Educação Política

mídia, economia e cultura – por Glauco Cortez

“VANDALIZE-SE”: SOBRE A VIOLÊNCIA CATÁRTICA DOS PROTESTOS

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Por Maura Voltarelli

Especial para o Educação Política

Desde o início dos protestos que tomaram as ruas do Brasil e mudaram a rotina dos brasileiros, diversos foram os discursos da mídia e diversos foram os tons do protesto. O MPL (Movimento Passe Livre) formado por jovens, com propostas de esquerda que buscavam reduzir as desigualdades e promover a conquista do espaço urbano pela população da periferia, fizeram a aposta inicial na insatisfação da população e atraíram multidões às ruas pedindo a revogação do aumento da passagem de ônibus na cidade de São Paulo.

Foi assim que tudo começou. Os começos são essenciais para entender qualquer grande movimento político e histórico e este começo que contamos aqui, brevemente, foi marcado por uma postura bastante elitista e superficial da grande mídia. Os manifestantes (MPL e adeptos das pautas de esquerda, veja, falamos esquerda, não de um ou outro partido, mas de esquerda, e isso deve ficar claro) eram vândalos, baderneiros, inimigos da ordem, obstáculos ao trânsito daqueles com dinheiro para comprar um carro, que não precisam andar de ônibus, obviamente.

Esses manifestantes foram violentamente reprimidos pela polícia paulistana, herdeira em quase tudo das práticas da ditadura militar no Brasil. Mas, a essa altura, o MPL ultrapassou o próprio MPL. Muita gente se indignou, se identificou, e aí o movimento teve belos momentos porque plurais e livres. A mídia já começou a mudar o discurso. A maioria pacífica e uma pequena minoria violenta, cheia de vândalos, foi a fórmula, exaustivamente repetida, encontrada pela grande mídia para (tentar) definir  (e de certa forma controlar) os protestos.

Imagem: Divulgação

Depois disso, MPL tendo conquistado a sua reivindicação, a esquerda do início se retirou e quem sobrou nas ruas foram aqueles que na fase mais bonita já começavam a aparecer mas ainda não eram maioria. Agora eles são. E há que se dizer, são de direita, pois defendem pautas conservadoras, de manutenção das desigualdades e medidas historicamente totalitárias como o fim dos partidos políticos, o que significa também o fim da democracia.

Esse tipo de protesto que tem se visto agora pelas ruas facilmente se deixa rotular pela grande mídia, pois eles se parecem muito com ela. Desses protestos não se salva nada, nem a insatisfação pois ela jamais existe à serviço de uma coletividade. Tudo acontece com o fim em si mesmo.

Já os protestos anteriores, que não tinham um partido específico mas tinham uma ideologia, coisa que os atuais não possuem, eram escorregadios e incrivelmente sedutores. Os vândalos lá eram magníficos e as depredações de bancos e grandes empresas multinacionais que transbordam exploração por todos os poros eram no mínimo catárticos.

Imagem: Divulgação

E, embora apareça só agora, foi esse o objetivo deste texto. Dizer que o Brasil viveu um momento catártico graças aos jovens do MPL e graças a toda uma população que ainda é utópica, que ainda consegue ser realmente de esquerda, e isso não é nada fácil.

Essa crítica insistente da mídia ao vandalismo do início dos protestos foi um sinal de medo, apavoramento. Isso porque as verdadeiras insurreições assustam, pela expressão da sua força. Todas as grandes revoluções têm atos de violência catártica, o que é diferente da violência pela violência que vemos agora, onde não há mais a ideologia autêntica do começo.

A revolução precisa alterar o espaço, intervir nele, encher os muros de símbolos para que, no outro dia, sob a luz do novo, o mundo seja literalmente outro e o universo tenha mudado, tenha cedido em sua incrível mudez, tenha ele também se vandalizado!!

Imagem: Divulgação

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6 Respostas para ““VANDALIZE-SE”: SOBRE A VIOLÊNCIA CATÁRTICA DOS PROTESTOS

  1. Rodrigo 23 junho, 2013 às 3:41 pm

    Gostei tanto do princípio do texto. Achei tão salutar, mas logo chegamos ao “a direita elitista, ops, classe média (já tem muito esquerdista na elite, então mudemos o foco) quer tomar o movimento de nossas mãos, tomar o governo de nossas mãos”.
    Uma pena, pois este é o momento de, em vez de impor bandeiras e sobre o quê se pode protestar ou não, poderíamos nos ver enquanto cidadãos brasileiros, contribuintes, que queremos serviços públicos de qualidade.
    No geral, Dilma fez um discurso bem racional. E, para seus interesses, inteligentes, ao dizer que está aberta ao diálogo com governadores (dividindo uma responsabilidade que também é dela, mas não só) e com lideranças dos manifestantes (neste ponto, certamente se reunirá apenas com o MPL, pois sabiamente soube identificar que o “grosso” da população nas ruas não parou para identificar seus líderes).
    Um amigo, que cursa doutorado em computação, disse o seguinte: se quero derrubar um sistema (manifestantes), vou direto ao servidor (MPL). Mas, se não é possível identificar o servidor (após o MPL ter se contentado com apenas 20/40 centavos, dizendo que corrupção e serviços públicos não interessam à sua pauta, ao menos neste momento), a tática tem de ser revista.
    Realmente é necessário findar com a baderna. Muitos aproveitadores (esquerdistas e direitistas), muitos criminosos infiltrados, havendo de ser apresentada uma pauta que satisfaça, ou seja, reformas políticas (enxugando a máquina e custos), do judiciário, rejeição de PECs que apenas tendam a calar outro Poder, em desrespeito à separação dos mesmos (rejeito qualquer abuso, de um para com o outro) e serviços públicos.
    Nesse sentido, muito interessante a fala de um vendedor paulista de queijos, a dizer que é mais rápida a compra e recebimento de queijo francês que um queijo da Serra da Canastra (falta de qualidade nas estradas, com deplorável situação em época de chuvas, transportes, logística etc.); quanto já custaram a transamazônica e o metrô de Salvador, após governos de esquerda e direita?
    Muito inteligente, pois, Dilma, pois agora tem a faca e o queijo na mão e pode fazer muito ou se igualar aos que a sucederam.
    P.S.: apenas lamentei a ofensa à minha inteligência quanto à importação de médicos, em vez de atentar para a falta de estrutura SUS, transportes, educação e muito mais, do interior, e calote de muitas prefeituras, bem como ao dizer que dinheiro do BNDES não é público e que Estados se valerão de dinheiro que não o público (hein?) para a quitação de tais empréstimos.

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