Educação Política

mídia, economia e cultura – por Glauco Cortez

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UM POUCO DA PROSA REGIONAL E MODERNA DE A BAGACEIRA, DE JOSÉ AMÉRICO DE ALMEIDA

Belo romance de José Américo de Almeida, A Bagaceira, publicado em 1928, é considerado pela historiografia literária como o marco inicial do romance regionalista da 2º fase do Modernismo brasileiro. A partir dele, nomes como José Lins do Rego com Menino de Engenho, Graciliano Ramos, com Vidas Secas e Rachel de Queiroz, com O Quinze, dentre outros, serão os principais expoentes de um prosa regionalista que visa retratar um pedaço do Brasil, sua gente, seus hábitos, sua cultura e, pricipalmente, sua luta diante da seca, rompendo com o cosmopolitismo da 1º fase do Modernismo.

O retirante torna-se o personagem literário por excelência e a cultura nordestina um sutil retrato de todo o Brasil e do que vai pela essência do povo brasileiro. Essência esta em grande parte perdida nos grandes centros, diante do desenvolvimento econômico, da influência estrangeira, do processo de descaracterização do ser e das coisas.

Os fantasmas estropiados como que iam dançando de tão trôpegos e trêmulos, num passo arrastado de quem levas as pernas, em vez de ser levados por elas.
Andavam devagar, olhando pra trás, como quem quer voltar. Não tinham pressa em chegar, porque não sabiam aonde iam. Expulsos do seu paraíso por espadas de fogo, iam, ao acaso, em descaminhos, no arrastão dos maus fados.
Fugiam do sol e o sol guiava-os nesse forçado nomadismo. Adelgaçados na magreira cômica, cresciam, como se o vento os levantasse. E os braços afinados desciam-lhes aos joelhos, de mãos abanando.
Vinham escoteiros. Menos os hidrópicos – doentes da alimentação tóxica – com os fardos das barrigas alarmantes.
Não tinham sexo, nem idade, nem condição nenhuma. Eram os retirantes. Nada mais.
Meninotas, com as pregas da súbita velhice, careteavam, torcendo as carinhas decrépitas de ex-voto. Os vaqueiros másculos, como titãs alquebrados, em petição de miséria. Pequenos fazendeiros, no arremêsso igualitário, baralhavam-se nesse anônimo aniquilamento.
Mais mortos do que vivos. Vivos, vivíssimos só no olhar. Pupilas do sol da seca. Uns olhos espasmódicos de pânico, assombrados de si próprios. Agônica concentração de vitalidade faiscante.
Fariscavam o cheiro enjoativo do melado que lhes exacerbava os estômagos jejunos. E, em vez de comere, eram comidos pela própria fome numa autofagia erosiva.
(José Américo de Almeia, A Bagaceira, p. 05)

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