Educação Política

mídia, economia e cultura – por Glauco Cortez

O MACHISMO NOSSO DE CADA DIA

El machismo mata

El machismo mata

Ensaio sobre o machismo

Por Luiz Guilherme Boneto

Imaginemos uma situação. Numa festa à noite, um grupo de jovens rapazes caminha entre garotas da mesma idade, dentre as quais, uma está disposta a fazer sexo com um deles. Os rapazes, em grupo, incitam-no. Ele, porém, saiu unicamente para se divertir, e naquela noite em especial, excluíra o ato sexual do seu conceito de diversão. O garoto queria dançar, beber alguma coisa, jogar conversa fora. Vê-se, porém, numa encruzilhada: o que os outros rapazes diriam caso ele se negasse a fazer sexo com a moça?

Não é preciso ter mestrado em antropologia para saber: viriam olhares, risos e gracejos, talvez enquanto durasse a “amizade” daqueles caras. O garoto, automaticamente, seria rotulado como alguém que “nega fogo”, e muito provavelmente, taxado de homossexual, ainda que em tom de brincadeira, mesmo que seus “amigos” soubessem claramente que sua orientação sexual não era inclinada a práticas com pessoas do mesmo sexo. Um momento sem vontade de transar é mais do que suficiente para etiquetar a vida inteira de um homem.

Com esse breve exercício de imaginação, quero apenas lembrar o quanto o machismo está presente na sociedade brasileira, do sertão mais afastado às grandes cidades do país. E também é minha intenção recordar o quanto as atitudes machistas prejudicam não só as mulheres, mas também os homens em larga escala.

O machismo não é uma maneira masculina de pensar. Ele é, pois sim, uma forma de ver o mundo fixada na sociedade patriarcal que dá as cartas no Brasil. Imagina-se que os machistas seriam homens heterossexuais, que veem mulheres e homossexuais como cidadãos de segunda categoria, e que poriam a si próprios num plano social superior. Engana-se, porém, quem resume o machismo a isso – Não faltam mulheres a endossar o movimento, e gays também.

O machismo passa pela ideia do homem como macho-alfa, que sustenta a família, não tira sequer o prato da mesa quando termina uma refeição, e que cria os filhos [homens] à sua imagem e semelhança. Ele tem todos esses direitos adquiridos do nascimento, pelo simples fato de ser homem. Já a mulher, segundo a concepção machista, é relegada às tarefas domésticas. Pode até trabalhar fora, porém deve manter a casa sempre em ordem, estar linda, arrumada, perfumada, vestir-se bem, ser amorosa com o marido e os filhos, não erguer o tom de voz, maquiar-se, e encarar toda essa situação com a graça feminina. Não deve jamais engordar nem permitir que seus cabelos embranqueçam. Ainda assim, as mulheres são vistas como más-motoristas, frívolas e fúteis. Tem-se a ideia clara de que a mulher desenvolve desde cedo o desejo de ser mãe e de casar: como pode uma mulher não querer isso?

Além de tudo isso, a mulher não pode manifestar desejo sexual: tal ato é, numa mulher, imoral e indigno. Ela deve estar sempre recatada e usar roupas que cubram o corpo todo – mesmo para evitar estupros, como parte das nossas autoridades faz questão de frisar. E nunca, absolutamente nunca transar no primeiro encontro. Se possível, reservar-se para o casamento, para a noite de núpcias, segundo determina a moral cristã. Já para o homem reservou-se a figura do garanhão, conquistador, aquele que deve estar sempre disposto a transar, a “comer”, a satisfazer. A ele cabe separar a “mulher para casar” da “vagabunda”. O homem também nunca deve demonstrar qualquer trejeito de homossexualidade. Não pode jamais usar roupas em tons de rosa, não deve vestir esta ou aquela calça, aqueles sapatos, ou aquele boné. Não deve falar mais alto que o costume, nem dar um tom agudo à voz num momento de nervosismo. Tudo isso é “coisa de viado”. E ai de quem mover-se contra esse horror. Alguém acredita que o machismo favorece os homens?

Mas eis que há esperança. Não faltam ativistas para lutar contra esse tipo de pensamento retrógrado e medieval, que lamentavelmente impera na maioria das pessoas. Com frequência, as maiores cidades do país veem marchas que reforçam não apenas a luta das minorias por direitos, mas também a democracia em si, cujos princípios abarcam a liberdade de pensamento e expressão.

São Paulo, por exemplo, tem a maior parada do orgulho gay do mundo – embora haja controvérsias quanto ao número de participantes, o desfile toma conta da gigantesca Avenida Paulista e de outras vias próximas a ela. Na mesma Paulista, assim como em outras dezenas de cidades, homens e mulheres reúnem-se na Marcha das Vadias, que vai à luta exatamente contra o machismo. As vadias, que caminham sem roupas, pintadas, berrando e munidas de cartazes nos quais estão inscritas boas verdades, não vão à luta para impedir as mulheres de se dedicar à casa, de optar por um casamento, por uma família grande, muitos filhos, por uma vida adaptada às regras convencionais. Não se trata disso. O que essas pessoas pedem, e expõem-se sem medo de represálias, é que a sociedade tome consciência de que as mulheres podem vislumbrar outros horizontes em seu futuro além do convencional.

O que a sociedade precisa, com urgência, é de algum governante ou líder que abra seus olhos. O machismo passa diretamente pela ignorância: as pessoas acreditam, de fato, que as coisas sempre foram assim e não precisam nem devem mudar. Com um mínimo de informação, milhares de pessoas verão que a igualdade de gêneros favorece a todos, e que abrir os horizontes para novas possibilidades não faz mal algum, muito ao contrário. Quando as pessoas começarem a ver que a orientação sexual não é uma escolha, que a mulher não é uma escrava e que o homem não é uma máquina reprodutora, talvez a sociedade melhore minimamente. Basta alguém que tenha a vontade e um projeto, uma campanha competente para tirar as pessoas da ignorância. Há esse alguém?

Creio, acima de tudo, que as pessoas informadas e atuantes na causa contra o machismo devem agir no dia-a-dia. Devemos ingressar no trabalhoso processo de analisar cada uma de nossas atitudes, porque o machismo é um pensamento fixado em cada um de nós, e o combate a ele é realmente diário. Onde nós estamos sendo machistas? Até onde o pensamento sexista e homofóbico nos penetra, em quais pontos das nossas conversas diárias nós permitimos que ele apareça? Mesmo piadas, sempre sob a justificativa do bom humor, precisam ser muito bem dosadas, porque para mentes menos estruturadas, elas reforçam estereótipos terríveis. Como alguns humoristas foram lembrados nos últimos dias pelas redes sociais, nos interessa rir do opressor, e não do oprimido.

Para finalizar esta breve exposição, quero lembrar algo. Às vezes, enquanto caminho pelas ruas, reflito sobre a beleza das pessoas, mas não a beleza que a convenção impõe. Vejo homens e mulheres de todos os tipos – brancos negros, com brincos, tatuagens, piercings, gordos, magros. De certo modo, a diferença entre as pessoas me emociona. Cada uma delas tem objetivos, pensamentos, problemas, cada uma ri de algo diferente e chora por algo diferente. E todas caminham por ali, atarefadas, uma ao lado da outra, às vezes se esbarrando, às vezes se olhando. E por mais atarefado que eu mesmo esteja, nunca deixo de notá-las e pensar que, apesar de todos os defeitos do Brasil, temos a sorte de viver num país no qual a liberdade é princípio da Constituição. O que nos resta é tentar mudar a cara da nossa sociedade, lamentavelmente machista. Creio, porém, que caminhamos nesse sentido, ainda que a passos lentos.

7 Respostas para “O MACHISMO NOSSO DE CADA DIA

  1. Francisco Leal 9 novembro, 2013 às 3:31 pm

    Acredito que a concepção de machismo acima foi expressa do ponto de vista feminista, quase politicamente (in)correto, termo esse antigo e de origem anglo-saxônica.
    As feministas, que por qualquer coisa se referiam aos homens como “machistas” ou “porcos chauvinistas” (chauvinista era, originalmente, usado para designar alguém fanático na defesa do solo pátrio) cometeram grave equívoco e como resultado, deram um tipo no pé com seu movimento.
    Explico melhor: Até 50 anos atrás o homem ganhava o suficiente para manter a casa sem o concurso da mulher a quem cabia, por tradição, a administração do lar e dos filhos e, ao homem, prover. Naquele tempo vestido de mulher não precisava ter bolso e jamais passaria por sua cabeça ter que pagar alguma conta (almoço, lanche…). Do sustento da família cuidava o marido.
    Com a desejada emancipação a mulher foi à luta por igualdade de direitos sexuais, de trabalho, etc., fatos que em parte aconteceram. Na prática, porém, dobrou-se a mão-de-obra para o mesmo mercado de trabalho, despencando os salários. Foi coisa que aconteceu paulatinamente, mas aconteceu. Nos dias de hoje precisam, marido e mulher trabalhar para suprir as necessidades da casa, coisa que o homem fazia anteriormente sozinho. O preço da liberdade sexual e da “independência” da mulher lhe trouxe um enorme ônus de desconforto e dupla jornada: no trabalho e um doméstico. Embora, em algumas vezes, na maior parte delas em filmes americanos, os homens dividam com elas o trabalho caseiro e os cuidados com os filhos. Em contrapartida ela ajuda a manter a casa.
    Com a liberdade sexual da mulher, ganhou muito o homem. Há mulheres em abundância em busca de aventuras e o homem já não precisa dispender longas horas na conquista. Na maioria das vezes tudo se conclui rapidamente no ato sexual, algumas vezes praticado nas próprias baladas. Se a mulher antes acusava o homem de querê-las transformar em ojetos sexuais, elas efetivamente se transformaram por própria iniciativa.
    Creio que quando transplantaram o modelo americano para o Brasil, esqueceram a nossa multicentenária tradição patriarcal, que remonta ao Brasil colônia, passando pelo 1o. e 2o. reinados e boa parte republicana. Não se altera uma cultura multicentenária em poucas décadas.
    Da liberdade sexual adquirida da qual a mulher não soube fazer uso com sabedoria, resultou na falta de respeito com o sexo feminino por parte do homem. O feminismo sepultou o cavalheirismo e vê-se com excessiva frequência rapazes tratarem garotas sem o menor respeito. Isto porque elas (a maioria) não se dão ao respeito.
    Reconheço que há mulheres bem sucedidas profissionalmente, ainda que algumas delas (ou muitas delas) tenham aberto mão da constituição de família e do sonho de ter filhos em troca do sucesso. Há mulheres bem empregadas e ganhando bem que pagam o jantar e o motel para o namorado menos afortunado, mas de quem gostam, em troca de algumas de algumas horas de carinho e prazer.

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  2. marielfernandes 9 novembro, 2013 às 8:54 pm

    Quando estivermos prontos, não antes, nem depois.

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  3. Francisco Leal 10 novembro, 2013 às 6:57 am

    Acredito que a concepção de machismo acima foi expressa do ponto de vista feminista, quase politicamente (in)correto, termo esse antigo e de origem anglo-saxônica.
    As feministas, que por qualquer coisa se referiam aos homens como “machistas” ou “porcos chauvinistas” (chauvinista era, originalmente, usado para designar alguém fanático na defesa do solo pátrio) cometeram grave equívoco e como resultado, deram um tipo no pé com seu movimento.
    Explico melhor: Até 50 anos atrás o homem ganhava o suficiente para manter a casa sem o concurso da mulher a quem cabia, por tradição, a administração do lar e dos filhos e, ao homem, prover. Naquele tempo vestido de mulher não precisava ter bolso e jamais passaria por sua cabeça ter que pagar alguma conta (almoço, lanche…). Do sustento da família cuidava o marido.
    Com a desejada emancipação a mulher foi à luta por igualdade de direitos sexuais, de trabalho, etc., fatos que em parte aconteceram. Na prática, porém, dobrou-se a mão-de-obra para o mesmo mercado de trabalho, despencando os salários. Foi coisa que aconteceu paulatinamente, mas aconteceu. Nos dias de hoje precisam, marido e mulher trabalhar para suprir as necessidades da casa, coisa que o homem fazia anteriormente sozinho. O preço da liberdade sexual e da “independência” da mulher lhe trouxe um enorme ônus de desconforto e dupla jornada: no trabalho e um doméstico. Embora, em algumas vezes, na maior parte delas em filmes americanos, os homens dividam com elas o trabalho caseiro e os cuidados com os filhos. Em contrapartida ela ajuda a manter a casa.
    Com a liberdade sexual da mulher, ganhou muito o homem. Há mulheres em abundância em busca de aventuras e o homem já não precisa dispender longas horas na conquista. Na maioria das vezes tudo se conclui rapidamente no ato sexual, algumas vezes praticado nas próprias baladas. Se a mulher antes acusava o homem de as querer transformar em ojetos sexuais, elas efetivamente se transformaram por própria iniciativa.
    Creio que quando transplantaram o modelo americano para o Brasil, esqueceram a nossa multicentenária tradição patriarcal, que remonta ao Brasil colônia, passando pelo 1o. e 2o. reinados e boa parte republicana. Não se altera uma cultura multicentenária em poucas décadas.
    Da liberdade sexual adquirida da qual a mulher não soube fazer uso com sabedoria, resultou na falta de respeito com o sexo feminino por parte do homem. O feminismo sepultou o cavalheirismo e vê-se com excessiva frequência rapazes tratarem garotas sem o menor respeito. Isto porque elas (a maioria) não se dão ao respeito.
    Reconheço que há mulheres bem sucedidas profissionalmente, ainda que algumas delas (ou muitas delas) tenham aberto mão da constituição de família e do sonho de ter filhos em troca do sucesso. Há mulheres bem empregadas e ganhando bem que pagam o jantar e o motel para o namorado menos afortunado, mas de quem gostam, em troca de algumas de algumas horas de carinho e prazer.

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  4. J.O.V. 12 novembro, 2013 às 11:26 am

    “Visitar um blog e sair sem comentar, é como visitar uma pessoa e ir embora sem se despedir!”
    Obrigado, por deixarem eu comentar. Parabéns pelo blog.

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  5. pereira 9 outubro, 2014 às 12:15 pm

    da para resumir mais ; o site ser mais objetivo ?????????????????????????

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  6. pereira 9 outubro, 2014 às 12:19 pm

    o meu comentario aguarda moderaçao ??como assim?

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