Educação Política

mídia, economia e cultura – por Glauco Cortez

Arquivos da Categoria: MORO NA FILOSOFIA

NÃO TENHA MEDO, ESSES VÂNDALOS NÃO VÃO MATAR SEU FILHO POR UM CELULAR

9071158927_18b7a09b20Não tenha medo dos protestos, mesmo os mais violentos, com confrontos e quebra-quebra.

Esses vândalos não vão matar seu filho por um celular ou por um par de tênis.

Esses vândalos são de outra ordem, não escolheram o crime individualista e dentro da lógica da acumulação.

Esses vândalos estão aí porque as coisas precisam mudar e numa velocidade maior.

Esses vândalos podem salvar seu filho dos futuros crimes que essa desigualdade enorme produz.

Ninguém é a favor de depredações, destruição, confronto, mas também não dá para aguentar esse discurso patético na televisão de que são uma minoria de vândalos.

Não dá para ter uma manifestação de carneirinhos, seguindo os caminhos e as orientações de quem controla o poder e de seu aparelho repressor.

Um protesto de carneirinhos e nada é a mesma coisa.

As depredações e conflitos muitas vezes são revolta, não crime.

Exceto se tiverem policiais infiltrados como se suspeita em São Paulo.

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As redes sociais estão no sangue e na veia das pessoas, seja na política, na arte, no afeto. É uma linha tênue entre o público e o privado. As pessoas falam das suas vidas, mandam recados, gritam, se expõem. Como se estivessem na cozinha das suas casas. Elas podem reclamar de namorados, maridos, mulheres, namoradas, podem expor sua solidão, sua covardia, seus interesses, seus discursos indiretos.

As redes sociais são o paradoxo que une o baixo e a iluminação. Ao mesmo tempo em que a razão insensata e o humor chulo dá suas caras, o desprezível sentimento se manifesta, há o lado da genialidade de um comentário, o humor refinado, a angústia literária,  o esclarecimento genial. Tudo ali em poucas palavras.

As pessoas compartilham o que desejam que apenas uma pessoa soubesse, apenas uma pessoa entendesse, mas elas expõem para todos, como se todos pudessem ser seus confidentes, seus conselheiros, psicólogos, solidários. E quem quiser que vista a carapuça, a burca e a tosse. Por que as pessoas estão desesperadas. Não há mais ninguém. Não há mais ninguém, somente as redes sociais e uma plateia de 300 pessoas dentro de quatro paredes.

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Freud: a terceira ferida narcísica na humanidade

O essencial, o núcleo da questão é o que Freud chamou de “modo de pensar”. O modo de pensar psicanalítico significa que se leve em conta o inconsciente. Significa admitir que o “eu” não é dono da casa. O “eu” é uma das instâncias do funcionamento psíquico, mas é dominado pelo inconsciente. E Freud reconheceu isso ao dizer que ele tinha imposto a terceira ferida narcísica à humanidade. A primeira foi revelada por Nicolau Copérnico, quando ele disse que a Terra gira em torno do Sol e não o contrário. A segunda se deu quando Darwin disse que o homem descende do macaco e a terceira quando Freud afirmou que o homem não manda na sua casa, isto é, não é o consciente que nos governa. O caráter subversivo da psicanálise é que ela se choca com o pensamento espontâneo do homem que pensa que é seu “eu” que conta. O ser humano tem dificuldade de admitir os dados da psicanálise, isto é, que tem um inconsciente que se manifesta por meio do sonho, dos chistes, dos lapsos, dos atos falhos, dos esquecimentos. Isso determina o sujeito muito mais do que o consciente, a racionalidade. E o caráter subversivo da psicanálise repousa ainda no fato de que ela não quer adaptar o indivíduo à sociedade, mas libertá-lo. É uma escola de liberdade e nesse sentido ela é subversiva, qualquer que seja o regime. Há regimes democráticos que a toleram, mas ela é incompatível com os totalitarismos. A psicanálise é intolerável também por causa da sexualidade. Essa dimensão fundamental da sexualidade infantil que Freud explicita a partir de 1905 é o aspecto mais escandaloso que o levará a ser acusado de pansexualismo.

(Trecho da entrevista de Michel Plon à Carta Capital, edição 707)

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UBUNTU: COMO UMA DE NÓS PODERIA ESTAR FELIZ SE TODAS AS OUTRAS ESTIVESSEM TRISTES?

A jornalista e filósofa Lia Diskin, no Festival Mundial da Paz em Florianópolis (2006), nos presenteou com um caso de uma tribo na África chamada Ubuntu. Ela contou que um antropólogo estava estudando os usos e costumes da tribo e, quando terminou seu trabalho, teve que esperar pelo transporte que o levaria até o aeroporto de volta pra casa. Sobrava muito tempo, mas ele não queria catequizar os membros da tribo,  então, propôs uma brincadeira para as crianças, que achou ser inofensiva.

Comprou uma porção de doces e guloseimas na cidade, colocou tudo num cesto bem bonito com laço de fita e deixou o cesto debaixo de uma árvore. Chamou as crianças e combinou que quando ele dissesse “já!”, elas deveriam sair correndo até o cesto e, a que chegasse primeiro ganharia todos os doces que estavam lá dentro.

As crianças se posicionaram na linha demarcatória que ele desenhou no chão e esperaram pelo sinal combinado. Quando ele disse “Já!”, instantaneamente todas as crianças se deram as mãos e saíram correndo em direção à árvore com o cesto. Chegando lá, começaram a distribuir os doces entre si e a comerem felizes.

O antropólogo foi ao encontro delas e perguntou porque elas tinham ido todas juntas se uma só poderia ficar com tudo que havia no cesto e, assim, ganhar muito mais doces.

Elas simplesmente responderam: “Ubuntu, tio. Como uma de nós poderia ficar feliz se todas as outras estivessem tristes?”

Ele ficou de cara! Meses e meses trabalhando nisso, estudando a tribo, e ainda não havia compreendido, de verdade, a essência daquele povo. Ou jamais teria proposto uma competição, certo?

Ubuntu significa: “sou o que sou pelo que NÓS SOMOS !”

Atente para o detalhe: pelo que SOMOS, não pelo que temos…

UBUNTU PRA VOCÊ

(vi no FPE)

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TORCEDOR
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O debate cultural segue a agenda da grande imprensa

“Nós vivemos numa sociedade leiga, essencialmente marcada por um pluralismo de cosmovisões. Então não existe mais aquele tipo de mentalidade monolítica, que tinha uma certa garantia de verdade, chancelada ou religiosamente ou metafisicamente. Pelo contrário, nós vivemos hoje numa espécie de diáspora de convicções. Cada uma delas sustentando seu próprio direito, e esse direito efetivamente só pode ser assegurado no caso de uma sociedade multicultural como a nossa e essencialmente pluralista do ponto de vista ético, a partir da argumentação. 
Desde que você não queira impor alguma coisa, nem pela força nem pela astúcia, a única via possível de legitimação de pretensões é a via argumentativa. Esse é um elemento que complica bastante nossas relações hoje. Nós não temos mais o recurso mais ou menos rápido e cômodo de invocar a vontade de Deus. Não, “eu creio” é uma afirmação que tem de exibir seus títulos de crédito. Se você não for capaz de exibir esses títulos de crédito não está suficientemente qualificado para participar do debate público. 

Uma sociedade multicultural, eticamente plural como a nossa, mas uma sociedade de massa, tem necessariamente que conviver com certos riscos de manipulação em termos de formação, de formatação de opinião, que são capazes de engendrar uma espécie de aparência de liberdade, uma aparência de formação livre de convencimento, onde de fato há uma espécie de direcionamento prévio. O exemplo mais claro que posso oferecer para vocês disso é a formatação do debate cultural pela agenda da sociedade, digamos, ligada aos interesses da grande imprensa hoje. 

Todas as questões fundamentais que estão sendo levadas à discussão não são questões que nascem fora do âmbito dos interesses mais importantes da indústria cultural. De tal maneira que nós não somos tanto autônomos e independentes na escolha dos temas que nós discutimos, porque aquilo já está dado antes. Já está pautado antes pela imprensa”. (Texto integral na Revista E)

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Paulo Freire: “minha prática exige de mim uma definição”

“Não posso ser professor se não percebo cada vez melhor que, por não poder ser neutra, minha prática exige de mim uma definição. Uma tomada de posição. Decisão. Ruptura. Exige de mim que escolha entre isto e aquilo.
Não posso ser professor a favor de quem quer que seja e a favor de não importa o quê.
Não posso ser professor a favor simplesmente do homem ou da humanidade, frase de uma vaguidade demasiado contrastante com a concretude da prática educativa.
Sou professor a favor da decência contra o despudor, a favor da liberdade contra o autoritarismo, da autoridade contra a licenciosidade, da democracia contra a ditadura de direita ou de esquerda.
Sou professor a favor da luta constante contra qualquer forma de discriminação, contra a dominação econômica dos indivíduos ou das classes sociais.
Sou professor contra a ordem capitalista vigente que inventou esta aberração: a miséria na fartura.
Sou professor a favor da esperança que me anima apesar de tudo. Sou professor contra o desengano que me consome e imobiliza.
Sou professor a favor da boniteza de minha própria prática, boniteza que dela some se não cuido do saber que devo ensinar, se não brigo por este saber, se não luto pelas condições materiais necessárias sem as quais meu corpo, descuidado, corre o risco de se amofinar e de já não ser o testemunho que deve ser de lutador pertinaz, que cansa mas não desiste. Boniteza que se esvai de minha prática se, cheio de mim mesmo, arrogante e desdenhoso dos alunos, não canso de me admirar.” 
(Paulo Freire em Pedagogia da Autonomia, São Paulo, Paz e Terra, 2011)

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TORCEDOR

Você gosta de futebol todos os dias

mas se esquece da escola da tua filha

Você não aceita a segunda divisão

mas o  ensino tá na última posição

 

Você briga, xinga e quebra cadeiras do estádio

Tanta energia de graça pros cartolas

Não percebe que perdeu a sua hora

Nesse exemplo explosivo imaginário

 

Você ama piada, cerveja e pelada

Mas isso em sua vida é quase nada

Te dizem que é bom vencer a Argentina

Mas você sabe, a vida pode ser mais linda, bem mais linda.

 

Se você olhar, o mundo pode te escutar

Se você quiser, o mundo pode sonhar

Se você ousar, o mundo pode mudar

 

Para ter amor, é preciso brigar por algo de valor

Você reclama de saúde e educação

mas não se mexe para ver a solução

Quando fica mal não vê a própria dor

 

Você acredita no primeiro falastrão

que leva todo seu dinheiro para o ralo

Você gosta mesmo é de ser enganado

Enquanto só torce, o pilantra mete a mão

 

Você diz que todos são corruptos iguais

Esse lugar comum não resolve o problema

É preciso distinguir para entender o esquema

O jovem que aprende não esquece jamais

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BERTOLT BRECHT: OS DIAS DO TEU CATIVEIRO ESTÃO CONTADOS, TALVEZ MESMO OS MINUTOS

“Schauva, os dias do teu cativeiro estão contados, talvez mesmo os minutos. Por longo tempo te mantive sob o freio de ferro da razão, que te pôs a boca em sangue, te espanquei a golpes de princípios racionais, te maltratei, com a lógica. És de natureza um fraco, e quanto te lançam insidiosamente um argumento, logo os engoles avidamente, não te podes conter. Obedecendo à tua natureza, não resistes ao desejo de lamber a mão de um superior, mas os teus seres superiores podem ser de toda sorte, e agora te chegou a hora da libertação – e breve poderá seguir tuas inclinações, que são baixas, e o teu infalível instinto, que te ensina a calcares as solas de teus sapatos das criaturas humanas. Pois o tempo da confusão e da desordem acabou, sem que tenham vindo os grandes tempos que encontrei descritos na canção do caos, canção que iremos cantar mais uma vez como lembrança desta época maravilhosa; senta-te e não massacres a música. Não receies que a ouçam , o refrão agrada sempre. Canta”.  (trecho de O círculo de giz caucasiano, de Bertolt Brecht)

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CHIMAMANDA ADICHIE: “NÃO HÁ UMA ÚNICA HISTÓRIA”

Neste vídeo, a escritora nigeriana Chimamanda Adichie fala de forma emocionada, lúcida e coerente sobre a sua própria história, desfiando as várias outras histórias que fizeram parte dela e que, aos poucos, foram tecendo a sua personalidade e forma de ver o mundo e as coisas.

O vídeo de Chimamanda mostra como qualquer tipo de preconceito ou estereótipo pode ser extremamente perigoso quando se conhece apenas ele e não o outro lado das coisas, das pessoas, da história. A precisão e graça de sua fala revelam que nunca existe apenas uma única versão para os fatos, as coisas são acima de tudo construções de discursos, sentidos, sensações. A variedade de formas e discursos é tão vasta quanto os interesses e pontos de vista dos seres humanos.

No entanto, ela lembra que ao construir uma história ou ao lançar um olhar peculiar sobre uma realidade dizendo ser ela isto e não aquilo, aos poucos, corre-se o risco de ver aquela realidade se transformando de fato naquilo que se imaginou ou se disse a respeito dela. Assim, se eu digo que um povo é inferior ao outro e insisto nessa ideia e essa ideia é a única vista e ouvida à respeito daquele povo e se, com o passar do tempo, todos insistem nessa ideia, aquele povo primeiro se sente de fato como inferior e, depois, se a única história continua, ele realmente se torna inferior.

Daí a importância das várias histórias, de conhecer os diversos olhares. Reside aí a riqueza do homem em poder contar as suas histórias, reside aí a sabedoria de olhar para o outro sem pré-conceitos, despindo-se de si mesmo e atingindo, como diz Chimamanda, uma espécie de paraíso na terra.

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NA SOCIEDADE ATUAL O “ESTAR SÓ” É VISTO COMO DOENÇA OU EPIDEMIA DISFARÇANDO OS REAIS MALES DA CONTEMPORANEIDADE

Aparentemente, não parece existir nenhum problema no “estar só”. Para muitos, a solidão pode ser até um desprazer, mas outros a apreciam ou trocariam tudo por momentos de convivência consigo mesmos.

No entanto, a tendência do mundo moderno em diagnosticar, racionalizar e sintomatizar quase tudo começa a ver a solidão como uma espécie de doença ou epidemia, causa de todos os males. E aí reside certa inversão promovida pelos alienistas de plantão. Afinal, seria a solidão causa ou efeito de todos os males?

Cabe pensar que estamos sim cada vez mais sozinhos. Alguns por opção. Outros, no entanto, estão sozinhos sem perceber a solidão. Hiperconectados, a maioria tem a ilusão de não estar só para, de repente, surpreenderem-se solitários.

Assim, será mesmo que a solidão é a causa de todos os males, ou, um mundo onde a subjetividade se perde em meio às multidões e comercialização dos sentimentos humanos, é que não nos convida a uma espécie de narcisismo conectado em busca de uma individualidade fragmentada?

Se a solidão graça em excesso a culpa não parece ser dela, mas a sociedade não quer olhar para as sua próprias misérias e criações, é mais fácil diagnosticar e inventar doenças que estão no ser humano, jamais fora dele.

E não há aqui uma crítica à conectividade, posto seus benefícios democráticos e novidades, e sim à sociedade que faz dela o único reduto possível de salvação para as ausências que ela mesma cria, diluindo todas as outras possibilidades reais de troca e convivência.

Veja trecho de texto que gera reflexão sobre o assunto publicado pela revista Cult:

Política da solidão
Clinicalização do estar só escamoteia o verdadeiro mal da sociedade atual, que é a hiperconectividade
Marcia Tiburi

Algo vai muito mal com a autocompreensão do ser humano sob a crença de que existe um padrão normal dos afetos que calibraria o todo da experiência emocional humana. A crença na normalidade confirma apenas que vivemos mergulhados na incomunicabilidade. Os sentimentos humanos são nebulosos e confusos, mas não são expressos senão por meio de atos desesperados que falam por si mesmos.

Se a norma fosse estabelecida pelo que há de mais comum, teríamos de voltar ao paradoxo de Bacamarte: o anormal é normal, o normal é anormal.

O fenômeno contemporâneo da psiquiatrização da vida nasceu como tentativa de eliminar a estranheza humana. Hoje ele sustenta a indústria cultural da saúde, que se serve do sofrimento humano como a hiena se serve da carniça.

Para os fins do logro capitalista já não basta aproveitar a desgraça do outro, também se pode ajudar a incrementar a produção do infortúnio usando a arma do discurso. A moral une-se à ciência nessas horas e quem paga o preço é o indivíduo humano, do qual se extirpa a capacidade de pensar sobre sua própria vida.

Se a indústria farmacêutica depende da evolução das drogas e dos remédios, depende também da existência de doenças. Criar um remédio pode implicar a criação da doença.

Assim é que uma das mais fundamentais experiências humanas na mira dos sacerdotes da moral que propagam a psiquiatrização da vida é, hoje, a solidão. A banalidade da proposta não é pouco violenta.

Em pesquisa recentemente divulgada, um médico norte-americano definiu a solidão não apenas como doença, mas como epidemia. Tratou-a como uma tendência contrária à evolução. Definida como um erro da “natureza humana”, a solidão passa a ser vista fora de sua dimensão social e histórica. Como doença, ela seria a causa do sofrimento e não o efeito da perda de sentido da convivência entre as pessoas. Em última instância, daquilo que seria o significado mais próprio da política como universo da integração entre indivíduos e comunidades. (Texto completo)

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Sociólogo Michael Löwy: por uma sociologia crítica do conhecimento

Do ponto de vista de uma sociologia crítica do conhecimento, a formulação que nos parece mais interessante entre os sociólogos franceses contemporâneos é (no domínio que nos ocupa) a de Pierre Bourdieu, segundo qual as chances de contribuir na produção da verdade dependem de dois fatores principais: “o interesse que se tem em saber e em fazer saber a verdade ( ou inversamente, em ocultá-la ou ocultá-la de si) e a capacidade que se tem de produzi-la”. Em outros termos: “o sociólogo está mais armado para descobrir o oculto quanto mais armado cientificamente, quando ele utiliza melhor o capital de conceitos, de métodos, de técnicas acumulado por seus predecessores, Marx, Durkheim, Weber, e como outros, é quando é mais ‘crítico’, quando a intenção consciente ou inconsciente que o anima é mais subversiva, quando tem mais interesse em desvendar o que é censurado, contido, no mundo social”.
Quanto a nós, pensamos que o ponto de vista potencialmente mais crítico e mais subversivo é o da última classe revolucionária, o proletariado. Mas não há dúvida de que o ponto de vista do proletário não é de forma alguma uma garantia suficiente do conhecimento da verdade social: é somente o que oferece a maior possibilidade objetiva de acesso à verdade. E isso porque a verdade é para o proletariado uma arma indispensável à sua auto-emancipação. As classes dominantes, a burguesia ( e também a burocracia, em um outro contexto) têm necessidade de mentiras e ilusões para manter seu poder. Ele, o proletariado, tem necessidade de verdade… (LÖWY, p. 208 e 209).

Michael Löwy em As aventuras de Karl Marx contra o Barão de Münchhausen. São Paulo: Busca Vida, 1987

Somente a verdade é revolucionária….(Gramsci, no lema de seu jornal Ordine Nuovo)

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O homem dos símbolos

É verdade, no entanto, que nesses últimos tempos o homem civilizado adquiriu certa dose de força de vontade que pode aplicar onde lhe parecer melhor. Aprendeu a realizar eficientemente o seu trabalho sem precisar recorrer a cânticos ou batuqyes hipnóticos. Consegue até dispensar a oração cotidiana em busca de auxílio divino. Pode executar aquilo a que se propõe e, aparentemente, traduzir suas ideias em ação sem maiores obstáculos, enquanto o homem primitivo parece estar a todo momento tolhido por medos, superstições e outras barreiras invisíveis. O lema “querer é poder” é a superstição do homem moderno.

Para sustentar essa crença, no entanto, o homem contemporâneo pega o preço de uma incrível falta de introspecção. Não consegue perceber que, apesar de toda a sua racionalização e eficiência, continua à mercê de “forças” fora do seu controle. Seus deuses e demônios absolutamente não desapareceram; têm apenas novos nomes. E o conservam em contato íntimo com a inquietude, com apreensões vagas, com complicações psicológicas, com uma insaciável necessidade de pílulas, álccol, fumo, alimento e, acima de tudo, com uma enorme coleção de neuroses.

Carl Gustav Jung em O homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008


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Durante a maior parte da história humana, as pessoas têm aceito o fato de que suas vidas mudarão de repente devido a guerras, fomes ou outros desastres, e de que terão de improvisar para sobreviver. Nossos pais e avós viveram em grande ansiedade em 1940, depois de suportarem o naufrágio da Grande Depressão, e enfrentando a iminente perspectiva de uma guerra mundial.

O que é singular na incerteza hoje é que ela existe sem qualquer desastre histórico iminente; ao contrário, está entremeada nas práticas cotidianas de um vigoroso capitalismo. A instabilidade pretende ser normal, o empresário de Schumpeter aparecendo como o Homem Comum ideal. Talvez a corrosão de caráteres seja uma consequência inevitável. [A frase]  “Não há mais longo prazo” desorienta a ação a longo prazo, afroxa os laços de confiança e compromisso e divorcia a vontade do comportamento.

Richard Sennet, em A Corrosão do Caráter (Record, 2009)

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A malhação das papilas gustativas

A sociedade contemporânea vive em contradições próprias da sua liberdade e dos excessos propiciados pelo capitalismo. Na indústria alimentícia, para alcançar o máximo de lucro, persegue-se o máximo de prazer.

Nas empresas que comercializam alimentos, de vendedores de pamonha a grandes laticínios, o desenvolvimento de pesquisa busca atingir o máximo de sabor, o máximo de utilização de todos os receptores sensitivos. Aliada à publicidade, a alimentação no mundo se transformou em um deleite do paladar, em uma esbórnia das papilas gustativas.

Os alimentos em geral são saborosíssimos: o iogurte é delicioso, o presunto é incomparável, a pizza é inigualável, o biscoito é uma loucura, o chocolate é um vício, o sorvete, o arroz, o feijão e até a batata….. Tudo é irresistível à racionalidade. A toda hora as pessoas são requisitadas a não pensar, mas a desfrutar das delícias insuperáveis da indústria de alimentos. As pamonhas são deliciosas, as de Piracicaba. Nada escapa ao insuperável sabor.

Atualmente, o mundo dos alimentos é uma indústria que não para de crescer e se transformar. Há uma febre de programas de culinária na televisão, os chefes fazem faculdade, universidades, pós-graduação. As receitas são de dar água na boca, todas, sem exceção. Há competições para saber quem faz o prato mais saboroso, mais delicioso, mais inigualável.

Os restaurantes trabalham com os melhores ingredientes e melhores receitas para que o cliente possa se deliciar a cada garfada, colherada, pratada. É possível comer de tudo e de todos os cantos do mundo: comida italiana, australiana, japonesa, chinesa, tailandesa, chilena, mexicana. Todas com temperos e aromas exclusivos, segredos guardados, etc etc.

Mas não é só para os endinheirados. O sabor pode estar também na sua casa, com um caldo especial, um pozinho amoroso, um aroma exótico. É só colocar e fazer sucesso com o namorado, com a namorada, com os amigos, o marido, a esposa. O excesso de sabor foi democratizado.

Nunca na história da humanidade o paladar esteve em tamanho deleite, saboreando uma infinidade de experiências de tempos remotos, de lugares distantes. E é esse sabor e todas essas delícias que nos ajudam a construir uma sociedade de obesos, gordos e acima do peso.
Na sociedade da esbórnia das papilas gustativas, não se fartar dos sabores é ser xiita, radical, chato, obsessivo. As dietas alimentares se transformaram nas condutas mais difíceis de se seguir, são um peso, um fardo, uma penitência. É impossível não se deixar levar por tentações do prazer das receitas.

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ESPETÁCULO: ESSA CONTINUA SENDO A FACE MAIS VISÍVEL DA SOCIEDADE

Vez ou outra é bom relembrar certas ideias e conceitos que ajudam a lançar luz sobre o tempo presente e delinear os contornos do futuro. Uma dessas ideias é a que trabalha com o conceito de Sociedade do Espetáculo, pensado pelo escritor francês Guy Debord. Poucas teorias talvez reflitam tão bem nossos tempos de uma “modernidade moderna”.

O espetáculo alimenta-se e é alimentado pela anulação crescente do ser humano diante de um mundo tão cheio de coisas, imagens e pessoas. Alimenta-se do fácil, do descartável, daquilo que te endurece no lugar de te fazer conhecer por você mesmo, no lugar de te libertar. O espetáculo é o sintoma da pressa, da falta de tempo, da aceleração em que se converteram os nossos dias insanos e neuróticos.

O excesso do espetáculo é a melhor imagem para a falta do ser humano. É tanta luz, é tanta voz, tanto som, que diante dele ficamos cegos, mudos, surdos, e é exatamente isso que essa sociedade espera de nós! Para Debord, apenas a realização da arte, da poesia, da utopia, seria capaz de nos libertar!

Guy Debord em seu antifilme Sociedade do Espetáculo (1973) demonstra que a Revolução pode sim trazer a liberdade. Os Situacionistas, ou seja, aqueles que criam situações que propiciam o avanço e a materialização dos conceitos libertários conseguiriam pela proliferação de sua prática neutralizar o controle e o efeito nocivo que a televisão, o cinema e os gandes meios de comunicação exercem sobre as massas. O fim dessa repressão psicológica e física sobre o povo representaria a realização da arte, da poesia, da utopia. (descrição do vídeo no You Tube)

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“O JORNALISMO DA GRANDE IMPRENSA ESTÁ AÍ PARA FALSIFICAR A REALIDADE”, DIZ FILÓSOFO

Luiz Fuganti

Por Maura Voltarelli

Se você perguntar a um jornalista ou a um leitor de jornal qual a função do jornalismo, as respostas tendem a convergir para algo em torno de “buscar a verdade dos fatos”. Essa possibilidade, objeto dos estudos filosóficos desde os tempos de Platão, na Grécia Antiga, é ainda hoje um dos temas das aulas e dos estudos do filósofo, arquiteto, professor e escritor Luiz Fuganti. Alto, cabelos finos e já esbranquiçados, olhos atentos e pensamento ágil, frenético, profundo e denso. Há mais de 20 anos, ele ministra cursos, palestras e seminários acerca de um tipo de pensamento sem referências, imanente à própria natureza.

Fuganti é autor de obras como Saúde, Desejo e Pensamento; Ética como Potência e Moral como Servidão; Formação do Pensamento Ocidental; Diferença e Analogia em Platão; e Espaço, Poder, Estética e Sentido, entre outros. Em sua casa, na cidade de São Paulo, onde realiza reuniões semanais que fazem parte de um projeto conhecido como Escola Nômade, ele recebeu a Agencia Educação Política para uma entrevista na qual se falou um pouco sobre tudo.

De saída, já foi antecipando: “o jornalismo da grande imprensa está aí exatamente para falsificar a verdade, já que produz um discurso cujo objetivo é promover o assujeitamento, pois o indivíduo desacredita de si próprio e vai buscar externamente a ele a noção de realidade”. Fuganti recorre ao legado de pensadores e filósofos como Spinoza e Michel Foucault para expor suas ideias. A seguir, seguem os principais trechos da entrevista que correu solta e descontraída em meio a almofadas coloridas espalhadas pelo chão e regada por uma boa dose de café.

AEP: É possível chegar a uma verdade absoluta? Ou ela carregaria sempre uma certa subjetividade?
Fuganti: Eu sempre digo que existe um absoluto de cada ponto de vista. É como dizem: inventem o real ou não existem fatos, só interpretações de um acontecimento. O fato, portanto, é sempre uma versão do acontecimento. E às vezes acontece que a objetividade é mais objetiva ou o fato é mais fato porque contemplam a crença geral e são sustentados por um comando que mantém a ordem social. Ou seja, a maneira de enunciar já está ligada a um princípio de realidade, que é social, econômica, política e historicamente constituído.

AEP: Quando você se refere à maneira de enunciar, está se referindo ao uso da linguagem e à importância que esta adquire dentro do jornalismo?
Fuganti: Exatamente, me refiro ao discurso, que além de ser determinado é também determinante, constitutivo da realidade. A linguagem fabrica a verdade. É uma fábrica semiótica das coisas, da qual fazem uso os gênios da mídia. Toda a imprensa faz parte dessa máquina social, produzindo sentidos de futuro, crenças e desejos. A informação, portanto, tem implicada e esconde sempre uma transformação incorporal na maneira de a gente apreender, vivenciar e experimentar o tempo. Isso causa a modificação do futuro, do passado e do modo como você percebe o presente, o que resulta em produção de subjetividade.

AEP: Como a gente descreveria o funcionamento da mídia?
Fuganti: Essa máquina semiótica ajuda a criar o sujeito assujeitado, desacreditado de si e que busca a verdade fora dele próprio. Ele mesmo não tem realidade suficiente; é como se nele existisse um buraco. Em seguida, vem essa instância da verdade objetiva –a mídia– e o preenche, gerando aceitação e requalificando depois de tirar a qualidade por meio do deslocamento e captura da atenção.

AEP: Mas como a mídia se sustenta neste processo?
Fuganti: A própria sociedade banca o poder da mídia. As pessoas preferem muito mais a versão ao invés da realidade, trata-se do eterno “ouvi dizer” e “experiência vaga” de que fala o filósofo holandês Baruch de Spinoza. Saiba mais

EXPERIÊNCIA PESSOAL DO TEÓRICO STUART HALL MOSTRA COMO A CULTURA NOS AFETA DE MANEIRA TRAUMÁTICA

“Quando eu fiz dezessete anos, minha irmã teve um colapso nervoso. Ela começou um relacionamento com um estudante de medicina que veio de Barbados para a Jamaica. Ele era de classe média, mas era negro e meus pais não permitiam o namoro. Houve uma tremenda briga em família e ela, na verdade, recuou da situação e entrou em crise. De repente me conscientizei da contradição da cultura colonial, de como a gente sobrevive à experiência da dependência colonial, da classe e cor e de como isso pode destruir você, subjetivamente.

Estou contando esse fato porque ele foi muito importante para o meu desenvolvimento pessoal. Isso acabou para sempre com a distinção entre o ser público e o ser privado, para mim. Aprendi, em primeiro lugar, que a cultura era algo profundamente subjetivo e pessoal, e ao mesmo tempo uma estrutura em que a gente vive. Pude ver que todas essas estranhas aspirações e identificações que meus pais haviam projetado sobre nós, seus filhos, destruíram minha irmã. Ela foi a vítima, portadora das ambições contraditórias de meus pais naquela situação colonial. Desde então, nunca mais pude entender porque as pessoas achavam que essas questões estruturais não estavam ligadas ao psíquico – com emoções, identificações e sentimentos, pois para mim, essas estruturas são coisas que a gente vive. Não quero dizer apenas que elas são pessoais; elas são, mas são também institucionais e têm propriedades estruturais reais, elas te derrubam, te destroem.

Foi uma experiência muito traumática porque havia pouca ou quase nenhuma assistência psiquiátrica na Jamaica naquela época. Minha irmã passou por uma série de tratamentos com eletrochoque, feitos por um clínico geral, dos quais ela nunca se recuperou. Nunca mais saiu de casa. Ela cuidou de meu pai até ele morrer. Depois, cuidou de minha mãe até morrer. E cuidou do meu irmão, que ficou cego, até a morte dele. Foi uma verdadeira tragédia que vivi junto com ela e decidi que não podia aguentar; não conseguiria ajudá-la, embora eu soubesse o que estava errado. Eu tinha dezessete ou dezoito anos.”

(Trecho da entrevista de Stuart Hall, publicada no livro Da Diáspora, identidades e mediações culturais (Editora da UFMG), organizado por Liv Sovik)

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OUTRAS MIL FORMAS DE MORTE ESTÃO OCULTAS NESTA VIDA, DIZ DUQUE EM MEDIDA POR MEDIDA DE WILLIAN SHAKESPEARE

“Preparai-vos resignadamente para a morte; a morte e a vida serão mais doces para vós.  Raciocinai assim com a vida: se te perco, perco uma coisa que somente os loucos querem conservar. Não passas de um sopro, exposto a todas as influências do ar que, hora após hora, deterioram esta habitação em que moras. És meramente o joguete da morte, pois procuras sempre evitá-la pela fuga e, apesar disto, corres sempre diante dela. Não és nobre, porque todas as voluptuosidades, que são teu patrimônio, são acalentadas pelas baixezas. Estás longe de ser valente, pois teme o aguilhão terno e brando de um pobre verme. O que tens de melhor em ti é o sono e que tantas vezes provocas; entretanto, temes grosseiramente a morte que não passa de um sono.

Tu não és tu mesma, pois tua existência é o resultado de milhares de grãos que saem do pó. Não és feliz, porque o que não tens, tu te esforças para adquirir e o que possuis, tu esqueces. Não és constante, pois tua natureza, segundo as fases da lua, sofre estranhas alterações. Se és rica, és pobre; pois, semelhante a um asno cujo ombro está vergado ao peso de lingotes, só carrega suas pesadas riquezas um único dia e a morte te livras dela.

Não tens amigos, pois o fruto de tuas próprias entranhas que te chama de “pai”, o mais puro de teu sangue, saído de teus próprios rins, maldiz a gota, a lepra e o catarro, que não te acabam bem depressa.  Não tens juventude nem velhice, e, por assim dizer, não passas de uma sesta depois do jantar que sonha um pouco com as duas idades;  pois toda a tua feliz juventude é passada fazendo-se velha e solicitando esmolas da paralítica velhice.

Quando, no fim, fores velha e rica, já não terás calor, sentimento, força, nem beleza, para tornares agradáveis tuas riquezas. Que te sobra ainda nisto que traz o nome de vida? Outras mil formas de mortes ainda estão ocultas nesta vida e, contudo, tememos a morte que nivela todas estas misérias.”

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Joe Gould, um perfil feito por décadas

O livro-reportagem O Segredo de Joe Gould (Companhia das Letras), de Joseph Mitchell é um livro para quem ama o jornalismo e uma boa história. Ele contém dois perfis sobre o seu personagem, Joe Ferdinand Gould, que é definido como “um literato maltrapilho que vivia pelas ruas do bairro boêmio de Greenwich Village carregando lápis, cadernos, guimbas de cigarro e piolhos. Vivia da boa vontade alheia e dizia saber falar a língua das gaivotas”. Essa definição está no pósfácio do livro João Moreira Salles.

O bom jornalismo está no texto de Mitchell, que é limpo, sem exagero, preciso. Veja um dos trechos do livro abaixo:

Gould não tem em alta conta a maioria dos escritores, poetas, pintores e escultores do Village e costuma dizer o que pensa. Por causa de sua franqueza nunca foi aceito em nenhuma organização artística, literária, cultural nem em “ismos” de qualquer natureza. Durante dez anos tentou ingressar no Círculo de Poesia Raven, que todo verão realiza a exposição de poesia na Washington Square e é a organização mais poderosa do gênero no Village, mas sempre foi recusado.

Francis Lambert McCrudden, funcionário aposentado da Companhia Telefônica de Nova York, comanda o Raven. Durante muitos, ele recolheu moedas dos telefones públicos para a companhia telefônica. Autodidata e muito idealista, tem como tema favorito a dignidade do trabalho e sua obra mais importante é o poema autobiográfico “O Catador de níqueis”.

“Deixamos o senhor Gould assistir a nossas leituras e gostaríamos de admiti-lo, mas não podemos”, declarou certa vez. “Ele não leva a poesia a sério. Servimos vinho em nossas leituras, e é só por isso que ele comparece. Às vezes insiste em ler poemas bobos de sua autoria, e é irritante. Em nossa Noite de Poesia Religiosa, pediu licensa para recitar um poema que escrevera intitulado “Minha religião”. Eu lhe disse para ir em frente, e ele recitou o seguinte:

‘No inverno sou budista,
E no verão sou nudista’

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O RETRATO DO PAI

Ela já estava bem velha,
num estilo para poucos amigos,
sem cores nos cabelos, xales pelos ombros.
Mantinha o seu ofício de escrever,
e brincava com cachorros ao fim do dia.


Sem luxo, sem excessos materiais,
livros escorriam sobre a escrivaninha.
Alguns bem velhos, outros jogados.
Mas bem ali no meio da bagunça
o impecável retrato do pai.

Um pai ainda jovem, alinhado.
Um retrato que captou o esplendor
da beleza da juventude.
Livros escuros faziam sombra
sobre a luz do olhar daquele pai, meu pai.

Um pai moço sobre a escrivaninha
de uma velha senhora.

Depois de tanto tempo,
depois de tantos amores,
depois de tantos amigos,
o retrato do jovem pai.


No fim da vida,
uma filha sob o olhar do pai,
ao lado do pai.

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Cena da peça Café com Queijo

O teatro pode aparar nossas arestas da imbecilidade.
Ele nos coloca diante de nossas angústias por meio da arte,
por meio da cultura, da música, da construção dos gestos.
A beleza da luz, a beleza do momento em que há apenas penumbra.
O sorriso nas pessoas na plateia, a arte do corpo no ator.

O pensamento é levado, domado, dirigido por um sonho que
nos acorda de nossa própria banalidade cotidiana.
Vivemos entre a mesquinharia de nossa própria sorte em preocupações insanas.
Tudo para sustentar uma razão produtiva, uma razão sem finalidade utópica.
Eu estive em outros mundos, o mundo do teatro e lá havia luz
A luz que num fluxo cotidiano me faz esvair de minha própria e insistente bestialidade.

(Um texto para a peça Café com Queijo, do Lume Teatro, de Campinas)

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“Vivemos continuamente na dimensão do projeto, correndo atrás de objetivos postos num futuro mais ou menos distante e pensamos, ilusão suprema, que nossa felicidade depende da realização completa de fins medíocres ou grandiosos, pouco importa, que estabelecemos para nós mesmos. Comprar o último MP3, uma poderosa câmera fotográfica; ter um quarto mais bonito, uma moto mais moderna; seduzir, realizar um projeto, montar uma empresa de qualquer tipo que seja: cedemos sempre à miragem de uma felicidade adiada, de um paraíso ainda a ser construído, aqui ou no além.

Esquecemos que não há outra realidade além da que é vivida aqui e agora, e que essa estranha fuga para adiante nos faz com certeza falhar. Assim que o objetivo é alcançado, temos quase sempre a experiência dolorosa da indiferença, ou mesmo da decepção. Como crianças que se desinteressam do brinquedo no dia seguinte ao Natal, a posse de bens tão ardentemente desejados não nos torna nem melhores nem mais felizes do que antes. As dificuldades de viver e o trágico da condição humana não são modificados e, segundo a famosa expressão de Sêneca, “enquanto se espera viver, a vida passa”. (Luc Ferry, filósofo francês)

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Imagem por Krazydad/creative commons

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Descobri o mundo em que vivia.
De todo lixo
fiz estátuas em bronze puro
mas desvaneceram ao sol do meio dia.
De toda miséria
tentei fazer poemas
mas fiquei preso a rabiscos e lágrimas.

 

 

 

 


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