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MATULA TEATRO E BOA COMPANHIA APRESENTAM ESPETÁCULO BASEADO NA OBRA DE HILDA HILST E CONVIDAM TODOS A BEBEREM DA ÁGUA DA VIDA NA CONCHA DO TEATRO

Moacir Ferraz, integrante da Boa Companhia desde 1993

Por Maura Voltarelli

Como parte das comemorações do mês da mulher, o SESC Campinas, em parceria com os grupos Matula Teatro e Boa Companhia, apresenta o evento O Feminino, O Verso e a Cena em que diversas manifestações artísticas, passando por teatro, música e literatura, discutirão os mitos e arquétipos femininos presentes na obra da poeta, dramaturga e ficcionista Hilda Hilst.

Faz parte do evento uma extensa e diversificada programação. Serão oficinas literárias e teatrais, intervenção poética, apresentação de show musical, além da estreia do espetáculo teatral Agda, uma co-produção entre os grupos Matula Teatro e Boa Companhia baseada em um conto de Hilda Hilst, sob direção do ator e diretor Moacir Ferraz.

A peça tem como protagonista uma mulher diante de questões que resvalam na própria existência e finitude da vida, colocando-se entre o desejo e a razão, o sagrado e o profano, o humano e o místico. A atmosfera é de uma fértil composição de teatro, dança, prosa e poesia e um delicado jogo de construção e desconstrução de imagens e personagens.

Por ocasião do evento que inicia suas atividades no próximo dia 19 de março, o diretor da peça Agda, Moacir Ferraz,  concedeu uma entrevista ao blog Educação Política na qual fala sobre o desafio em adaptar para os palcos o texto denso, reflexivo e ousado de Hilda.  Ferraz também discute a relação entre a literatura da autora e a representação no teatro, reflete sobre a paixão como fio condutor dos tecidos artísticos, além de se debruçar sobre uma instigante questão despertada do contato com a obra de Hilda Hilst: refletir sobre a existência é o destino da arte?

Agência Educação Política: O evento O Feminino, O Verso e a Cena é resultado de uma parceria entre os grupos Matula Teatro e Boa Companhia com o SESC Campinas e engloba atividades de teatro, música e literatura tendo como fio condutor a obra da escritora Hilda Hilst. Por que Hilda para discutir o feminino?
Moacir Ferraz: Pela qualidade, características da escrita e história de vida de Hilda. Há um modo de pensar a vida, de olhar para as coisas que é feminino, forte, sem ser feminista engajado.

AEP: Entre as atividades do evento está a apresentação da peça Agda, baseada em um conto de Hilda Hilst e dirigida por você. A peça traz uma mulher que se questiona sobre a sua própria existência e finitude da vida, colocando-se entre o desejo e a razão, o sagrado e o profano, o humano e o místico. Quais os desafios em transformar as imagens literárias, a densidade do texto, as inovações linguísticas da prosa poética de Hilda em ação teatral?
Moacir: Algumas características da escrita de Hilda facilitam as coisas. Ela produziu textos cheios de imagens: concretas, oníricas, o que é fundamental para o ator. Depois tem o ritmo de sua prosa que, muitas vezes, flerta com a rima, além de ter, especificamente nesse conto, uma estrutura próxima de um texto dramático, com personagens e falas bem definidas.

Cena do espetáculo teatral "Agda"

AEP: A ficção de Hilda é marcada na linguagem por experimentações vigorosas que ao combinar a densidade reflexiva de sua poesia à naturalidade e espontaneidade da linguagem coloquial promoveram uma espécie de desconstrução, reformulação e catarse onde o Homem era inserido dentro de novos limites. Em que medida, a experimentação e profundidade psicológica dos textos da escritora servem à construção da cena teatral. Em outras palavras, experimentar no palco e trazer para a cena personagens profundos e não raro cercados por certa atmosfera de misticismo enriquece o teatro?
Moacir: Vários tipos de texto podem enriquecer o teatro, dependendo da maneira como forem transcriados para a cena. No caso de Agda, na nossa leitura, não há uma descrição de perfil psicológico dos personagens, lida-se mais com forças arquetípicas: vemos na peça um embate em que o animus destrói a anima, e isso, pra nós, reflete o mundo atual, com a preponderância de uma fria lógica de mercado que, entre outras coisas, acarreta relações marcadas pela violência entre os homens, dos homens com o restante da natureza, e isso nos motivou a produzir a peça

AEP: Muitos críticos ao falar de Hilda, destacam o tema da paixão na sua literatura. Paixão pelas palavras, paixão no sentido de intensidade, paixão pela vida e, ao mesmo tempo, incompreensão diante dela. Paixão pela beleza, paixão que confronta o corpo a corpo do ser humano com a passionalidade do viver. Paixão que ilumina a sua busca por respostas diante do Enigma e que lhe permite experimentar, ainda que de forma breve, a completude do Absoluto e da Eternidade, ou daquilo que Rilke chama de O Aberto. Pra você, qual a importância desta paixão hildeana para o teatro e para as artes de forma geral?
Moacir: Concordo com aqueles que dizem que a arte, como a filosofia e a religião, são meios pelos quais o homem busca transcender sua precária condição humana, sua breve existência. penso que esse sentimento de paixão é o que impulsiona a busca, o que move a vida: “o pão para a carne, a arte para o espírito”.
Por esses dias morreu o filósofo Bene Antunes, no Pará, cuja obra eu, infelizmente, ainda não conheço. Mas li uma  entrevista sua e uma frase me marcou bastante: “ser é transcender”. Acho que isso aparece bastante na obra da Hilda, acho que esse é o alimento da sua paixão, e também o que move a mim e a tantos que lidam no campo do artístico.

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