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“OS SALTIMBANCOS”, DE PICASSO, SERVIU DE INSPIRAÇÃO PARA A QUINTA DAS “ELEGIAS DE DUÍNO”, DE RILKE, QUE ABORDA A INDIFERENÇA DO MUNDO À ARTE

Por Maura Voltarelli

Pablo Picasso, Les saltimbanques, 1905

Pablo Picasso, Les saltimbanques, 1905

Elegias de Duíno, Rainer Maria Rilke

Quinta elegia

Mas quem são eles, dizei-me, os saltimbancos, um pouco
mais efêmeros que nós mesmos, desde a infância
por alguém torcidos – por amor
de que vontade jamais saciada? Entretanto ela os torce,
curva-os, entretece-os, vibra-os,
atira-os e os toma de volta! Do ar untado
e mais liso, eles resvalam
sobre o tapete gasto (adelgaçado
pelo eterno salto), esse tapete
perdido no universo.
Emplastro aderido lá, onde o céu
do subúrbio feriu a terra.
_______________E apenas lá,
ereto, mostra a grande maiúscula
inicial da Derelicção…e já o renitente
agarrar torna a rolar os homens mais fortes,
por jogo, como outrora Augusto o Forte, à mesa,
brincando com pratos de zinco.

Ah! e em torno desse centro,
a rosa do contemplar:
floresce e desfolha. Em torno do
triturador, o pistilo atingido por seu próprio
pólen florescente, novamente fecundado – fruto
aparente do desgosto, inconsciente de si mesmo –
com a fina superfície a brilhar
num sorriso leve, simulado.
Lá, o murcho, o enrugado atleta,
o velho que apenas rufla o tambor,
encolhido na pele poderosa como se outrora tivesse contido
dois homens e um já sobrevive ainda,
surdo e um pouco perturbado,
às vezes, na pele viúva.  […] (p. 27 e 28)

Nesta parte inicial da elegia, o sentimento predominante é o de frustração e inautenticidade. Os saltimbancos melancólicos não seriam movidos pelo Anjo, alheio à dor humana, e estariam “presos à imanência de um mundo incompreensível” (DA SILVA, s/d, p. 77). A existência do grupo seria um indigente “estar lá”, fazendo referência ao Dasein (o ser aí), comparação que vem do fato de as figuras no quadro estarem dispostas de modo a formar um D maiúsculo. Diante dos saltimbancos, que simplesmente estão lá, as pessoas passam indiferentes, o que talvez seja um motivo do desalento do poeta em relação à “arte pela arte”, o jogo intranscendente incapaz de iluminar a vida.

[…] Anjo: talvez haja uma praça que desconhecemos, onde,
sobre um tapete indizível, os amantes, incapazes aqui,
pudessem mostrar suas ousadas, altivas figuras
do ímpeto amoroso, suas torres de alegria, suas trêmulas
escadas que há muito se tocam onde nunca houve apoio:
e poderiam diante dos espectadores em círculo,
incontáveis mortos silenciosos. E estes arrojariam
suas últimas, sempre poupadas,
sempre ocultas, desconhecidas moedas de felicidade
para sempre válidas, diante do par
verdadeiramente sorridente, sobre o tapete
apaziguado. (p. 31)

Sob a perspectiva do Anjo, no entanto, que aparece nessa última parte do poema, o homem estaria liberto do jogo estéril da arte intranscendente, salvo da morte anônima, da vida inautêntica, realizando em uma praça milagres de harmonia em uma simbiose de amor e morte, onde ele aprenderia a sorrir verdadeiramente.

RILKE, R.M. Elegias de Duíno. Trad: Dora Ferreira da Silva. 4ºed. Rio de Janeiro: Ed. Globo, s/d

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