Educação Política

mídia, economia e cultura – por Glauco Cortez

MARGARETHE VON TROTTA EM “ROSA LUXEMBURGO” MERGULHA NA VIDA DA MULHER E REVOLUCIONÁRIA CUJA GRANDE CAUSA FOI A DA LIBERDADE

Imagem: DivulgaçãoPor Maura Voltarelli

Especial para o Educação Política

Em tempos de protestos pelas ruas do país, de insatisfações generalizadas e muitas vezes não tão distinguíveis entre si, certas personalidades revolucionárias de nossa cultura ocidental merecem ser lembradas, ou ao menos deveriam ser, por tudo que representam de clareza, força e vocação pela luta em prol de uma maioria quase sempre excluída socialmente, politicamente e culturalmente.

O filme “Rosa Luxemburgo” (Die Geduld der Rosa Luxemburg) da diretora alemã Margarethe von Trotta, que possui no seu currículo a filmografia de outras mulheres singulares da cultura alemã, como Hildegard von Bingen e Hannah Arendt, conta um pouco da história desta revolucionária de origem polonesa a partir, principalmente, das cartas de Rosa, algumas delas reunidas no volume “Rosa Luxemburgo: cartas. Vol. 3”, da Editora Unesp.

Conhecida por sua militância política de esquerda, pelo questionamento que realizou da própria teoria marxista, pelos discursos fortes e contundentes, e pela luta em prol daquilo que chamou de “social democracia” em favor de um governo que fosse realmente do proletariado, Rosa era muito mais do que a “rosa vermelha”, temida por muitos, entendida por poucos.

Complexa na sua vida política e pessoal, Rosa nunca deixava de questionar os sentidos da sua própria atividade, batendo muitas vezes de frente com os líderes do seu movimento, nunca aceitando a violência pela violência, o protesto pelo protesto. O sentido da causa deveria ser claro e esse sentido era eternamente o sentido da liberdade.

Seguindo esse impulso na direção da liberdade, Rosa foi contra a participação da Alemanha na 1º Guerra Mundial, rompendo com o Partido Social Democrata que, em certo momento, passa a apoiar o militarismo. Funda então com alguns amigos a “Liga Espartaquista”, um nome que, inspirado no grande líder da revolta dos escravos, já anuncia a questão central da liberdade e da luta contra o autoritarismo no qual vinha se convertendo parte da experiência socialista da época.

Imagem: Divulgação

Além de todas essas questões políticas, inspirado nas suas cartas de tom fortemente pessoal, o filme busca mostrar uma Rosa mais íntima entre um discurso e outro, uma Rosa onde, do começo ao fim, transborda justamente o sentimento de liberdade e o espírito revolucionário: confiante e alegre.

Rosa era a menina que, quando criança, queria ver o instante em que o botão de rosa iria desabrochar, não queria perder o tempo do milagre. A menina que ensinava a empregada de sua casa a ler e a escrever, pois estas eram (ou deveriam ser) as coisas mais importantes na vida de alguém.

Quando mulher, Rosa era a moça apaixonada, sempre forte, de irretocável caráter, dividida entre a causa e a vida pessoal (de mãe, esposa), entre a cidade em convulsão e o campo calmo e constante. A mulher que, de prisão em prisão, mesmo sendo privada constantemente de sua liberdade, nunca desanimou da promessa de uma vida mais libertária, protegida de todo e qualquer autoritarismo.

Morta de forma covarde, por militares da extrema direita alemã, precursores daquela que viria a ser futuramente a experiência nazista, Rosa, de certa forma, sobreviveu. Pois não há como falar em liberdade, luta contra qualquer tipo de opressão, e em mais “sentido de coletividade” nos dias de hoje, sem lembrar daquela que nos mostrou, de inúmeras formas, como essa luta é difícil, mas como também vale a pena cultivá-la a cada dia, ainda que seja pelos subterrâneos, transformando cada instante em um espaço de construção, afinal, como ela diz em uma de suas cartas, devemos viver a beleza de cada dia, pois este dia jamais voltará.

Abaixo, o filme completo:

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