de alimentos, mas sem prosa com vizinhas para não ter a desagradável audição de um pedido de comida qualquer.  O pensamento da dona formiga foi totalmente inesperado. Poder-se-ia duvidar dessa versão, mas os fragmentos escavados pelos pesquisadores dessa fábula comprovaram essa mudança de comportamento. Os pesquisadores também suspeitam que uma depressão ou solidão tenha desencadeado tal transformação, mas isso ainda há de se provar.

Pois bem, em um impulso, dona formiga encheu uma mochila de alimentos, agasalhou-se bem, passou a chave na porta e saiu pelo bosque em busca de algo para espantar o tédio. Caminhou e caminhou por dias sem encontrar viva alma insetídia. Certa tarde ouviu bem ao longe uma bela música. Cansada, já quase sem alimentos e solitária, dona Formiga se encantou e se embalou naquele som que mais parecia uma ilusão, tamanha a fragilidade com que chegava aos seus ouvidos. Perspicaz para conseguir alimento, não foi difícil para a formiga caminhar pelo trajeto sonoro e perceber que a cada passo o som ficava mais alto e belo. Mas de repente o som sumiu. Nada mais se ouvia, apenas o silêncio.

Sem trilha a seguir era impossível continuar, estava sem alimentos e sem o som para lhe guiar. Esperou, esperou, mas aquele som não voltou durante aquele fim de noite. Tudo escuro. Para a formiga, apesar de astuta e trabalhadora, foi difícil conseguir novos provimentos no rigor do inverno e teve de se arranjar dormindo perigosamente ao relento, escondida sob uma casca seca de uma grande árvore. Sabia que logo de manhã os pássaros estarão famintos e o perigo é grande, ainda mais numa época em que não há alimentos em abundância pela floresta.

De manhã, dona formiga ficou bem quietinha sob a casa árvore, mas ainda próxima do chão. Não contava com a tempestade que se avizinhava, os ventos fortes jogaram a casca para longe e ela precisou sair correndo para escapar da passarada. No meio da neve branca, o caminhar de uma cor vermelha e preta era uma presa fácil. Logo foi avistada por um Sabiá faminto. Quando ele se aproximou, a astuta formiga conseguiu se esconder no beiral da porta do tronco da taberna do sr. Cupim. A taberna estava fechada, mas entre as brechas das lascas da entrada, comida por esses terríveis beberrões, ela ficou protegida durante todo o dia e ao final da tempestade. O Sabiá não desistiu e ficou pelas redondezas só de bico calado.

Depois desse grande susto, dona Formiga ali adormeceu e sonhou magnificamente. Ela estava em uma grande festa, com amigos formigas, cigarras, gafanhotos, borboletas, aranhas e todas a insetarada. A música era belíssima e todos rodavam, sorriam e conversavam. Isso sim é que é viver, pensou e sorriu… O movimento dos músculos da felicidade a levou a acordar bruscamente e dar de cara com o Sabiá, lá fora, a sua espera.

Baixou a cabeça e ficou profundamente triste por acordar e com a realidade a sua volta. Mas logo ouviu novamente aquela bela música. Agora não era sonho e ela estava alta, bem próxima, e vinha de dentro da taberna do sr. Cupim. Com o barulho da música, o Sabiá resolveu se afastar e a Formiga pode caminhar até a entrada da taberna. Esperta que só vendo logo pensou: “parece que conheço essa voz…”. Caminhou por entre as frestas e olhou por meio da entrada de ar. Lá estava a dona Cigarra cantando e todos por ali conversando, dançando e trabalhando, assim como no seu sonho. Parou por um momento, pensou no Sabiá e entendeu porque as Cigarras passam a vida a cantar.

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