Educação Política

mídia, economia e cultura – por Glauco Cortez

PARA AQUELES QUE (NÃO) ENTENDERAM ULISSES

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Por Maura Voltarelli
Especial para o Educação Política

Ulisses, de James Joyce, é um dos romances mais importantes da literatura moderna. Talvez por isso também seja um dos mais difíceis. A jornada de Leopold Bloom pelas ruas de Dublin que começa de manhã, quando ele está saindo para o trabalho, e termina à meia noite do mesmo dia 16 de junho de 1904, surge diante dos leitores como uma epopeia complexa, onde os fluxos de consciência, as mudanças de espaço e tempo, as experimentações com a linguagem, atuam em conjunto para reforçar a densidade da narrativa.

No entanto, o clássico de James Joyce segue fascinante e instigante por diversos motivos. Mesmo complexo, o romance atrai os leitores pela ousadia de compor uma “odisseia moderna”, onde os capítulos fazem referência aos cantos do clássico texto atribuído a Homero, e também pela beleza das cenas narradas, pela estética totalmente original da obra, e pelo belíssimo último capítulo onde o monólogo de Molly Bloom, a nova Penélope, ganha forma em níveis altíssimos de expressividade do feminino e do humano em suas angústias e esperas.

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Por tudo isso, e para aqueles que compreendem e não compreendem o Ulisses, de Joyce, mas, principalmente, para continuar colocando essa obra literária em movimento, o norte-americano Robert Berry adaptou, com a ajuda de Josh Levitas, para a graphic novel Seen a obra joyceana. Seen foi desenvolvida para ser uma plataforma exclusivamente on-line. O objetivo do criador da versão em quadrinhos do romance é fazer com que ela acompanhe a leitura da obra, servindo de guia, de facilitador ou simplesmente de complemento.

Dessa forma, para os que leram o romance, para os que não leram, ou para aqueles que abandonaram a leitura, a versão em quadrinhos surge sempre como uma alternativa que não substitui a obra, mas que a recria em diferentes suportes sempre bem vindos.

Até agora quatro capítulos foram lançados na internet. O trabalho deve estar completo até 2022, totalizando 2300 páginas de quadrinhos. Depois de tantos desenhos, o mistério de Ulisses ainda deve persistir, no entanto, ele ao menos estará contaminado de uma boa dose de humor e novos símbolos, de modo que teremos um Bloom ainda mais múltiplo e uma Molly ainda mais fascinante!

Confira nesta link os capítulos já publicados:

http://jamesjoyce.ie/category/ulysses-seen-graphic-novel/

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AS NOITES BRANCAS DE DOSTOIÉVSKI NO MUSEU LASAR SEGALL

Imagem: Divulgação

Lasar Segall (1891-1957). Dostoiévski, c. 1927. Xilogravura sobre papel. Coleção Museu Lasar Segall/Ibram/Minc

Por Maura Voltarelli
Especial para o Educação Política

As palavras escritas muitas vezes precisam se completar em imagens. Talvez por um movimento natural de ganharam plasticidade, vida, uma certa materialidade para além do infinito da imaginação.

Grandes escritores, com densos romances, repletos de personagens ambíguos e fascinantes, são capazes de gerar representações únicas. É o caso do escritor russo Dostoiévski que teve algumas de suas histórias ilustradas por grandes nomes do expressionismo alemão e também por artistas brasileiros como Oswaldo Goeldi e Lasar Segall.

Uma exposição chamada “Noites Brancas: Dostoiévski ilustrado”, com curadoria do professor de Teoria Literária e Literatura Comparada da USP, Samuel Titan, ficou em cartaz no Museu Lasar Segall, em São Paulo, com o objetivo de aproximar do público diversas gravuras e desenhos feitos a partir da obra do autor de Crime e Castigo e Os Irmãos Karamazov.

Foram reunidas 44 obras de 22 artistas que não se centram apenas nos romances mais conhecidos de Dostoiévski. Lasar Segall e Otto Möller, por exemplo, retratam em seus desenhos a novela Uma criatura dócil, de 1876.

Em todos os desenhos, apesar das especificidades de cada um, o curador lembra ser constante a presença do preto e do branco, por isso o nome para a exposição, “noites brancas”. Ao mesmo tempo, noites brancas parece ser uma inteligente metáfora para a obra do escritor russo, que mergulha nas trevas da sociedade e do homem, da espiritualidade e do amor, para depois trazê-las à tona.

As figuras são noturnas, dão a impressão de conduzir para regiões de sombra, não muito distantes das recordações, dos crimes, do subsolo, das criaturas sem nome que Dostoiévski coloca diante de nós e que agora podemos ver em novas representações de artistas que viram em sua literatura diversos motivos para continuar recriando-a.

Xilogravura de Oswaldo Goeldi

Xilogravura de Oswaldo Goeldi

Oswaldo Goeldi também reforça o tom noturno da exposição com gravuras das quatro edições ilustradas – O idiota, Recordações das casas dos mortos (1862), Humilhados e ofendidos (1861) e Memórias de um subsolo – que o artista fez em 1944 para a editora José Olympio, no Rio de Janeiro.

Entre artistas alemães e brasileiros, as gravuras parecem nos revelar outros detalhes, elementos e tons do escritor russo de interpretações inesgotáveis.Uma forma de lê-lo além das páginas da literatura e da crítica.

O ciclo Dostoiévski e o cinema, que conta com a exibição dos longas Os irmãos Karamazov (1958), de Richard Brooks, Crimes e pecados (1989), de Woody Allen, Partner (1968), de Bernardo Bertolucci, Nina (2004), de Heitor Dhalia, entre outros, continua aberto ao público até 25/08.

Serviço:

Dostoiévski e o cinema
Onde:
Museu Lasar Segall – Rua Berta, 111 – São Paulo (SP)
Quando: 03/08 a 25/08, sábados e domingos, às 14h
Quanto: gratuito
Info.: (11) 2159.0400 ou http://www.museusegall.org.br/


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ONDE ESTÁ AMARILDO? E AGORA DEMOCRACIA?

Imagem: Coletivo Projetação (Redes Sociais)
Por Maura Voltarelli
Especial para o Educação Política

Nos últimos dias, uma pergunta passou a ser feita, inicialmente pelos moradores da Rocinha, favela no Rio de Janeiro, depois por pessoas que não moram na favela, depois pela mídia nacional, que acabou por repercutir a questão tamanha a proporção que esta última atingiu.

Onde está Amarildo? Dizem cartazes, vozes, projeções… E Amarildo tornou-se um nome bastante falado nos jornais, sem que, muitas vezes, as pessoas soubessem direito por que se falava tanto em Amarildo. Era difícil mesmo saber o porquê, já que um dos elementos centrais nessa história de Amarildo, que mais parece história de literatura fantástica, é o mistério.

O fato é que Amarildo, um ajudante de pedreiro que gostava de pescar, morador da Rocinha, pai de seis filhos, casado há mais de 20 anos, com um pagamento de meio salário mínimo por mês, que carregava sacos de areia aos sábados para aumentar a renda da família, o menino que com onze anos salvou o sobrinho de 4 anos de um incêndio, tornou-se famoso não por sua coragem e gentileza para com os outros, e sim por simplesmente ter desaparecido nas mãos da polícia do Rio de Janeiro.

Imagem: www.ebc.com.br

Amarildo desapareceu. Como um objeto que desaparece de um dia para o outro e não lembramos mais onde o deixamos ou o vimos pela última vez. Mas Amarildo não é um objeto, ao menos para as pessoas que o amam e conviveram com ele, ao menos para as pessoas que ainda têm a capacidade de se indignar diante de um absurdo desses.

Amarildo desapareceu após uma operação da polícia intitulada (pasmem!) “Paz Armada”, que mobilizou cerca de 300 policiais e entrou na Rocinha entre os dias 13 e 14 de julho para prender suspeitos sem passagem pela polícia depois de um arrastão ocorrido próximo à favela. Amarildo foi abordado na porta de um bar quando já estava indo para casa. O policial teria exigido seus documentos. Ele entregou e, segundo uma testemunha, o policial fingiu que ia checar pelo rádio, mas quase que imediatamente se virou para ele e disse que Amarildo tinha que ir com eles.

Amarildo foi levado para a base da UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) no Parque Ecológico. Assim que soube que o marido tinha sido levado pela polícia, sua mulher foi à UPP e chegou a ver o marido, mas a orientaram de que ele logo seria liberado e de que ela deveria esperá-lo em casa. Desde então, Amarildo não voltou mais para casa.

É apenas isso o que se sabe. No entanto, já é o bastante para revelar muito sobre o atual estado de coisas em que vivemos. Amarildo poderia ser o pior dos criminosos, nada justifica o seu desaparecimento depois de ter sido levado pela polícia. Nada justifica os atos autoritários e ditatoriais de nossa polícia que favorece o caos no lugar de garantir o que chamam de “segurança”.

Onde está a nossa democracia? Qual a esperança de democracia para um país onde pessoas desaparecem sem que se saiba como ou porquê? O caso poderia passar impune, como tantos outros, como tantos que desaparecem todos os dias, como tantos que já desapareceram na ditadura militar e até hoje não se sabe como, sem tampouco lhes fazer justiça.

Mas Amarildo não foi, como esperava a polícia, apenas mais um “favelado”, Amarildo agora está por todos os lados e, junto com ele, nossa indignação e nosso grito por uma cada vez mais tardia democracia que, definitivamente, não há de ser uma democracia da “paz armada”.

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O SORTILÉGIO DO INSTANTE

Por Maura Voltarelli
Especial para o Educação Política

O instante e a perfeita reflexividade entre os elementos da imagem de Cartier-Bresson

O instante e a perfeita reflexividade entre os elementos da imagem de Cartier-Bresson

Cartier-Bresson já dizia que a fotografia é a exploração do instante, de tudo que um intervalo de tempo, com seus movimentos, cenários e cores pode produzir de incrível e único. A fotografia, neste sentido, conquista a sua natureza que não é a de ser simples reprodução do real, mas uma forma de recriá-lo, como fazem todas as outras artes.

O blog Pêssega d’Oro reuniu 50 fotos, tiradas por diferentes pessoas em vários lugares do mundo, que capturam justamente os sortilégios do instante, as surpresas, as revelações e o improvável que este pode produzir. Um pouco de sorte e muito de talento colocaram esses fotógrafos no lugar certo, no momento certo, reafirmando a velha frase de que tudo parece ser mesmo uma questão de ponto de vista!

Imagem: http://www.pessegadoro.com

Imagem: http://www.pessegadoro.com

Imagem: http://www.pessegadoro.com

Imagem: http://www.pessegadoro.com

Mais fotos em http://www.pessegadoro.com/2012/09/click-perfeito-50-fotos.html?spref=fb

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ENQUANTO O QUEBRA-QUEBRA NO LEBLON COMOVE A MÍDIA E A POPULAÇÃO, AS MORTES CAUSADAS PELA PM NA MARÉ JÁ ESTÃO ESQUECIDAS

No discurso midiático elitista, o patrimônio vale mais do que a vida humana

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Do Blog do Mário Magalhães

O apogeu da covardia: lojas quebradas no Leblon comovem o Rio e o jornalismo, mas os mortos pela PM na Maré já foram esquecidos
Por Mário Magalhães

( Para seguir o blog no Twitter: @mariomagalhaes_ )

O Rio se comoveu com o quebra-quebra ocorrido no Leblon na virada de 17 para 18 de julho de 2013. Balanço da baderna: depredação de orelhões, placas e 25 lojas.

O Rio não se comoveu com a morte de pelo menos dez pessoas na Maré na noite de 24 e na madrugada de 25 de junho, menos de um mês atrás.

O Rio em questão é o retratado pelo jornalismo mais influente. Danos ao patrimônio no bairro bacana, paraíso onde vivi por tantos anos, receberam muito mais atenção do Estado, dos meios de comunicação e de parcela expressiva da classe média do que a perda de vidas na favela Nova Holanda, no complexo da Maré.

É muita covardia. Contra quem? Contra os de sempre, os mais pobres.

Os crimes contra o patrimônio na zona sul foram obra de bandidos, de fascistoides, de ultra-esquerdistas, incluindo pseudo-anarquistas, de pequenos burgueses vagabundos e de alguns miseráveis desejosos de trajar roupas de grife (alguém viu um operário vandalizando?). Como queimam o filme dos protestos e beneficiam o governo estadual com o verniz de vítima, talvez haja infiltrados de origem nebulosa. Cometeram crimes, têm de ser punidos escrupulosamente, nos termos da lei.

Na Maré, o Bope invadiu a favela contra a vontade dos policiais que lá estavam. O efetivo era minúsculo, pois o grosso do batalhão estava cuidando de reprimir manifestações políticas. Resultado: uma bala provavelmente disparada por traficante de drogas matou um sargento da tropa de elite.

Em seguida, sobreveio a vendeta, com a invasão massiva. Nove moradores locais mortos e nenhum PM ferido gravemente. Confronto? Isso tem outro nome: chacina. No mínimo, dois jovens não tinham antecedentes criminais, um deles de 16 anos. A legislação penal brasileira não prevê pena de morte, para qualquer crime, ainda que seja o de assassinato.

Na Maré, o grosso do jornalismo não informou nem a identidade dos mortos, com exceção da do PM. No Leblon, os personagens tinham nome, sobrenome e lágrimas de quem perdeu alguns bens. Na favela, o pranto das mães que perderam seus rebentos quase não saiu no jornal.

A cúpula da segurança do Estado convocou uma reunião de emergência horas depois de os vândalos detonarem no Leblon. Alguém sabe de um encontro dessa natureza para tratar do morticínio na Maré?

Há mais diferenças além da essencial, entre crime contra a vida e crime contra o patrimônio. No bairro das adoráveis novelas do Manoel Carlos, aprontaram criminosos que devem responder judicialmente por si mesmos. Na Maré, atuaram agentes públicos. Se não se sabe ao certo qual foi o comportamento deles, a responsabilidade é do Estado, que deveria investigar para valer, e não encenar apurações. (Texto completo)

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E para eles não faltam médicos...

E para eles não faltam médicos…

Da Rede Brasil Atual

Contra Mais Médicos, entidades de classe sabotam comissões no governo federal
Presidenta do Conselho Nacional de Saúde diz que medida é mais uma reação corporativa contra o governo. Médica classifica atitude de ‘fascismo’ e cobra de colegas uma postura a favor do país
Por Cida de Oliveira

São Paulo – O Conselho Federal de Medicina (CFM), a Associação Médica Brasileira (AMB), a Federação Nacional dos Médicos (Fenam) e Associação Nacional dos Médicos Residentes (ANMR) anunciaram hoje (19), em Brasília, que deixarão de participar de todas as câmaras, comissões e grupos de trabalho do Ministério da Saúde, bem como do Conselho Nacional de Saúde. Segundo as entidades, a saída é uma resposta às “decisões unilaterais tomadas pelo governo ultimamente, como o programa Mais Médicos e os vetos à lei do Ato Médico, tomadas sem nenhum diálogo com as médicas e médicos brasileiros”.

A presidenta do Conselho Nacional de Saúde, Maria do Socorro de Souza, avaliou como “lastimável e um equívoco político” o rompimento. “O CNS não é governo, e sim um órgão representativo da sociedade brasileira, com 144 integrantes, que debate a saúde pública. Os médicos deixam esses fóruns num momento em que deveriam ficar ao lado da sociedade que vai às ruas para defender melhorias na saúde pública”, disse.

Ela lembrou que em junho passado o órgão, no qual as entidades médicas têm representantes, aprovou moção de apoio às medidas do governo.

Maria do Socorro reiterou que apoia o Programa Mais Médicos como medida emergencial. “Defendemos políticas de saúde que ofereçam atendimento multiprofissional, com a presença de todos os profissionais da área de saúde. Mas a falta de médicos é o problema mais urgente, que deve ser enfrentado primeiro. Neste momento estou no Mato Grosso, numa aldeia Xavante. A maior reclamação aqui é que não tem médico”, disse.

Para a presidenta do CNE, o anúncio da Fenam expressa uma reação das entidades médicas contrárias às posições do governo, inclusive de ter vetado pontos do chamado Ato Médico, lei que regulamenta a profissão médica. “Em mais de 20 anos de SUS, governo nenhum tinha enfrentado esse debate. E como os médicos querem se autorregular, serão contrários a qualquer atitude que o governo vier a tomar.” (Texto completo)

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Ativistas em campanha pela legalização do aborto no final do ano passado

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Do Sul 21

Em seis meses de legalização, Uruguai não registra mortes de mulheres que abortaram
Da Redação

O subsecretário do Ministério da Saúde Pública do Uruguai, Leonel Briozzo, apresentou nesta semana os dados oficiais sobre interrupções voluntárias de gravidez dos primeiros seis meses desde a sua legalização no país. Entre dezembro de 2012 e maio de 2013, não foi registrada a morte de nenhuma mulher que abortou de forma regulamentada no Uruguai.

Foram realizados 2.550 abortos legais, aproximadamente 426 por mês. O Uruguai é um dos países com taxas de aborto mais baixas do mundo. Briozzo explicou que desde o novo marco legal para o aborto, o país os pratica de forma segura, com a consolidação de serviços de saúde para este fim.

A política pública do governo tem o objetivo de diminuir a prática de abortos voluntários a partir da discriminalização, da educação sexual e reprodutiva, do planejamento familiar e uso de métodos anticoncepcionais, assim como serviços de atendimento integral de saúde sexual e reprodutiva.

Segundo esses dados, o MSP atesta que 10 em cada mil mulheres entre 15 e 44 anos abortam no Uruguai atualmente. Esses números cituam o país entre um dos que têm menores indicadores, ao lado dos estados da Europa Ocidental.

Com informações da United Press International

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"O detetive selvagem"

“O detetive selvagem”

Por Maura Voltarelli

Especial para o Educação Política

Há dez anos morria o escritor chileno Roberto Bolaño. Se hoje, Bolaño é um dos escritores latino-americanos mais importantes, mais estudados e comentados, não era assim na ocasião de sua morte e durante a sua vida. Como gostava de dizer a respeito da natureza do trabalho do escritor, Bolaño encarnou como ninguém a figura do escritor exilado, ao qual se impõe de alguma forma o exílio. Este sempre existiria quando se é escritor, segundo ele, mesmo sem sair de casa. Seriam os escritores sempre “exilados de si mesmos”.

Mesmo sendo cada vez mais estudado e lembrado, as imprecisões sobre a obra do chileno ainda persistem. “O suposto vício em heroína, o relevo indevido aos Estados Unidos como suposta instância fundamental para sua consagração literária, a incompreensão do caráter intrinsecamente inconcluso (infinito) de sua obra”.

Bolaño parece permanecer, e talvez fosse esse mesmo o propósito de sua literatura, cercado por sombras. Sombras que são inerentes à literatura, sempre a recriar e prolongar fantasmas em nossa imaginação que se projetam sobre a realidade. No caso de Bolaño, a sombra é reforçada pela metáfora do detetive, tão utilizada para falar do escritor.

Tão utilizada e tão pertinente. Bolaño encarna de fato a figura de um detetive que vasculha os crimes cometidos na América Latina e faz reverberar esses crimes numa escala mundial e cada vez mais ampla, enfrentando todos os fantasmas, sejam eles íntimos ou sociais. Sua literatura é uma denúncia dos horrores, mortes e perdas da ditadura, e é sempre uma esperança, embora seja essa esperança, como diz um belo título de um de seus livros, uma “estrela distante”.

Abaixo, um documentário sobre Bolaño, onde ele é comparado, pela vida e pelo tom de sua obra, aos escritores malditos.

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"O Impossível"

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Por Maura Voltarelli
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O Impossível. Duas criaturas estranhas, um homem, uma mulher, desenho de seios, costas, pernas, formas distorcidas, quase derretidas. Uma atração e, ao mesmo tempo, uma repulsa mútua. As garras lançadas anunciam a tragédia do contato. Mergulha-se na violência da impossibilidade de qualquer relação carnal, pois anuncia-se a iminência do perigo.

Formas ousadas, sensuais, ancestrais. Assim é a arte da escultora brasileira Maria Martins. Com prestígio no cenário artístico nacional foi no exterior, entretanto, que sua arte mais se destacou, sendo logo “adotada” por um movimento que se reconheceu nas suas formas livres: o surrealismo.

De volta ao cenário nacional, Maria, que também foi escritora, desenhista, pintora e musicista, ganha uma mostra no MAM (Museu de Arte Moderna de São Paulo) do dia 12 de julho  a 15 de setembro de 2013. Sob curadoria da escritora e pesquisadora Veronica Stigger, que possui estudos sobre a obra de Maria Martins, a mostra do MAM é uma das maiores já realizadas sobre a artista. “São mais de 30 esculturas, a maioria em bronze, distribuídas em cinco núcleos – Trópicos, Lianas, Deusas e Monstros, Cantos e Esqueletos -, que são determinados mais pela comunicação formal do que propriamente por uma ordem cronológica. A exposição reúne também livros, artigos, obras bidimensionais em papel e cerâmicas de parede”.

A mostra, cujo nome é “Metamorfoses”, procura mostrar justamente o que muda no decorrer do trabalho da artista. A grande mudança, de um núcleo a outro, vai sendo a representação dos corpos. De nítidos e separados de outros elementos, como a natureza, eles vão, cada vez mais, confundindo-se com eles, borrando-se dentro e fora de si, até que, na utopia da forma final, resta apenas o esqueleto. Na série “Cantos”, há uma referência  aos cantos de Zaratustra, de Nietzsche.

São metamorfoses que, de certa forma, também foram acompanhando a vida da artista. Filha de família tradicional, Maria Martins casou-se, pela segunda vez, com o embaixador Carlos Martins, com quem mantinha um relacionamento aberto. Vivia sob certa dualidade. De um lado, o tédio dos papéis sociais da mulher do embaixador, de outro, desejos insaciáveis, uma vontade de vida e liberdade apenas confessada em suas obras, e que transparecia em alguns episódios como o romance com Marcel Duchamp, marcado por uma impossibilidade de contato retratada na escultura “O Impossível”, e também em obras do próprio Duchamp.

Maria Martins

Maria Martins

Maria Martins teria feito coisas impensáveis para uma mulher de sua época. Corpórea, inteligente, livre, a forte personalidade da mulher parece ter se refletido na obra. Por isso os traços tão fortes, a ferocidade do domínio da forma que interroga o próprio domínio, o caráter selvagem inerente ao primitivo. Suas esculturas gritam enquanto mudam. E fazem gritar algo em nós. Algo antigo.

Definida, por ela mesma, como “o meio-dia pleno da noite tropical”, sua obra mergulha no tropicalismo sendo, ao mesmo tempo, de dentro da noite o ponto máximo de luz. Os trópicos têm, neste sentido, um papel decisivo, também conferem o calor, a vivacidade, a energia de suas formas e personagens.

Uma artista ainda por se descobrir e uma artista a ser redescoberta, cuja arte, de tão inovadora, não se enquadra em nenhum movimento artístico. A mostra do MAM pretende quebrar o silêncio recente em torno da artista, atuando em favor dessa redescoberta mais do que necessária. Silêncio que Veronica atribui a um certo preconceito.

“É uma reação à maneira como ela expõe aquilo que, na mulher, a sociedade gostaria que permanecesse escondido, como o desejo, ou a vulva”, diz a curadora. “Não se perdoa uma mulher por ser inteligente demais, corpórea demais, livre demais –ainda mais tudo ao mesmo tempo.”

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Imagem: DivulgaçãoPor Maura Voltarelli

Especial para o Educação Política

Em tempos de protestos pelas ruas do país, de insatisfações generalizadas e muitas vezes não tão distinguíveis entre si, certas personalidades revolucionárias de nossa cultura ocidental merecem ser lembradas, ou ao menos deveriam ser, por tudo que representam de clareza, força e vocação pela luta em prol de uma maioria quase sempre excluída socialmente, politicamente e culturalmente.

O filme “Rosa Luxemburgo” (Die Geduld der Rosa Luxemburg) da diretora alemã Margarethe von Trotta, que possui no seu currículo a filmografia de outras mulheres singulares da cultura alemã, como Hildegard von Bingen e Hannah Arendt, conta um pouco da história desta revolucionária de origem polonesa a partir, principalmente, das cartas de Rosa, algumas delas reunidas no volume “Rosa Luxemburgo: cartas. Vol. 3”, da Editora Unesp.

Conhecida por sua militância política de esquerda, pelo questionamento que realizou da própria teoria marxista, pelos discursos fortes e contundentes, e pela luta em prol daquilo que chamou de “social democracia” em favor de um governo que fosse realmente do proletariado, Rosa era muito mais do que a “rosa vermelha”, temida por muitos, entendida por poucos.

Complexa na sua vida política e pessoal, Rosa nunca deixava de questionar os sentidos da sua própria atividade, batendo muitas vezes de frente com os líderes do seu movimento, nunca aceitando a violência pela violência, o protesto pelo protesto. O sentido da causa deveria ser claro e esse sentido era eternamente o sentido da liberdade.

Seguindo esse impulso na direção da liberdade, Rosa foi contra a participação da Alemanha na 1º Guerra Mundial, rompendo com o Partido Social Democrata que, em certo momento, passa a apoiar o militarismo. Funda então com alguns amigos a “Liga Espartaquista”, um nome que, inspirado no grande líder da revolta dos escravos, já anuncia a questão central da liberdade e da luta contra o autoritarismo no qual vinha se convertendo parte da experiência socialista da época.

Imagem: Divulgação

Além de todas essas questões políticas, inspirado nas suas cartas de tom fortemente pessoal, o filme busca mostrar uma Rosa mais íntima entre um discurso e outro, uma Rosa onde, do começo ao fim, transborda justamente o sentimento de liberdade e o espírito revolucionário: confiante e alegre.

Rosa era a menina que, quando criança, queria ver o instante em que o botão de rosa iria desabrochar, não queria perder o tempo do milagre. A menina que ensinava a empregada de sua casa a ler e a escrever, pois estas eram (ou deveriam ser) as coisas mais importantes na vida de alguém.

Quando mulher, Rosa era a moça apaixonada, sempre forte, de irretocável caráter, dividida entre a causa e a vida pessoal (de mãe, esposa), entre a cidade em convulsão e o campo calmo e constante. A mulher que, de prisão em prisão, mesmo sendo privada constantemente de sua liberdade, nunca desanimou da promessa de uma vida mais libertária, protegida de todo e qualquer autoritarismo.

Morta de forma covarde, por militares da extrema direita alemã, precursores daquela que viria a ser futuramente a experiência nazista, Rosa, de certa forma, sobreviveu. Pois não há como falar em liberdade, luta contra qualquer tipo de opressão, e em mais “sentido de coletividade” nos dias de hoje, sem lembrar daquela que nos mostrou, de inúmeras formas, como essa luta é difícil, mas como também vale a pena cultivá-la a cada dia, ainda que seja pelos subterrâneos, transformando cada instante em um espaço de construção, afinal, como ela diz em uma de suas cartas, devemos viver a beleza de cada dia, pois este dia jamais voltará.

Abaixo, o filme completo:

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Por Maura Voltarelli

A Idade Média, período que teve início por volta do século V e se estendeu até meados do século XV, não foi, como já se sabe, apenas um período de trevas e obscuridade para o conhecimento humano. Pelo contrário, a Idade Média foi um período decisivo para o conhecimento humano, de amadurecimento da vasta cultura grega que o precedeu e de preparação de um dos maiores movimentos artísticos da história do homem: o renascimento.

Impregnada por um extenso controle religioso da vida, dos hábitos, da moral, a Idade Média guarda histórias incríveis que não cessam de ser descobertas. Não se sabe muita coisa sobre elas e isso aumenta ainda mais o mistério das histórias medievais. Mistério que é também potencializado pelo misticismo do período, pelo cenário das catedrais silenciosas, dos cantos religiosos, dos cultos pagãos que resistiam. Para a mística, a Idade Média é um lugar farto, pois nenhum período esteve tão próximos dos gregos e, ao mesmo tempo, tão distante deles.

O interdito, o proibido, a ideia do pecado e, não obstante, o desejo de liberdade, de conhecimento que continuava a sussurrar nas fendas das catedrais, fez com que histórias como a de Abelardo e Heloísa, por exemplo, fascinassem gerações.

Assim como a imagem de Heloísa, filósofa e escritora, mulher com vocação para a liberdade que foi vítima das inúmeras repressões do período, uma outra mulher, da qual se sabe menos ainda, fascina pelo talento da inteligência, da perspicácia, da vontade de independência da mulher em uma época onde as correntes eram tão apertadas.

Hildegard von Bingen teria nascido em 1098 e foi uma escritora, compositora, abadessa beneditina, visionária e profundamente ligada às vertentes místicas do cristianismo. Conhecida por suas visões, algumas resultantes de fortes dores de cabeça, Hildegard teria escrito além de textos de botânica e medicina, cartas, sons litúrgicos e poemas que eram transformados em belíssimas iluminuras, produção artística de grande importância no contexto da arte medieval. Muitas iluminuras mostram Hildegard recebendo alguma visão e ditando-a a um escriba.

Sua atividade junto às outras mulheres da época também foi bastante expressiva, tendo ela, inclusive, fundado um monastério do qual só as mulheres faziam parte. A vida monástica de Hildegard é cheia de sombras, zonas misteriosas e indeterminadas, como muito do que se conta sobre o período medieval. Mas, justamente por isso, é tão fascinante, fascínio que só aumenta diante do fato de poucos conhecerem a sua história ou sequer já terem ouvido falar dela.

Nestes vídeos segue um pouco da música mística de Hildegard:

Há também um filme, dirigido pela Margarethe Von Trotta, sobre Hildegard. Segue o trailler:

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“VANDALIZE-SE”: SOBRE A VIOLÊNCIA CATÁRTICA DOS PROTESTOS

“VANDALIZE-SE”: SOBRE A VIOLÊNCIA CATÁRTICA DOS PROTESTOS

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Por Maura Voltarelli

Especial para o Educação Política

Desde o início dos protestos que tomaram as ruas do Brasil e mudaram a rotina dos brasileiros, diversos foram os discursos da mídia e diversos foram os tons do protesto. O MPL (Movimento Passe Livre) formado por jovens, com propostas de esquerda que buscavam reduzir as desigualdades e promover a conquista do espaço urbano pela população da periferia, fizeram a aposta inicial na insatisfação da população e atraíram multidões às ruas pedindo a revogação do aumento da passagem de ônibus na cidade de São Paulo.

Foi assim que tudo começou. Os começos são essenciais para entender qualquer grande movimento político e histórico e este começo que contamos aqui, brevemente, foi marcado por uma postura bastante elitista e superficial da grande mídia. Os manifestantes (MPL e adeptos das pautas de esquerda, veja, falamos esquerda, não de um ou outro partido, mas de esquerda, e isso deve ficar claro) eram vândalos, baderneiros, inimigos da ordem, obstáculos ao trânsito daqueles com dinheiro para comprar um carro, que não precisam andar de ônibus, obviamente.

Esses manifestantes foram violentamente reprimidos pela polícia paulistana, herdeira em quase tudo das práticas da ditadura militar no Brasil. Mas, a essa altura, o MPL ultrapassou o próprio MPL. Muita gente se indignou, se identificou, e aí o movimento teve belos momentos porque plurais e livres. A mídia já começou a mudar o discurso. A maioria pacífica e uma pequena minoria violenta, cheia de vândalos, foi a fórmula, exaustivamente repetida, encontrada pela grande mídia para (tentar) definir  (e de certa forma controlar) os protestos.

Imagem: Divulgação

Depois disso, MPL tendo conquistado a sua reivindicação, a esquerda do início se retirou e quem sobrou nas ruas foram aqueles que na fase mais bonita já começavam a aparecer mas ainda não eram maioria. Agora eles são. E há que se dizer, são de direita, pois defendem pautas conservadoras, de manutenção das desigualdades e medidas historicamente totalitárias como o fim dos partidos políticos, o que significa também o fim da democracia.

Esse tipo de protesto que tem se visto agora pelas ruas facilmente se deixa rotular pela grande mídia, pois eles se parecem muito com ela. Desses protestos não se salva nada, nem a insatisfação pois ela jamais existe à serviço de uma coletividade. Tudo acontece com o fim em si mesmo.

Já os protestos anteriores, que não tinham um partido específico mas tinham uma ideologia, coisa que os atuais não possuem, eram escorregadios e incrivelmente sedutores. Os vândalos lá eram magníficos e as depredações de bancos e grandes empresas multinacionais que transbordam exploração por todos os poros eram no mínimo catárticos.

Imagem: Divulgação

E, embora apareça só agora, foi esse o objetivo deste texto. Dizer que o Brasil viveu um momento catártico graças aos jovens do MPL e graças a toda uma população que ainda é utópica, que ainda consegue ser realmente de esquerda, e isso não é nada fácil.

Essa crítica insistente da mídia ao vandalismo do início dos protestos foi um sinal de medo, apavoramento. Isso porque as verdadeiras insurreições assustam, pela expressão da sua força. Todas as grandes revoluções têm atos de violência catártica, o que é diferente da violência pela violência que vemos agora, onde não há mais a ideologia autêntica do começo.

A revolução precisa alterar o espaço, intervir nele, encher os muros de símbolos para que, no outro dia, sob a luz do novo, o mundo seja literalmente outro e o universo tenha mudado, tenha cedido em sua incrível mudez, tenha ele também se vandalizado!!

Imagem: Divulgação

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Por Maura Voltarelli

Andando pelas galerias de exposições do Memorial da América Latina, em São Paulo, depois do primeiro maravilhamento provocado pelo incrível desenho das curvas, pelo espaço aberto, pela liberdade e força das formas, meus olhos pararam diante de imagens a primeira vista desconhecidas.

Elas estavam reunidas em uma exposição que celebrava o 1º de maio, dia do trabalhador. E tinham todo propósito de estarem ali. Na singularidade do branco e preto, percorri diversos retratos de rostos, olhares, lugares, realidades.

A perfeição do retrato, a exatidão do instante fotográfico e o toque jornalístico saltava para fora das imagens. Carvoeiros, a seca, o homem, a terra, trabalhadores de todos os tipos, crianças, família, velhos, lugares, gente sozinha…

Em uma das imagens lembrei-me de olhar o nome de quem tirara aquelas fotografias: João Roberto Ripper. Só agora, pra fazer esse texto, fui ver quem era, onde tinha nascido. Nasceu no Rio de Janeiro, trabalhou como repórter fotográfico.

Mas João Roberto Ripper parece ser, antes de tudo, a sua fotografia, por isso, quando olhei os retratos, já o conhecia. Um trabalho extremamente social e que diz respeito ao homem, diz respeito à humanidade.

Mistério. As belas fotografias de Ripper são um mistério. Porque há qualquer coisa nelas de lírico e de forte, de poético e de pedra, de sombra e de luz, há uma estética perfeita e há o momento em que não se pensa na estética, onde ela simplesmente acontece sozinha. Imagem: http://imagenshumanas.photoshelter.com/gallery/Carvoeiros/G0000WvCUpV3nLkE/

Um sortilégio que captura o ato no espaço da denúncia que emociona. Talvez porque vi ali muito de nossa miséria, muito de nosso abandono. Ripper me causou uma solidão e ao mesmo tempo uma esperança. Um dos retratos de repente surpreendeu-me em lágrimas e foi a primeira fotografia (tirando as minhas que carregam todas as minhas dores e o peso da dita memória) que me deixou daquela forma, diante da imagem de um menino.

Ele trabalhava, tão triste, tão sozinho, em uma de nossas tantas minas de carvão. Seu olhar….até agora não consigo explicar e quem são as palavras? Não, elas não dão conta da vida, e era vida o que havia ali. Pura vida, de que talvez só mesmo a arte dê conta.

Imagem: revistacontemporartes.blogspot.com

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Ideia de Agamben

Ideia de Agamben

Por Maura Voltarelli

O filósofo italiano Giorgio Agamben ficou conhecido pela sua frase com forte teor polêmico, “Deus não está morto, ele virou dinheiro”. Mas Agamben já era e é, antes de tudo, o filósofo da poesia. Em seus textos, a poesia sempre é refletida a partir de um lugar elevado, sempre é posta em movimento e, mais importante, sempre acumula sentidos e horizontes de realização.

Um de seus livros, Ideia da Prosa, busca refletir precisamente sobre o que seria a poesia a partir da prosa e, mais ainda, traz diversos pequenos textos sobre diferentes ideias de temas que sempre aparecem na nossa vida. Temos no livro “Ideia da vocação”, “Ideia da Musa”, Ideia do comunismo”, Ideia do poder”, “Ideia da paz”, “Ideia da vergonha”, “Ideia da música” e tantas outras…

Deixamos aqui duas ideias fundamentais sobre as quais Agamben fala a partir de uma originalidade surpreendente e genial.

Ideia do amor

Viver na intimidade de um ser estranho, não para nos aproximarmos dele, para o dar a conhecer, mas para o manter estranho, distante, e mesmo inaparente – tão inaparente que o seu nome o possa conter inteiro. E depois, mesmo no meio do mal-estar, dia após dia não ser mais que o lugar sempre aberto, a luz inesgotável na qual esse ser único, essa coisa, permanece para sempre exposta e murada.

Ideia da morte

O anjo da morte, que em certas lendas se chama Samael, e do qual se conta que o próprio Moisés teve de o afrontar, é a linguagem. O anjo anuncia-nos a morte – e que outra coisa faz a linguagem? – mas é precisamente este anúncio que torna a morte tão difícil para nós. Desde tempos imemoriais, desde que tem história, a humanidade luta com o anjo para lhe arrancar o segredo que ele se limita a anunciar. Mas das suas mãos pueris apenas se pode arrancar aquele anúncio que, assim como assim, ele nos viera fazer. O anjo não tem culpa disso, e só quem compreende a inocência da linguagem entende também o verdadeiro sentido desse anúncio e pode, eventualmente, aprender a morrer.

AGAMBEN, Giorgio. Ideia da Prosa. Trad. João Barrento. Lisboa: Cotovia, 1999

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A MILITÂNCIA ARROGANTE NO MOVIMENTO FEMINISTA REFORÇA O MACHISMO E EXCLUI GRUPOS POTENCIAIS PARA O DEBATE, CONTRADIZENDO A NATUREZA DA LUTA CONTRA A OPRESSÃO

Imagem: Creatice Commons (gaelx)Por Marília Moschkovich, do site Outras Palavras

A síndrome da militância arrogante

A situação não é nada nova: mulheres reforçando o machismo. Isso sempre existiu e existirá, enquanto houver machismo. Ser mulher não torna ninguém automaticamente revolucionária, feminista. Estar na condição de oprimido não torna ninguém necessariamente contra a opressão. Aqueles que lutaram e lutam pelo socialismo no mundo todo sabem bem disso. Se essa condição fosse suficiente para derrubarmos as opressões, definitivamente não teríamos saído da guerra fria como majoritariamente capitalistas, no mundo todo. Quem eram (e quem são) os soldados estadunidenses nas guerras contra “o comunismo”? Donos de empresas? A classe que tem os meios de produção? (eu realmente preciso responder essas perguntas pra vocês?)

A lógica é relativamente simples: existe uma forma dominante de pensar, que defende sempre os interesses de quem domina. Marx chamou isso de ideologia, Gramsci foi mais longe e pensou numa hegemonia, Althusser explicou que esse negócio se difunde por “aparelhos ideológicos” responsáveis em transmitir essas maneiras de pensar e reforçá-las (e, depois, dirá Foucault, a coagir e controlar as pessoas para que as executem). Essa é, substancialmente, a maneira pela qual quem concentra poder mantém o poder concentrado e a sociedade funciona como funciona. As opressões de classe, raça e gênero têm ainda uma série de ferramentas próprias para que se mantenham.

Por isso, não é de se espantar que mulheres reforcem o machismo, ou que pessoas negras reforcem o racismo, ou que pessoas mais pobres defendam os interesses de pessoas mais ricas, e daí em diante. Como militantes, porém, temos duas formas de lidar com essa situação.

A primeira forma é um tanto contraditória, mas extremamente popular entre militantes de diversas causas, infelizmente. Frustrados com essa contradição gerada pelos próprios sistemas de opressão, muitos de nós acabam descontando a frustração nas pessoas que, em tese, estaríamos defendendo. Há algumas semanas, várias companheiras feministas compartilharam no Facebook uma imagem que apontava alguns motivos pelos quais as mulheres deveriam reconhecer o feminismo. No fim da imagem, um pequeno asterisco estragava todo o propósito de militância, com os seguintes dizeres: “Mas se você prefere continuar lavando louça, provavelmente você deve ser mais útil na cozinha. Então fique lá, enquanto outras lutam por você. Não precisa expor sua ignorância para toda a rede”.

Ai. Essa me doeu na alma.

Doeu porque é uma postura muito comum: o militante, ou a militante, sente-se de alguma maneira superior porque consegue enxergar além do véu da ideologia dominante (como diria o barbudo alemão). Esse ar de superioridade faz com que ele ou ela sinta-se no direito de falar por grupos dos quais muitas vezes ele/ela não fazem parte e, muito pior que isso, excluir as próprias pessoas em situação de opressão da luta contra essa opressão. Acham-se no direito de determinar que sua luta “serve” apenas para algumas pessoas – aquelas iluminadas como ele/a, que enxergam os mesmos grilhões. Que raio de militância é essa? (Texto completo)

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A VOZ QUE VEM DO LAGO: O MUNDO ENCANTADO DA CIVILIZAÇÃO INDIANA

Imagem: moiseslima.wordpress.comPor Maura Voltarelli

Como disse Roberto Calasso no seu livro A Literatura e os deuses, o mundo, embora muitos não acreditem, está longe de desencantar-se. Os deuses não só renascem com toda força, invadindo a civilização moderna ocidental, como estão por toda parte, demonstrando que a razão não responde a todas as perguntas.

Nesta cena de um épico da literatura indiana, o Mahabharata (“A Grande História dos Bharatas”, em tradução literal), dirigida por Peter Brook e pelo dramaturgo Jean-Claude Carriére, as divindades e lendas que atravessam a cultura oriental estão representadas nos personagens da mitologia hindu, em noções filosóficas como a busca da iluminação, o karma e o dharma, e na proposta do que seria um bom modo de vida.

Na cena que reproduzimos abaixo o que transparece é o máximo encantamento da situação, a maturidade das respostas, a vulnerabilidade do ser humano, leviano, diante das divindades imersas no lago da sabedoria.

Mahabharata traz o profundo misticismo do oriente, terra de cores, círculos, superstições, cosmo, e nos lembra de uma relação que persiste pelos séculos, a relação entre homens e deuses, entre os mortais, para quem cada momento pode ser o último, e os imortais, banhados de eternidade.

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O CORPO É A PAISAGEM

Por Maura Voltarelli

Pequenos bonecos encostados em um seio que ganha aspectos de montanha, cavaleiros a atravessar as costas que de repente são pequenos planaltos, o cavaleiro alojado na cintura, o carro a percorrer as curvas dos quadris, as nádegas como montanhas, os seios sustentando a corda por onde passa a equilibrista, o buraco da piscina no buraco do umbigo, o umbigo que também é rio onde se pesca, as costas por onde se escorrega, qualquer conjunto de palavras será pouco diante do simples olhar as fotografias de Allan Teger, autor desta série que abaixo mostramos chamada “Bodyscapes”.

O artista, no suporte do preto e branco, transforma o corpo humano em belas paisagens, em inesperados lugares. O resultado é bonito, erótico, inusitado. Uma valorização do corpo e da arte, e talvez uma lembrança de que um está sempre ligado ao outro.

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Link de acesso para mais trabalhos de Allan Teger

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O MUNDO SEGUNDO AS CRIANÇAS: DICIONÁRIO TRAZ UMA PARTICULAR VISÃO DA REALIDADE QUE OS ADULTOS MUITAS VEZES JÁ ESQUECERAM

Universo: casa das estrelas

Universo: casa das estrelas

Da Catraca Livre

Dicionário feito por crianças revela a adultos um mundo que já esqueceram
Por Redação

Um professor colombiano passou dez anos coletando definições de seus alunos e, como resultado, obteve um dicionário com verbetes ao mesmo tempo puros, lógicos e reais

A Feira do Livro de Bogotá, que aconteceu no final de abril, teve como maior sucesso um livro chamado “Casa das estrelas: o universo contado pelas crianças”. Mais especificamente, uma parte dele: um dicionário feito por crianças que traz cerca de 500 definições para 133 palavras, de A a Z.

Apesar de lançado originalmente em 1999, o livro foi reeditado neste ano. Javier Naranjo, o autor, conta que compilou as informações durante dez anos enquanto trabalhava como professor em diferentes escolas do estado de Antioquía, região rural do leste do país.

A ideia surgiu quando, em uma comemoração do Dia das Crianças, ele pediu que seus alunos definissem a palavra “criança”. O resultado encantou o professor – uma das definições era “uma criança é um amigo que tem o cabelo curtinho, não toma rum e vai dormir mais cedo”. A partir daí foram surgindo novas definições, que eram sempre anotadas e guardadas.

Para ele, as crianças têm uma lógica diferente, uma maneira própria de entender o mundo e de revelar muitas coisas que os adultos já esqueceram. É assim que, no peculiar dicionário, o adulto é uma “pessoa que em toda coisa que fala, fala primeiro de si”, água é uma “transparência que se pode tomar”, um camponês “não tem casa, nem dinheiro. Somente seus filhos” e a Colômbia é “uma partida de futebol”.

Confira no box ao lado alguns dos verbetes encontrados no livro.

Com informações da BBC Mundo.

Veja alguns verbetes:

Adulto: Pessoa que em toda coisa que fala, fala primeiro dela mesma (Andrés Felipe Bedoya, 8 anos)

Ancião: É um homem que fica sentado o dia todo (Maryluz Arbeláez, 9 anos)

Água: Transparência que se pode tomar (Tatiana Ramírez, 7 anos)

Branco: O branco é uma cor que não pinta (Jonathan Ramírez, 11 anos)

Camponês: um camponês não tem casa, nem dinheiro. Somente seus filhos (Luis Alberto Ortiz, 8 anos)

Céu: De onde sai o dia (Duván Arnulfo Arango, 8 anos)

Colômbia: É uma partida de futebol (Diego Giraldo, 8 anos)

Dinheiro: Coisa de interesse para os outros com a qual se faz amigos e, sem ela, se faz inimigos (Ana María Noreña, 12 anos)

Deus: É o amor com cabelo grande e poderes (Ana Milena Hurtado, 5 anos)

Escuridão: É como o frescor da noite (Ana Cristina Henao, 8 anos)

Guerra:Gente que se mata por um pedaço de terra ou de paz (Juan Carlos Mejía, 11 anos)

Inveja: Atirar pedras nos amigos (Alejandro Tobón, 7 anos)

Igreja: Onde a pessoa vai perdoar Deus (Natalia Bueno, 7 anos)

Lua: É o que nos dá a noite (Leidy Johanna García, 8 anos)

Mãe: Mãe entende e depois vai dormir (Juan Alzate, 6 anos)

Paz: Quando a pessoa se perdoa (Juan Camilo Hurtado, 8 anos)

Sexo: É uma pessoa que se beija em cima da outra (Luisa Pates, 8 anos)

Solidão: Tristeza que dá na pessoa às vezes (Iván Darío López, 10 anos)

Tempo: Coisa que passa para lembrar (Jorge Armando, 8 anos)

Universo: Casa das estrelas (Carlos Gómez, 12 anos)

Violência: Parte ruim da paz (Sara Martínez, 7 anos)

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TURBINA EÓLICA DE EIXO VERTICAL É CAPAZ DE APROVEITAR ATÉ DEZ VEZES MAIS A ENERGIA DOS VENTOS

Novo modelo traz maior economia de energia

Novo modelo traz maior economia de energia

Do Ciclo Vivo

Brasileiro cria turbina eólica de eixo vertical altamente eficiente

O inventor brasileiro Antonio Bossolan é o responsável pela criação da “Turbina eólica de eixo vertical”, que é capaz de aproveitar até dez vezes mais a energia dos ventos que passam por ela. A inspiração surgiu pela necessidade de tornar os sistemas eólicos mais eficientes.

De acordo com Bossolan, as turbinas eólicas convencionais desperdiçam muita energia. Estas turbinas são capazes de captar a força dos ventos que correm apenas entre as pás, sendo que toda a parte da base, que também é ventilada, não retém a energia que passa por ela.

O modelo idealizado pelo brasileiro possui um grande número de pás móveis, instaladas por quase toda a sua estrutura e que se posicionam sempre com a face no sentido vertical na direção dos ventos e horizontal no sentido contrário dos ventos.

Os conjuntos de quatro pás, em formato de cruz, podem ser empilhadas, ficando com a aparência de uma árvore, e tendo a finalidade de ocupar toda a base para, desta forma, captar ainda mais a energia dos ventos. Quanto maior as proporções da turbina, bem como o número de conjuntos de pás empilhadas, maior será o aproveitamento da energia eólica.

Antonio Bossolan, já possui patente nacional e internacional, mas ainda está em busca de parceiros e investidores para transformar o conceito em uma estrutura real. (Texto original)

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LASAR SEGALL: O ARTISTA CROMÁTICO E SOCIAL

Lasar e seus colegas em uma sessão de pintura ao ar livre: liberdade e vanguarda

Lasar e seus colegas em uma sessão de pintura ao ar livre: liberdade e vanguarda

Por Maura Voltarelli

Alemão naturalizado brasileiro, Lasar Segall é considerado um dos ícones do modernismo brasileiro, seguindo e solidificando um caminho já aberto por Anita Malfati e pelo movimento modernista de 1922. Pintor de traços inusitados, que rompem com os academicismos e as formas tradicionais da pintura realista, adepto das cores fortes e expressivas, tocado pela crítica social e pela denúncia política do antissemitismo e dos horrores da guerra, Lasar combinou as heranças da tradição e cultura europeia com as cores e as temáticas tropicais, criando uma obra original e sempre atual.

A primeira exposição do artista no Brasil aconteceu em março de 1913, em São Paulo, e nas obras mostradas já se podiam ver as marcas do impressionismo alemão e da pintura holandesa.  Em comemoração ao centenário da exposição, o Museu Lasar Segall programou exposições de 50 obras do artista que pertencem ao acervo do Museu e também de algumas fotografias que faziam parte de seu arquivo pessoal.

Encontro

Encontro

Lasar tinha uma relação muito próxima com a fotografia, tanto que muitos de seus quadros, como Encontro, por exemplo, remetem diretamente a uma imagem fotográfica de seu casamento, apenas modificando alguns detalhes. Fotografias marcantes que traduzem um pouco do que foi a trajetória do artista, bem como movimentos decisivos para construir a proposta e o perfil estético de seu trabalho, como a fotografia que registra uma sessão de pintura ao ar livre com colegas da Academia de Dresden, em 1911, também fazem parte da exposição.

Nesta fotografia os colegas da academia carregam a modelo nua, em um manifesto que já ditava o movimento libertário e de vanguarda que se formava no momento.

Os demais registros fotográficos e as obras, algumas recentemente recuperadas pelo Museu, como Eternos Caminhantes, revelam o artista histórico e ousado. Eternos Caminhantes traz um grupo de andantes, tema recorrente na obra do mestre expressionista, que faz referência ao êxodo e à perseguição aos judeus. Sintética e geometrizada, a obra se instala em um tempo específico e, pela qualidade de sua construção, projeta-se na eternidade conquistada pelos grandes artistas.

Outras obras, como Bananal, trazem a temática tropical, sempre presente em Sagall principalmente na sua fase mais marcadamente expressionista. Parecem sinais do quanto o artista de terras frias ia se misturando com os costumes, as cores, a gente, das terras quentes tropicais, refletindo e ajudando a construir o modernismo de nossa arte.

Eternos caminhantes

Eternos caminhantes

Mesmo adepto do expressionismo, da (re)criação da realidade, e dono de um estilo próprio, Lasar também mantinha o diálogo com algumas tradições da pintura, revisitando gêneros como natureza-morta, retrato e paisagem. Os rostos, as frutas, os lugares ganham, no entanto, sempre o seu tom, a sua ousadia. Em cada obra respira certa sensualidade bruta original e uma denúncia visceral dos movimentos históricos, e, para os que querem encarar as trevas no coração da história, voltar ao seu Navio de emigrantes é sempre uma forma de voltar a nós mesmos.

Página do Museu Lasar Segall, onde podem ser vistas obras e fotografias do artista.

Algumas informações retiradas da revista da FAPESP, que traz reportagem com mais informações sobre o Museu Lasar Segall e sobre a exposição comemorativa.

Navio de emigrantes

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A presidenta Dilma no lançamento do programa "Ciências sem fronteiras"

A presidenta Dilma no lançamento do programa “Ciências sem fronteiras”

Do Facebook de Idelber Avelar, professor na Tulane University (New Orleans, Louisiana).

Por Idelber Avelar

Aqui vão algumas observações, fruto de uns meses de reflexão e apuração sobre o Ciência sem Fronteiras. Esclareço aos amigos beneficiados pelo programa que se trata de observações sobre o CSF do ponto de vista de política pública, é óbvio. Quem competiu dentro de um edital legalmente constituído e conquistou a bolsa merece só os parabéns e os votos de que aproveite.

Sei que o CSF inclui a pós-graduação, mas os comentários que seguem se limitam à graduação.

1. O Ciência sem Fronteiras, assim como Belo Monte, é obsessão pessoal da Presidenta. Ele foi instituído da seguinte forma: Dilma convocou os Presidentes da Capes e do CNPq e comunicou-lhes que o Brasil enviaria 100 mil estudantes ao exterior. Assim, desse jeito. Não surpreende, então, para quem conhece o cotidiano autocrático do Palácio do Planalto, que a Capes tenha maquiado dados (http://bit.ly/17AZuOq) e incluído bolsas regulares como parte do CSF.

2. A qualidade do sistema universitário dos EUA, para onde está vindo um enorme naco dos alunos brasileiros, é fruto da relativa abundância de recursos, sua autonomia, a excelência de sua pós-graduação, os mecanismos impessoais de avaliação, promoção e contratação etc. MAS, se há uma coisa que NÃO diferencia as boas universidades dos EUA das boas universidades brasileiras é a qualidade das aulas de graduação. Há diferenças no acesso a material de pesquisa, por exemplo, mas não há significativa diferença na qualidade e aprofundamento nas aulas de graduação.

3. É sabido que o ensino superior nos EUA é extremamente caro. Quando nasce um moleque aqui, as famílias começam a poupar para mandá-lo à universidade. Em Tulane, onde leciono, a matrícula para o ano 2012-2013 custa US $45.240,00. Ou seja, quase cem mil reais pelo ano letivo. O que pouca gente sabe é que praticamente ninguém paga esse valor. Há uma série de programas de bolsas, ajuda de custo por mérito etc, sem contar os empréstimos. Qual é a diferença, então, entre os alunos que vêm do Brasil pelo CSF e os alunos regulares que recebemos aqui? O governo brasileiro paga a matrícula dos seus na íntegra, em dinheiro vivo. Para que – no caso dos alunos de graduação – eles tenham aulas de nível básico que não diferem significativamente das aulas às que teriam acesso nas melhores universidades brasileiras. Continuem acompanhando.

4. Como se sabe, o programa Ciência sem Fronteiras tem um nome bem sinedóquico. Não é “ciência” sem fronteiras. Nele não estão incluídas as ciências humanas. Não estão incluídas as ciências sociais. Não estão incluídas as artes, Letras, nada. Um nome muito mais honesto seria “engenharia sem fronteiras”, apesar de que uma ou outra área contemplada escapa da engenharia (sem jamais escapar da técnica). Dilma Rousseff, um belo dia, descobre que há bolsas de teatro e decreta que não se enviarão mais de alunos de ciências humanas ao exterior. Sim, foi dessa forma que aconteceu. O recado a estas áreas é óbvio: vocês não têm importância, quem importa são os técnicos. Na mesma levada, ela elimina as bolsas para países de língua portuguesa e espanhola. Ou seja, transforma uma ideia já ruim num Yázigi feito através aulas básicas de ciências exatas no exterior, pagas com enormes quantidades de dinheiro público brasileiro.

5. O Brasil deve enviar estudantes ao exterior? É evidente que sim. Mas esse envio só tem sentido no momento em que esses alunos já são pesquisadores, ou seja, quando são mestrandos ou doutorandos. Para a graduação, a política que faria sentido seria usar esse dinheiro para remunerar melhor os professores brasileiros, investir em infra-estrutura, equipar as bibliotecas brasileiras. Em vez disso, Dilma consegue: 1) enviar às ciências humanas e sociais o recado de que elas não importam; 2) estabelecer de forma autocrática uma meta irreal, que faz a Capes e o CNPq ficarem como loucos tentando atingi-la, chegando inclusive à maquiagem de estatísticas; 3) despejar gigantescas quantidades de dinheiro público para que alunos de graduação façam, no exterior, cursos básicos, não muito diferentes dos que existem por aí; 4) privilegiar, no processo, “convênios” com a iniciativa privada, que são nada mais que mercantilização capitalista do conhecimento. Que não vai reverter para benefício público coisa nenhuma, é óbvio.

Resumindo a ópera: graças à obsessão tecnocrática de Dilma Rousseff, vocês estão subsidiando o meu salário, que não precisa de subsídio brasileiro. E estão fazendo isso para que alunos de graduação tenham, aqui, aulas não muito diferentes das que teriam aí no Brasil. Não faz o menor sentido, a não ser para a iniciativa privada, brasileira e estrangeira, que lucrará com isso.

É a concepção mais capitalista de conhecimento que já vi no Brasil desde a ditadura militar.

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EFEITO NEOLIBERAL: IMPOSTO DO QUARTO VAZIO PROVOCA A MORTE DE UMA SENHORA DE 53 ANOS NA INGLATERRA

Ingleses protestam contra o "imposto do dormitório"

Ingleses protestam contra o “imposto do dormitório”

Esses são os resultados da política de austeridade neoliberal que vem sendo implantada na Europa.

Cobranças absurdas, como a do imposto do quarto vazio na Inglaterra, e cortes em serviços públicos essenciais, como saúde e educação, têm levado pessoas à morte.

Como mostra Cynara Menezes neste texto, os pobres são quem sempre acaba pagando a conta pela ambição de concentração de renda e enriquecimento irresponsável de poucos, baseado no desmantelamento do público em benefício do privado.

Horrores do neoliberalismo: avó inglesa se mata por não poder pagar “imposto do dormitório”

Por Cynara Menezes

(protesto contra o imposto do dormitório na Inglaterra)

Quem paga a conta da crise na Europa? Os pobres, claro. Assim como vem acontecendo na Espanha, onde tem gente se matando por conta dos despejos promovidos pelos bancos, agora é na Inglaterra que começam a aparecer suicidas por questões econômicas. No último dia 4 de maio, Stephanie Botrill, de 53 anos, deu fim à própria vida porque não podia pagar uma nova taxa instituída pelo governo conservador de David Cameron: o “imposto do dormitório” (bedroom tax). Trata-se de um imposto bizarro que vai atingir sobretudo os mais carentes, porque é direcionado às casas e apartamentos administrados pelas prefeituras, onde moram as famílias de baixa renda, pagando aluguel.

Com o novo imposto, as pessoas que vivem nestas casas terão de pagar uma taxa extra de 10 libras semanais por quarto desocupado. Ou seja, se seu filho saiu de casa, você precisa dar uma grana ao governo por isso. Estima-se que mais de 220 mil famílias serão atingidas pelos cortes impostos por Cameron nos benefícios sociais. O primeiro-ministro já passou o facão na educação, saúde e segurança e agora chega à moradia. Obviamente as novas regras têm provocado protestos no país. Sindicatos, oposição e até líderes religiosos se uniram sobretudo contra o malfadado imposto do dormitório, que começou a vigorar no dia 1 de abril.

Stephanie Botrill, que criou os dois filhos como mãe solteira, estava triste por ter que deixar a casa onde viveu durante 18 anos porque não tinha como pagar o imposto. Como os filhos cresceram e foram morar sozinhos, ela teria que pagar, pelos dois quartos vazios, 80 libras a mais por mês (cerca de 245 reais), algo impensável em seu apertado orçamento. Já tinha até empacotado as coisas para ir embora quando tomou a decisão de se matar. Em um bilhete ao filho, Steven, de 27 anos, Stephanie deixa muito claras as razões para o ato desesperado: “Não se culpe porque terminei com a minha vida. Os únicos responsáveis estão no governo”.

Como no Brasil, os jornais ingleses também têm a tradição de não noticiar suicídios, mas, neste caso, como envolvia políticas públicas, abriram uma exceção. Integrantes do gabinete de Cameron tentaram minimizar o caso. Um ministro lamentou a morte “trágica”, mas disse ser “errado” conectá-la às políticas do governo, como se a própria Stephanie não tivesse feito isso em sua carta suicida.

O que mais me impressiona, além da crueldade destas leis supostamente para “resolver” a crise (eu duvido), é a possibilidade de se instaurar no país uma sociedade policialesca a la 1984 de George Orwell –ou à moda do regime stalinista que o livro criticava. Quem vai denunciar os moradores que têm quartos sobrando? Haverá dedos-duros oficiais? Eles serão premiados? Se for feita pelo governo, como será esta vigilância? Todo mês irá um fiscal às casas para verificar quantas pessoas estão lá morando? E o que é pior: para onde irão as pessoas que não podem pagar o imposto do dormitório, como Stephanie? Tristes tempos. (Texto original)

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VAN GOGH NA BELEZA DO PRETO E BRANCO, POR ALAIN RESNAIS

Vincent van Gogh, Prisoners Exercising, 1890

Vincent van Gogh, Prisoners Exercising, 1890

Por Maura Voltarelli

Vincent van Gogh é hoje um dos maiores pintores modernos. Difícil quem não o conheça, quem não tenha ouvido falar sobre ele alguma vez. Mais difícil ainda não se impactar com suas pinturas, com suas formas delirantes, com suas cores colossais que, de certa forma, refletem a trajetória complexa e densa de um dos maiores nomes do impressionismo mundial.

Para contar um pouco da história de Van Gogh o diretor francês Alain Resnais foi convidado, em 1948, para fazer um filme curto sobre ele, que coincidia justamente com uma exposição do artista que então estava sendo montada em Paris. O filme, intitulado Van Gogh, recebeu diversos prêmios e foi o primeiro de muitos outros filmes feitos pelo diretor sobre o universo da arte moderna, como Gauguin (1950) e Guernica (1950).

Reproduzimos aqui uma versão com legendas em espanhol, mas, para além dos diferentes códigos linguísticos, o arte/documentário de Resnais fala em uma linguagem universalmente conhecida pelo público: a linguagem da arte. E mais ainda, essa linguagem é transmitida pela pureza essencial do preto e branco, o que deixa os quadros de Van Gogh ainda mais sublimes.

A tentativa foi de reconstituir a vida do pintor por meio de seus quadros, tornando-o mais conhecido do grande público. Tarefa nem sempre fácil, pois Van Gogh foi um daqueles artistas que teve sua existência atravessada pela miséria, pela loucura, e por todas as regiões de sombra que possam se abrir diante da existência humana. Nele, no entanto, as experiências do limite só fizeram aumentar a genialidade do seu trabalho.

Assim como Hölderlin e Nietzsche, Van Gogh vivenciou em vida a experiência da morte, rompeu a barreira entre os domínios e, por isso, conseguiu na sua obra a maturidade do estilo e o frescor de uma atualidade sempre potente, sempre renovada.

França, 1948.
Direção e edição: Alain Resnais.
Narrador: Claude Dauphin. Diretor: Gaston Diehl e Robert Hessens. Producão: Pierre Braunberger, Gaston Diehl e Robert Hessens. Música original: Jacques Besse. Fotografia: Henry Ferrand. Versão original em francês com legendas em espanhol. Duração: 18 min.

Vale a pena também ver este vídeo, uma bela experiência estética que traz o quadro De sterrennacht EM MOVIMENTO.

Van Gogh não morreu devido a uma condição delirante, e sim por haver chegado a ser corporalmente o campo de ação de um problema em cujo redor se debate, desde suas origens, o espírito iníquo desta humanidade, o predomínio da carne sobre o espírito, o do corpo sobre a carne, do espírito sobre um ou sobre outra. Onde está, neste delírio, o lugar do eu humano?

Antonin Artaud

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O RAPTO DE PROSÉRPINA, DE GIAN LORENZO BERNINI: O GRITO DO MITO
EXPERIÊNCIA ESTÉTICA É O QUE SINTETIZA A NOVA VERSÃO PARA O CINEMA DO CLÁSSICO DE TOLSTÓI “ANNA KARENINA”
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MARILENA CHAUÍ: “QUALQUER COISA QUE SE POSSA DIZER SOBRE A MÍDIA BRASILEIRA SERÁ OBSCENO”

O RAPTO DE PROSÉRPINA, DE GIAN LORENZO BERNINI: O GRITO DO MITO

Imagem: cafecomexpressao.blogspot.com

Por Maura Voltarelli

Houve um rapto, talvez de todos o mais célebre, lindamente retratado pelo artista do barroco italiano Gian Lorenzo Bernini em sua arte de dar forma, vida e movimento ao mármore. Diz o mito que enquanto colhia flores, a bela Perséfone, então ainda donzela, em sua fase Koré, foi raptada por Hades, o deus das sombras, senhor do reino dos mortos, no momento em que retirava da terra uma flor de narciso.

Hades, há muito apaixonado pela beleza da jovem deusa filha de Zeus e Deméter (a deusa das colheitas, da terra), então rapta Perséfone e a conduz ao fundo da terra. Os gritos de Perséfone no momento da captura só são ouvidos por Hécate, a deusa lunar, ligada aos mistérios noturnos.

Deméter, incomodada com o desaparecimento de Perséfone, é avisada por Hécate do rapto da filha e decide interceder junto a Zeus para que este convencesse Hades a devolvê-la à terra, que então já se encontrava devastada pelo frio e pela seca, castigo lançado por Deméter em razão de sua ira.

Diante da devastação da terra, Zeus decide interceder em favor de Deméter junto a Hades. No entanto, Perséfone estaria condenada a nunca mais poder habitar totalmente o mundo dos vivos, pois comera a fruta proibida das profundezas, que a ligava eternamente àquele domínio: a romã.

Perséfone poderia estar na terra apenas durante um tempo, mas depois teria que regressar ao hades, ocupando, dessa forma, os dois domínios, vida e morte, sendo um eterno trânsito e ponto de comunicação entre eles.  A primavera marca justamente a volta de Perséfone à terra, já o inverno e o outono sinalizam o seu retorno ao hades.

Nas profundezas, a antiga Koré se faz rainha, amadurecida pelo aprendizado da sombra. Hades e Perséfone seguem apaixonados, a brandura e clemência da deusa aplacando muitas vezes a ira do amado, intercedendo em favor de muitos mortais que por lá passam.

Imagem: charcofrio.blogspot.com

A escultura de Bernini conseguiu, e isso faz dela uma obra-prima, retratar o impulso de amor e morte que fez Hades raptar Perséfone. Os dedos, fincados sobre o corpo da jovem deusa, revelam a dimensão do seu amor, quase um desespero, e transparecem algo de profundamente erótico. Erotismo e desejo que atravessam as obras de Bernini, como se vê na também célebre escultura “O êxtase de Santa Teresa”.

“O Rapto de Prosérpina” nos chega como uma obra de arte que faz viver o mito, respirar os deuses no centro de um mundo dominado pela Razão e pelas entidades platônicas (Renascimento). Os deuses de repente voltam, regressam, com toda força, como se nunca antes tivessem ido, talvez porque de fato eles nunca foram. Guardam-nos à espreita, vigilantes, imortais.

 

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MOSCAS E MEL CONSTROEM UMA INCRÍVEL METÁFORA ARTÍSTICA PARA O NASCIMENTO E O DESAPARECIMENTO DO MUNDO NA OBRA DE RIVANE NEUENSCHWANDER

Por Maura Voltarelli

O experimentalismo inusitado é o que se vê nessa obra da artista plástica brasileira Rivane Neuenschwander. Comparada internacionalmente com Lygia Clark e Hélio Oiticica, Rivane utiliza materiais corriqueiros e efêmeros para compor a sua obra, onde sempre transparece uma percepção e olhar crítico peculiar sobre a realidade.

Nas bordas do surrealismo e da arte sensorial e interativa, Rivana está atenta aos detalhes, ao que passa despercebido para muitos, menos para os bons artistas. Além deste trabalho que destacamos, a artista também ficou conhecia pelo filme “Quarta-feira de cinzas/Epilogue”, que realizou com Cao Guimarães, onde formigas transportam os confetes deixados no chão depois dos quatro dias de folia do carnaval em uma espécie de epílogo melancólico, mas também de renovação.  O experimentalismo e o olhar original são marcas do filme que se deixam ver também na sua trilha sonora composta digitalmente pelo duo O Grivo.

Abaixo, deixamos um mapa mundi feito e desfeito pela efervescência das moscas em uma metáfora que revisita o passado e já se lança sobre o por vir, deixando no final apenas um branco nada juntamente com a sensação de que o mundo como o conhecemos, depois de fartas as moscas, pode um dia não existir mais. Seguem também algumas cenas do filme que citamos mostrando o trabalho das formigas sobre o que restou de todo delírio e descanso do carnaval.

Cena do filme "Quarta-feira de cinzas/Epilogue"

Cena do filme “Quarta-feira de cinzas/Epilogue”

Cena do filme "Quarta-feira de cinzas/Epilogue"

Cena do filme “Quarta-feira de cinzas/Epilogue”

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EXPERIÊNCIA ESTÉTICA É O QUE SINTETIZA A NOVA VERSÃO PARA O CINEMA DO CLÁSSICO DE TOLSTÓI “ANNA KARENINA”

Versão para o cinema de 2012

Cena de “Anna Karenina”, versão 2012

Por Maura Voltarelli

Na primeira cena, o que se vê é o título do filme sobre a cortina de um palco de teatro. Como se quem assiste fosse avisado de que um espetáculo teatral estivesse para começar. O teatro anuncia a sua presença e essa será constante ao longo de toda versão do diretor Joe Wright para o monumental romance de Tolstói Anna Karenina.

O diálogo com o teatro, o caráter performático dos atores e das cenas iniciais, os movimentos muitas vezes nauseantes da câmera, os giros, os detalhes, as cores, tudo faz de Anna Karenina uma incrível experiência estética, e, embora o filme tenha muitos pontos discutíveis, este é aparente pacífico.

A inovação da montagem é tanta que lembra um pouco o Lars Von Trier de Dogville, com o seu cenário em forma de maquete, objetos, cenas e atores sendo ali manipulados. A direção de arte impecável, a beleza dos figurinos, dos cenários, a inovação no trato da imagem e a exploração de todas as suas possibilidades também lembra um pouco o estilo do diretor Luis Fernando Carvalho em filmes belíssimos como Lavoura Arcaica, onde a beleza das imagens solta um suspiro extasiante.

Se na experiência estética, essa versão acerta, não parece acontecer o mesmo com a escolha dos atores para representar os personagens do romance. O principal erro ocorre com a escolha do ator Aaron Taylor-Johnson para interpretar o conde Vronsky, amante de Anna na história.

Anna e Vronsky na versão de 1997

Anna e Vronsky na versão de 1997

Nesta versão, o amante de Anna parece um tipo “almofadinha”, afetado, que age simplesmente por capricho. Sua paixão por Anna, que no romance aparece de forma bem mais intensa, no filme é quase nula, não chega a atingir quem assiste. Da mesma forma, o conde Vronsky que aparece no filme não parece ser o tipo de homem por quem Anna se apaixonaria, deixando para trás o marido e o filho em pleno século XIX.

Em relação à escolha de Keira Knightley para interpretar Anna Karenina, a atriz pode não ser a melhor imagem da heroína mais conhecida do escritor russo, mas está lindíssima na versão. A beleza é tão expressiva que deixou faltar um pouco uma das principais características da personagem: sua melancolia grave e doce, que se alterna com seu espírito alegre, naturalmente livre. Keira deixa transparecer a alegria de Anna, mas não deixa vir à tona seu tom melancólico. Este surge apenas no fim, de forma apressada, sem naturalidade, abortando assim a possibilidade do espectador realmente se emocionar com os momentos finais que, no livro, são dosados pelo desespero trágico e também pela conversa com a loucura.

Já o marido de Anna, bem interpretado por Jude Law, está bonzinho demais. Quem leu o livro praticamente não o reconhece. Alexei Karenin, apaixonado por Anna até o fim, e magoado justamente por esse amor constante e ao mesmo tempo fonte de sua vergonha e desmoralização pública, faz de tudo para tornar as coisas ainda mais difíceis para Anna, pois talvez essa seja a forma de tornar as coisas um pouco mais fáceis para ele. A negação do divórcio e a proibição de que Anna continuasse a ver o filho são golpes de Karenin que atingem em cheio a lucidez de Anna. No filme, isso não fica tão claro. Karenin aparece como generoso e Anna como caprichosa.

Os coadjuvantes estão ótimos. Stiva provoca risos na plateia e ganha tons performáticos que evocam de fato o personagem do livro. Já sua esposa, Dolly, aparece tão doce quanto no romance. A personagem vive um momento bastante feliz no filme quando conversa com Anna naturalmente em um local público, enquanto todas as outras pessoas riem, cochicham e falam dela pelas costas. A interpretação da atriz nesta cena é tão natural e destoante do que então se via que atinge o espectador naquele que é um dos pontos essenciais do romance: a denúncia da hipocrisia da sociedade burguesa da época.

Greta Garbo, a primeira a viver no cinema a heroína de Tolstói

Greta Garbo, a primeira a viver no cinema a heroína de Tolstói

Anna sofre no livro, e isso de certa forma se deixa ver nessa versão, todo tipo de preconceito da sociedade de sua época por ser a mulher que traiu o marido, um influente político russo, e deixou seu mundo para viver uma paixão arrebatadora com um oficial do exército. Sofre as consequências por ter quebrado as regras, por ter se apaixonado.

Este é o núcleo central da história, que sempre ganha destaque em todas as versões do livro para o cinema. Paralelamente a ele, no entanto, há uma outra célula do romance que aborda a vida no campo, as questões da agricultura russa da época, do trabalho escravo, das relações de propriedade e, principalmente, discute o ideal do que seria uma vida feliz.

A resposta para essa pergunta acontece no livro no mesmo momento em que se desenrola o desfecho da história de amor e transgressão de Anna. O grande lance de Tolstói é cruzar os significados de uma coisa e outra de modo que a tragédia que é encenada em um palco, seja respondida em outro. Se Anna paga um preço alto por tentar ser livre em um contexto onde para a mulher não era reservado muita coisa, a resposta dada por Tolstói às aflições humanas, sejam elas de homens ou mulheres, invadidas pelo dilema do moral e do amoral, do certo e do errado, da liberdade ou da convenção, é de que a felicidade estaria nas coisas simples, no lugar originário.

Keira como Anna Karenina

Keira como Anna Karenina

Para os que dizem que a história do adultério de Anna Karenina já está ultrapassada em uma sociedade “livre” como a do século XXI, eu diria que a história nem de longe está ultrapassada. Não só por que o drama de Anna vai muito além de uma simples traição, mas envolve diversos outros aspectos que até hoje rondam o universo feminino, como também porque o que está em questão na obra de Tolstói é o preconceito burguês contra qualquer ato que simplesmente fuja da norma, e esse preconceito está atualmente mais presente do que nunca. Basta olhar os bons (e poucos) jornais.

Por isso, Anna Karenina continua tão atual. Por isso o romance já teve cinco, contando esta última, montagens para o cinema. E, em cada uma, novas Annas nos emocionam, nos revelam um traço de coragem que persiste até o fim, e denunciam a hipocrisia que sempre germina neste nosso oceano, às vezes sombrio e sempre misterioso, do social.

Edição com tradução direta do russo

Edição da Cosac Naify com tradução direta do russo

Filmar uma grande obra literária, vale dizer, nunca é fácil, e comparações entre livro e filme sempre acabam um tanto injustas pois os suportes são diferentes. O filme nem sempre dá conta da densidade literária do livro, histórias surgem apressadas e, muitas vezes, não há aquele tempo que as páginas fornecem para desenvolver o personagem e entregá-lo em toda sua complexidade nas mãos do leitor.

Esta versão de Anna Karenina não emociona tanto quanto a leitura do romance, no entanto, traz algo que Tolstói, dispondo apenas do papel e da tinta, jamais poderia realizar: a exploração do universo fascinante da imagem, o transporte para o mundo do teatro, a magia de tons, músicas, movimentos e sensações combinados para recontar uma bela história.

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A PRINCESA TRISTE E O PRÍNCIPE PALHAÇO
 

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Por Maura Voltarelli

Pablo Picasso, Les saltimbanques, 1905

Pablo Picasso, Les saltimbanques, 1905

Elegias de Duíno, Rainer Maria Rilke

Quinta elegia

Mas quem são eles, dizei-me, os saltimbancos, um pouco
mais efêmeros que nós mesmos, desde a infância
por alguém torcidos – por amor
de que vontade jamais saciada? Entretanto ela os torce,
curva-os, entretece-os, vibra-os,
atira-os e os toma de volta! Do ar untado
e mais liso, eles resvalam
sobre o tapete gasto (adelgaçado
pelo eterno salto), esse tapete
perdido no universo.
Emplastro aderido lá, onde o céu
do subúrbio feriu a terra.
_______________E apenas lá,
ereto, mostra a grande maiúscula
inicial da Derelicção…e já o renitente
agarrar torna a rolar os homens mais fortes,
por jogo, como outrora Augusto o Forte, à mesa,
brincando com pratos de zinco.

Ah! e em torno desse centro,
a rosa do contemplar:
floresce e desfolha. Em torno do
triturador, o pistilo atingido por seu próprio
pólen florescente, novamente fecundado – fruto
aparente do desgosto, inconsciente de si mesmo –
com a fina superfície a brilhar
num sorriso leve, simulado.
Lá, o murcho, o enrugado atleta,
o velho que apenas rufla o tambor,
encolhido na pele poderosa como se outrora tivesse contido
dois homens e um já sobrevive ainda,
surdo e um pouco perturbado,
às vezes, na pele viúva.  […] (p. 27 e 28)

Nesta parte inicial da elegia, o sentimento predominante é o de frustração e inautenticidade. Os saltimbancos melancólicos não seriam movidos pelo Anjo, alheio à dor humana, e estariam “presos à imanência de um mundo incompreensível” (DA SILVA, s/d, p. 77). A existência do grupo seria um indigente “estar lá”, fazendo referência ao Dasein (o ser aí), comparação que vem do fato de as figuras no quadro estarem dispostas de modo a formar um D maiúsculo. Diante dos saltimbancos, que simplesmente estão lá, as pessoas passam indiferentes, o que talvez seja um motivo do desalento do poeta em relação à “arte pela arte”, o jogo intranscendente incapaz de iluminar a vida.

[…] Anjo: talvez haja uma praça que desconhecemos, onde,
sobre um tapete indizível, os amantes, incapazes aqui,
pudessem mostrar suas ousadas, altivas figuras
do ímpeto amoroso, suas torres de alegria, suas trêmulas
escadas que há muito se tocam onde nunca houve apoio:
e poderiam diante dos espectadores em círculo,
incontáveis mortos silenciosos. E estes arrojariam
suas últimas, sempre poupadas,
sempre ocultas, desconhecidas moedas de felicidade
para sempre válidas, diante do par
verdadeiramente sorridente, sobre o tapete
apaziguado. (p. 31)

Sob a perspectiva do Anjo, no entanto, que aparece nessa última parte do poema, o homem estaria liberto do jogo estéril da arte intranscendente, salvo da morte anônima, da vida inautêntica, realizando em uma praça milagres de harmonia em uma simbiose de amor e morte, onde ele aprenderia a sorrir verdadeiramente.

RILKE, R.M. Elegias de Duíno. Trad: Dora Ferreira da Silva. 4ºed. Rio de Janeiro: Ed. Globo, s/d

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Baco e Ariadne

Baco e Ariadne

PÃO E VINHO
Friedrich Hölderlin

Mas amigo! Viemos demasiado tarde.
Na verdade vivem os deuses
mas sobre nossa cabeça, acima em outro mundo
trabalham eternamente e parecem preocupar-se pouco
se vivemos. Tanto se cuidam os celestes de não ferir-nos.
Pois nunca poderia contê-los um débil navio,
somente às vezes suporta o homem a plenitude divina.
A vida é um sonho dos deuses.
Mas o erro nos ajuda como um adormecimento.
E nos fazem fortes a necessidade e a noite.
Até os herois crescidos em uma cunha de bronze,
como em outro tempo seus corações são parecidos em força
aos celestes.
Eles vivem entre trovões.
Me parece às vezes melhor dormir, que estar sem companheiro.
A esperar assim, o que fazer ou dizer eu não sei.
E para que poetas em tempos de carência?
Mas, são, dizes tu, como os sacerdotes sagrados do Deus do
vinho,
que erravam de terra em terra, na noite sagrada.

(Tradução do espanhol: Maura Voltarelli)

Este poema pode ser encontrado em espanhol no ensaio “Hölderlin e la esencia de la poesia”, de Martin Heidegger, traduzido do alemão por Samuel Ramos e presente no livro Arte y poesia, 2ª ed. México: FCE, 1973

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A fotografia não existe mais para lembrar, mas para esquecer

A fotografia não existe mais para lembrar, mas para esquecer

Mallarmé, o mais lógico dos estetas do século XIX, disse que tudo no mundo existe para terminar num livro. Hoje, tudo existe para terminar numa foto.”
(Susan Sontag. “Sobre fotografia”)

Da Carta Capital

Clicar, em vez de viver, tornou-se norma
Por Marsílea Gombata

Em meio ao burburinho da sala onde fica o quadro Mona Lisa, no Museu do Louvre, em Paris, o fotógrafo Fabio Seixo percebeu algo não exatamente errado, mas exagerado. Os visitantes se espremiam para disparar os flashs da máquina e ter a foto de uma das imagens mais intrigantes e conhecidas do mundo. A guerra para fotografar a musa enigmática imortalizada por Leonardo da Vinci revelava, ali, algo maior: a necessidade de se vivenciar, por meio da foto, a experiência do presente.

“É uma imagem tão icônica quanto aquela de Che Guevara (feita por Alberto Korda em 1960). Pensei: ‘Nossa, que loucura. Será que as pessoas não conhecem a Mona Lisa?’ Então tive um estalo e vi que elas, na verdade, viajam muito mais para marcar território e dizer que estiveram lá do que para curtir a viagem”, reflete.

A experiência em 2005 fez germinar uma semente batizada de Photoland. O projeto, que tem pretensão de virar livro depois de ter ganho exposições no Rio de Janeiro e espaço no festival Paraty em Foco, busca refletir de que modo o ato de fotografar se tornou mais importante do que a vivência e como, em uma espécie de compulsão, ganha fôlego no fértil terreno da tecnologia digital. “Quando você está na Torre Eiffel, se fotografa ali e posta essa imagem, está afirmando sua presença nesse lugar, dizendo que esteve lá”, fala o autor sobre o que considera uma experiência narcisista. “A câmera é um anteparo entre você e as coisas. Então, quando se fotografa, deixa-se de viver o presente para vivenciar a experiência de estar fotografando.”

Foi a possibilidade de mergulhar no universo da escrita com luz que lhe permitiu a reflexão sobre essa dinâmica. O fotógrafo nascido no Rio de Janeiro tem contato com o ofício desde a infância, quando frequentava a redação da extinta Iris Foto, revista histórica com auge nos anos 1970 e 1980, cuja editora era da família de sua tia. Ao concluir a faculdade de jornalismo, não teve dúvida sobre qual caminho seguir e foi trabalhar como fotógrafo de jornal diário. A experiência durou cinco anos. Em 2004, tornou-se autônomo.

Ao refletir sobre a experiência do mundo da fotografia digital atrelada ao narcisismo, existe a intenção de transformar o ato de fotografar em paisagem. A fotografia passa a fazer o papel da natureza, instaurando-se como realidade física. Seixo observa que a intenção de debater os fotógrafos amadores em ação como se fossem paisagem vem da própria imagem autobiográfica. Até que ponto o autor da foto faz parte da cena? “Nesse ato, acabamos perdendo a paisagem. É como se ela não tivesse importância e nós nos tornássemos a própria.”

Na fotografia da fotografia, os cartões-postais não são a Torre Eiffel, o Coliseu, o Empire State Building ou o Buckingham Palace. São, no lugar, quem ali esteve na busca por um arquivo fotográfico cada vez mais amplo. Os traços sobre a necessidade de ser visto são propositais na obra. “O projeto esbarra na questão da visibilidade. Não basta ser um bom médico, um bom professor ou um bom jornalista se você não estiver referendado pelos dispositivos de visibilidade, como mídia e redes sociais”, analisa. “Isso, paradoxalmente, denota o quanto estamos nos tornando uma fotografia de nós mesmos. Não sabemos mais quando estamos posando ou sendo natural. É como se estivéssemos o tempo todo representando um personagem”. (Texto completo)

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