Educação Política

mídia, economia e cultura – por Glauco Cortez

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Vídeo: apresentadores e produtores mostram o desmanche da TV Cultura | CartaCampinas

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Música, cor e abstração se unem na arte expressionista de Nale Simionatto

Paisagens abstratas e uma sutileza no jogo de cores fazem parte das pinturas da artista Nale Simionatto, que esse mês ilustra o site Carta Campinas no projeto Carta Campinas Visuais.Natural de Novo Horizonte, no interior do estado de São Paulo, Nale cresceu (Continue lendo…)

Relatos Selvagens, filme argentino, é com certeza um dos melhores do ano

O Cine Topázio, que deve fechar as portas no Shopping Prado, em Campinas, está exibindo provavelmente o melhor filme do ano. O longa argentino Relatos Selvagens, de Damián Szifron, expõe o ser humana More…

Nuno Ramos impagável: suspeito que estamos f…

Veja abaixo alguns dos melhores momentos do inclassificável texto de Nuno Ramos, Suspeito que estamos….
Suspeito, por exemplo, que quase todas as praias em cidades (Continue lendo…)

IMAGINE, DE JOHN LENNON, NA ARTE DE PABLO STANLEY

DA SÉRIE OBRA-PRIMA: KATE BUSH, SUA INSUPERÁVEL WUTHERING HEIGHTS E ALGUMAS INTERPRETAÇÕES

PARA AQUELES QUE (NÃO) ENTENDERAM ULISSES

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Por Maura Voltarelli
Especial para o Educação Política

Ulisses, de James Joyce, é um dos romances mais importantes da literatura moderna. Talvez por isso também seja um dos mais difíceis. A jornada de Leopold Bloom pelas ruas de Dublin que começa de manhã, quando ele está saindo para o trabalho, e termina à meia noite do mesmo dia 16 de junho de 1904, surge diante dos leitores como uma epopeia complexa, onde os fluxos de consciência, as mudanças de espaço e tempo, as experimentações com a linguagem, atuam em conjunto para reforçar a densidade da narrativa.

No entanto, o clássico de James Joyce segue fascinante e instigante por diversos motivos. Mesmo complexo, o romance atrai os leitores pela ousadia de compor uma “odisseia moderna”, onde os capítulos fazem referência aos cantos do clássico texto atribuído a Homero, e também pela beleza das cenas narradas, pela estética totalmente original da obra, e pelo belíssimo último capítulo onde o monólogo de Molly Bloom, a nova Penélope, ganha forma em níveis altíssimos de expressividade do feminino e do humano em suas angústias e esperas.

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Por tudo isso, e para aqueles que compreendem e não compreendem o Ulisses, de Joyce, mas, principalmente, para continuar colocando essa obra literária em movimento, o norte-americano Robert Berry adaptou, com a ajuda de Josh Levitas, para a graphic novel Seen a obra joyceana. Seen foi desenvolvida para ser uma plataforma exclusivamente on-line. O objetivo do criador da versão em quadrinhos do romance é fazer com que ela acompanhe a leitura da obra, servindo de guia, de facilitador ou simplesmente de complemento.

Dessa forma, para os que leram o romance, para os que não leram, ou para aqueles que abandonaram a leitura, a versão em quadrinhos surge sempre como uma alternativa que não substitui a obra, mas que a recria em diferentes suportes sempre bem vindos.

Até agora quatro capítulos foram lançados na internet. O trabalho deve estar completo até 2022, totalizando 2300 páginas de quadrinhos. Depois de tantos desenhos, o mistério de Ulisses ainda deve persistir, no entanto, ele ao menos estará contaminado de uma boa dose de humor e novos símbolos, de modo que teremos um Bloom ainda mais múltiplo e uma Molly ainda mais fascinante!

Confira nesta link os capítulos já publicados:

http://jamesjoyce.ie/category/ulysses-seen-graphic-novel/

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AS NOITES BRANCAS DE DOSTOIÉVSKI NO MUSEU LASAR SEGALL

Imagem: Divulgação

Lasar Segall (1891-1957). Dostoiévski, c. 1927. Xilogravura sobre papel. Coleção Museu Lasar Segall/Ibram/Minc

Por Maura Voltarelli
Especial para o Educação Política

As palavras escritas muitas vezes precisam se completar em imagens. Talvez por um movimento natural de ganharam plasticidade, vida, uma certa materialidade para além do infinito da imaginação.

Grandes escritores, com densos romances, repletos de personagens ambíguos e fascinantes, são capazes de gerar representações únicas. É o caso do escritor russo Dostoiévski que teve algumas de suas histórias ilustradas por grandes nomes do expressionismo alemão e também por artistas brasileiros como Oswaldo Goeldi e Lasar Segall.

Uma exposição chamada “Noites Brancas: Dostoiévski ilustrado”, com curadoria do professor de Teoria Literária e Literatura Comparada da USP, Samuel Titan, ficou em cartaz no Museu Lasar Segall, em São Paulo, com o objetivo de aproximar do público diversas gravuras e desenhos feitos a partir da obra do autor de Crime e Castigo e Os Irmãos Karamazov.

Foram reunidas 44 obras de 22 artistas que não se centram apenas nos romances mais conhecidos de Dostoiévski. Lasar Segall e Otto Möller, por exemplo, retratam em seus desenhos a novela Uma criatura dócil, de 1876.

Em todos os desenhos, apesar das especificidades de cada um, o curador lembra ser constante a presença do preto e do branco, por isso o nome para a exposição, “noites brancas”. Ao mesmo tempo, noites brancas parece ser uma inteligente metáfora para a obra do escritor russo, que mergulha nas trevas da sociedade e do homem, da espiritualidade e do amor, para depois trazê-las à tona.

As figuras são noturnas, dão a impressão de conduzir para regiões de sombra, não muito distantes das recordações, dos crimes, do subsolo, das criaturas sem nome que Dostoiévski coloca diante de nós e que agora podemos ver em novas representações de artistas que viram em sua literatura diversos motivos para continuar recriando-a.

Xilogravura de Oswaldo Goeldi

Xilogravura de Oswaldo Goeldi

Oswaldo Goeldi também reforça o tom noturno da exposição com gravuras das quatro edições ilustradas – O idiota, Recordações das casas dos mortos (1862), Humilhados e ofendidos (1861) e Memórias de um subsolo – que o artista fez em 1944 para a editora José Olympio, no Rio de Janeiro.

Entre artistas alemães e brasileiros, as gravuras parecem nos revelar outros detalhes, elementos e tons do escritor russo de interpretações inesgotáveis.Uma forma de lê-lo além das páginas da literatura e da crítica.

O ciclo Dostoiévski e o cinema, que conta com a exibição dos longas Os irmãos Karamazov (1958), de Richard Brooks, Crimes e pecados (1989), de Woody Allen, Partner (1968), de Bernardo Bertolucci, Nina (2004), de Heitor Dhalia, entre outros, continua aberto ao público até 25/08.

Serviço:

Dostoiévski e o cinema
Onde:
Museu Lasar Segall – Rua Berta, 111 – São Paulo (SP)
Quando: 03/08 a 25/08, sábados e domingos, às 14h
Quanto: gratuito
Info.: (11) 2159.0400 ou http://www.museusegall.org.br/


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"O detetive selvagem"

“O detetive selvagem”

Por Maura Voltarelli

Especial para o Educação Política

Há dez anos morria o escritor chileno Roberto Bolaño. Se hoje, Bolaño é um dos escritores latino-americanos mais importantes, mais estudados e comentados, não era assim na ocasião de sua morte e durante a sua vida. Como gostava de dizer a respeito da natureza do trabalho do escritor, Bolaño encarnou como ninguém a figura do escritor exilado, ao qual se impõe de alguma forma o exílio. Este sempre existiria quando se é escritor, segundo ele, mesmo sem sair de casa. Seriam os escritores sempre “exilados de si mesmos”.

Mesmo sendo cada vez mais estudado e lembrado, as imprecisões sobre a obra do chileno ainda persistem. “O suposto vício em heroína, o relevo indevido aos Estados Unidos como suposta instância fundamental para sua consagração literária, a incompreensão do caráter intrinsecamente inconcluso (infinito) de sua obra”.

Bolaño parece permanecer, e talvez fosse esse mesmo o propósito de sua literatura, cercado por sombras. Sombras que são inerentes à literatura, sempre a recriar e prolongar fantasmas em nossa imaginação que se projetam sobre a realidade. No caso de Bolaño, a sombra é reforçada pela metáfora do detetive, tão utilizada para falar do escritor.

Tão utilizada e tão pertinente. Bolaño encarna de fato a figura de um detetive que vasculha os crimes cometidos na América Latina e faz reverberar esses crimes numa escala mundial e cada vez mais ampla, enfrentando todos os fantasmas, sejam eles íntimos ou sociais. Sua literatura é uma denúncia dos horrores, mortes e perdas da ditadura, e é sempre uma esperança, embora seja essa esperança, como diz um belo título de um de seus livros, uma “estrela distante”.

Abaixo, um documentário sobre Bolaño, onde ele é comparado, pela vida e pelo tom de sua obra, aos escritores malditos.

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"O Impossível"

“O Impossível”

Por Maura Voltarelli
Especial para o Educação Política

O Impossível. Duas criaturas estranhas, um homem, uma mulher, desenho de seios, costas, pernas, formas distorcidas, quase derretidas. Uma atração e, ao mesmo tempo, uma repulsa mútua. As garras lançadas anunciam a tragédia do contato. Mergulha-se na violência da impossibilidade de qualquer relação carnal, pois anuncia-se a iminência do perigo.

Formas ousadas, sensuais, ancestrais. Assim é a arte da escultora brasileira Maria Martins. Com prestígio no cenário artístico nacional foi no exterior, entretanto, que sua arte mais se destacou, sendo logo “adotada” por um movimento que se reconheceu nas suas formas livres: o surrealismo.

De volta ao cenário nacional, Maria, que também foi escritora, desenhista, pintora e musicista, ganha uma mostra no MAM (Museu de Arte Moderna de São Paulo) do dia 12 de julho  a 15 de setembro de 2013. Sob curadoria da escritora e pesquisadora Veronica Stigger, que possui estudos sobre a obra de Maria Martins, a mostra do MAM é uma das maiores já realizadas sobre a artista. “São mais de 30 esculturas, a maioria em bronze, distribuídas em cinco núcleos – Trópicos, Lianas, Deusas e Monstros, Cantos e Esqueletos -, que são determinados mais pela comunicação formal do que propriamente por uma ordem cronológica. A exposição reúne também livros, artigos, obras bidimensionais em papel e cerâmicas de parede”.

A mostra, cujo nome é “Metamorfoses”, procura mostrar justamente o que muda no decorrer do trabalho da artista. A grande mudança, de um núcleo a outro, vai sendo a representação dos corpos. De nítidos e separados de outros elementos, como a natureza, eles vão, cada vez mais, confundindo-se com eles, borrando-se dentro e fora de si, até que, na utopia da forma final, resta apenas o esqueleto. Na série “Cantos”, há uma referência  aos cantos de Zaratustra, de Nietzsche.

São metamorfoses que, de certa forma, também foram acompanhando a vida da artista. Filha de família tradicional, Maria Martins casou-se, pela segunda vez, com o embaixador Carlos Martins, com quem mantinha um relacionamento aberto. Vivia sob certa dualidade. De um lado, o tédio dos papéis sociais da mulher do embaixador, de outro, desejos insaciáveis, uma vontade de vida e liberdade apenas confessada em suas obras, e que transparecia em alguns episódios como o romance com Marcel Duchamp, marcado por uma impossibilidade de contato retratada na escultura “O Impossível”, e também em obras do próprio Duchamp.

Maria Martins

Maria Martins

Maria Martins teria feito coisas impensáveis para uma mulher de sua época. Corpórea, inteligente, livre, a forte personalidade da mulher parece ter se refletido na obra. Por isso os traços tão fortes, a ferocidade do domínio da forma que interroga o próprio domínio, o caráter selvagem inerente ao primitivo. Suas esculturas gritam enquanto mudam. E fazem gritar algo em nós. Algo antigo.

Definida, por ela mesma, como “o meio-dia pleno da noite tropical”, sua obra mergulha no tropicalismo sendo, ao mesmo tempo, de dentro da noite o ponto máximo de luz. Os trópicos têm, neste sentido, um papel decisivo, também conferem o calor, a vivacidade, a energia de suas formas e personagens.

Uma artista ainda por se descobrir e uma artista a ser redescoberta, cuja arte, de tão inovadora, não se enquadra em nenhum movimento artístico. A mostra do MAM pretende quebrar o silêncio recente em torno da artista, atuando em favor dessa redescoberta mais do que necessária. Silêncio que Veronica atribui a um certo preconceito.

“É uma reação à maneira como ela expõe aquilo que, na mulher, a sociedade gostaria que permanecesse escondido, como o desejo, ou a vulva”, diz a curadora. “Não se perdoa uma mulher por ser inteligente demais, corpórea demais, livre demais –ainda mais tudo ao mesmo tempo.”

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Imagem: DivulgaçãoPor Maura Voltarelli

Especial para o Educação Política

Em tempos de protestos pelas ruas do país, de insatisfações generalizadas e muitas vezes não tão distinguíveis entre si, certas personalidades revolucionárias de nossa cultura ocidental merecem ser lembradas, ou ao menos deveriam ser, por tudo que representam de clareza, força e vocação pela luta em prol de uma maioria quase sempre excluída socialmente, politicamente e culturalmente.

O filme “Rosa Luxemburgo” (Die Geduld der Rosa Luxemburg) da diretora alemã Margarethe von Trotta, que possui no seu currículo a filmografia de outras mulheres singulares da cultura alemã, como Hildegard von Bingen e Hannah Arendt, conta um pouco da história desta revolucionária de origem polonesa a partir, principalmente, das cartas de Rosa, algumas delas reunidas no volume “Rosa Luxemburgo: cartas. Vol. 3”, da Editora Unesp.

Conhecida por sua militância política de esquerda, pelo questionamento que realizou da própria teoria marxista, pelos discursos fortes e contundentes, e pela luta em prol daquilo que chamou de “social democracia” em favor de um governo que fosse realmente do proletariado, Rosa era muito mais do que a “rosa vermelha”, temida por muitos, entendida por poucos.

Complexa na sua vida política e pessoal, Rosa nunca deixava de questionar os sentidos da sua própria atividade, batendo muitas vezes de frente com os líderes do seu movimento, nunca aceitando a violência pela violência, o protesto pelo protesto. O sentido da causa deveria ser claro e esse sentido era eternamente o sentido da liberdade.

Seguindo esse impulso na direção da liberdade, Rosa foi contra a participação da Alemanha na 1º Guerra Mundial, rompendo com o Partido Social Democrata que, em certo momento, passa a apoiar o militarismo. Funda então com alguns amigos a “Liga Espartaquista”, um nome que, inspirado no grande líder da revolta dos escravos, já anuncia a questão central da liberdade e da luta contra o autoritarismo no qual vinha se convertendo parte da experiência socialista da época.

Imagem: Divulgação

Além de todas essas questões políticas, inspirado nas suas cartas de tom fortemente pessoal, o filme busca mostrar uma Rosa mais íntima entre um discurso e outro, uma Rosa onde, do começo ao fim, transborda justamente o sentimento de liberdade e o espírito revolucionário: confiante e alegre.

Rosa era a menina que, quando criança, queria ver o instante em que o botão de rosa iria desabrochar, não queria perder o tempo do milagre. A menina que ensinava a empregada de sua casa a ler e a escrever, pois estas eram (ou deveriam ser) as coisas mais importantes na vida de alguém.

Quando mulher, Rosa era a moça apaixonada, sempre forte, de irretocável caráter, dividida entre a causa e a vida pessoal (de mãe, esposa), entre a cidade em convulsão e o campo calmo e constante. A mulher que, de prisão em prisão, mesmo sendo privada constantemente de sua liberdade, nunca desanimou da promessa de uma vida mais libertária, protegida de todo e qualquer autoritarismo.

Morta de forma covarde, por militares da extrema direita alemã, precursores daquela que viria a ser futuramente a experiência nazista, Rosa, de certa forma, sobreviveu. Pois não há como falar em liberdade, luta contra qualquer tipo de opressão, e em mais “sentido de coletividade” nos dias de hoje, sem lembrar daquela que nos mostrou, de inúmeras formas, como essa luta é difícil, mas como também vale a pena cultivá-la a cada dia, ainda que seja pelos subterrâneos, transformando cada instante em um espaço de construção, afinal, como ela diz em uma de suas cartas, devemos viver a beleza de cada dia, pois este dia jamais voltará.

Abaixo, o filme completo:

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Iluminura: as visões de Hildegard

Iluminura: as visões de Hildegard

Por Maura Voltarelli

A Idade Média, período que teve início por volta do século V e se estendeu até meados do século XV, não foi, como já se sabe, apenas um período de trevas e obscuridade para o conhecimento humano. Pelo contrário, a Idade Média foi um período decisivo para o conhecimento humano, de amadurecimento da vasta cultura grega que o precedeu e de preparação de um dos maiores movimentos artísticos da história do homem: o renascimento.

Impregnada por um extenso controle religioso da vida, dos hábitos, da moral, a Idade Média guarda histórias incríveis que não cessam de ser descobertas. Não se sabe muita coisa sobre elas e isso aumenta ainda mais o mistério das histórias medievais. Mistério que é também potencializado pelo misticismo do período, pelo cenário das catedrais silenciosas, dos cantos religiosos, dos cultos pagãos que resistiam. Para a mística, a Idade Média é um lugar farto, pois nenhum período esteve tão próximos dos gregos e, ao mesmo tempo, tão distante deles.

O interdito, o proibido, a ideia do pecado e, não obstante, o desejo de liberdade, de conhecimento que continuava a sussurrar nas fendas das catedrais, fez com que histórias como a de Abelardo e Heloísa, por exemplo, fascinassem gerações.

Assim como a imagem de Heloísa, filósofa e escritora, mulher com vocação para a liberdade que foi vítima das inúmeras repressões do período, uma outra mulher, da qual se sabe menos ainda, fascina pelo talento da inteligência, da perspicácia, da vontade de independência da mulher em uma época onde as correntes eram tão apertadas.

Hildegard von Bingen teria nascido em 1098 e foi uma escritora, compositora, abadessa beneditina, visionária e profundamente ligada às vertentes místicas do cristianismo. Conhecida por suas visões, algumas resultantes de fortes dores de cabeça, Hildegard teria escrito além de textos de botânica e medicina, cartas, sons litúrgicos e poemas que eram transformados em belíssimas iluminuras, produção artística de grande importância no contexto da arte medieval. Muitas iluminuras mostram Hildegard recebendo alguma visão e ditando-a a um escriba.

Sua atividade junto às outras mulheres da época também foi bastante expressiva, tendo ela, inclusive, fundado um monastério do qual só as mulheres faziam parte. A vida monástica de Hildegard é cheia de sombras, zonas misteriosas e indeterminadas, como muito do que se conta sobre o período medieval. Mas, justamente por isso, é tão fascinante, fascínio que só aumenta diante do fato de poucos conhecerem a sua história ou sequer já terem ouvido falar dela.

Nestes vídeos segue um pouco da música mística de Hildegard:

Há também um filme, dirigido pela Margarethe Von Trotta, sobre Hildegard. Segue o trailler:

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A COPA DO MUNDO, DA DITADURA À DEMOCRACIA: 43 ANOS COM AS MESMAS FIGURAS NA LINHA DO TEMPO

Linha do Tempo

Por Luís Fernando Praguinha
Especial para o Educação Política

Rodrigo Lobo1970 – Brasil campeão do mundo no México com possivelmente a melhor seleção de futebol de todos os tempos. Eu dava meus primeiros chutes e já trazia no sangue, ainda intrauterino, a aptidão pra perna de pau que me acompanharia a vida toda.

Tínhamos como lemas, “Pra frente Brasil” e “Brasil, ame-o ou deixe-o”

Tínhamos também Pelé, Tostão, Rivelino, Gerson e outros cabeças de bagre.

Só pra lembrar, faz 43 anos… vou lembrar mais uma vez, faz 43 anos.

João Havelange era o presidente da CBF, Zagalo era o técnico da amarelinha, porque o bobo do João Saldanha não queria que generais escalassem seu time, Carlos Alberto Parreira era o preparador físico, José Maria Marin era nosso excelentíssimo deputado estadual, José Sarney era senador da república, então uma ditadura militar presidida pelo generoso general Médici, mas alguns subversivos afirmam que ele mandava torturar as pessoas. Eu não vi nada disso. O estudante Eike Batista faria 14 anos em 1970, que belo rapazola, mas não era coleguinha de um outro estudante comunista chamado Aldo Rebelo que tinha a mesma idade. Dilma Rousseff e meu avô, um jornalista subversivo, estavam na cadeia onde recebiam muitos presentes.

Falando em jornalista subversivo, em 1975, Vladmir Herzog foi encontrado suicidado na sede do DOI-CODI, mas isso não tem nada a ver com os militares nem com o Marin.

Antes, em 74, tivemos o carrossel holandês que a Alemanha brecou e nosso glorioso Havelange foi eleito presidente da FIFA, quanta honra!

Em 78 a Argentina, na Argentina, que também gostava das mesmas coisas que o Brasil, na época, ganhou uma copa que foi mesmo do Peru.

Em 82 vi jogar a melhor seleção que vi jogar, era um tempo em que ficávamos tristes quando a seleção perdia. Tinha também outro subversivo que se chamava Sócrates, e acho que foi por isso que perdemos.

Em 83 algumas pessoas quiseram eleições diretas, veja que desplante, mas não deu certo e em 85 o senador Sarney (incrível que ele ainda era senador, não?) virou presidente, o único civil durante o estado de exceção.

Em 86 perdemos outra copa e tive pena do Telê.
Em 89 o Ricardo Teixeira Genro do Havelange foi eleito presidente da CBF, elegemos também, finalmente, por meio do voto popular, um legítimo representante do povo, o Collor e logo mais, em 90, fizemos feio de novo com o Lazaroni.

Em 1992 as pessoas pararam de gostar do Collor e enxotamos ele de lá de uma vez por todas, mais ou menos.

Em 94, o Parreira virou técnico e o Zagalo assistente técnico e provamos que é possível ser campeão jogando feio e mal, mas com o Romário. Também elegemos Fernando Henrique Cardoso presidente, com uma história de militância esquerdista, mais ou menos, vejam vocês.

Em 98 o Ronaldo teve problemas e o subversivo Lula também, então elegemos o FHC novamente, com uma história de militância de extremo centro e o Havelange foi eleito presidente de honra da FIFA, quanta honra, e Joseph Blatter assumiu a presidência da entidade, preservando o mesmo jeitinho Havelange presidir.

Em 2002 os problemas do Ronaldo já tinham passado, graças ao Rivaldo, São Marcos e toda a família Felipão, aí ganhamos o penta, que honra. Nesta época Havelange e Ricardo Teixeira com muito esforço, trabalho e dedicação, já tinham conseguido engordar em muito seu patrimônio, administrando empresas sem fins lucrativos. Meu avô morreu pouco antes da final da copa. Neste ano o Lula conseguiu, graças ao meu voto, ser eleito presidente da república, desta vez sim, um legítimo representante do povo, uma mudança real, por isso, tudo mudou tanto assim.

Em 2006, interessante, acabo de notar que ano de copa é sempre ano eleitoral, coisas do destino, bem, em 2006, o Lula ganhou de novo, não graças ao meu voto, e o Brasil perdeu a copa na Alemanha com um elenco gordo de gordos salários, mas o que de pior aconteceu na copa da Alemanha foi a morte do gordo de humor, Bussunda. Também neste ano as pessoas se esqueceram de novo e o Fernando Collor voltou na figura de um voluptuoso senador.

Em 2010 perdemos na África do Sul, o Lula elegeu a Dilma, que já tinha saído da cadeia, o Romário, é, o Romário, foi eleito deputado federal para infernizar as defesas da CBF, mas o que de pior aconteceu naquela copa foi a vuvuzela e o estilo ditatorial militar do Dunga, quem diria, em plena democracia, mais ou menos.

Em 2012 Ricardo Teixeira renuncia à presidência da CBF por motivo de força maior que a transparência, e o José Maria Marin, aquele que mamava nas tetas da ditadura mas que não tem nada a ver com o assassinato de ninguém, entrou em seu lugar.

2013, quarenta e três anos depois, Jean-Marie Faustin Goedefroid Havelange, o João, renunciou à presidência de honra da FIFA sob acusação de receber propina junto com seu genro Teixeira, mas acho que eles jamais fariam isso, mas aí a própria FIFA divulgou documentos que provavam a corrupção, aí eu não digo mais nada, coitados.

Recentemente, olha que bacana, houve convocação para a seleção. Parreira e Marin lado a lado na bancada para a coletiva. O Parreira falava sobre a impossibilidade de liberar Dante e Luiz Gustavo, do Bayer de Munique, para jogarem a final da copa da Alemanha, pois o amistoso do Brasil contra a Inglaterra no Maraca… Maracu…, naquele estádio novo que eu não lembro o nome, de propriedade daquele estudante Eike Batista, era mais importante, afinal é o Brasil, ame-o ou deixe-o, Dante e Luiz Gustavo.

O Sarney continua senador, mas agora com o Collor junto. O estudante Aldo Rebelo virou ministro dos esportes da Dilma e ambos parecem compactuar com essa inércia.

Eu amo futebol, que lástima, hoje só não temos mais aqueles cabeças de bagre do terceiro parágrafo, o resto ainda temos. Eu amo o Brasil, não vou deixá-lo, fazer o que? Mas quem ama o Brasil não precisa amar a seleção da CBF, não precisa amar o Fuleco nem a caxirola, não deve amar o Parreira, quem ama o Brasil deve se decepcionar com o Aldo, com o Lula e com a Dilma, se quiser pode até ter medo deles, deve ter medo do Eike Batista, do Marin, do Havelange, do Teixeira, do Sarney, do Collor, mas aquele medo que só faz querer enfrentar sem subestimar, porque teremos que enfrentar.

Quem ama o Brasil tem nojo dessa cortina de fumaça que encobre podres tão evidentes. São 43 anos mandados pelas mesmas figuras nefastas que fazem de tudo para manter uma legião de miseráveis, ignorantes, incultos, iletrados que gostam muito de futebol.

Imagina na Copa. Pense na Eleição. Cogite a Revolução.

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Povo Novo

A MINHA DOR ESTÁ NA RUA
AINDA CRUA
EM ATO UM TANTO BEATO, MAS
CALAR A BOCA, NUNCA MAIS! (BIS)
O POVO NOVO QUER MUITO MAIS
DO QUE DESFILE PELA PAZ
MAS
QUER MUITO MAIS.
QUERO GRITAR NA
PRÓXIMA ESQUI NA
OLHA A MENI NA
O QUE GRITAR AH/OH
O QUE GRITAR AH/OH
OLHA, MENINO, QUE A DIREITA
JÁ SE AZEITA,
QUERENDO ENTRAR NA RECEITA
DE GOROROBA, NUNCA MAIS (BIS)
JÁ ME DEU AZIA, ME DEU GASTURA
ESSA POLÍTICARADURA
DURA,
QUE RAPA-DURA!
QUERO GRITAR NA…

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INICIEI UM CURSO, UMA PÓS-GRADUAÇÃO EM SÃO PAULO, NA SEMANA DOS PROTESTOS DO MOVIMENTO PASSE LIVRE

Ai, meu Curso!

Por Luís Fernando Praguinha

Imagem:http://manskaoosin.blogspot.com.brIniciei um curso, uma pós-graduação em São Paulo, semana passada.
Ter ido a São Paulo e feito este curso, especificamente no fim de semana que passou, quando se iniciaram os protestos contra o aumento da tarifa do transporte público, tornará este texto único até o momento, pois mesclará seriedade e humor. Cheguei a pensar em colocar um (H) ou um (S) no final de cada frase pra etiquetar como humor ou séria pra pessoa saber se ri ou não, mas achei que seria superestimar a burrice de vocês, então, se você não me conhece bem e ficou na dúvida, é porque foi humor, se você me conhece e ficou na dúvida, é coisa séria.

Bem, em primeiro lugar, pegar metrô em Sampa na sexta-feira de manhã é para os fortes. Já, pegar metrô em Sampa na sexta de manhã e com paralisação dos ônibus, é pra quem abriu mão de sua dignidade em prol de um bem maior (ir ao curso), ou então a pessoa tá a fim mesmo é de dar o curso.

Sim, fui encoxado de formas que um homem casado jamais poderia imaginar ser permitido por lei. Isso abriu meus horizontes, abriu mesmo!
Também gostei que vi muita gente bonita no metrô, mas todos faziam careta, tirando um jovem com uniforme do São Paulo, devido ao desconforto do encoxamento coletivo.

Saí do trem me sentindo livre como um pássaro e cheguei ao curso com cheiro forte de gente.

Encontrei pessoas interessantes e achei todos muito divertidos e agradáveis, visto que não sou homofóbico, tirando um colega que se sentou ao meu lado e ficou fazendo caras e bocas o tempo todo, mas ainda tenho fé que seja tique nervoso.

Quanto ao curso em si, foi muito enriquecedor. É sempre bom lembrar que a ignorância é tão infinita quanto o que se tem pra aprender. Aprendi bastante e espero não me esquecer de nada (muito rápido). O mestre demonstrou conhecimento e prazer em ensinar (S), além de uma seriedade sem ter fim (H). Achei os coelhinhos suuuuper fófis, mas isso não quer dizer nada.

A volta pra casa era sempre muito desgastante, apesar de o metrô já estar menos lotado e eu só receber encoxadas quando o trem desacelerava, saber que ia dormir na casa do cunhado era um pesadelo.

Na superfície, quebra-quebra e protesto de ambas as partes. Populares quebrando o patrimônio e a polícia quebrando os populares. Populares protestando contra o aumento das tarifas e a puliça protestando quando um popular escapava da borrachada.

Eu acho muito errado as pessoas protestarem assim, porque, afinal de contas, já nos roubam há tanto tempo e tão mais que essa mixaria, tipo um Maracanã ou um Itaquerão (meu time não precisava dessa mancha) e a gente nunca reclamou. Nossas excelentíssimas autoridades não merecem passar por esse tipo de choque. Pode dar a falsa impressão de que o povo tem força, coragem e alguma organização e que pode ser apenas o começo de uma ação maior que venha a colocar fim à excelentíssima mamata. E que se não nos tratarem com mais dignidade, respeito e transparência, afinal não somos muito idiotas, poderemos nos mostrar muito poderosos, porque a água já chegou no pescoço. Mas é só uma falsa impressão. Ainda assim, cuidado conosco!

No último dia foi legal, domingão, metrô vazio, mas me afligia um sentimento de vingança que só pude decifrar quando uma velhinha se ergueu pra descer na próxima estação e eu me vi me colocando bem juntinho dela, naquele vagão cheio de espaço. Sim, eu precisava encoxar alguém também pra me sentir menos lesado.

Foi o dia da aula prática e me impressionou muito o carinho que todos demonstraram com os coelhinhos, principalmente eu, que já tinha descarregado toda minha agressividade na velhinha do metrô. Também me admirou a facilidade com os números e o domínio sobre as regras de três que as garotas demonstraram.

Voltei pra minha cidade de carona com um novo colega, o Mário, sabem qual, né? Um cara meio esquisitão que me incluiu numa carona que ele filava do primo. Foi bom que teve até serviço de bordo. Sou grato.

Estou ansioso pela próxima aula, aprender, rever amigos. E, sinceramente, espero que na próxima não haja violência, que haja mais organização e que tenha mais gente enfrentando os poderosos e dizendo basta!

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A IMAGEM COMO RESISTÊNCIA: JOÃO ROBERTO RIPPER EMOCIONA

Por Maura Voltarelli

Andando pelas galerias de exposições do Memorial da América Latina, em São Paulo, depois do primeiro maravilhamento provocado pelo incrível desenho das curvas, pelo espaço aberto, pela liberdade e força das formas, meus olhos pararam diante de imagens a primeira vista desconhecidas.

Elas estavam reunidas em uma exposição que celebrava o 1º de maio, dia do trabalhador. E tinham todo propósito de estarem ali. Na singularidade do branco e preto, percorri diversos retratos de rostos, olhares, lugares, realidades.

A perfeição do retrato, a exatidão do instante fotográfico e o toque jornalístico saltava para fora das imagens. Carvoeiros, a seca, o homem, a terra, trabalhadores de todos os tipos, crianças, família, velhos, lugares, gente sozinha…

Em uma das imagens lembrei-me de olhar o nome de quem tirara aquelas fotografias: João Roberto Ripper. Só agora, pra fazer esse texto, fui ver quem era, onde tinha nascido. Nasceu no Rio de Janeiro, trabalhou como repórter fotográfico.

Mas João Roberto Ripper parece ser, antes de tudo, a sua fotografia, por isso, quando olhei os retratos, já o conhecia. Um trabalho extremamente social e que diz respeito ao homem, diz respeito à humanidade.

Mistério. As belas fotografias de Ripper são um mistério. Porque há qualquer coisa nelas de lírico e de forte, de poético e de pedra, de sombra e de luz, há uma estética perfeita e há o momento em que não se pensa na estética, onde ela simplesmente acontece sozinha. Imagem: http://imagenshumanas.photoshelter.com/gallery/Carvoeiros/G0000WvCUpV3nLkE/

Um sortilégio que captura o ato no espaço da denúncia que emociona. Talvez porque vi ali muito de nossa miséria, muito de nosso abandono. Ripper me causou uma solidão e ao mesmo tempo uma esperança. Um dos retratos de repente surpreendeu-me em lágrimas e foi a primeira fotografia (tirando as minhas que carregam todas as minhas dores e o peso da dita memória) que me deixou daquela forma, diante da imagem de um menino.

Ele trabalhava, tão triste, tão sozinho, em uma de nossas tantas minas de carvão. Seu olhar….até agora não consigo explicar e quem são as palavras? Não, elas não dão conta da vida, e era vida o que havia ali. Pura vida, de que talvez só mesmo a arte dê conta.

Imagem: revistacontemporartes.blogspot.com

Mais sobre João Roberto Ripper aqui

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IDEIA DO AMOR, IDEIA DA MORTE, POR GIORGIO AGAMBEN
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ELENA: O SONHO AMERICANO MATOU A FILHA DO COMUNISTA?

IDEIA DO AMOR, IDEIA DA MORTE, POR GIORGIO AGAMBEN

Ideia de Agamben

Ideia de Agamben

Por Maura Voltarelli

O filósofo italiano Giorgio Agamben ficou conhecido pela sua frase com forte teor polêmico, “Deus não está morto, ele virou dinheiro”. Mas Agamben já era e é, antes de tudo, o filósofo da poesia. Em seus textos, a poesia sempre é refletida a partir de um lugar elevado, sempre é posta em movimento e, mais importante, sempre acumula sentidos e horizontes de realização.

Um de seus livros, Ideia da Prosa, busca refletir precisamente sobre o que seria a poesia a partir da prosa e, mais ainda, traz diversos pequenos textos sobre diferentes ideias de temas que sempre aparecem na nossa vida. Temos no livro “Ideia da vocação”, “Ideia da Musa”, Ideia do comunismo”, Ideia do poder”, “Ideia da paz”, “Ideia da vergonha”, “Ideia da música” e tantas outras…

Deixamos aqui duas ideias fundamentais sobre as quais Agamben fala a partir de uma originalidade surpreendente e genial.

Ideia do amor

Viver na intimidade de um ser estranho, não para nos aproximarmos dele, para o dar a conhecer, mas para o manter estranho, distante, e mesmo inaparente – tão inaparente que o seu nome o possa conter inteiro. E depois, mesmo no meio do mal-estar, dia após dia não ser mais que o lugar sempre aberto, a luz inesgotável na qual esse ser único, essa coisa, permanece para sempre exposta e murada.

Ideia da morte

O anjo da morte, que em certas lendas se chama Samael, e do qual se conta que o próprio Moisés teve de o afrontar, é a linguagem. O anjo anuncia-nos a morte – e que outra coisa faz a linguagem? – mas é precisamente este anúncio que torna a morte tão difícil para nós. Desde tempos imemoriais, desde que tem história, a humanidade luta com o anjo para lhe arrancar o segredo que ele se limita a anunciar. Mas das suas mãos pueris apenas se pode arrancar aquele anúncio que, assim como assim, ele nos viera fazer. O anjo não tem culpa disso, e só quem compreende a inocência da linguagem entende também o verdadeiro sentido desse anúncio e pode, eventualmente, aprender a morrer.

AGAMBEN, Giorgio. Ideia da Prosa. Trad. João Barrento. Lisboa: Cotovia, 1999

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BANDA DOS HOMENS DE COR COMEMORA 80 ANOS SEM APOIO DA PREFEITURA DE CAMPINAS E DO LADO DE FORA DO CORETO
A VOZ QUE VEM DO LAGO: O MUNDO ENCANTADO DA CIVILIZAÇÃO INDIANA
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BANDA DOS HOMENS DE COR COMEMORA 80 ANOS SEM APOIO DA PREFEITURA DE CAMPINAS E DO LADO DE FORA DO CORETO

A Banda dos Homens de Cor, uma das mais tradicionais bandas de Campinas, completou hoje 80 anos.

Para comemorar, os integrantes “ocuparam” o largo do Pará, local que tradicionalmente essa banda já tocou quando tinha apoio da prefeitura da cidade.

Sem dinheiro e sem apoio do governo Jonas Donizette (PSB-PSDB), a banda tenta resistir e se fazer ouvir para não se acabar.

Enquanto isso, o Palácio dos Jequitibás (prefeitura) já acertou a construção de um teatro de ópera estimado inicialmente em R$ 80 milhões no Parque Ecológico da cidade. Isso com o apoio do governador tucano Geraldo Alckmin. Acredite, se quiser!

Veja abaixo algumas fotos da apresentação da banda esta manhã:

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A VOZ QUE VEM DO LAGO: O MUNDO ENCANTADO DA CIVILIZAÇÃO INDIANA

Imagem: moiseslima.wordpress.comPor Maura Voltarelli

Como disse Roberto Calasso no seu livro A Literatura e os deuses, o mundo, embora muitos não acreditem, está longe de desencantar-se. Os deuses não só renascem com toda força, invadindo a civilização moderna ocidental, como estão por toda parte, demonstrando que a razão não responde a todas as perguntas.

Nesta cena de um épico da literatura indiana, o Mahabharata (“A Grande História dos Bharatas”, em tradução literal), dirigida por Peter Brook e pelo dramaturgo Jean-Claude Carriére, as divindades e lendas que atravessam a cultura oriental estão representadas nos personagens da mitologia hindu, em noções filosóficas como a busca da iluminação, o karma e o dharma, e na proposta do que seria um bom modo de vida.

Na cena que reproduzimos abaixo o que transparece é o máximo encantamento da situação, a maturidade das respostas, a vulnerabilidade do ser humano, leviano, diante das divindades imersas no lago da sabedoria.

Mahabharata traz o profundo misticismo do oriente, terra de cores, círculos, superstições, cosmo, e nos lembra de uma relação que persiste pelos séculos, a relação entre homens e deuses, entre os mortais, para quem cada momento pode ser o último, e os imortais, banhados de eternidade.

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O CORPO É A PAISAGEM
LASAR SEGALL: O ARTISTA CROMÁTICO E SOCIAL
VAN GOGH NA BELEZA DO PRETO E BRANCO, POR ALAIN RESNAIS
O RAPTO DE PROSÉRPINA, DE GIAN LORENZO BERNINI: O GRITO DO MITO

O CORPO É A PAISAGEM

Por Maura Voltarelli

Pequenos bonecos encostados em um seio que ganha aspectos de montanha, cavaleiros a atravessar as costas que de repente são pequenos planaltos, o cavaleiro alojado na cintura, o carro a percorrer as curvas dos quadris, as nádegas como montanhas, os seios sustentando a corda por onde passa a equilibrista, o buraco da piscina no buraco do umbigo, o umbigo que também é rio onde se pesca, as costas por onde se escorrega, qualquer conjunto de palavras será pouco diante do simples olhar as fotografias de Allan Teger, autor desta série que abaixo mostramos chamada “Bodyscapes”.

O artista, no suporte do preto e branco, transforma o corpo humano em belas paisagens, em inesperados lugares. O resultado é bonito, erótico, inusitado. Uma valorização do corpo e da arte, e talvez uma lembrança de que um está sempre ligado ao outro.

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Link de acesso para mais trabalhos de Allan Teger

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Lasar e seus colegas em uma sessão de pintura ao ar livre: liberdade e vanguarda

Lasar e seus colegas em uma sessão de pintura ao ar livre: liberdade e vanguarda

Por Maura Voltarelli

Alemão naturalizado brasileiro, Lasar Segall é considerado um dos ícones do modernismo brasileiro, seguindo e solidificando um caminho já aberto por Anita Malfati e pelo movimento modernista de 1922. Pintor de traços inusitados, que rompem com os academicismos e as formas tradicionais da pintura realista, adepto das cores fortes e expressivas, tocado pela crítica social e pela denúncia política do antissemitismo e dos horrores da guerra, Lasar combinou as heranças da tradição e cultura europeia com as cores e as temáticas tropicais, criando uma obra original e sempre atual.

A primeira exposição do artista no Brasil aconteceu em março de 1913, em São Paulo, e nas obras mostradas já se podiam ver as marcas do impressionismo alemão e da pintura holandesa.  Em comemoração ao centenário da exposição, o Museu Lasar Segall programou exposições de 50 obras do artista que pertencem ao acervo do Museu e também de algumas fotografias que faziam parte de seu arquivo pessoal.

Encontro

Encontro

Lasar tinha uma relação muito próxima com a fotografia, tanto que muitos de seus quadros, como Encontro, por exemplo, remetem diretamente a uma imagem fotográfica de seu casamento, apenas modificando alguns detalhes. Fotografias marcantes que traduzem um pouco do que foi a trajetória do artista, bem como movimentos decisivos para construir a proposta e o perfil estético de seu trabalho, como a fotografia que registra uma sessão de pintura ao ar livre com colegas da Academia de Dresden, em 1911, também fazem parte da exposição.

Nesta fotografia os colegas da academia carregam a modelo nua, em um manifesto que já ditava o movimento libertário e de vanguarda que se formava no momento.

Os demais registros fotográficos e as obras, algumas recentemente recuperadas pelo Museu, como Eternos Caminhantes, revelam o artista histórico e ousado. Eternos Caminhantes traz um grupo de andantes, tema recorrente na obra do mestre expressionista, que faz referência ao êxodo e à perseguição aos judeus. Sintética e geometrizada, a obra se instala em um tempo específico e, pela qualidade de sua construção, projeta-se na eternidade conquistada pelos grandes artistas.

Outras obras, como Bananal, trazem a temática tropical, sempre presente em Sagall principalmente na sua fase mais marcadamente expressionista. Parecem sinais do quanto o artista de terras frias ia se misturando com os costumes, as cores, a gente, das terras quentes tropicais, refletindo e ajudando a construir o modernismo de nossa arte.

Eternos caminhantes

Eternos caminhantes

Mesmo adepto do expressionismo, da (re)criação da realidade, e dono de um estilo próprio, Lasar também mantinha o diálogo com algumas tradições da pintura, revisitando gêneros como natureza-morta, retrato e paisagem. Os rostos, as frutas, os lugares ganham, no entanto, sempre o seu tom, a sua ousadia. Em cada obra respira certa sensualidade bruta original e uma denúncia visceral dos movimentos históricos, e, para os que querem encarar as trevas no coração da história, voltar ao seu Navio de emigrantes é sempre uma forma de voltar a nós mesmos.

Página do Museu Lasar Segall, onde podem ser vistas obras e fotografias do artista.

Algumas informações retiradas da revista da FAPESP, que traz reportagem com mais informações sobre o Museu Lasar Segall e sobre a exposição comemorativa.

Navio de emigrantes

Navio de emigrantes

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Vincent van Gogh, Prisoners Exercising, 1890

Vincent van Gogh, Prisoners Exercising, 1890

Por Maura Voltarelli

Vincent van Gogh é hoje um dos maiores pintores modernos. Difícil quem não o conheça, quem não tenha ouvido falar sobre ele alguma vez. Mais difícil ainda não se impactar com suas pinturas, com suas formas delirantes, com suas cores colossais que, de certa forma, refletem a trajetória complexa e densa de um dos maiores nomes do impressionismo mundial.

Para contar um pouco da história de Van Gogh o diretor francês Alain Resnais foi convidado, em 1948, para fazer um filme curto sobre ele, que coincidia justamente com uma exposição do artista que então estava sendo montada em Paris. O filme, intitulado Van Gogh, recebeu diversos prêmios e foi o primeiro de muitos outros filmes feitos pelo diretor sobre o universo da arte moderna, como Gauguin (1950) e Guernica (1950).

Reproduzimos aqui uma versão com legendas em espanhol, mas, para além dos diferentes códigos linguísticos, o arte/documentário de Resnais fala em uma linguagem universalmente conhecida pelo público: a linguagem da arte. E mais ainda, essa linguagem é transmitida pela pureza essencial do preto e branco, o que deixa os quadros de Van Gogh ainda mais sublimes.

A tentativa foi de reconstituir a vida do pintor por meio de seus quadros, tornando-o mais conhecido do grande público. Tarefa nem sempre fácil, pois Van Gogh foi um daqueles artistas que teve sua existência atravessada pela miséria, pela loucura, e por todas as regiões de sombra que possam se abrir diante da existência humana. Nele, no entanto, as experiências do limite só fizeram aumentar a genialidade do seu trabalho.

Assim como Hölderlin e Nietzsche, Van Gogh vivenciou em vida a experiência da morte, rompeu a barreira entre os domínios e, por isso, conseguiu na sua obra a maturidade do estilo e o frescor de uma atualidade sempre potente, sempre renovada.

França, 1948.
Direção e edição: Alain Resnais.
Narrador: Claude Dauphin. Diretor: Gaston Diehl e Robert Hessens. Producão: Pierre Braunberger, Gaston Diehl e Robert Hessens. Música original: Jacques Besse. Fotografia: Henry Ferrand. Versão original em francês com legendas em espanhol. Duração: 18 min.

Vale a pena também ver este vídeo, uma bela experiência estética que traz o quadro De sterrennacht EM MOVIMENTO.

Van Gogh não morreu devido a uma condição delirante, e sim por haver chegado a ser corporalmente o campo de ação de um problema em cujo redor se debate, desde suas origens, o espírito iníquo desta humanidade, o predomínio da carne sobre o espírito, o do corpo sobre a carne, do espírito sobre um ou sobre outra. Onde está, neste delírio, o lugar do eu humano?

Antonin Artaud

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O RAPTO DE PROSÉRPINA, DE GIAN LORENZO BERNINI: O GRITO DO MITO

Imagem: cafecomexpressao.blogspot.com

Por Maura Voltarelli

Houve um rapto, talvez de todos o mais célebre, lindamente retratado pelo artista do barroco italiano Gian Lorenzo Bernini em sua arte de dar forma, vida e movimento ao mármore. Diz o mito que enquanto colhia flores, a bela Perséfone, então ainda donzela, em sua fase Koré, foi raptada por Hades, o deus das sombras, senhor do reino dos mortos, no momento em que retirava da terra uma flor de narciso.

Hades, há muito apaixonado pela beleza da jovem deusa filha de Zeus e Deméter (a deusa das colheitas, da terra), então rapta Perséfone e a conduz ao fundo da terra. Os gritos de Perséfone no momento da captura só são ouvidos por Hécate, a deusa lunar, ligada aos mistérios noturnos.

Deméter, incomodada com o desaparecimento de Perséfone, é avisada por Hécate do rapto da filha e decide interceder junto a Zeus para que este convencesse Hades a devolvê-la à terra, que então já se encontrava devastada pelo frio e pela seca, castigo lançado por Deméter em razão de sua ira.

Diante da devastação da terra, Zeus decide interceder em favor de Deméter junto a Hades. No entanto, Perséfone estaria condenada a nunca mais poder habitar totalmente o mundo dos vivos, pois comera a fruta proibida das profundezas, que a ligava eternamente àquele domínio: a romã.

Perséfone poderia estar na terra apenas durante um tempo, mas depois teria que regressar ao hades, ocupando, dessa forma, os dois domínios, vida e morte, sendo um eterno trânsito e ponto de comunicação entre eles.  A primavera marca justamente a volta de Perséfone à terra, já o inverno e o outono sinalizam o seu retorno ao hades.

Nas profundezas, a antiga Koré se faz rainha, amadurecida pelo aprendizado da sombra. Hades e Perséfone seguem apaixonados, a brandura e clemência da deusa aplacando muitas vezes a ira do amado, intercedendo em favor de muitos mortais que por lá passam.

Imagem: charcofrio.blogspot.com

A escultura de Bernini conseguiu, e isso faz dela uma obra-prima, retratar o impulso de amor e morte que fez Hades raptar Perséfone. Os dedos, fincados sobre o corpo da jovem deusa, revelam a dimensão do seu amor, quase um desespero, e transparecem algo de profundamente erótico. Erotismo e desejo que atravessam as obras de Bernini, como se vê na também célebre escultura “O êxtase de Santa Teresa”.

“O Rapto de Prosérpina” nos chega como uma obra de arte que faz viver o mito, respirar os deuses no centro de um mundo dominado pela Razão e pelas entidades platônicas (Renascimento). Os deuses de repente voltam, regressam, com toda força, como se nunca antes tivessem ido, talvez porque de fato eles nunca foram. Guardam-nos à espreita, vigilantes, imortais.

 

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MOSCAS E MEL CONSTROEM UMA INCRÍVEL METÁFORA ARTÍSTICA PARA O NASCIMENTO E O DESAPARECIMENTO DO MUNDO NA OBRA DE RIVANE NEUENSCHWANDER

Por Maura Voltarelli

O experimentalismo inusitado é o que se vê nessa obra da artista plástica brasileira Rivane Neuenschwander. Comparada internacionalmente com Lygia Clark e Hélio Oiticica, Rivane utiliza materiais corriqueiros e efêmeros para compor a sua obra, onde sempre transparece uma percepção e olhar crítico peculiar sobre a realidade.

Nas bordas do surrealismo e da arte sensorial e interativa, Rivana está atenta aos detalhes, ao que passa despercebido para muitos, menos para os bons artistas. Além deste trabalho que destacamos, a artista também ficou conhecia pelo filme “Quarta-feira de cinzas/Epilogue”, que realizou com Cao Guimarães, onde formigas transportam os confetes deixados no chão depois dos quatro dias de folia do carnaval em uma espécie de epílogo melancólico, mas também de renovação.  O experimentalismo e o olhar original são marcas do filme que se deixam ver também na sua trilha sonora composta digitalmente pelo duo O Grivo.

Abaixo, deixamos um mapa mundi feito e desfeito pela efervescência das moscas em uma metáfora que revisita o passado e já se lança sobre o por vir, deixando no final apenas um branco nada juntamente com a sensação de que o mundo como o conhecemos, depois de fartas as moscas, pode um dia não existir mais. Seguem também algumas cenas do filme que citamos mostrando o trabalho das formigas sobre o que restou de todo delírio e descanso do carnaval.

Cena do filme "Quarta-feira de cinzas/Epilogue"

Cena do filme “Quarta-feira de cinzas/Epilogue”

Cena do filme "Quarta-feira de cinzas/Epilogue"

Cena do filme “Quarta-feira de cinzas/Epilogue”

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MOVIMENTO EXPRESSIVO, UMA HOMENAGEM A KLAUSS VIANNA
COM TRABALHOS QUE VÃO DO FANTÁSTICO À CRÍTICA SOCIAL, O GRAVURISTA RUBEM GRILO GANHA MOSTRA NO RIO DE JANEIRO

EXPERIÊNCIA ESTÉTICA É O QUE SINTETIZA A NOVA VERSÃO PARA O CINEMA DO CLÁSSICO DE TOLSTÓI “ANNA KARENINA”

Versão para o cinema de 2012

Cena de “Anna Karenina”, versão 2012

Por Maura Voltarelli

Na primeira cena, o que se vê é o título do filme sobre a cortina de um palco de teatro. Como se quem assiste fosse avisado de que um espetáculo teatral estivesse para começar. O teatro anuncia a sua presença e essa será constante ao longo de toda versão do diretor Joe Wright para o monumental romance de Tolstói Anna Karenina.

O diálogo com o teatro, o caráter performático dos atores e das cenas iniciais, os movimentos muitas vezes nauseantes da câmera, os giros, os detalhes, as cores, tudo faz de Anna Karenina uma incrível experiência estética, e, embora o filme tenha muitos pontos discutíveis, este é aparente pacífico.

A inovação da montagem é tanta que lembra um pouco o Lars Von Trier de Dogville, com o seu cenário em forma de maquete, objetos, cenas e atores sendo ali manipulados. A direção de arte impecável, a beleza dos figurinos, dos cenários, a inovação no trato da imagem e a exploração de todas as suas possibilidades também lembra um pouco o estilo do diretor Luis Fernando Carvalho em filmes belíssimos como Lavoura Arcaica, onde a beleza das imagens solta um suspiro extasiante.

Se na experiência estética, essa versão acerta, não parece acontecer o mesmo com a escolha dos atores para representar os personagens do romance. O principal erro ocorre com a escolha do ator Aaron Taylor-Johnson para interpretar o conde Vronsky, amante de Anna na história.

Anna e Vronsky na versão de 1997

Anna e Vronsky na versão de 1997

Nesta versão, o amante de Anna parece um tipo “almofadinha”, afetado, que age simplesmente por capricho. Sua paixão por Anna, que no romance aparece de forma bem mais intensa, no filme é quase nula, não chega a atingir quem assiste. Da mesma forma, o conde Vronsky que aparece no filme não parece ser o tipo de homem por quem Anna se apaixonaria, deixando para trás o marido e o filho em pleno século XIX.

Em relação à escolha de Keira Knightley para interpretar Anna Karenina, a atriz pode não ser a melhor imagem da heroína mais conhecida do escritor russo, mas está lindíssima na versão. A beleza é tão expressiva que deixou faltar um pouco uma das principais características da personagem: sua melancolia grave e doce, que se alterna com seu espírito alegre, naturalmente livre. Keira deixa transparecer a alegria de Anna, mas não deixa vir à tona seu tom melancólico. Este surge apenas no fim, de forma apressada, sem naturalidade, abortando assim a possibilidade do espectador realmente se emocionar com os momentos finais que, no livro, são dosados pelo desespero trágico e também pela conversa com a loucura.

Já o marido de Anna, bem interpretado por Jude Law, está bonzinho demais. Quem leu o livro praticamente não o reconhece. Alexei Karenin, apaixonado por Anna até o fim, e magoado justamente por esse amor constante e ao mesmo tempo fonte de sua vergonha e desmoralização pública, faz de tudo para tornar as coisas ainda mais difíceis para Anna, pois talvez essa seja a forma de tornar as coisas um pouco mais fáceis para ele. A negação do divórcio e a proibição de que Anna continuasse a ver o filho são golpes de Karenin que atingem em cheio a lucidez de Anna. No filme, isso não fica tão claro. Karenin aparece como generoso e Anna como caprichosa.

Os coadjuvantes estão ótimos. Stiva provoca risos na plateia e ganha tons performáticos que evocam de fato o personagem do livro. Já sua esposa, Dolly, aparece tão doce quanto no romance. A personagem vive um momento bastante feliz no filme quando conversa com Anna naturalmente em um local público, enquanto todas as outras pessoas riem, cochicham e falam dela pelas costas. A interpretação da atriz nesta cena é tão natural e destoante do que então se via que atinge o espectador naquele que é um dos pontos essenciais do romance: a denúncia da hipocrisia da sociedade burguesa da época.

Greta Garbo, a primeira a viver no cinema a heroína de Tolstói

Greta Garbo, a primeira a viver no cinema a heroína de Tolstói

Anna sofre no livro, e isso de certa forma se deixa ver nessa versão, todo tipo de preconceito da sociedade de sua época por ser a mulher que traiu o marido, um influente político russo, e deixou seu mundo para viver uma paixão arrebatadora com um oficial do exército. Sofre as consequências por ter quebrado as regras, por ter se apaixonado.

Este é o núcleo central da história, que sempre ganha destaque em todas as versões do livro para o cinema. Paralelamente a ele, no entanto, há uma outra célula do romance que aborda a vida no campo, as questões da agricultura russa da época, do trabalho escravo, das relações de propriedade e, principalmente, discute o ideal do que seria uma vida feliz.

A resposta para essa pergunta acontece no livro no mesmo momento em que se desenrola o desfecho da história de amor e transgressão de Anna. O grande lance de Tolstói é cruzar os significados de uma coisa e outra de modo que a tragédia que é encenada em um palco, seja respondida em outro. Se Anna paga um preço alto por tentar ser livre em um contexto onde para a mulher não era reservado muita coisa, a resposta dada por Tolstói às aflições humanas, sejam elas de homens ou mulheres, invadidas pelo dilema do moral e do amoral, do certo e do errado, da liberdade ou da convenção, é de que a felicidade estaria nas coisas simples, no lugar originário.

Keira como Anna Karenina

Keira como Anna Karenina

Para os que dizem que a história do adultério de Anna Karenina já está ultrapassada em uma sociedade “livre” como a do século XXI, eu diria que a história nem de longe está ultrapassada. Não só por que o drama de Anna vai muito além de uma simples traição, mas envolve diversos outros aspectos que até hoje rondam o universo feminino, como também porque o que está em questão na obra de Tolstói é o preconceito burguês contra qualquer ato que simplesmente fuja da norma, e esse preconceito está atualmente mais presente do que nunca. Basta olhar os bons (e poucos) jornais.

Por isso, Anna Karenina continua tão atual. Por isso o romance já teve cinco, contando esta última, montagens para o cinema. E, em cada uma, novas Annas nos emocionam, nos revelam um traço de coragem que persiste até o fim, e denunciam a hipocrisia que sempre germina neste nosso oceano, às vezes sombrio e sempre misterioso, do social.

Edição com tradução direta do russo

Edição da Cosac Naify com tradução direta do russo

Filmar uma grande obra literária, vale dizer, nunca é fácil, e comparações entre livro e filme sempre acabam um tanto injustas pois os suportes são diferentes. O filme nem sempre dá conta da densidade literária do livro, histórias surgem apressadas e, muitas vezes, não há aquele tempo que as páginas fornecem para desenvolver o personagem e entregá-lo em toda sua complexidade nas mãos do leitor.

Esta versão de Anna Karenina não emociona tanto quanto a leitura do romance, no entanto, traz algo que Tolstói, dispondo apenas do papel e da tinta, jamais poderia realizar: a exploração do universo fascinante da imagem, o transporte para o mundo do teatro, a magia de tons, músicas, movimentos e sensações combinados para recontar uma bela história.

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“OS SALTIMBANCOS”, DE PICASSO, SERVIU DE INSPIRAÇÃO PARA A QUINTA DAS “ELEGIAS DE DUÍNO”, DE RILKE, QUE ABORDA A INDIFERENÇA DO MUNDO À ARTE

Por Maura Voltarelli

Pablo Picasso, Les saltimbanques, 1905

Pablo Picasso, Les saltimbanques, 1905

Elegias de Duíno, Rainer Maria Rilke

Quinta elegia

Mas quem são eles, dizei-me, os saltimbancos, um pouco
mais efêmeros que nós mesmos, desde a infância
por alguém torcidos – por amor
de que vontade jamais saciada? Entretanto ela os torce,
curva-os, entretece-os, vibra-os,
atira-os e os toma de volta! Do ar untado
e mais liso, eles resvalam
sobre o tapete gasto (adelgaçado
pelo eterno salto), esse tapete
perdido no universo.
Emplastro aderido lá, onde o céu
do subúrbio feriu a terra.
_______________E apenas lá,
ereto, mostra a grande maiúscula
inicial da Derelicção…e já o renitente
agarrar torna a rolar os homens mais fortes,
por jogo, como outrora Augusto o Forte, à mesa,
brincando com pratos de zinco.

Ah! e em torno desse centro,
a rosa do contemplar:
floresce e desfolha. Em torno do
triturador, o pistilo atingido por seu próprio
pólen florescente, novamente fecundado – fruto
aparente do desgosto, inconsciente de si mesmo –
com a fina superfície a brilhar
num sorriso leve, simulado.
Lá, o murcho, o enrugado atleta,
o velho que apenas rufla o tambor,
encolhido na pele poderosa como se outrora tivesse contido
dois homens e um já sobrevive ainda,
surdo e um pouco perturbado,
às vezes, na pele viúva.  […] (p. 27 e 28)

Nesta parte inicial da elegia, o sentimento predominante é o de frustração e inautenticidade. Os saltimbancos melancólicos não seriam movidos pelo Anjo, alheio à dor humana, e estariam “presos à imanência de um mundo incompreensível” (DA SILVA, s/d, p. 77). A existência do grupo seria um indigente “estar lá”, fazendo referência ao Dasein (o ser aí), comparação que vem do fato de as figuras no quadro estarem dispostas de modo a formar um D maiúsculo. Diante dos saltimbancos, que simplesmente estão lá, as pessoas passam indiferentes, o que talvez seja um motivo do desalento do poeta em relação à “arte pela arte”, o jogo intranscendente incapaz de iluminar a vida.

[…] Anjo: talvez haja uma praça que desconhecemos, onde,
sobre um tapete indizível, os amantes, incapazes aqui,
pudessem mostrar suas ousadas, altivas figuras
do ímpeto amoroso, suas torres de alegria, suas trêmulas
escadas que há muito se tocam onde nunca houve apoio:
e poderiam diante dos espectadores em círculo,
incontáveis mortos silenciosos. E estes arrojariam
suas últimas, sempre poupadas,
sempre ocultas, desconhecidas moedas de felicidade
para sempre válidas, diante do par
verdadeiramente sorridente, sobre o tapete
apaziguado. (p. 31)

Sob a perspectiva do Anjo, no entanto, que aparece nessa última parte do poema, o homem estaria liberto do jogo estéril da arte intranscendente, salvo da morte anônima, da vida inautêntica, realizando em uma praça milagres de harmonia em uma simbiose de amor e morte, onde ele aprenderia a sorrir verdadeiramente.

RILKE, R.M. Elegias de Duíno. Trad: Dora Ferreira da Silva. 4ºed. Rio de Janeiro: Ed. Globo, s/d

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Baco e Ariadne

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PÃO E VINHO
Friedrich Hölderlin

Mas amigo! Viemos demasiado tarde.
Na verdade vivem os deuses
mas sobre nossa cabeça, acima em outro mundo
trabalham eternamente e parecem preocupar-se pouco
se vivemos. Tanto se cuidam os celestes de não ferir-nos.
Pois nunca poderia contê-los um débil navio,
somente às vezes suporta o homem a plenitude divina.
A vida é um sonho dos deuses.
Mas o erro nos ajuda como um adormecimento.
E nos fazem fortes a necessidade e a noite.
Até os herois crescidos em uma cunha de bronze,
como em outro tempo seus corações são parecidos em força
aos celestes.
Eles vivem entre trovões.
Me parece às vezes melhor dormir, que estar sem companheiro.
A esperar assim, o que fazer ou dizer eu não sei.
E para que poetas em tempos de carência?
Mas, são, dizes tu, como os sacerdotes sagrados do Deus do
vinho,
que erravam de terra em terra, na noite sagrada.

(Tradução do espanhol: Maura Voltarelli)

Este poema pode ser encontrado em espanhol no ensaio “Hölderlin e la esencia de la poesia”, de Martin Heidegger, traduzido do alemão por Samuel Ramos e presente no livro Arte y poesia, 2ª ed. México: FCE, 1973

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Influenciado pelos traços fortes e próximos da naturalidade do desenho que marcam a obra de Oswaldo Goeldi, o gravurista Rubem Grilo é autor de uma obra que combina uma criação personalista com um tom de crítica social. Da riqueza de traços até a valorização de um objeto no espaço do desenho, a fase inicial de Rubem Grilo é marcada pelo aspecto mágico e fantástico das criações, representado pela série Marionetes, de 1974, e também pela sua postura política em Natividade.

Nos anos 70, Rubem Grilo também atuou como ilustrador em jornais conhecidos pela crítica social e engajamento político em uma época onde a liberdade de expressão no Brasil era limitada, para não dizer quase nula. Entre os jornais que receberam ilustrações de Grilo estão o Opinião, Movimento e o Pasquim.

A passagem pelos jornais e o percurso posterior de sua obra deixam ver a sensibilidade do artista para o social. Já nos anos 80, ele cria a série Fast Food e, no cenário contemporâneo, retoma algumas referências do passado que conferem certo tom lírico aos trabalhos de Tratador de Pássaros, Desencaixe e O Vidente.

Os trabalhos de Grilo podem ser vistos em exposição no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, até 5 de maio. No total são 123 trabalhos que permitem conhecer cada uma de suas fases. Neste link, um pouco mais sobre a trajetória do artista.

Rubem Grilo, da série Fast Food

Rubem Grilo, da série Fast Food

 

Rubem Grilo, O Tratador de Pássaros

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Rubem Grilo, Cosmos

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